23 dezembro 2013

A DE MEDRONHO É UMA LOUCURA



Corria o ano de 1988 e a afirmação em título é do Ti Albano, aludindo às dificuldades inerentes ao fabrico artesanal da aguardente de medronho e ao seu preço. São dificuldades que persistem agravadas, como se verá neste texto de 2009, de que me lembrei há dias quando estava a fazer aguardente bagaceira. A terminar um ciclo de registo de atividades e modos de fazer que começam a rarear, com ele presto homenagem a todos os empreendedores de saberes antigos que continuam atuais, lembrando, em especial, os que me proporcionaram o fascínio da transformação mágica da massa dourada do medronho ou do cardaço tinto do vinho em aguardente transparente e perfumada: o meu pai Jaime, o meu cunhado Américo, o Amilcar e, dos que já partiram, o meu avô José Martins, a minha mãe Brancaflor, o Ti Albano e a Ti Ricardina.



A aguardente de medronho, também conhecida por “medronheira” e “medronho”, é a bebida alcoólica que resulta da destilação do medronho fermentado. O medronho, por sua vez, é o fruto do medronheiro, que por aqui se chama ervedeiro. Este é um arbusto, mas pode atingir porte arbóreo, sobretudo quando pouco já lhe cortam a folhagem como rama para o gado, e arrancam as torgas (raízes) como lenha para a fogueira. Trata-se de um arbusto muito peculiar e bonito, nomeadamente no outono, quando se apresenta deslumbrantemente vestido do branco-pérola da flor e do vermelho-vivo do fruto. Por isso também é usado como planta ornamental.




O ervedeiro é endógeno e espontâneo em algumas zonas das serras do Açor e Lousã, ocupando as encostas de que os pinheiros e os eucaliptos ainda não se apoderaram totalmente. Devido à topografia íngreme e resvaladiça do terreno, o medronho continua, como dizia o Ti Albano, “… difícil de apanhar…. A gente escorrega, entorna o balde ou o cesto, depois um gajo tem de estar a apanhar aquilo novamente. Muito trabalhoso!”


Na realidade, apanhar medronhos é hoje mais difícil e trabalhoso do que há décadas, por razões ambientais associadas ao despovoamento e ao desaparecimento dos rebanhos. Entre essas razões avultam a imersão dos medronheiros em matagais impenetráveis, a altura de muitos e os efeitos dos incêndios recorrentes, aos quais os arbustos sobrevivem, mas conservando durante anos os chamiços negros dos ramos ardidos. Lindos e sedutores por fora, vestidos de luto e agressivos por dentro!


Para “fundir” em quantidade e a aguardente ter boa graduação e sabor, o medronho deve ser apanhado o mais maduro possível, mas não tão maduro que se desfaça entre os dedos ou na abada bojuda da apanhadora! Poderá ainda não estar vermelho, mas tem de estar pelo menos amarelo. Uma vez que os medronhos não amadurecem todos ao mesmo tempo, a exigência de maturação faz com que a apanha seja progressiva, tendo de se voltar várias vezes ao mesmo sítio. Por experiência própria se pode dizer que é possível apanhar medronhos num mesmo arbusto ao longo de dois meses, só se parando quando eles caem de maduros ou o gelo do inverno os coze. Acresce que podem ser frutos muito enganadores, parecendo completamente amarelos à distância, mas só o estando do lado do sol! Uma desilusão, depois do esforço de chegar até eles, vencendo a resistência da vegetação circundante, resvalando, protegendo o conteúdo precioso do balde!


Estando em questão a produção para consumo próprio, o medronho é fermentado nas antigas dornas em madeira ou nas modernas em plástico. Se servem para fazer o vinho, também têm de servir para fazer a aguardente! Aos frutos junta-se alguma água, “se não a massa é rõe de mexer e os medronhos podem aquecer.” A massa é mexida frequentemente, para curtir sem azedar, e a aguardente não sair azarguada (avinagrada). Mas também há quem não a mexa, deixando-a criar uma crosta, que serve de tampa e é inutilizada quando do fabrico. A massa fermenta dois a três meses. “Quanto mais tempo ficar a fermentar, mais dá”. Além disso, “se a aguardente for feita antes de o medronho estar curtido, sabe a verde, não é tão saborosa.” Costumando ser feita em fevereiro ou março, antigamente chegava a fazer-se em janeiro e dezembro, de modo a aproveitar a licença de um ano para fazer a aguardente de dois. Bem que a necessidade aguçava o engenho!

