sexta-feira, 16 de agosto de 2019

ALMOÇO 88º ANIVERSÁRIO DA UNIÃO



Caros Associados e Amigos da União Progressiva da Freguesia do Colmeal
No dia 28 de Setembro (sábado), pelas 12:45 horas, iremos comemorar o 88º aniversário da nossa colectividade, com um almoço na Quinta da Feteira, em Fazendas de Almeirim.

De Lisboa, a partida será às 08:00 horas, de Sete Rios, junto à entrada do Jardim Zoológico. Do Colmeal, pelas 08:00 horas, do Largo D. Josefa das Neves Alves Caetano.
Como habitualmente e para os que o desejarem, disponibilizaremos transporte gratuito – 2 autocarros em Lisboa e 1 no Colmeal, proporcionando um percurso mais cómodo, agradável, e também pela possibilidade do convívio que permite estabelecer.
Para quem se deslocar de Lisboa, está prevista uma paragem em Salvaterra de Magos, para o pequeno-almoço e visitar a Falcoaria Real e a Aldeia de Escaroupim.

Preço por pessoa: Adulto 30,00€; Crianças: até 5 anos, grátis; entre 6 e 10 anos, 50%.
Para vossa apreciação apresentamos abaixo a ementa do almoço. 
Agradecemos o favor de efectuarem a inscrição, tão cedo quanto possível e o mais tardar até ao dia 24 de Setembro, para um dos seguintes contactos:
No Colmeal – Anabela Domingos / José Álvaro – 96 7549505 / 235 761 490 (noite), Catarina Domingos – 93 3344904; em Lisboa – Maria Lucília – 91 4815132 ou Artur da Fonte – 93 8663279. Ou se preferir a via electrónica, para upfcolmeal@netcabo.pt

Contamos convosco, neste dia especial para todos nós, em que a União Progressiva da Freguesia do Colmeal comemora 88 anos.
A vossa presença é muito importante. Esperamos por vós!

A Direcção

EMENTA
ENTRADAS NO EXTERIOR
Salgados diversos, Enchidos grelhados, Torricado, Canapés variados
Gin Tónico, Martini, Favaios, Vinhos maduros Branco e Tinto, Sumos, Imperial e Águas
SOPA
Sopa da Pedra ou Creme de Alho Francês com bacon e coentros (opção)
PEIXE
Bacalhau Dourado com batatinhas, azeite e pão ralado
CARNE
Escalopes de Porco com cogumelos, ananás e arroz árabe
SOBREMESA
Gelado dois sabores com frutos vermelhos ou Salada de Frutas (opção)
CAFÉ E DIGESTIVOS
Café Whisky e Aguardentes (novos), Licor de Whisky
Licor Nacional, Amêndoa Amarga e Vinho do Porto
LANCHE BUFETE às 17:30
Caldo Verde
Salgados, Bacalhau com natas, Carnes Frias (perna de porco e de perú no forno fatiadas), Empadão de carne, Batata Pala-Pala Queijos Nacionais, Salada de Frutas e Doces

BOLO COMEMORATIVO
          ESPUMANTE
Vinho Branco e Tinto                                                                                                           MÚSICA AO VIVO        
Sumos, Imperial e Águas                                                                                   BAR ABERTO até às 19 horas                                                                            


Fragmentos da História do Colmeal

E do pouco fizeram muito!


Nas idas “à terra”, sempre em época de festa, a atenção concentrava-se nos primos, nos amigos, no Largo, no rio… nunca tinha reparado nos nomes das ruas. Tudo tem o seu tempo.

Hoje, nos passeios sem pressa, por um Colmeal tranquilo, o olhar adulto cruzou-se com a toponímia. “Fulano de tal, Regionalista”. Curioso… aquele ali também é “Regionalista”. Oh… e mais este… e outro ali mais adiante!

«Mãe, o que é um Regionalista?» não a definição que vem no dicionário, mas aquela que ali nos espreita, em cada nome de rua, como um título académico, ou uma profissão. Suspeitava que, ali, devia ter um significado especial, que lhe escapava. Tudo tem o seu tempo.

Então, como quem conta uma história, ou uma lenda, mas de gente que ficou lenda fazendo História, contei-lhe.

Contei-lhe que houve um tempo em que o Colmeal era uma aldeia “perdida no meio da Serra”, sem ligação ao exterior. Estradas não havia, apenas carreiros de passagem. O isolamento era total.

