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05 março 2022

JOSEFINA ALMEIDA LANÇOU NOVOS LIVROS

 Fomos hoje surpreendidos pela notícia publicada em O Varzeense, de 28Fev2022. Agradavelmente surpreendidos, mas não totalmente.


E dizemos não totalmente, porque havíamos tido o privilégio de ter já recebido na nossa caixa de correio (caixa de correio à moda antiga) um exemplar de ENTRE SOL E NUVENS numa gentileza da autora.

Josefina Almeida continua a surpreender-nos. Em vez de um livro, brinda-nos logo com dois de uma assentada.

Escrevemos para comunicar. Mas também para registar e guardar memória, para partilhar e transmitir valores, informação e conhecimento, para refletir e aprender, para nos mantermos intelectualmente ativos. Escrevemos por necessidade e por prazer e sensibilidade estética, para expressar e suscitar sentimentos, sensações e emoções.

É o que faz Josefina Almeida do alto e da lonjura da sua sabedoria, revelando-se jovem força da natureza e mulher de força, por vontade e construção próprias. “Apesar de ser outono/, O coração é primaveril”, diz.

Assim se lhe refere Lisete Matos, sua irmã, na introdução que faz a


Também de uma assentada lemos os seus poemas, autênticos tesouros dos seus sentires e sentidos, nas palavras de sua irmã.

Tomamos a liberdade de transcrever o poema da página 75, que nos recorda a “nossa” raposa Kika, já referida neste espaço e que era tão querida para todos, que como nós, acompanhámos a sua evolução.


                                  MÃE CUIDADORA


                                  Anoiteceu.

                                  A correr lá vem,

                                  Aquela mãe,

                                  Que sendo raposa,

                                  Alimenta e ama,

                                  Os filhos também.

                                  A pouco e pouco,

                                  Carregando na boca

                                  Tudo o que pode,

                                  Até parece louca!

                                  Caminho aquém,

                                  Caminho além,

                                  Vai dando alimento

                                  Aos filhos que tem.

                                  E numa chegada,

                                  Quase constante,

                                  Pede comida,

                                  Sai agradecida,

                                  Ligeira e ofegante.

                                  Numa corrida

                                  Vai ao covil,

                                  Que fica distante.

                                  E vai e volta

                                  Sempre aparece,

                                  Mãe cuidadora,

                                  Quanto padece!

 



Permita-me que termine este breve apontamento socorrendo-me dos dois primeiros versos do seu poema SERIA BOM, da página 109

 

                         Vamos sonhar um novo mundo,

                         Onde nenhum menino tenha fome,

 

OBRIGADO JOSEFINA ALMEIDA!

 

António D. Santos

Lisboa, 04mar2022

Fotos de António Santos e Lisete Matos                           

 

23 abril 2019

DIA MUNDIAL DO LIVRO – 23 ABRIL


Os livros


O meu pai está sempre a dizer que os livros são os nossos melhores amigos, depois das pessoas e dos animais, os mansinhos, está claro, que nos dão muita coisa de que a gente precisa para comer, vestir e calçar.

O meu pai também já me disse que nunca teve um pequeno desgosto na vida, que não lhe passasse depois de ler um bom livro.

Deve ser por isso que o meu pai tem tantos livros e sabe tanta coisa que me explica. E eu também gostava de saber tanto como ele e ter tantos livros como ele. Já tenho muitos, e o meu pai diz que os livros ensinam tudo. Eu já sei muitas coisas que li nos livros, e muitas histórias e coisas que se passam no mundo, de animais e plantas e de tudo quanto há.

Também leio os livros da escola. Às vezes custam-me a perceber, porque são difíceis, e eu sei que ainda sou pequeno para perceber tudo. Mas leio outra vez ou peço que me expliquem, e explicam-me, e então eu já percebo.