Esquecendo aqui as alquitarras, que são excelentes para fazer bagaceira, mas não medronheira, os alambiques permanecem idênticos, continuando a panela ou caldeira incrustada numa parede, com o fundo dentro da fornalha. Apenas o recipiente com água fria, que o tubo de arrefecimento atravessa, tende para ser em cimento, quando antes era em madeira. Lembro-me de um que era uma grande gamela retangular. Em geral, os alambiques encontram-se instalados nos pátios ou telheiros, onde também se situava o forno. Atualmente, quem faz aguardente possui alambique. Antes, porém, não existindo na região a tradição do alambique comunitário, como não existia a do forno, as famílias que o não possuíam recorriam ao de um vizinho, pagando poia. No Açor, onde os alambiques são relativamente pequenos (60, 80, 120 l), a poia era de 1 litro de aguardente por alambicada. Também era costume deixar a cinza da fornalha como adubo para a terra. Nada se perdendo, tudo se transformando …



No fabrico da medronheira, não se pode encher muito a panela, porque a massa tem de ser mexida até ferver, para não se agarrar ao fundo. Se a massa estiver muito espessa, acrescenta-se água até o pau de a mexer tombar ligeiramente para o lado, quando deixado em pé, solto, no meio dela. Depois de a massa ferver, fecha-se a panela, colocando-lhe a cabeça, e vedando a junção com barro ou farinha de trigo amassada. Para saber se já se pode colocar a cabeça, aproxima-se da boca da panela uma carqueja a arder ou um fósforo aceso: se o vapor se incendiar, a panela pode ser fechada.



O lume tem de ser mantido constante e brando, para a destilação se processar lentamente, e a aguardente correr em fio, durante horas, pelo arame que pende do tubo, a fazer de bica. Antigamente, havia quem usasse uma caruma como bica. Se o lume ficar muito forte, corre-se o risco de o alambique vomitar, isto é, de a massa lhe subir à cabeça (literalmente!), sujando-a, bem como ao tubo de arrefecimento e à aguardente já produzida. Imagine-se a estragação e o trabalho, com a operação de desmontar, lavar e montar tudo de novo!

Para a necessária lentidão do processo contribuem o arder comedido das torgas de urze, o monte delas à entrada da fornalha a fazer de porta, o carvoiço (carvão miúdo misturado com cinza) que se vai lançando sobre o lume para o abafar e amortecer. Mas não adormecer, situação em que é preciso espevitá-lo com a forquilha! Tudo assim minucioso e preciso, exigindo sensibilidade, saber e muita experiência! Nas terras ou situações em que as fornalhas têm porta, é possível que o processo se torne mais simples, dispensando a presença humana permanente e atenta.


A qualidade e a quantidade de aguardente que cada alambicada dá dependem da maturidade dos frutos e da respetiva fermentação, da adequação do processo de fabrico e da capacidade do próprio alambique. Mantendo um teor alcoólico razoável, a produção média situar-se-á entre os 7 e os 11%. Para medir a graduação, recorre-se ao pesa-aguardente ou à simples observação das contas (bolhinhas) que a aguardente faz ao cair no copo que, para esse efeito, está dentro do funil.


Quando a graduação baixa, deixando o líquido produzido de fazer contas, e tornando-se azulado, já não presta, é o que se chama malafaia. Quem não sabe provar por não ser apreciador, pode fazer o teste de atirar com líquido para a entrada da fornalha: se a chama vier lamber o derrame, continua a ser aguardente, se não, já é malafaia. Chegam a tirar-se  litros dela, que se misturam na massa da alambicada seguinte. Também há quem misture alguma na aguardente, desse modo aumentando a quantidade, mas diminuindo a qualidade. Pouco ardente, a água(rdente) tem muitas vantagens, claro! Poderá é não servir para adormecer a dor de dentes adormecendo o dorido ou para fazer como alguém que dizia, enquanto o meu avô lhe tratava uma perna ferida: “Uuuuii, ti Zé Martins! A velhaca arde mesmo! Deixe-ma mas é beber, que ela lá vai ter por dentro!”

Finalmente, descarrega-se o alambique, lavam-se as peças, recomeça-se …


Uma loucura! Mas uma loucura saudável para quem apanha o medronho, e aprazível para quem gosta de saborear a medronheira à conversa com os amigos ou de a produzir impregnando-a de si. Em 1988, a medronheira vendia-se a 400$00 o litro. Hoje, uma valorização de 500% seria insuficiente para reconhecer o esforço e o saber que incorpora, a sua genuinidade e singularidade.


