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05 março 2022

JOSEFINA ALMEIDA LANÇOU NOVOS LIVROS

 Fomos hoje surpreendidos pela notícia publicada em O Varzeense, de 28Fev2022. Agradavelmente surpreendidos, mas não totalmente.


E dizemos não totalmente, porque havíamos tido o privilégio de ter já recebido na nossa caixa de correio (caixa de correio à moda antiga) um exemplar de ENTRE SOL E NUVENS numa gentileza da autora.

Josefina Almeida continua a surpreender-nos. Em vez de um livro, brinda-nos logo com dois de uma assentada.

Escrevemos para comunicar. Mas também para registar e guardar memória, para partilhar e transmitir valores, informação e conhecimento, para refletir e aprender, para nos mantermos intelectualmente ativos. Escrevemos por necessidade e por prazer e sensibilidade estética, para expressar e suscitar sentimentos, sensações e emoções.

É o que faz Josefina Almeida do alto e da lonjura da sua sabedoria, revelando-se jovem força da natureza e mulher de força, por vontade e construção próprias. “Apesar de ser outono/, O coração é primaveril”, diz.

Assim se lhe refere Lisete Matos, sua irmã, na introdução que faz a


Também de uma assentada lemos os seus poemas, autênticos tesouros dos seus sentires e sentidos, nas palavras de sua irmã.

Tomamos a liberdade de transcrever o poema da página 75, que nos recorda a “nossa” raposa Kika, já referida neste espaço e que era tão querida para todos, que como nós, acompanhámos a sua evolução.


                                  MÃE CUIDADORA


                                  Anoiteceu.

                                  A correr lá vem,

                                  Aquela mãe,

                                  Que sendo raposa,

                                  Alimenta e ama,

                                  Os filhos também.

                                  A pouco e pouco,

                                  Carregando na boca

                                  Tudo o que pode,

                                  Até parece louca!

                                  Caminho aquém,

                                  Caminho além,

                                  Vai dando alimento

                                  Aos filhos que tem.

                                  E numa chegada,

                                  Quase constante,

                                  Pede comida,

                                  Sai agradecida,

                                  Ligeira e ofegante.

                                  Numa corrida

                                  Vai ao covil,

                                  Que fica distante.

                                  E vai e volta

                                  Sempre aparece,

                                  Mãe cuidadora,

                                  Quanto padece!

 



Permita-me que termine este breve apontamento socorrendo-me dos dois primeiros versos do seu poema SERIA BOM, da página 109

 

                         Vamos sonhar um novo mundo,

                         Onde nenhum menino tenha fome,

 

OBRIGADO JOSEFINA ALMEIDA!

 

António D. Santos

Lisboa, 04mar2022

Fotos de António Santos e Lisete Matos                           

 

03 abril 2019

LISETE DE MATOS apresentou o seu recente livro


Habitação na Beira Serra. Do Passado e do Presente para o Futuro





Foi na passada terça-feira, 2 de Abril, data em que se comemora o Dia Internacional do Livro Infantil. No Espaço Multiusos da Casa da Cultura de Góis. Por ocasião da 23ª Feira do Livro de Góis.

Catarina Matos, espelhando felicidade, apresentou-nos a autora, sua mãe, perante um atento e interessado auditório.




Lisete Paula de Almeida de Matos é natural da pequena mas simpática aldeia do Açor (ex freguesia do Colmeal), onde reside, aldeia de uma só rua e com cada vez menos habitantes.



“Sem ser especialista na matéria e fazendo uma abordagem multidisciplinar, Habitação na Beira Serra. Do Passado e do Presente para o Futuro (2018) é um trabalho muito singelo, com o qual se pretende partilhar o fascínio com que se observa a paisagem e as aldeias transformadas em repositórios de engenho e tenacidade, afeto e história, das pessoas e dos seus modos de vida!
Como em outras oportunidades, para além de homenagear os “operários em construção” do passado e do presente, pretende-se contribuir para o reforço da identidade e da pertença à serra e à terra, ao mesmo tempo que se atribui estatuto e confere visibilidade e confere riqueza e diversidade do património edificado serrano. Um património cultural simultaneamente material e imaterial que abunda, constituindo um recurso assinalável, porventura um dos principais que podem ser potenciados ao serviço da economia e do desenvolvimento sustentado, no âmbito da imparável evolução das aldeias para espaços e tempos de transitoriedade e lazer. A segunda habitação e o turismo já prevalecem em muitas delas.
Agradecem-se comentários e contributos, para que alguém possa dar continuidade ao trabalho.” (1)