Ricardo Alberty
in “Na Rota das Palavras” Fundação Calouste Gulbenkian - Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas – Dezembro de 1990

                                  
SOMOS LIVROS
                           
O Fim é o princípio.
                                  Uma página que se vira.
                                 Somos a tinta fresca em folha áspera.
A capa dura. Aquilo que procura.
Somos a História.
Desde sempre.
O terramoto de 55 e a revolução de 74.
Somos todos os nomes.
As pessoas do Pessoa.
Alexandre Herculano
e Ramalho Ortigão.
O Mundo na mão.
Ponto de encontro.
De quem pensa. De quem faz pensar.
Temos pele enrugada
de acontecimento.
As páginas são nossas.
E o pó que descansa na capa também.
Sabemos falar de guerra e de paz,
explicar a origem das espécies
e dizer qual a causa das coisas.
Somos o que temos.
A tradição e a vocação.
A atenção. A opinião.
A história de dor e de amor.
Somos o nome do escritor.
A mão do leitor.

MANIFESTO BERTRAND

in “SOMOS LIVROS
BERTRAND LIVREIROS
A Revista da Livraria Mais Antiga do Mundo – Abril 2019


03 abril 2019

LISETE DE MATOS apresentou o seu recente livro


Habitação na Beira Serra. Do Passado e do Presente para o Futuro





Foi na passada terça-feira, 2 de Abril, data em que se comemora o Dia Internacional do Livro Infantil. No Espaço Multiusos da Casa da Cultura de Góis. Por ocasião da 23ª Feira do Livro de Góis.

Catarina Matos, espelhando felicidade, apresentou-nos a autora, sua mãe, perante um atento e interessado auditório.




Lisete Paula de Almeida de Matos é natural da pequena mas simpática aldeia do Açor (ex freguesia do Colmeal), onde reside, aldeia de uma só rua e com cada vez menos habitantes.



“Sem ser especialista na matéria e fazendo uma abordagem multidisciplinar, Habitação na Beira Serra. Do Passado e do Presente para o Futuro (2018) é um trabalho muito singelo, com o qual se pretende partilhar o fascínio com que se observa a paisagem e as aldeias transformadas em repositórios de engenho e tenacidade, afeto e história, das pessoas e dos seus modos de vida!
Como em outras oportunidades, para além de homenagear os “operários em construção” do passado e do presente, pretende-se contribuir para o reforço da identidade e da pertença à serra e à terra, ao mesmo tempo que se atribui estatuto e confere visibilidade e confere riqueza e diversidade do património edificado serrano. Um património cultural simultaneamente material e imaterial que abunda, constituindo um recurso assinalável, porventura um dos principais que podem ser potenciados ao serviço da economia e do desenvolvimento sustentado, no âmbito da imparável evolução das aldeias para espaços e tempos de transitoriedade e lazer. A segunda habitação e o turismo já prevalecem em muitas delas.
Agradecem-se comentários e contributos, para que alguém possa dar continuidade ao trabalho.” (1)



Um livro que também aconselhamos vivamente. Um livro que deverá estar em nossas casas, e nas dos nossos amigos e conterrâneos, pois reflecte um trabalho feito nos concelhos de Arganil, Góis e Pampilhosa da Serra, e na aldeia do Candal (Lousã). Fotografias que connosco partilha «na ternura do abraço» e abrangem um espaço temporal de trinta anos (a mais antiga é de 1988), algumas das quais preservarão nas nossas memórias o que era/existia antes dos terríveis incêndios de Junho e Outubro de 2017.


De leitura fácil e muito acessiva. Como escreveu João Nogueira Ramos em “Postal de um beirão”, «dominando a escrita com sensibilidade, a Lisete move-se com segurança na evolução temporal das casas aldeãs da nossa Beira. Um olhar atento, com poesia e sentimento, em filme bem realizado e bem documentado, que desbobinamos com deleite.»