Lisete de Matos: Texto e fotos, com exceção para uma.

Açor, Colmeal, dezembro de 2009; outubro de 2013.

Agremiações Regionalistas


   Festejou mais um aniversário a União Progressiva da Freguesia do Colmeal.
  Não podemos deixar passar este facto sem a nossa referência especial, não só pela grande satisfação que ele nos dá, como porque esta colectividade tem jus á nossa particular consideração pelo muito que já tem feito e pelo que se propõe fazer.
   Não é sem um cunho de verdadeira sinceridade que nos mostramos satisfeitos com a sua vitalidade e desejamos os seus progressos. É que a União Progressiva, embora não tivéssemos concorrido directamente para a sua organização, é a realização de um sonho que aspirávamos ver satisfeito.
   Sabe o leitor porquê? Conhecedor, e convivendo há muitos anos – quase sessenta – com a grande colónia colmealense, lamentávamos vê-la desunida, isto é, dispersa, sem a orientação que a valorizasse e a tornasse útil a si própria e à sua terra.
   Essa união fez-se e teve a organizá-la um dos mais humildes colmealenses, o qual soube chamar a si elementos de boa vontade cuja inteligência viu a utilidade da agremiação.
   Vimo-los no seu começo e ficámos encantados com a forma carinhosa e entusiástica como se trabalhava na sua organização.
   Nós que tanto desejávamos ver os patrícios afastados da taberna e dos lugares de onde só prejuízos lhe podem advir, não podemos deixar de sentir um grande prazer, vendo o nosso desejo a caminho da sua realização.
   Depois de organizada a União, foi-se buscar alguém que, novo, enérgico e inteligente, soube aproveitar os entusiasmos da primeira hora, dando à agremiação um impulso que lhe imprimiu vida pelos efeitos produzidos e pelo valor manifestado.
   Queremos referir-nos ao Sr. Manuel da Costa, a quem não podemos deixar de prestar a nossa sincera e muito merecida homenagem.
  Sua Excelência talvez não nos leia, mas o nosso fim é mostrar àqueles que o desconheçam, a conta em que deve ser tido o relevante serviço que este ilustre colmealense prestou á sua terra, não só conseguindo para ela um valioso melhoramento, mas também, firmando e valorizando a agremiação que muito mais pode e há-de fazer. Bem-haja, e não abandone o lugar.
   Dizia-nos há dias, numa sua carta, um colmealense que em longes terras labuta para sua sustentação e da sua família, referindo-se à acção das Comissões de melhoramentos da nossa região:


   «Pelo que vejo e tenho lido através da Gazeta e da Comarca, os povos das serras, nestes últimos anos, têm sabido cumprir com os seus deveres, unindo-se a fim de conseguirem melhoramentos para as suas aldeias. – O chafariz do Colmeal, por exemplo, parecia uma obra irrealizável, devido á má política que se comprazia em trazer o pobre povo iludido com falsas promessas. Devido á fundação da União Progressiva, não só se realizou esse tão necessário e desejado melhoramento, mas foi mais além: já tem um marco fontenário à Cruz da Rua, representando tudo isto um enorme benefício para a povoação. E a estrada, outra coisa que parecia não ter solução, está em vias de facto.
  - E as pequenas aldeias do concelho da Pampilhosa, que noutro tempo não eram conhecidas pelos jornais, já dão sinal de vida, reclamando a sua cota parte no progresso.
   - Tudo isso dá satisfação a quem longe da terra que lhe foi berço moureja».
   É assim mesmo. São os que mourejam longe da sua terra que, maior satisfação sentem em saber os povos da sua região possuidores de benefícios que lhes tornam mais suave e humana a existência.
   A nossa região possui grande número de agremiações regionais, sendo o concelho de Góis o que hoje as tem em maior e mais profícua actividade. Seja-nos permitido destacar as do Colmeal, Cadafaz, Cortes e Amioso Fundeiro, cujos serviços e benefícios já prestados são de muito apreciável importância.
   Enumerá-los seria tarefa agradável, mas difícil, tantos já eles são.
  Sem desprimor para os bons e desinteressados colaboradores, queremos deixar aqui registados os nomes dos homens que lhes têm imprimido estímulo, insuflado vida e levado á útil e fecunda produtividade. São eles os Srs. Manuel da Costa, do Colmeal; Cláudio dos Santos, de Cadafaz, Manuel Marques, de Cortes e Eugénio Nunes, de Amioso Fundeiro.
   Estes homens, tendo a sua vida organizada e fixada em Lisboa, têm lutado com o maior zelo e carinho em prol das terras a que estão ligados ou onde nasceram.
  Têm muitos e bons colaboradores, mas, nestas obras, não podem ser dispensados os chamados carolas, sem os quais não é raro ver falhar as melhores intenções e boas vontades por falta da mola impulsiva.
   Devem saber aproveitar-lhes a sua acção enérgica e bem intencionada, e não lhes negar todo o auxílio, pois, com isso, só benefícios advirão para o bem comum.
   As Câmaras Municipais, auxiliando e colaborando com tão valiosos elementos, prestarão aos povos seus administrados grandes melhoramentos sem grande dispêndio para os cofres do Município.
   No nosso concelho da Pampilhosa, também já a acção das comissões de melhoramentos se vai fazendo sentir e alguns benefícios tem produzido. No entanto, as sedes das freguesias, de onde deveria partir o estímulo, são as que se conservam alheadas a tão úteis como valiosos elementos de acção.
  A freguesia do Pessegueiro, uma das que maior número de bons elementos possui, conserva-se indecisa quando tanto e bom poderia produzir.
  É ver o resultado dos apelos que têm sido feitos para melhoramentos locais: pontes, captação de água, cemitério, etc. Não tem faltado o seu apoio, espontâneo ou não.
   Conveniente é que se unam, pois unidos e organizados, muito mais e melhor podem fazer com menos esforço.