Um livro que também aconselhamos vivamente. Um livro que deverá estar em nossas casas, e nas dos nossos amigos e conterrâneos, pois reflecte um trabalho feito nos concelhos de Arganil, Góis e Pampilhosa da Serra, e na aldeia do Candal (Lousã). Fotografias que connosco partilha «na ternura do abraço» e abrangem um espaço temporal de trinta anos (a mais antiga é de 1988), algumas das quais preservarão nas nossas memórias o que era/existia antes dos terríveis incêndios de Junho e Outubro de 2017.


De leitura fácil e muito acessiva. Como escreveu João Nogueira Ramos em “Postal de um beirão”, «dominando a escrita com sensibilidade, a Lisete move-se com segurança na evolução temporal das casas aldeãs da nossa Beira. Um olhar atento, com poesia e sentimento, em filme bem realizado e bem documentado, que desbobinamos com deleite.»

      
Dos Objectos para as Pessoas (1997) é um outro livro da autora “elaborado com o objectivo de contribuir para a afirmação identitária, para o reforço da pertença à serra e para o registo da memória colectiva que funda as representações e os valores de muitos dos naturais e oriundos da região. Pretende ainda demonstrar que a serra e as aldeias são um ecomuseu vivo e aberto, que importa preservar e potenciar ao serviço do futuro. Como refere Paulo Carvalho na introdução, “sob a aparência de um catálogo etnográfico, o que (se) nos propõe é um discreto álbum de intercepções e afectos. Espreitamos para dentro das fotos e, em cada peça, vislumbramos recordações, histórias, pessoas, pormenores que cintilam por um momento e deixam um rasto nos nossos sentidos (…) ” (1)


Gente da Serra. Do seu Quotidiano e Costumes (1990) é uma obra elaborada para preservar a memória dos modos de vida e da cultura das gentes da serra. É uma obra inacabada, muito especialmente porque a vida continua. Dê-lhe continuidade, agindo e escrevendo você também. Eventuais contributos revertem, agora, a favor da Associação Amigos do Açor. (1)
Da Introdução deste livro retiramos o seguinte:
“Num momento de rápida evolução da sociedade portuguesa para novas formas de estar, ser e produzir, valorizar e identificar-se criticamente com o passado e o presente é contribuir para a construção do futuro. Neste contexto, a recolha efectuada, que não é exaustiva, é um desafio para que nos orgulhemos da nossa terra e do nosso passado rural e deles falemos aos nossos filhos e netos. Eu falo da vida no Açor e nas aldeias limítrofes, acreditando falar um pouco da vida na região. Mas muito mais há para dizer. Vamos todos fazê-lo? É a sua vez agora!”.

O desafio está lançado pela Lisete de Matos. Se cada um de nós der um pequeno contributo e partilharmos um pouquinho do nosso conhecimento, todos teremos a ganhar. Vamos responder com entusiasmo, vamos agir, vamos escrever, vamos dar continuidade a este tão precioso trabalho. VAMOS!


Gente da Serra: Modos de Vida entre a Cidade e a Aldeia (2000). No âmbito de uma perspetiva compreensiva da realidade social, o objectivo da investigação é caracterizar e elucidar os modos de vida de uma população que escolheu Lisboa como destino privilegiado, quando tomou a iniciativa de partir, em busca de oportunidades mais satisfatórias de vida e trabalho para si e para os seus.
Complementarmente, visam-se dois outros objectivos: por um lado, produzir conhecimento tanto quanto possível com os protagonistas, promovendo a sua autoexpressão a fixar pela escrita; por outro, contribuir para a inclusão e visibilidade dos grupos sociais menos favorecidos em matéria de interesse científico, apesar da capacidade de iniciativa demonstrada e da sua importância enquanto segmento social e força de trabalho.
Obra não publicada, pode ser consultada na biblioteca da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, bem como em bibliotecas locais. (1)

Lisete de Matos é Presidente da Assembleia-Geral da União Progressiva da Freguesia do Colmeal. Participa no blogue http//upfc-colmeal-gois.blogspot,pt e n’ O Varzeense.
Sentimos muito orgulho em a ter connosco. É um privilégio. É um exemplo para todos nós. O concelho de Góis deve orgulhar-se de ter entre os seus residentes uma tão ilustre filha das suas aldeias.