      
Dos Objectos para as Pessoas (1997) é um outro livro da autora “elaborado com o objectivo de contribuir para a afirmação identitária, para o reforço da pertença à serra e para o registo da memória colectiva que funda as representações e os valores de muitos dos naturais e oriundos da região. Pretende ainda demonstrar que a serra e as aldeias são um ecomuseu vivo e aberto, que importa preservar e potenciar ao serviço do futuro. Como refere Paulo Carvalho na introdução, “sob a aparência de um catálogo etnográfico, o que (se) nos propõe é um discreto álbum de intercepções e afectos. Espreitamos para dentro das fotos e, em cada peça, vislumbramos recordações, histórias, pessoas, pormenores que cintilam por um momento e deixam um rasto nos nossos sentidos (…) ” (1)


Gente da Serra. Do seu Quotidiano e Costumes (1990) é uma obra elaborada para preservar a memória dos modos de vida e da cultura das gentes da serra. É uma obra inacabada, muito especialmente porque a vida continua. Dê-lhe continuidade, agindo e escrevendo você também. Eventuais contributos revertem, agora, a favor da Associação Amigos do Açor. (1)
Da Introdução deste livro retiramos o seguinte:
“Num momento de rápida evolução da sociedade portuguesa para novas formas de estar, ser e produzir, valorizar e identificar-se criticamente com o passado e o presente é contribuir para a construção do futuro. Neste contexto, a recolha efectuada, que não é exaustiva, é um desafio para que nos orgulhemos da nossa terra e do nosso passado rural e deles falemos aos nossos filhos e netos. Eu falo da vida no Açor e nas aldeias limítrofes, acreditando falar um pouco da vida na região. Mas muito mais há para dizer. Vamos todos fazê-lo? É a sua vez agora!”.

O desafio está lançado pela Lisete de Matos. Se cada um de nós der um pequeno contributo e partilharmos um pouquinho do nosso conhecimento, todos teremos a ganhar. Vamos responder com entusiasmo, vamos agir, vamos escrever, vamos dar continuidade a este tão precioso trabalho. VAMOS!


Gente da Serra: Modos de Vida entre a Cidade e a Aldeia (2000). No âmbito de uma perspetiva compreensiva da realidade social, o objectivo da investigação é caracterizar e elucidar os modos de vida de uma população que escolheu Lisboa como destino privilegiado, quando tomou a iniciativa de partir, em busca de oportunidades mais satisfatórias de vida e trabalho para si e para os seus.
Complementarmente, visam-se dois outros objectivos: por um lado, produzir conhecimento tanto quanto possível com os protagonistas, promovendo a sua autoexpressão a fixar pela escrita; por outro, contribuir para a inclusão e visibilidade dos grupos sociais menos favorecidos em matéria de interesse científico, apesar da capacidade de iniciativa demonstrada e da sua importância enquanto segmento social e força de trabalho.
Obra não publicada, pode ser consultada na biblioteca da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, bem como em bibliotecas locais. (1)

Lisete de Matos é Presidente da Assembleia-Geral da União Progressiva da Freguesia do Colmeal. Participa no blogue http//upfc-colmeal-gois.blogspot,pt e n’ O Varzeense.
Sentimos muito orgulho em a ter connosco. É um privilégio. É um exemplo para todos nós. O concelho de Góis deve orgulhar-se de ter entre os seus residentes uma tão ilustre filha das suas aldeias.

A. Domingos Santos
Fotos de A. Domingos Santos e facebook CMG
(1) De um apenso ao livro apresentado 

16 março 2019

Conversa de amigos. Um livro. Um autor.




As conversas são como as cerejas, sempre se ouviu dizer. Mas, isso era no tempo em que as pessoas falavam, porque hoje comunicam, teclam e… 

Numa recente visita a uns amigos, às tantas falava-se de livros, de Saramago, do seu modo de escrever, da dificuldade na leitura e de uma sua obra que tem por título “As Intermitências da Morte”. Que eu não lera. A curiosidade levou-me a adquiri-lo poucas horas depois e já ultrapassei as primeiras vinte páginas.
É uma recente edição na Porto Editora.

Espero não cometer nenhuma infracção grave face aos impedimentos legais de reprodução, mas não resisto a transcrever as primeiras linhas

“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.”

José Saramago está presente na Biblioteca da União Progressiva no Colmeal, com algumas das suas obras.

Das badanas do livro acima referido retiramos a seguinte informação:
“Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em Abril de 1975 é nomeado director-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projecto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca.
Até 2010, ano da sua morte, a 18 de Junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.”