 ALVES CAETANO
in A Gazeta das Serras, nº 80, 25 de Outubro de 1938
O Apostolado Cívico pela Escrita, pág. 456 e 457, Lisboa 2013   
Foto dos Arquivos da UPFC


Nota: O chafariz do Colmeal, referido no artigo supra, foi a primeira obra da União Progressiva na sede da freguesia e foi inaugurado em 26 de Setembro de 1937. Poderá recordar a nota que em 2 de Março de 2008, a propósito desse acontecimento, inserimos neste blogue, clicando aqui em Cantinho da Saudade.

29 novembro 2013

COLMEAL - Festa de Natal 2013



Vai a União Progressiva da Freguesia do Colmeal realizar no próximo dia 8 de Dezembro pelas 11 horas, após a missa dominical, no edifício da Ex Junta de Freguesia, a já tradicional festa de Natal com distribuição de brinquedos aos mais novos e onde todos terão oportunidade de confraternizar com a população residente durante o habitual lanche.

O espírito de solidariedade que desde sempre caracterizou o Movimento Regionalista tem-nos permitido realizar há algumas décadas este fraterno convívio de Natal. A generosidade dos nossos associados e das entidades que habitualmente nos têm acarinhado tem sido fundamental para podermos continuar a levar aos mais novos e também aos mais idosos um pouco de amizade e de carinho, assim como alguma alegria e palavras de conforto.

Na véspera, dia 7, pelas 15 horas, a União Progressiva deslocar-se-á igualmente à Unidade Residencial Sagrada Família na Cabreira para entregar aos seus utentes uma simbólica lembrança e partilhar com todos eles um pouco da sua solidariedade e da sua amizade.

Convidamos todos os Colmealenses para nos honrarem com a sua presença, o que para nós será muito gratificante.


A Direcção 

A Feira dos Bois




Ao lermos o recente livro sobre a vida de José Maria Alves Caetano deparámo-nos a páginas 263, no capítulo Regional – Viagens, com um seu artigo publicado em 6 de Setembro de 1922 em A Comarca de Arganil, que a seguir tomamos a liberdade de transcrever na parte que se refere a uma visita que fez a Arganil e à feira dos bois.

   “Depois, uma visita mais detalhada à feira que, apesar de me não ter desagradado, me pareceu não ter progredido. Bem pode ser que me enganasse, visto que havia 39 anos que não via a feira e a nossa vista das 19 primaveras vê as coisas com cores mais vivas, predominando a cor-de-rosa.
   Pareceu-me, no entanto, que naquele tempo havia mais entusiasmo e que a feira era mais comercial e mesmo mais abundante em diversos artigos.
   Enfim, como já disse, é provável que os meus olhos me tivessem enganado.
   Gostei imenso da feira dos bois pela abundância e pelos belos exemplares que vi expostos, alguns bastante corpulentos e belamente tratados, ficando-me especialmente na retina uma junta do lugar de Ádela.
   Noutro tempo falava-se na feira dos bois em moedas (4$800 réis) e os preços oscilavam, para juntas de bezerros e bois de trabalho, entre 10 e 15 moedas; agora falava-se em centos de mil réis e em contos. Aquela junta de belos exemplares a que especialmente me referi, ouviu, se me não engano, um conto e duzentos mil réis, e os donos não aceitaram a oferta.”