O Colmeal era, apenas, um pequeno ator, lutando para sobreviver num cenário sombrio, muito pouco animador: no grande palco da História, Portugal tentava recuperar do atraso civilizacional provocado pelos atropelos sofridos, desde o início do século XIX – 3 invasões francesas, tendo uma delas atravessado a região de Góis e muita destruição e vítimas fez à sua passagem[1], saída da corte para o Brasil e sucessivas revoltas em todo o território, que culminaram na revolução liberal. Dois anos depois, a independência do Brasil, deixando o reino sem esta importante fonte de receita e, no final desta sequência de infortúnios, sete anos de guerra civil devastaram o país, de ponta a ponta, semeando ódios dentro das próprias famílias. Sete anos! Conseguimos imaginar?

A acalmia, a Regeneração, como ficou conhecida, chegou com o duque de Saldanha, através de um golpe político-militar. Neto do marquês de Pombal, herdou-lhe o espírito iluminado: era urgente ultrapassar o atraso económico e tecnológico em que o país se encontrava, aproximando-o das outras nações civilizadas. Com ele no governo, Portugal terá, pela primeira vez, um ministro das obras públicas – o engenheiro militar, António Fontes Pereira de Melo, grande adepto do progresso.

O atraso era tão grande, havia tanto a fazer e, sem as riquezas do Brasil, não ia ser fácil. Mas estava lançada a semente da insatisfação pelo atraso em que se vivia.
Para as gentes da Beira-Serra, 1889 foi um ano de esperança – iniciou-se, finalmente, a construção da “Estrada do Vale do Ceira” apoiada no entusiasmo da industrialização, que prometia desenvolvimento do interior, ligando Góis a Cebola (atual S. Jorge da Beira), passando pelo Colmeal.

No mesmo ano (1889) iniciou-se também a construção do caminho de ferro que ligaria Coimbra a Arganil, passando por Lousã e Góis. A empresa construtora até tinha solicitado a substituição da via reduzida por uma via larga, com a ideia de prolongar o ramal até à Covilhã!


Mapa dos Caminhos de Ferro Portugueses, publicado pela Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal (1 de Janeiro de 1895) [2]
A maldição do isolamento seria exorcizada. As gentes não precisariam mais de ir vender barato o seu esfoço para o Alentejo, em ranchos de “ratinhos”, ou encher-se de males de paludismo, na monda do arroz do Ribatejo, em ranchos de “gaibéus”.   A nossa região teria indústria e haveria trabalho para todos!

A construção da via férrea evoluía a bom ritmo, quando rebentou a crise financeira de 1890, que empurraria o reino para a bancarrota. Os trabalhos foram interrompidos e a Companhia declarou falência. Após 15 anos de interrupção, recomeçaram as obras do ramal e, finalmente, inaugurou-se o troço Coimbra-Lousã.[3] E, em 1930, a esperança renasceu, com a inauguração do troço Lousã-Serpins – o comboio estava quase a chegar a Góis!

Nem estrada, nem comboio! Se tivessem sido concluídos, outra seria a história da região! Mas, da estrada, apenas 500m foram construídos e o comboio ficou por ali, por Serpins, tão perto e tão longe de Góis.

As nossas gentes pareciam condenadas ao isolamento.

O início do séc. XX não foi mais animador: mudança de regime político, instabilidade política, 1ª Guerra Mundial, graves crises financeiras… e, sem verbas, como sabiamente diz o povo, “manta de pobre é curta – tapa a cabeça, destapa os pés!”

Assim, sem estradas e sem comboio, o Colmeal da década de 30 continuava longe de tudo: “até Góis eram 4h a andar, havia uma estrada para carros de bois e, às vezes, atalhávamos por carreiros, a corta-mato; para Arganil eram 3h, subíamos ao Cabeço do Gato e depois descíamos para Arganil. O correio chegava a Góis e alguém do Colmeal ia lá buscar a «mala», passava pelo Cadafaz e levava também a deles e ia entregar a Góis as malas das duas freguesias; no regresso era igual.”[4]

“Desconhecia-se o telefone, os registos, valores declarados e encomendas postais.”[5] As cartas eram o único meio de comunicação e, sem «registos» ou «valores declarados», para aqueles que trabalhavam em Lisboa ou que tinham emigrado, não havia forma segura de enviar dinheiro ou pequenas encomendas à família. O povo não tinha conta bancária, mas também não tinha dinheiro para lá pôr.