Na União Progressiva da Freguesia do Colmeal, associação regionalista do concelho de Góis, fundada em 20 de Setembro de 1931, desempenhou o cargo de 1º Secretário da Direcção, de 18 de Janeiro de 1948 a 17 de Dezembro de 1950 e de 24 de Abril de 1954 a 27 de Dezembro de 1955.

E tal como Saramago, leia, desenvolva o seu gosto pela leitura.

A. Domingos Santos

11 março 2019

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA NA OBRA DE JORGE VILAÇA.




Era uma vez um pintor que andava a pintar a serra e disseram-lhe assim: pinta esta serra como se vê, e o pintor disse à serra: vou-te pintar! E a serra sorriu e pôs-se a dançar; vestiu-se de fogo e pôs-se a gritar; cobriu-se de folhas e foi-se deitar.
Dormiu com o pintor e pôs-se a chorar.
Contou-me um segredo e pôs-se a sonhar.
Ora então dizei-me como hei-de pintar.
A serra tem alma; ah, isso tem.
A serra fala, goza, faz-se bela.
A serra engravida; a serra dá à luz
A serra contou-me que me há-de levar.
A serra falou-me que me há-de guardar,
Que me há-de gerar.
Quem quiser ver a alma da serra, suba! E pergunte aos guardadores de gado, mas dizei-me meus senhores; valei-me olhadores: como hei-de eu pintar.
Como é que faz um monte a dançar? Como é que se pinta um ramo a abanar? Como hei-de eu pintar?
(…)
Obrigado ó serra por tudo o que me contaste nestas letras
Porque digo serra não sei pintar a serra a dançar. E assim fica dito
Que a serra é viva e que não se deve queimar.
Hoje, 26 de Maio de 1982, às 11 da noite, pintando a serra do Açor no
Lugar das Torrozelas, boa noite.
Boa noite.
(…)
Este bocado não foi semeado à data que eu falo. Guardado para quem o há-de comer. Bocado vou-te comer. Vou aqui pôr estas letrinhas para te enfeitar. É como se fosse um colar. E que dês muito feijão a quem te vier semear. E saúde e gozo e alegria a quem aqui cultivar. Longa e serena vida a quem aqui trabalhar. Bocado, que dizes mais? Já dormes? São 4 e um quarto da madrugada do dia vinte e seis de Maio de mil novecentos e oitenta e dois. Agora assino aqui: Ti Jorge do Açor (1)
Estes são alguns dos versos que fazem os bocados (cômoros) na obra acima incluída. É um mural de Jorge Vilaça existente numa sala da Câmara Municipal de Arganil. Já o mostrava no livro “Dos Objetos para as Pessoas” (2), por o considerar tão atraente e expressivo da beleza singela da serra. Vigia de um dos cantos superiores do espaço, como que a lembrar aos seus ocupantes o encanto da paisagem e o desencanto das suas gentes que, ao tempo, persistiam em partir.
A primeira vez que ouvi falar do “Ti Jorge do Açor” foi ao então presidente da Câmara Municipal de Arganil, Prof. José Dias Coimbra. Corria o início dos anos oitenta e o artista tinha acabado de pintar o painel que enriquece o salão nobre daquele município. É uma pintura alusiva à história do concelho, produzida pelo Jorge enquanto bolseiro da Direção-Geral da Educação de Adultos, organismo onde eu trabalhava. Daí a menção ao seu nome e talento, no âmbito de uma qualquer reunião de trabalho.

Sim, mas quem é o Jorge? Amante da serra e serrano do coração, Jorge Manuel Torres Vilaça (1940-2001) nasce em Barcelos. Devido à falta precoce dos pais, passa por internatos e seminários, estuda filosofia e teologia … Depois de ter estado em França, onde foi operário e frequentou os meios socio artísticos da época, regressa a Portugal em 1974.