Não pudemos deixar de associar esta passagem com um excelente trabalho da Dr.ª Lisete de Matos que recordávamos ter lido no extinto/suspenso Jornal de Arganil (29 de Setembro de 2011) e que tinha por título “Os bois de trabalho”.

   “Mostravam-se, uma vez mais, garbosos como os donos, na Feira do Mont’Alto. Não seriam mais de vinte, mas eram os suficientes para permitir aos muitos observadores mais ou menos nostálgicos ou interessados pelas espécies bovinas – sempre mais homens do que mulheres – o prazer do reencontro com aqueles antigos e pachorrentos companheiros de trabalho duro e andar vagaroso.
   Alguns eram reincidentes: lindos e gigantescos, são animais de exposição e concurso, hoje que as máquinas fazem com eficiência acrescida o trabalho que lhes competia, e que as estradas, por onde os respectivos carros chiavam gemendo de esforço e lonjura, foram substituídas por outras, infelizmente nem sempre compatíveis com as exigências do presente.
   Outros não: eram bezerros para comercialização, e cada junta custava a módica quantia de 2.000,00€. Precisamente o dobro do que custava há catorze anos, quando o meu tio Acácio me dizia, esperando que eu concretizasse o sonho que a idade já não lhe consentia: “Ó menina, que lindos animais! E baratos! Por duzentos contos leva-se para casa uma junta de bois de luxo!”

Como serão futuramente as feiras dos bois e quais os preços de mercado? Estamos certos de que alguém nos dará notícia e de preferência… na nossa imprensa regional.

A. Domingos Santos


  

Notícia de há 40 anos


64 Crianças inscritas na catequese paroquial” era o título da notícia que encimava a primeira página do Boletim “O Colmeal”, de Novembro de 1973.

“A paróquia do Colmeal tem 64 crianças matriculadas na catequese, e que frequentarão o 1º ano (49) e o 2º ano (15) de iniciação catequística. As idades das crianças variam entre os 7 e os 12 anos, e serão acompanhadas por 17 catequistas em centros dispersos pela freguesia (Colmeal, Carvalhal, Aldeia Velha, Soito, Malhada, Quinta de Belide, Ádela e Sobral).

Dentro das idades mencionadas, poderiam ter-se matriculado mais duas ou três crianças, mas alguns pais ainda pensam que a catequese serve apenas para fazer a primeira comunhão…”

Depois de algumas considerações sobre os benefícios da catequese vem a lista das sessenta e quatro crianças, que aqui reproduzimos na íntegra. E a pergunta que aqui deixamos é esta “Por onde andarão e o que farão hoje estas crianças de há 40 anos?”

“As crianças matriculadas são as seguintes:

Ádela: Ana Maria, Maria dos Anjos, José Augusto e António Santos Firmino.

Aldeia Velha: Gracinda de Jesus das Neves, Maria Aurora Brás Lopes, Armando Brás Neves, João Manuel de Almeida Neves, Lucinda Fernanda Lopes, Amorim Santos de Almeida e Maria Isabel Santos de Almeida.

Carvalhal: Clementina Martins dos Santos, Esmeralda de Almeida Vicente, Alzira Fernandes Moreira, Fernanda de Almeida Vicente, Amadeu de Almeida Santos, Alzira Fernandes Martins, Maria Cidália Nunes Baptista, Filomena Martins dos Santos, Acácio Fernandes Martins, Artur de Almeida Vicente, João de Almeida Gonçalves, João de Jesus Marques, Ramiro Martins dos Santos, Rui Nunes Baptista, Arminda de Jesus Marques, Victor Manuel de Almeida, António Fernandes Martins e Fernando Manuel de Almeida Lopes.

Colmeal: José Álvaro de Almeida Domingos, Luísa Maria de Almeida Domingos, Paula Maria de Almeida Domingos, Maria Manuela Gaspar Vicente, José Bernardino Gaspar Vicente, Ana Maria Alves Nunes, Maria do Céu de Jesus Geraldes, Maria Helena de Almeida Martins, Fátima Fontes de Almeida e Carminda Fontes de Almeida.