A comodidade de abrir uma torneira em casa, para um copo de água ou um banho, é hoje tão banal que nem pensamos no valor do gesto, mas, naquele tempo, no Colmeal não existia água canalizada, nem em casa, nem em parte alguma – rodilha e cântaro faziam parte da rotina diária das mulheres e das crianças, para garantir à família este bem essencial. A água consumida em casa era recolhida em fontes de chafurdo, ou de mergulho, isto é, não tinham “bica”, mas apenas “um charco de água onde se mergulhava o cântaro ou então, com a ajuda de uma caneca ou um caneco dos da resina, se retirava água para os cântaros de barro, comprados nas feiras, ou para os de zinco, mais leves e que não se partiam… . Essas «fontes», onde havia rãs a coaxar e sanguessugas, eram focos de doenças”[6].

                                                                                                                    
Mas, nesses tempos, quem falava de salubridade ou de problemas de higiene? «O que não mata, engorda» ouvi dizer muitas vezes em criança.

A agricultura pouco produzia. Ainda hoje o podemos testemunhar: escava-se um palmo de terra e logo aparece a rocha. A terra boa era insuficiente para todas as famílias, pois, naquele tempo, o Colmeal era muito povoado[7]. Assim, “a terra era o bem mais precioso, tanto do ponto de vista material como simbólico, representando sobrevivência e rendimento, segurança e prestígio social. Era um fator identitário tão importante, que ainda hoje se chama terra ao local de nascimento”.[8] Cada palmo de terra era cuidadosamente cultivado, mas, mesmo assim, não chegava para alimentar uma casa de família.

Depois, há produtos que a terra não dá – vestuário, utensílios –, bem como alguns alimentos, e que tinham de ser comprados. Fazendo jus ao nome da terra, mel não faltava, mas o mimo do açúcar, cuidadosamente guardado para ocasiões festivas, não se podia cultivar. Por isso, o açúcar, o arroz e o apreciado bacalhau, eram prendas que carinhosamente se levavam de Lisboa para oferecer aos parentes e amigos. No Colmeal, também poderiam ser comprados, mas precisavam de dinheiro, que não tinham.

Assim, era comum os homens migrarem, durante meses, para a ceifa no Alentejo, para a apanha da azeitona e da uva ou para a monda do arroz, no Ribatejo. Quando regressavam, levavam cosidas no forro do colete as notas com que pagariam as dívidas na loja ou tentariam comprar um palmo de terra que desse mais alimento à família. Eram longos períodos de trabalho muito duro, horas e horas curvados, na ceifa ou na monda do arroz, debaixo de um sol impiedoso, mal pago e mal-aceite pelas populações locais que, pejorativamente, lhes chamava “ratinhos” (Alentejo) ou “gaibéus” (Ribatejo), acusando-os de boicotar a sua luta por melhores salários, ao aceitarem meia dúzia de tostões por um trabalho tão violento. [9] Podia ser pouco, mas era dinheiro.

Outros, partiam para Lisboa, onde se dedicavam por períodos mais prolongados a atividades diversas (guardas noturnos, moços de fretes, ou de mercados abastecedores, engraxadores, varredores de rua – os «Almeidas»). Lisete de Matos recolheu um relato pungente da mulher de um desses homens que, ainda menino de doze anos “foi para Lisboa sem lá ter ninguém, coitadinho. Pediu a um senhor (…) para o levar para Lisboa, porque queria ir ganhar dinheiro para ajudar a mãe e as irmãs. Como ele não tinha dinheiro para a passagem, o senhor disse-lhe: «Olha, Lisboa é muito grande e tu ainda lá cabes. Eu empresto-te o dinheiro e, um dia, quando o ganhares, pagas-me»”[10]