A. Domingos Santos
Fotos de A. Domingos Santos e facebook CMG
(1) De um apenso ao livro apresentado 

16 março 2019

Conversa de amigos. Um livro. Um autor.




As conversas são como as cerejas, sempre se ouviu dizer. Mas, isso era no tempo em que as pessoas falavam, porque hoje comunicam, teclam e… 

Numa recente visita a uns amigos, às tantas falava-se de livros, de Saramago, do seu modo de escrever, da dificuldade na leitura e de uma sua obra que tem por título “As Intermitências da Morte”. Que eu não lera. A curiosidade levou-me a adquiri-lo poucas horas depois e já ultrapassei as primeiras vinte páginas.
É uma recente edição na Porto Editora.

Espero não cometer nenhuma infracção grave face aos impedimentos legais de reprodução, mas não resisto a transcrever as primeiras linhas

“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.”

José Saramago está presente na Biblioteca da União Progressiva no Colmeal, com algumas das suas obras.

Das badanas do livro acima referido retiramos a seguinte informação:
“Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em Abril de 1975 é nomeado director-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projecto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca.
Até 2010, ano da sua morte, a 18 de Junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.”

Na União Progressiva da Freguesia do Colmeal, associação regionalista do concelho de Góis, fundada em 20 de Setembro de 1931, desempenhou o cargo de 1º Secretário da Direcção, de 18 de Janeiro de 1948 a 17 de Dezembro de 1950 e de 24 de Abril de 1954 a 27 de Dezembro de 1955.

E tal como Saramago, leia, desenvolva o seu gosto pela leitura.

A. Domingos Santos

11 março 2019

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA NA OBRA DE JORGE VILAÇA.




Era uma vez um pintor que andava a pintar a serra e disseram-lhe assim: pinta esta serra como se vê, e o pintor disse à serra: vou-te pintar! E a serra sorriu e pôs-se a dançar; vestiu-se de fogo e pôs-se a gritar; cobriu-se de folhas e foi-se deitar.
Dormiu com o pintor e pôs-se a chorar.
Contou-me um segredo e pôs-se a sonhar.
Ora então dizei-me como hei-de pintar.
A serra tem alma; ah, isso tem.
A serra fala, goza, faz-se bela.
A serra engravida; a serra dá à luz
A serra contou-me que me há-de levar.
A serra falou-me que me há-de guardar,
Que me há-de gerar.
Quem quiser ver a alma da serra, suba! E pergunte aos guardadores de gado, mas dizei-me meus senhores; valei-me olhadores: como hei-de eu pintar.
Como é que faz um monte a dançar? Como é que se pinta um ramo a abanar? Como hei-de eu pintar?
(…)
Obrigado ó serra por tudo o que me contaste nestas letras
Porque digo serra não sei pintar a serra a dançar. E assim fica dito
Que a serra é viva e que não se deve queimar.
Hoje, 26 de Maio de 1982, às 11 da noite, pintando a serra do Açor no
Lugar das Torrozelas, boa noite.
Boa noite.
(…)
Este bocado não foi semeado à data que eu falo. Guardado para quem o há-de comer. Bocado vou-te comer. Vou aqui pôr estas letrinhas para te enfeitar. É como se fosse um colar. E que dês muito feijão a quem te vier semear. E saúde e gozo e alegria a quem aqui cultivar. Longa e serena vida a quem aqui trabalhar. Bocado, que dizes mais? Já dormes? São 4 e um quarto da madrugada do dia vinte e seis de Maio de mil novecentos e oitenta e dois. Agora assino aqui: Ti Jorge do Açor (1)
Estes são alguns dos versos que fazem os bocados (cômoros) na obra acima incluída. É um mural de Jorge Vilaça existente numa sala da Câmara Municipal de Arganil. Já o mostrava no livro “Dos Objetos para as Pessoas” (2), por o considerar tão atraente e expressivo da beleza singela da serra. Vigia de um dos cantos superiores do espaço, como que a lembrar aos seus ocupantes o encanto da paisagem e o desencanto das suas gentes que, ao tempo, persistiam em partir.
A primeira vez que ouvi falar do “Ti Jorge do Açor” foi ao então presidente da Câmara Municipal de Arganil, Prof. José Dias Coimbra. Corria o início dos anos oitenta e o artista tinha acabado de pintar o painel que enriquece o salão nobre daquele município. É uma pintura alusiva à história do concelho, produzida pelo Jorge enquanto bolseiro da Direção-Geral da Educação de Adultos, organismo onde eu trabalhava. Daí a menção ao seu nome e talento, no âmbito de uma qualquer reunião de trabalho.