Já com a segunda mulher, Ghyslaine Fritz, chega ao Colmeal e seguidamente ao Açor, em 1979, através do amigo Ricardo Reis, neto de Maria Adelaide Nunes e António Reis (Colmeal) e afilhado de Ilda Reis e José Saramago, prémio Nobel da literatura. Procura as raízes ancestrais, a liberdade, o silêncio, e uma vida comunitária em harmonia com os outros, com a natureza e com o universo. A partir do Açor, irradia a sua ação pela região.
Em 1984, quando o filho mais velho atinge a idade escolar, o Jorge regressa, digamos que definitivamente, a Vales de Baixo, Tomar, onde já tinha vivido. Porém, nos finais dos anos noventa, volta transitoriamente à serra do Açor. Na altura, já assinava “Bemaventuradojorge”, “por considerar uma bem-aventurança ter-se convertido à imaterialidade dos sonhos” (3). Trabalhou em Arganil, e manteve, no Piódão, um atelier/residência artística. De visita ao Açor, almoçou cá em casa, a convite do meu pai, que tinha pelo Jorge um grande apreço, depois de lhe ter comprado uns miniterrenos e vendido a “casa velha”, onde tinha nascido. Procurei diversificar a ementa, mas, por delicadeza ou não, apenas a filha que acompanhava o casal fez escolhas exclusivamente vegetarianas.
A viver da pintura desde o regresso a Portugal, Jorge Vilaça expõe individual e coletivamente um pouco por toda a parte, no pais e no estrangeiro, nomeadamente em França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça e Espanha.






Ao mesmo tempo, promove iniciativas de cruzamento e complementaridade artística, com destaque para as performances “sonzacors”, “Jazzacores” e “Poesia-a-cores”, onde, dito de modo muito simplista, se tratava de pintar a música ou a poesia e a palavra, tocando-as a elas e aos participantes. Era a pintura a interagir com outras linguagens, embora o Jorge, que privilegiava o papel da visão e do olhar para a perceção do essencial, considerasse que as palavras podiam desvirtuar os sentidos, razão pela qual as suas obras tendem para não ter título. Mas podem incorporar pinceladas de escrita e poesia, como vimos.


Multifacetado, Jorge Vilaça faz incursões na ilustração, na escultura, na instalação e no design, ao mesmo tempo que, apostado na partilha da arte, organiza ateliers e cursos formativos.


O legado público de Jorge Vilaça na região é significativo. Para além das obras já referidas, ocorrem-me: em Arganil, um mural na Santa Casa da Misericórdia, os painéis em azulejo no mercado municipal e na entrada do edifício da GNR, várias obras no Piódão; em Góis, Cadafaz, a restauração pictórica da capela e da igreja; no Buçaco, um mural no hotel Eden. Legado não menos importante é, de um outro ponto de vista, a memória que muitos guardam da autenticidade, desapego, delicadeza e sabedoria do “Ti Jorge do Açor”, Jorge Vilaça, “Bemaventuradojorge” ou simplesmente Jorge para os amigos e vizinhos. Em contrapartida, também a serra terá influenciado o conjunto da sua obra.





Em setembro passado, um grupo de amigos, em articulação com a família e com o apoio da Camara Municipal de Tomar, organizou a exposição retrospetiva “Jorge Vilaça. O dom de pintar o Invisível”, contexto em foi publicado o livro Bemaventurado Jorge, fonte a que tenho vindo a recorrer e que integrará o acervo da biblioteca da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.


“Homem e artista acomodavam-se num único corpo pelo poder de uma sólida visão interior, e o todo era cerzido de forma tão coerente, intensa e poética que era difícil distinguir, a cada momento, quem era quem. (…) Que esta e outras exposições retrospectivas possam, enfim, fazer justiça – ainda que tardia, ao Bem Aventurado Jorge, resgatando do limbo do esquecimento a sua obra visionária, inspirada e poliédrica.” (4).
Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 1 de março de 2019.


(1) Jorge Vilaça, in Raul Sousa (Coord.), Bemaventurado Jorge. Homenagem a Jorge Manuel Torres Vilaça, Artista plástico, Poeta e Visionário, Tomar, 2018. Com exceção para as memórias pessoais, a informação e a maior parte das imagens inseridas neste texto foram retiradas desse livro.
(2) Lisete de Matos, Dos Objetos para as Pessoas, Colmeal, ed. da autora, 2010, p. 103.
(3) Agostinho Costa, in Raul Sousa (Coord.), op. cit..
(4) Paulo Ramalho, idem.