No Colmeal (sede da freguesia) havia duas escolas, masculina e feminina, mas a escolaridade obrigatória (4 anos para rapazes; 3 anos para raparigas) era frequentemente contornada, porque todas as bocas comiam e todos os braços faziam falta para garantir o sustento. Diz-se que “trabalho de menino é pouco, mas quem o perde é louco”. Alguns, atreviam-se a querer ir mais longe: «Quando tinha 14 ou 15 anos, decidi que queria ir para Lisboa, trabalhar na Companhia dos Telefones, depois da tropa, mas precisava fazer a 4ª classe. Desafiei o Manuel “da Eira”, que já era casado e tinha um filho ou dois, e fomos falar com a professora Irene – rica professora! – que nos incentivou e ajudou a estudar para nos preparar para o exame da 4ª classe “de adultos”. Ao Manuel custou mais porque, como já era chefe de família, trabalhava muito e estava muito cansado, quando nos juntávamos com a professora para estudar. Quando estávamos preparados e fomos a Góis, ele fez a 4ª classe mas, a mim, não me deixaram fazer a oral porque ainda não tinha idade para fazer o exame “de adulto”. No ano seguinte tive de ir a Bordeiro, à Direção Escolar, tratar da documentação para fazer a oral. Depois, na véspera do exame, fui com o meu pai até ao Rolão (ainda não havia estrada) e, depois, fomos de camioneta até Coimbra; ficámos numa pensão, para fazer a prova oral na manhã seguinte e regressar ao Colmeal ainda nesse dia.»[11]

Assim, salvo felizes exceções, o analfabetismo imperava e refletia-se nas cantigas à desgarrada:

Amor não me escrevas cartas
Bem sabes que eu não sei ler.
Quando sentires saudades
Perde um dia, vem-me ver

Escrevia-te uma carta
Se tu a soubesses ler.
Vais dá-la a ler a outro
Tudo se vem a saber.[12]

A eletricidade não tinha passado da sede do concelho. Por isso, a circulação de noite, nas ruas, era iluminada por lanternas de azeite e, “como iluminação caseira, utilizava-se a candeia alimentada a borras de azeite ou petróleo”[13] Enquanto crianças, essa ausência de luz alimentava a imaginação e tornava muito credíveis as personagens das histórias dos avós, sobretudo a Dama Pé-de-Cabra que atormentava o Sr. Padre André, nas suas deslocações pela serra, para levar consolo a moribundos.


                                             Lanterna de rua,
                                                       Museu particular de Artur da Fonte (Colmeal)
                              
Quando alguém adoecia, com doença séria, enviava-se um mensageiro a pé, chamar o médico, a Góis, Arganil ou Pampilhosa, que se deslocaria à aldeia, a pé ou a cavalo. Se precisasse de remédios da farmácia, um mensageiro teria de repetir o percurso. Uma perna partida e lá teria de se transportar o acidentado em padiola, levada por 2 homens, pelo menos, até Góis. Se fosse criança, iria às cavalitas: «devia ter 4 anos quando parti a perna. O primo Carlos “da Eira” e o Zé Brás é que me levaram às cavalitas até ao Rolão e, depois, de camioneta até Góis. No inverno de 1954/55, houve um surto de sarampo e tosse convulsa. A tua tia e a tua irmã, pequenitas, foram internadas em Góis. A tua tia, lá morreu. Tu tinhas 6 meses e, como o estado se agravava, a avó levou-te à cabeça numa cesta, aquela cesta funda que levava quando ia regar, para depois trazer couves, ou o que precisasse – fez-te uma caminha lá dentro. Eu era pequenito, mas ela levou-me para não ir sozinha, porque havia muita neve e o caminho ficava perigoso e solitário. atravessava-se o rio para a Candosa, depois passava-se do lado de baixo do Cadafaz e mais adiante atravessava-se para a Sandinha; num local chamado “trouxas da Sandinha”, escorregaram-lhe as tamancas e a cesta voou em direção à ribanceira que descia para o rio. Foi travada por uma pedra.» [14]  Foi um “acidente de ambulância” e a ambulância era a minha avó. Agora, à distância de muitos anos, parece uma piada de mau gosto…



Sim… de facto, este Colmeal parece o cenário de um filme sobre a Idade Média. Mas ainda era assim, o Colmeal da minha infância!

O que eu não sabia, nessa época, era que alguém lutava já, para mudar o estado das coisas.


Lembro-me dos piqueniques que fazíamos na Serra de Monsanto, com “as pessoas lá da terra”. Havia muitas crianças como eu e era uma festa! Outras vezes, íamos todos de excursão, conhecer os arredores de Lisboa, até bem longe, por terras que, de outro modo, naquele tempo, não teríamos oportunidade de conhecer.  Nazaré, Areia Branca, Peniche, Ericeira, Palmela… são memórias a preto e branco, no álbum dessa época. Eram algumas das iniciativas da “União” – proporcionando momentos de convívio, uniam-se “as pessoas lá da terra”, consolidava-se um sentimento de pertença, angariavam-se fundos, que permitiriam concretizar sonhos… estradas que pusessem termo ao isolamento do Colmeal e das suas aldeias, água canalizada em chafarizes, luz elétrica, ruas pavimentadas, muros de segurança… tantos sonhos!