Sim, mas quem é o Jorge? Amante da serra e serrano do coração, Jorge Manuel Torres Vilaça (1940-2001) nasce em Barcelos. Devido à falta precoce dos pais, passa por internatos e seminários, estuda filosofia e teologia … Depois de ter estado em França, onde foi operário e frequentou os meios socio artísticos da época, regressa a Portugal em 1974.

Já com a segunda mulher, Ghyslaine Fritz, chega ao Colmeal e seguidamente ao Açor, em 1979, através do amigo Ricardo Reis, neto de Maria Adelaide Nunes e António Reis (Colmeal) e afilhado de Ilda Reis e José Saramago, prémio Nobel da literatura. Procura as raízes ancestrais, a liberdade, o silêncio, e uma vida comunitária em harmonia com os outros, com a natureza e com o universo. A partir do Açor, irradia a sua ação pela região.
Em 1984, quando o filho mais velho atinge a idade escolar, o Jorge regressa, digamos que definitivamente, a Vales de Baixo, Tomar, onde já tinha vivido. Porém, nos finais dos anos noventa, volta transitoriamente à serra do Açor. Na altura, já assinava “Bemaventuradojorge”, “por considerar uma bem-aventurança ter-se convertido à imaterialidade dos sonhos” (3). Trabalhou em Arganil, e manteve, no Piódão, um atelier/residência artística. De visita ao Açor, almoçou cá em casa, a convite do meu pai, que tinha pelo Jorge um grande apreço, depois de lhe ter comprado uns miniterrenos e vendido a “casa velha”, onde tinha nascido. Procurei diversificar a ementa, mas, por delicadeza ou não, apenas a filha que acompanhava o casal fez escolhas exclusivamente vegetarianas.
A viver da pintura desde o regresso a Portugal, Jorge Vilaça expõe individual e coletivamente um pouco por toda a parte, no pais e no estrangeiro, nomeadamente em França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça e Espanha.






Ao mesmo tempo, promove iniciativas de cruzamento e complementaridade artística, com destaque para as performances “sonzacors”, “Jazzacores” e “Poesia-a-cores”, onde, dito de modo muito simplista, se tratava de pintar a música ou a poesia e a palavra, tocando-as a elas e aos participantes. Era a pintura a interagir com outras linguagens, embora o Jorge, que privilegiava o papel da visão e do olhar para a perceção do essencial, considerasse que as palavras podiam desvirtuar os sentidos, razão pela qual as suas obras tendem para não ter título. Mas podem incorporar pinceladas de escrita e poesia, como vimos.


Multifacetado, Jorge Vilaça faz incursões na ilustração, na escultura, na instalação e no design, ao mesmo tempo que, apostado na partilha da arte, organiza ateliers e cursos formativos.


O legado público de Jorge Vilaça na região é significativo. Para além das obras já referidas, ocorrem-me: em Arganil, um mural na Santa Casa da Misericórdia, os painéis em azulejo no mercado municipal e na entrada do edifício da GNR, várias obras no Piódão; em Góis, Cadafaz, a restauração pictórica da capela e da igreja; no Buçaco, um mural no hotel Eden. Legado não menos importante é, de um outro ponto de vista, a memória que muitos guardam da autenticidade, desapego, delicadeza e sabedoria do “Ti Jorge do Açor”, Jorge Vilaça, “Bemaventuradojorge” ou simplesmente Jorge para os amigos e vizinhos. Em contrapartida, também a serra terá influenciado o conjunto da sua obra.





Em setembro passado, um grupo de amigos, em articulação com a família e com o apoio da Camara Municipal de Tomar, organizou a exposição retrospetiva “Jorge Vilaça. O dom de pintar o Invisível”, contexto em foi publicado o livro Bemaventurado Jorge, fonte a que tenho vindo a recorrer e que integrará o acervo da biblioteca da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.