Malhada e casais: Maria de Lurdes Casimiro, Aida dos Anjos Maria, Maria Helena Vicente, António Casimiro Vicente, Maria Irene de Almeida e João Armando Ramos Alexandre.

Sobral e casais: José Manuel Ferreira da Silva, Luís Almeida Rosa, Maria Lucinda Ferreira da Silva, Guilhermina Vicente de Almeida, Lurdes Vicente de Almeida, Maria Alice Vicente de Almeida, Helena Maria Vicente de Almeida, Manuel Vicente de Almeida, Maria da Graça Vicente, Fernando Manuel de Almeida Henriques, José Manuel de Almeida Henriques, Henrique Manuel de Almeida Henriques e Maria de Fátima de Almeida Henriques.

Soito: Fernando Manuel de Almeida Santos, Vítor Manuel da Costa Almeida, Lucinda Maria de Almeida Santos, Maria de Fátima Costa Almeida, Maria Júlia Nunes de Almeida Brás e Isabel Maria Nunes de Almeida Brás.”

E repetimos a nossa pergunta “Por onde andarão e o que farão hoje estas crianças de há 40 anos?”

in Boletim “O Colmeal” Nº 121, de Novembro de 1973

  


28 novembro 2013

Jaime Martins de Almeida



Noventa e cinco anos. A fragilidade e os achaques próprios da idade e das marcas deixadas pelo tempo. Para trás, uma vida de abnegação e sacrifício, visando a felicidade e o bem-estar da família. Filho, marido e pai extremoso; primo, parente e amigo dedicado; cidadão responsável e exemplar; trabalhador precoce, esforçado e competente. Uma vida pautada por valores estruturantes e indeléveis, como a honestidade, a verdade, a lealdade, a solidariedade, a modéstia, a perseverança, o profissionalismo, o respeito pelos outros …

Assim se lhe referia a sua filha Lisete num escrito preparado em Julho de 2012 para o dia do seu 95º aniversário e que transcrevemos na íntegra neste blogue.

A sua saúde, precária de há tempos a esta parte, não lhe permitiu continuar entre nós. O seu coração desistiu de bater na passada terça-feira. Todos perdemos um AMIGO. Guardaremos para sempre a sua imagem e o exemplo de um GRANDE HOMEM.

UPFC

17 novembro 2013

Comandos voltaram à Serra do Açor e ao Colmeal (2)



E como havíamos programado o clarim tocou cedo fazendo levantar todo o grupo para o “ataque” ao pequeno-almoço. Os ares puros da serra “impunham” a boa disposição, indispensável para atingir com êxito os objectivos do segundo dia desta operação.

Arganil que tem como padroeiro S. Gens é uma vila simpática e acolhedora situada na região do Pinhal Interior Norte e que integra 18 freguesias. Há quem defenda que Arganil foi fundada pelos romanos, outros citam os lusitanos.
No começo da monarquia a localidade já existia, pois que “no ano de 1160 da era de César foi ela doada à Sé de Coimbra pela rainha D. Tereza, mãe de D. Afonso Henriques existindo já no seu termo o convento de S. Pedro de Folques”.





Chegados a Góis, uma vila com mais de oito séculos de existência, iniciamos a nossa visita guiada acompanhados por um dos técnicos do Turismo. Nos Paços do Concelho, uma antiga casa nobre designada como Casa da Quinta, edificada durante o séc. XVII e uma das mais importantes da vila ao tempo, foi-nos dado apreciar na sua sala de sessões o lindo tecto em painéis.
A Fonte do Pombal e a Cisterna com bonitos azulejos hispano-árabes do século XVI mereceram especial atenção e foram motivo para várias fotografias. Seguiu-se a visita à Igreja Matriz que tem a particularidade de a sua torre sineira se encontrar afastada e recuada relativamente à frontaria. No interior da Igreja sobressaem uma das melhores obras de escultura tumular renascentista, o túmulo de D. Luís da Silveira, que foi 1º Conde de Sortelha e Senhor de Góis e a capela-mor com as suas laterais.