Tudo tinha começado, havia mais de 20 anos, com um sonho – o sonho, não de um político ou de um autarca, mas de um humilde guarda-noturno, Abel Joaquim de Oliveira que, em 1931, percebeu que a via para o desenvolvimento do Colmeal teria de passar pela união das suas gentes. Mobilizados para um objetivo comum, haviam de conseguir! “Inspirado no exemplo das atividades de outras agremiações regionalistas, que os jornais de Arganil publicavam semanalmente. Interessou-lhe aquela doutrina e, para conhecer bem o assunto, prontificou-se a fazer parte da direção do Grémio da Comarca de Arganil”[15]. Naquela época era assim que se aprendia – não havia “cursos de formação”.

       
        Abel Joaquim de Oliveira  e  José Antunes André
        Fonte de imagem: António Santos

Agora, já sabia “como fazer” e, partilhando-o com o seu conterrâneo José Antunes André, ambos se lançaram na cruzada de mobilizar os colmealenses para a constituição da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, que seria fundada nesse mesmo ano (20/09/1931), propondo-se lutar pelo desenvolvimento social e cultural de toda a freguesia.
 
Tal como o próprio nome indica – União – o desenvolvimento pretendido ficaria dependente da solidariedade e do apoio moral e material de todos, independentemente da aldeia onde nasceram, «pois unidos e organizados muito mais e melhor podem fazer com menos esforço»[16].

O lema incluído no primeiro brasão é muito curioso: Progresso e Instrução, apresentados como dois objetivos distintos – atacar em duas frentes! Como se a instrução perdesse força, se incluída no “Progresso”, ao nível das estradas, canalizações, eletricidade, pavimentação… Revela o valor dado à instrução, ao combate ao analfabetismo, na esperança de um futuro melhor para os filhos.

Quando falamos de “Regionalistas”, é destes homens que falamos. São os nossos heróis, eles e os que se lhes juntaram ao longo de décadas, e deram força à União, permitindo concretizar os sonhos que se julgavam impossíveis.

A eles devemos, como primeira conquista, logo em 1932, a extensão do serviço de valores declarados à estação de correios do Colmeal e, ainda nesse mesmo ano, foi construída a ponte sobre o ribeiro do Soito «totalmente a expensas da União Progressiva, tendo custado elevada importância, para as magras possibilidades existentes. Mas valeu a pena tanto sacrifício, porque além de resultar em obra útil, foi a primeira da coletividade e é um marco inesquecível no seu vasto historial»[17].

Largo da Fonte, Colmeal, 1937 Fonte de imagem: António Santos

Em 1937, nova conquista: o tão desejado abastecimento de água potável, chegava, através de chafariz, ao Largo da Fonte e à Cruz da Rua.













No ano seguinte, tendo desistido de esperar pela “Estrada do Vale do Ceira”, consideraram que o mais acertado seria ligar o Colmeal à Estrada da Pampilhosa, derivando desta na Selada do Braçal e anunciavam que, em Junho desse ano (1938) se iniciaria a marcação do terreno e até mesmo, possivelmente, dos trabalhos de construção. Porém, «por imponderáveis estranhos à colectividade»[18] o local de saída da estrada, inicialmente previsto, foi desviado umas dezenas de metros, para junto de um estabelecimento comercial ali existente, conhecido pela “Ti Martinha do Rolão” «ocasionando a abertura de enorme e desnecessária trincheira, autêntico aborto, e que absorveu, na sua abertura, todo o capital que a agremiação tinha e não tinha[19]


Não desmoralizaram e, «alguns desses grandes obreiros da nossa freguesia, chegaram a ficar “como principais fiadores e pagadores dos empréstimos contraídos” pela União, visto colocarem os interesses comuns acima dos particulares e pessoais»[20].

Aos poucos, com o lucro de festas regionalistas, piqueniques, subscrições públicas, quotas dos sócios e dádivas, as obras iam avançando e a estrada aproximava-se do Carvalhal. Mas, por dez longos anos, as obras pararam. Dizia-se mesmo que «a estrada não sai do Carvalhal».