“Homem e artista acomodavam-se num único corpo pelo poder de uma sólida visão interior, e o todo era cerzido de forma tão coerente, intensa e poética que era difícil distinguir, a cada momento, quem era quem. (…) Que esta e outras exposições retrospectivas possam, enfim, fazer justiça – ainda que tardia, ao Bem Aventurado Jorge, resgatando do limbo do esquecimento a sua obra visionária, inspirada e poliédrica.” (4).
Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 1 de março de 2019.


(1) Jorge Vilaça, in Raul Sousa (Coord.), Bemaventurado Jorge. Homenagem a Jorge Manuel Torres Vilaça, Artista plástico, Poeta e Visionário, Tomar, 2018. Com exceção para as memórias pessoais, a informação e a maior parte das imagens inseridas neste texto foram retiradas desse livro.
(2) Lisete de Matos, Dos Objetos para as Pessoas, Colmeal, ed. da autora, 2010, p. 103.
(3) Agostinho Costa, in Raul Sousa (Coord.), op. cit..
(4) Paulo Ramalho, idem.

10 dezembro 2018

HABITAÇÃO NA BEIRA SERRA - Novo livro de Lisete de Matos




HABITAÇÃO NA BEIRA SERRA – DO PASSADO E DO PRESENTE PARA O FUTURO é o título do novo livro que Lisete de Matos nos apresenta. Pelo que já conhecemos da sua obra publicada, e dos muitos e variados apontamentos com que a todos nos delicia, no nosso blogue ou na imprensa regional, poderíamos dizer que não nos surpreende. Mas folheando página a página, temos que reconhecer que este livro nos impressiona pela qualidade, pelo detalhe, pelo pormenor, pela exaustiva recolha documentada e seriada em centenas de fotografias e pelo carinho que sentimos nas suas palavras.

Trabalho de muitos anos, feito com «um olhar atento, com poesia e sentimento… sobre as estruturas agarradas ao chão, com os seus feitios e materiais, as suas técnicas e artes, mais de mãos que de pedras. E sobre espaços de fruição, com as suas venturas e desventuras, as suas alegrias e tristezas, as suas vozes e silêncios» como escreve João Nogueira Ramos no seu Postal de um Beirão.

Como na Introdução se refere a autora «É, pois, enquanto reflexo da atividade humana e componente essencial do património construído e cultural que elegemos a habitação serrana e, por inerência, a respectiva arquitetura de produção (fornos e alambiques, galinheiros, palheiros e currais, moinhos, lagares e tulhas, como objecto de reflexão nesta obra.»

Lisete de Matos percorreu os concelhos de Arganil, Góis, Pampilhosa da Serra e Lousã, onde procurou o que entende ser, na sua modéstia e simplicidade, «Um contributo ínfimo, considerando a riqueza, a diversidade e a beleza cativante do património que por toda a parte nos acena ávido de futuro.»

Dividido em quatro capítulos, de leitura muito interessante e acessível, é uma obra que se torna obrigatório ter em nossas casas, pelo legado que nos deixa. A nós, aos nossos filhos e aos nossos netos. São registos importantes, que ficam. Que alguém se deu ao cuidado de no-los deixar.

Tal como João Nogueira Ramos termina o seu Postal, também nós terminamos,
Obrigado, Lisete.

U. P. F. Colmeal

29 novembro 2018

Biblioteca da União no Colmeal



A Câmara Municipal de Góis teve a gentileza de oferecer, para a Biblioteca da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, livros de inegável qualidade e que certamente despertarão a curiosidade de quem tem gosto pela leitura.

Para aqueles que cedo deixaram as suas aldeias e nelas deixaram os seus, as mulheres e os filhos, filhos que cresciam enquanto longe os pais envelheciam, para os que rumaram a Lisboa, à capital do Império, esses puderam encontrar um pouco da Lisboa e redondezas que são descritas e retratadas neste livro.


Lisboa e Arredores em 1900”.
Facsimile do original e escrito com a ortografia do princípio do século passado, tem apontamentos extraordinários, como por exemplo sobre a vista do castelo de S. Jorge, o Aqueduto das Águas – livres, a Ribeira Nova ou o Terreiro do Paço. Fotografias e muitas estampas da época mostram-nos o grande portal da Conceição Velha ou a azáfama matinal na Ribeira Nova, a Torre de Belém ou a Praça do Rocio.