Do exterior contempla-se uma panorâmica da vila com destaque para a Capela do Castelo e o Parque de Campismo. Percorremos a rua onde uma placa nos indica a casa que viu nascer António Francisco Barata, “figura das letras nacionais” como se lhe refere o Município de Góis numa homenagem prestada em 2011 e seguimos em direcção à ponte sobre o rio Ceira, edificada em 1533 a pedido de D. Luís da Silveira. Da ponte apreciámos a praia fluvial da Peneda, um “paraíso de água e sol no rio Ceira com relvados e ilha de areia no meio do rio” e que este ano vai ostentar pela primeira vez o galardão de qualidade da Associação Bandeira Azul da Europa.
Devagar e sem pressas fomos ao longo do rio e pelo agradável Parque do Cerejal tomar de novo assento no autocarro que nos levaria à próxima paragem.

Deixamos Góis e pela estrada que em anos não muito longínquos já lhe conhecíamos as curvas todas, fomos contemplando a paisagem ondulante das serranias distantes agora com ventoinhas gigantes como que a refrescar-nos na nossa passagem. Catraia do Rolão e a velha casa hoje em ruínas, da Senhora Martinha, ponto de chegada e partida, quando a “caminheta” por ali parava.



Fomos descendo cautelosamente pela estrada estreita que tanto tempo levou a tirar as nossas aldeias do isolamento. O Soito esperava-nos para mais uma visita. Uma aldeia em franca recuperação e que se visita sempre com muito agrado. O Espaço Museológico foi novamente o polo de atracção e aí pudemos recordar outros tempos e apreciar os utensílios que então se usavam e que muitos de nós ainda utilizamos.

O que se vai passar a seguir fica para um próximo apontamento.

Fotos de A. Domingos Santos

Broa, pão de pobres



Ela derramou água na farinha de milho
e acrescentou-lhe uma malga de fermento.
Tudo dentro duma artesa de madeira.

Com os dois braços e as mãos de dedos fortes
pôs nos seus gestos a força e a vontade.
Bateu, rolou, bateu mais e rolou mais
toda a massa espalhada pela artesa
borrifando-a com farinha muito seca
não fosse ela agarrar-se na madeira.

Só parou quando já, trabalho feito,
fez uma cruz na massa a levedar.

Horas depois, aberto o forno quente,
saíu a broa, castanha, estaladiça.

Oh, quem diria que a broa, pão de pobres,
se tornaria num manjar que dá cobiça!

in Seara de Palavras – Poemas, de Américo Gonçalves
Livro oferecido pelo Autor para a Biblioteca da União


Uma perspectiva sobre as gerações


Os avanços na medicina e o aumento da esperança média de vida em Portugal têm causado efeitos na maneira como a senescência é vista pela sociedade. Por um lado, o preconceito de que o processo natural de envelhecimento celular só nos traz complicações e inibições. Por outro, não só um maior cuidado com esse processo e a preocupação de um envelhecimento saudável, como também um maior respeito pela população sénior.
Podemos assistir, por parte de todas as gerações, discriminações desadequadas em relação aos idosos, num preconceito generalista que coloca todo o individuo sénior no mesmo grupo, o debilitado. Sem dúvida que é uma fase da vida que merece cuidados e pedidos específicos. Mas não são todas as fases da vida assim? Qualquer que seja a idade merece a satisfação específica dos seus requisitos.

Por exemplo, uma criança merece o acesso ao ensino, assim como um adolescente merece a liberdade necessária para descobrir o Mundo. O adulto tem direito ao acesso ao emprego para que possa constituir família e dar continuidade ao ciclo da vida. Enquanto envelhece, o seu rebento merece acesso ao ensino, depois à descoberta do Mundo etc. Apesar da mudança nas mentalidades estar em progresso também, ainda me custa crer que existem opiniões depreciativas da terceira idade, generalizando o comportamento de um individuo para discriminar uma faixa etária. Assim como essa faixa etária é diferente de todas as outras e tem as suas particularidades, também o individuo as tem. Tornar inútil uma pessoa com base na sua idade e em crenças preconcebidas, é tão errado como enaltecer a pró-actividade da juventude ignorando a grande fatia que é preguiçosa.

As pessoas devem e merecem ser julgadas pela sua individualidade e não rotuladas de acordo com os anos que carregam. Quantos comportamentos subtis e discriminatórios não teve já a mais bondosa das pessoas para com os idosos? Mesmo que sem intenção, podem tornar “coitadinhas” as pessoas que não são. Há também pessoas que, talvez envenenadas por estigmas sociais, se descredibilizam e destroem a sua auto-estima com frases como o “já não tenho idade para isso”. Quantas pessoas chegam aos 90, cheias de sede de conhecimento e ensinamentos?
Quantas vivem uma vida inteira sem o mínimo interesse pelo que quer que seja? Quantas pessoas chegam e vivem na terceira idade com uma saúde de ferro, e quantas vivem de novo a velho sem saúde? Felizmente atravessamos também uma fase em que essa visão depreciativa está a alterar-se.