Pelo caminho, obras urgentes iam avançando… Aldeia Velha teve também o seu chafariz com depósito, incansáveis diligências para fazer chegar o telefone e uma Estação de Correios, calcetar as ruas, instalar um Posto Médico no Colmeal[21],  e tantas outras obras com que nos cruzamos, em pequenas placas de memória “UPFC”, como o muro de proteção no Estreitinho (Colmeal). Hoje, passamos por ela, despreocupadamente, sem pensarmos na segurança que este muro terá dado a quem por ali circulava diariamente – adultos, crianças, rebanhos – sem o perigo de cair de grande altura para as terras cultivadas que ficam lá em baixo.

Secção do muro construído pela UPFC, Estreitinho, Colmeal


Toda a energia e boa vontade da União não eram suficientes para atacar em tantas frentes,

tal era o atraso! Todas as ajudas eram bem-vindas e, gestos como o do então Presidente da Câmara, Acácio Mendes da Veiga, além de bem acolhidos, muito dignificam e honram quem os pratica – entregou à União o valor de 1900$00, que lhe eram distribuídos para despesas de representação, mas de que abdicou em favor da construção da estrada.


A esperança renasceu em 1953 e 1954, com duas comparticipações do Ministério das Obras Públicas, que permitiram retomar as obras em grande velocidade, chegando rapidamente ao Roçaio.

Depois, ainda foi necessário remodelar a antiga ponte e construir o troço final, até à entrada do Colmeal (Lombo das Vinhas).

Antiga ponte
Fonte de imagem: António Santos

Em Julho de 1967, o Boletim “O Colmeal” dava a «Grande notícia!... Foi comparticipada a abertura e prolongamento da estrada do Lombo das Vinhas até ao Largo, com a quantia de 134 contos»[22]. A estrada iria, finalmente, chegar ao Largo da Fonte – concluía-se, em 1969, um sonho iniciado havia mais de 30 anos!

Quanto à tal estrada “do Vale do Ceira”, que ligaria Góis a Cebola (S. Jorge da Beira) foi recomeçada em 1952 e levou ainda mais vinte anos a chegar ao Colmeal. No total, foram 83 anos![23]
 
No início de 1972, ainda se apelava à sua conclusão, em notícia que contém uma reflexão curiosa pela sua atualidade, ao considerar que o futuro da região «bem poderá ser o turístico, dadas as frondosas florestas aqui existentes, o magnifico ar e a saborosa truta do rio Ceira”[24]. Lamentavelmente, depois de 2017, das “frondosas florestas” restam as cinzas… Porém, como disse um homem muito sensato, «a questão não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece».

Conseguiremos ser dignos do legado daqueles homens que do nada conseguiram fazer tanto?

É que, “se não fossem as ditas pequenas coletividades, algumas localidades do concelho estariam hoje em vias de extinção”[25]






Fontes de imagens: António Santos

Mais do que uma placa com nome de rua, merecem a nossa homenagem, continuando o seu trabalho com o mesmo altruísmo, com a mesma generosidade, com o mesmo empenho.  

Deonilde Almeida
Julho.2019





[1]No ano de 1811, depois da passagem dos franceses, aquando das invasões, pelo nosso concelho, as tropas inglesas, que os perseguiam, também fizeram "toda a espécie de tropelias e latrocínios", de acordo com relato de uma testemunha. Em 14 de Março desse ano, regista-se a entrada das tropas francesas na povoação de Ádela, seguindo depois por Açor, Colmeal, Sobral, em direção a Celavisa. Foram cometidas muitas atrocidades.”

[2] Fonte do mapa:  biblioteca nacional digital,  http://purl.pt/3367/2 , acedido em 22/06/2019
[3] “Nos anos seguintes foram feitas várias tentativas de prolongar a linha até Arganil, mas uma série de fatores (…) inviabilizaram o projeto. (…) Foi feito um contrato de construção com a Companhia Portuguesa, mas esta empresa alterou o traçado da linha, encarecendo-o e gastou em apenas 6 km o dinheiro que estava orçado para chegar da Lousã a Arganil.”, In http://www.metromondego.pt/LinkClick.aspx?fileticket=pXizQ0klcWM%3D&tabid=122 , acedido em 22/06/2019