Ramalho Ortigão apresenta-nos um formidável apontamento escrito no Porto, em Agosto de 1903, sobre a excelente obra do arquitecto Ventura Terra, que neste livro está suportada em várias fotografias, com especial realce para a nova câmara dos deputados em Lisboa.
Escreve também sobre os Jerónimos, sumptuoso templo que o rei D. Manuel I mandou erigir, convertendo a pequena capela ali existente, quando Vasco da Gama em 1500 tornou da Índia.

Avenida da Liberdade, Sé de Lisboa, Sintra, Castelo da Pena, Paço Ducal, Palácios de Monserrate e de Queluz ocupam largas páginas.
Palácio Fronteira em Benfica, “A antiga e amável povoação de Bemfica”, de acordo com mais um escrito de Ramalho.
O Convento da Madre de Deus, a Xabregas e o Paço- Mosteiro de Mafra, ocupam com bastante detalhe as últimas páginas.

O Museu de Artilharia, hoje Museu Militar, merece nas suas páginas especial relevo. As salas de Dom José I e de Dona Maria II, bem como a de Dona Maria Pia são descritas por Christovam Ayres “Nas antigas salas, tão características, com seus tectos apainelados, pintados a óleo, a sua obra de talha primorosa, as figuras e ornamentos de grande relevo, os seus dourados ainda vivos, conservou-se o cunho primitivo; - renques de armas perfilam ao longo das paredes; hirtas armaduras de ferro, completas,…”.
Um Museu, que nos dias de hoje, vale uma demorada visita.  
Um livro que, como referimos inicialmente, é interessantíssimo e cuja leitura aconselhamos. Está à sua disposição na Biblioteca da União no Colmeal.


A “Crónica de D. João I” foi escrita por Fernão Lopes, cronista oficial do Reino e Guarda – Mor da Torre do Tombo, por incumbência do Rei D. Duarte, filho e sucessor de D. João I. Obra editada em Lisboa em 1644 e apresentada em três volumes, aqui numa reprodução fiel da obra original.
A descrição do acontecido após a morte de D. Fernando e a subida ao trono de D. João I, Mestre de Avis encontra-se fielmente apresentada na primeira parte. Tudo o que se passa no seu reinado até à assinatura da paz com Castela, em 1411, é-nos relatado no segundo volume, enquanto no último a tomada de Ceuta ocupa grande parte e termina dando-nos conta do falecimento de D. João I e a trasladação dos seus restos mortais para o Mosteiro da Batalha, por si mandado erigir.
A leitura não é fácil, mas aos poucos vamo-nos habituando e compreendendo a grafia que era utilizada há cerca de quatrocentos anos.
Três volumes, com boa encadernação e que enriquecem qualquer estante.

§§§

Jornalistas em apuros” é um pequeno livro dedicado aos jovens, com a grata particularidade de uma das suas autoras, ser nossa associada.

Maria Deonilde Almeida Bernardo Mendes de Almeida. Nasceu no Colmeal em 1954, aldeia onde passou os primeiros anos de vida e onde regressava sempre nas férias grandes. Licenciou-se na Faculdade de Letras, da Universidade Clássica de Lisboa, no curso de História, tendo desenvolvido a sua actividade profissional como professora de História e de Língua Portuguesa, dando assim resposta a uma vocação que lhe apontava o ensino e o acompanhamento de crianças e jovens como o caminho a seguir ao longo da vida.”

É co-autora com Maria Isabel Ângelo Marques. “Colegas de profissão, amigas na vida pessoal, ambas têm gostos similares e o gosto pela escrita, bem como a consciência de que vivemos num tempo extremamente rico em novas tecnologias, extraordinários avanços científicos mas que, na outra face dessa moeda, se apresenta algo descuidado na preservação de valores que parece terem ficado para trás na voragem dos dias.

Isso procuraram salientar na despretensiosa aventura de um grupo de jovens, que, durante um fim de semana, são levados a experienciar e refletir sobre a importância dos saberes tradicionais, do respeito pela Natureza, da solidariedade Intergeracional, entre outros.
Se essa mensagem chegar aos seus destinatários, terá valido realmente a pena.” Retirado da badana da contra capa.