Apercebemo-nos que toda esta conversa do envelhecimento veio para ficar até porque não foi assim há tanto tempo que as pessoas mal passavam dos 50. Hoje a esperança média de vida dos portugueses ronda os 79 anos com tendência para aumentar. A velhice já não pode passar despercebida nem os “novos velhos” são pessoas que se possam largar simplesmente num lar sem condições.
Com uma maior consciencialização do processo de envelhecimento, encontramos seniores mais requintados, mais intelectuais, mais úteis e com necessidades à espera para serem satisfeitas. Não obstante disso, o cuidado a ter com as pessoas, independentemente da idade, tem e deve ser personalizado, para que possa cada pessoa pertencer ao seu devido lugar e não haja espaço para a discriminação neste Mundo. Quando se tratam pessoas idosas como descartáveis e inúteis não podemos esperar que elas sejam o contrário. Está na altura de aproveitar todas as capacidades das pessoas e dar um verdadeiro sentido à expressão “melhor idade”.


Editorial da revista REVIVER Nº 5 – Setembro de 2013


09 novembro 2013

Livro de José Maria Alves Caetano






No passado dia 11 de Outubro celebraram-se os 150 anos do nascimento de José Maria Alves Caetano (1863-1946). Foi paladino da promoção educativa dos seus conterrâneos e do desenvolvimento económico da região serrana, pela qual sentia grande apego.


Natural do concelho da Pampilhosa da Serra viveu no de Góis até aos 15 anos de idade antes de rumar a Lisboa. “Em 26 de Julho de 1890, na Igreja paroquial de Santo Antão da cidade, concelho e distrito de Évora, o segundo sargento do Batalhão municiado junto da Guarda Fiscal José Maria Alves Caetano, de 26 anos de idade, morador na Praça do Sertório, 1 – 1º, contraiu matrimónio com Josefa Maria das Neves, de 30 anos de idade, natural da freguesia do Colmeal, concelho de Góis, …”

Em A Comarca de Arganil e em A Gazeta das Serras, que fundou quando já tinha 71 anos, exerceu o maior da sua cruzada, através da escrita, em prol dos três concelhos. O gosto pela escrita e o amor à terra onde nasceu fizeram dele um dos homens do início do Movimento Regionalista da Comarca de Arganil, ficando como um dos principais obreiros desse grande Movimento de Solidariedade que é o Regionalismo.

Os seus descendentes resolveram homenagear a sua memória através da publicação de um livro em que se resume essa contribuição para o progresso das gentes e lugares dos três concelhos. O combate que travou pela melhoria dos seus concidadãos da região serrana foi intenso e persistente. Por volta de 1919/1920 começou a abordar o tema do associativismo regional e em 1926 defendeu a constituição do Grémio da Comarca de Arganil, bem como a formação do que vieram a ser as Ligas de Melhoramentos ou Uniões Progressivas, estando na génese das que se estabeleceram, nos anos trinta do século XX, na região abrangida pelos concelhos de Pampilhosa da Serra, Góis e Arganil.

A edificação de escolas primárias, dotadas de apropriado material pedagógico; a construção de fontanários que fornecessem as povoações de água potável para as libertar das fontes de chafurdo, inquinadas, até pelas infiltrações originadas pelas chuvas de inverno nas estrumeiras assentes sobre os terrenos de montante; o traçado de estradas que facilitassem as deslocações na região serrana; postos públicos para comunicações telefónicas; defesa do serviço postal, para muitas povoações única forma de comunicação com o mundo exterior; enfim, tudo aquilo que poderia tornar mais consentânea com os progressos da Humanidade a vida nas “aldeias sertanejas” foi combate travado por Alves Caetano nas colunas dos jornais.

Está previsto para Lisboa um lançamento do livro “O Apostolado Cívico pela Escrita” na Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra, no próximo dia 20 de Novembro, pelas 18h30m. No entanto, a obra já pode ser solicitada ao Dr. António Alves Caetano, pelo telefone 962346327 ou pelo e-mail aalvescaetano@gmail.com

Brevemente na Biblioteca da União terá possibilidade de aceder a esta notável obra.

in A Comarca de Arganil, 26 de Setº, 3 e 31 de Outº 2013
Fotos de A. Domingos Santos