[4] Testemunho de Américo de Almeida Santos (Colmeal)
[5] In Boletim “O Colmeal”, nº 164, Julho/Agosto de 1980
[6] Testemunho de António Domingos Santos
[7] “Diz Pinho Leal que a freguesia tinha 1757 habitantes em 117 fogos em meados do século XIX; o ilustre goiense, J. A. Baeta Neves diz que em 1897 são 340 fogos com uma população total de 1465 habitantes.” A. Domingos Santos, in https://upfc-colmeal-gois.blogspot.com/search?q=21+janeiro+2008, acedido em 23/06/2019
[9] «Às vezes, à vila, chega gente vária. São pedras atiradas a um lago adormecido. Chegam “ratinhos”, mercenários das ceifas, que entram e saem das vendas com uma pressa amedrontada, apenas para mercar toucinho e uma onça de tabaco, e os olhos alentejanos seguem com ressentimento essa frágil e tenaz vaga de gente, que atravessa províncias para encontrar quem lhes compre o esforço», Fernando Namora, O trigo e o joio 
«Um rapaz não precisa de ir às sortes para ser homem: é gente quando vai na malta. Os «ratinhos» falam a uma junta de bois, enche-se o carro de farnel para toda a ceifa da companha, e aí vão. A boroa, mesmo bolorenta, far-se-á durar todo o tempo, como o conduto de chouriço e toicinho.(…)», Fernando Namora, Casa da Malta
«Estão agora dois grupos de trabalhadores frente a frente, dez passos cortados os separam. Dizem os do norte, Há leis, fomos contratados e queremos trabalhar. Dizem os do sul, Sujeitam-se a ganhar menos, vêm aqui fazer-nos mal, voltem para a vossa terra, ratinhos. Dizem os do norte, Na nossa terra não há trabalho, tudo é pedra e tojo, somos beirões, não nos chamem ratinhos que é ofensa. Dizem os do sul, São ratinhos, são ratos, vêm aqui para roer o nosso pão. Dizem os do norte, Temos fome». José Saramago, Levantado do Chão

[10] Matos, Lisete Paula Almeida de, Gente da Serra: Modos de Vida entre a Cidade e a Aldeia – Dissertação de Mestrado em Sociologia, Universidade Nova – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 2000, p.76
[11] Testemunho de Aníbal de Almeida Santos (Colmeal)
[12] In poema “Carta”, Cantares da Beira Serra, Maria da Conceição de Oliveira Dajan (coord.), Ed. Valceira-Associação de Desenvolvimento Rural e Proteção Ambiental do Vale do Ceira, Fajão, 1998, p.57
[13] In Boletim “O Colmeal”, nº 164, Julho/Agosto de 1980
[14] Testemunho de Aníbal de Almeida Santos (Colmeal)
[15] “O Colmeal”, Ano XI, nº 112, Julho,1971, p.2
[16] Alves Caetano, in «Gazeta das Serras», 25-10-1938, citado in Boletim “O Colmeal”, Nº 162, Maio de 1980, Arquivos da União
[17] Jornal o Colmeal, nº 112, ano XI, Julho 1971
[18] Jornal o Colmeal, nº 112, ano XI, Julho 1971
[19] Idem
[20] Idem
[21] « … aproveito a ocasião para felicitar a União Progressiva da Freguesia do Colmeal (…) pelo seu esforço coroado de êxito pela obtenção do mobiliário e material cirúrgico destinado ao Posto Médico» (Ofº nº 836 da CMG de 28/08/1954. Lamentavelmente, «poucas foram as visitas médicas efetuadas ao Colmeal, sendo uma das causas, se não mesmo a principal, a falta de uma via rápida entre a nossa sede de freguesia e Góis.», Boletim O Colmeal, nº 112, ano XI, Julho 1971. Entenda-se que, naquele tempo, “via rápida” não tinha ainda o significado que, com a evolução rodoviária, viria a adquirir.
[22] É pertinente considerar que o início da Guerra Colonial, em Fevereiro de 1961, tenha prejudicado a disponibilização de verbas do Orçamento de Estado.
[23] Costa, Fernando, citado por A. Domingos Santos, Fernando Costa, Regionalista e jornalista serrano, in Arganília (Revista cultural da beira serra), série III, 2016, nº29, p. 174-175
[24] Diário de Notícias de 19 de Janeiro de 1972 (espólio de Fernando Costa), in https://upfc-colmeal-gois.blogspot.com, 28 de maio de 2009, acedido em 18/06/2019
[25] Machado,António Lopes, Crónicas e Memórias, Vol.I, 2008, p.49