Edição de Setembro de 2017, da Câmara Municipal de Góis, mereceu de Maria de Lurdes Oliveira Castanheira, sua presidente e para a apresentação do livro, as seguintes palavras:
Em boa hora o Município de Góis oferece aos jovens a oportunidade de ler uma aventura que decorre em Góis. Deonilde Almeida e Isabel Marques, através de uma leitura fácil e divertida, com “Jornalistas em apuros” viajam até ao nosso concelho, à serra, às nossas tradições e memórias. Durante um fim de semana inesquecível e a guardar na alma de cada um, os jovens personagens da nossa história conhecem o melhor de nós, vivem experiências únicas, tão perto da Mãe Natureza, de quem nos ensina o que custa a vida, de quem cuida da nossa terra.
Ler é crescer. Viver. Aprender. Conhecer. Sonhar. Percorrer locais desconhecidos. Sentir o cheiro e o seu sabor. Amar as suas gentes. Viver histórias fantásticas. Da leitura ganhamos a certeza de um mundo melhor.
Com “Jornalistas em apuros” mais uma oportunidade de leitura é dada aos nossos jovens. Para os que gostam de ler, este livro vai enriquecer as suas leituras. Para os que gostam menos, certamente que despertará o prazer de ler.
Faço minhas as palavras das autoras. Se a mensagem deste livro chegar aos seus destinatários, terá valido realmente a pena.
Às autoras felicitamos pela pertinência do tema e pelo meritório gosto. Aos jovens leitores desejamos boas leituras e aventuras!

A União Progressiva da Freguesia do Colmeal agradece muito sensibilizada, a Deonilde Almeida, nossa associada e amiga, pela gentileza em nos oferecer este livro “Para a biblioteca da União, com todo o carinho das memórias que me inspiraram.”
Obrigado Deonilde Almeida.
É para nós um enorme privilégio ter uma obra sua, na Biblioteca da União.


JOSÉ SARAMAGO
Rota de Vida
Uma Biografia
De autoria do jornalista Joaquim Vieira e publicado por Livros Horizonte, foi apresentado ao público no passado dia 13 de Novembro, no Palácio Galveias, em Lisboa, um livro sobre uma biografia de José Saramago.
Da contra capa retiramos:
“Vencedor do Prémio Nobel da Literatura – o primeiro (e único até à data) a distinguir não só Portugal como a língua portuguesa -, o escritor José Saramago (1922-2010), autor de romances fundamentais como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis ou Ensaio sobre a Cegueira, conquistou, por esse motivo, um estatuto de primordial relevo na nossa história recente.

Trilhou, porém, um caminho árduo até atingir a consagração: originário de uma família de trabalhadores rurais ribatejanos, estudou apenas para serralheiro mecânico e fez toda a sua formação intelectual como autodidacta. Manteve-se na obscuridade durante a maior parte da sua carreira, fosse como funcionário de escritório, responsável por uma editora ou até enquanto editorialista, que não assinava os seus textos, e já só por volta dos 60 anos, ganhou notoriedade como romancista.

Viu-se envolvido em polémicas que mobilizaram as atenções nacionais: acusado de praticar censura e de afastar jornalistas como director adjunto do Diário de Notícias, ele próprio viria a queixar-se, anos depois, de o governo lhe censurar um livro, afirmando que por tal motivo se afastava do país.

Esta biografia traça o percurso de uma personalidade única da cultura portuguesa, debruçando-se tanto sobre a sua intensa atividade criativa como sobre a sua atribulada vida privada.”

A União Progressiva da Freguesia do Colmeal esteve presente na cerimónia de apresentação. É referida no percurso da vida de Saramago, ao que julgamos, pela primeira vez, a sua passagem pela nossa associação regionalista.
Durante as pesquisas feitas para este livro, depararam-se, no blogue da UPFC, com algumas notas da passagem do Nobel da Literatura pelo Colmeal, não só pelo primeiro casamento com Ilda Reis, mas também pelo facto, desconhecido por muitos, de ter sido nosso Primeiro Secretário da Direcção, entre os finais da década de quarenta e primeira metade dos anos cinquenta.
A Biblioteca da União, no Colmeal, onde José Saramago já está representado com alguns dos seus livros, passará agora a contar com esta recente obra.

A. Domingos Santos                                         
Lisboa, 22 de Novembro de 2018