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21 setembro 2017

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. DA FEIRA DO MONT’ALTO PARA A FICABEIRA


“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades” [1].
Tinha razão o poeta! E quanta, pensando nos tempos áureos de descoberta e renascimento em que ele viveu e nos tempos de mudança intensa, acelerada e imparável em que nós vivemos. Na sequência de alusões anteriores [2], vem esta referência a propósito da Feira do Mont’Alto e da FICABEIRA, assunto a que volto pela importância de que se reveste para a região da Beira Serra, em termos identitários, conviviais e de dinamização dos tecidos sociais.


A Feira do Mont’Alto constituía, no passado, a grande ocasião de comércio e consumo na região, tudo nela se comprando, com exceção para uns tantos produtos (por ex. o burel para as capuchas), que se adquiriam na Feira de S. Miguel, em Celavisa. Eram tantas e tão diversificadas a oferta e a procura, que os mais velhos lembrar-se-ão que ficávamos o ano inteiro a ouvir dizer que isto ou aquilo se compraria na feira, para o que se iam fazendo poupanças adicionais. A feira transformava-se, assim, numa realidade mágica e sítio mítico, de onde os meninos mais afortunadas esperavam carrinhos em lata ou madeira, flautas ou piões, e as meninas, miniaturas de um qualquer utensílio doméstico, para se irem habituando à dupla jornada de trabalho que as esperava, quando mulheres. Creio que já disse uma vez, que aqui por cima do Açor, na vereda que ia e vinha do Colmeal, servindo as populações da margem esquerda do rio e da Pampilhosa da Serra, o movimento de pessoas era tanto, que a vereda mais parecia um formigueiro atarefado! Seguia pela Aveleira e Camelo, a caminho da Lomba da Nogueira e Arganil.

Na feira, por sua vez, as crianças que tinham a sorte de acompanhar os adultos, caminhando pelas veredas que atravessavam as serras cansadas, fascinavam-se com os carrinhos que chocavam na pista faiscando, o carrocel de cavalinhos rodopiando, o martelo que subia endiabrado, para logo tombar ameaçador, o pirolito a que alguns tinham direito. E havia os bois de trabalho, que poucos tinham posses para comprar e sustentar, mas que todos podiam apreciar!


Já cá faltavam? Pois, só para repetir que estão em vias de desaparecimento. Desta feita, eram só duas as juntas de bois presentes: os animais ainda opulentos do senhor Álvaro, de Vila Pouca da Beira e uns mais pequenos, de um jovem de Arganil. Vitelos é que seriam uns oito/dez.






Quem continuava lá era a Rola, a potra que em 2016 o dono me queria vender por oitocentos euros, sabendo que eu não estava para a comprar! Por isso ela tanto se ria, este ano, arreganhando o focinho e mostrando os dentes, com as festas que lhe faziam. De resto, nem mais potros, nem os simpáticos burros aos quais eu vaticinava tanto futuro, no âmbito da atividade turística crescente.


A atual inexpressividade desta componente da Feira do Mont’Alto não é de estranhar. Recorde-se que a região tem continuado a perder população e a empurrar a que fica das aldeias paras as vilas e arredores, enquanto se assiste ao crescimento exponencial dos setores secundário e terciário, em linha com o resto do país. Meramente a título de exemplo, em 2011, a situação era a seguinte nos concelhos de Arganil e Góis:

Concelho
Setor primário
Setor secundário
Setor terciário
Arganil
4,22% (1960=60,39%)
38,84%
56,94
Góis
6,3%
31,1%
62,6%

Em contrapartida, a refletir a evolução económica e as dinâmicas sociais existentes, a XXXVI FICABEIRA apresentava-se muito representativa das forças vivas locais e de novos interesses, necessidades e consumos. Ela própria portadora de modernidade e tradição, materializada nos elementos que dela guardam memória!








Polo de atração assinalável, são verdadeiramente espantosos o movimento que a feira persiste em gerar, e a animação e convívio que representa para os arganilenses e para as populações que a frequentam, hoje maioritariamente visitantes. Ir à feira mantém-se um imperativo, se não para abastecimento, para encontrar pessoas e conviver, como me dizem. Para isso guardam-se dias de férias, permanece-se nas aldeias até ao evento, volta-se por uns dias. Há mesmo quem não frequente atividades culturais em Lisboa ou onde reside, mas não perca um espetáculo no certame, qualquer que seja o público visado. Aparentemente, é a magia da feira a passar de geração em geração, integrando o legado do apego à terra e às origens.

“Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.” (1)

Contrariamente à descrença de Camões, saudades com muita esperança!

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, setembro de 2017.



[1] Luís Vaz de Camões, Sonetos.

16 outubro 2015

BOIS DE TRABALHO/EXPOSIÇÃO


A 7 de setembro, dia do meio da Feira do Mont’Alto, e dia da feira dos bois, lá estava matinalmente. Como eu, muitos outros entusiastas, amigos e conhecidos de anos anteriores, entre eles, o senhor Júlio, de Aldeia Velha.

Reportando-me às últimas notícias sobre este assunto (http//upfc-colmeal.gois.blogspot.com: 15 de janeiro de 2013 e 10 de outubro de 2011), há várias diferenças a assinalar, correspondendo à consolidação de tendências que já se vinham notando.

O número de visitantes pareceu-me ligeiramente inferior, mas mais jovem. Os homens continuam em maioria, mas havia senhoras como expositoras/vendedoras, o que é um bom sinal.


  
No que toca aos animais, das juntas de bois imponentes de anos anteriores, apenas uma marcava presença. Duas outras, mais jovens, continuavam nas viaturas, aparentemente indecisas sobre se ir ou ficar. Os restantes criadores/expositores terão deixado a atividade ou não compareceram, devido aos elevados custos de manutenção e transporte dos animais, e à falta de apoios. A ser assim, uma situação insólita, já que o evento têm, no âmbito da Feira do Mont’Alto e da Ficabeira, um papel cultural e económico semelhante ao de outras iniciativas, continuando a representar negócio, preservando uma tradição e atraindo consumidores para outras atividades e produtos.




Em contrapartida, aumentou a presença dos potros e burros, que estavam a ser comercializados numa perspetiva de lazer, mas, sobretudo, de trabalho. Lembram-se de um cavalo que passeava as crianças pelo recinto ou de um pónei maluco que rebolava no chão, a sugerir brincadeira? Desapareceram e o que os vendedores enfatizam é a capacidade de trabalho dos animais, sem prejuízo de poderem ser montados.



- Já viu animal mais bonito? É a Rola, tem quatro anos …, dizia-me, trajado a rigor, o dono de um potro acavalado. Se aquele amigo ali não se chegar à frente, entrego-lha por 800.00€. Mas olhe que faz tudo: lavra, puxa uma carroça ou uma charrete, vai ao mato, à lenha, deixa-se montar … E mansa … Rola, o que é que as senhoras dão aos maridos?

E encostava o rosto ao animal, que correspondia, aproximando o focinho.

- Isso, isso, beijinhos, linda menina …


Perto, uma rapariga procurava vender uns potros mais pequenos.

- Esta prenha vendo-lha por 750.00€ e aquela ali, que ainda não se sabe se também está cheia, por 400.00. Fazem tudo, tudo. Para montar, esta está mais habituada …

- E o macho?

- Ah, o Alfredo? O Alfredo são 400.00€, mas é um macho inteiro …

- Inteiro ?!…

- Sim, não é capado, é um macho de cobrição, é o pai dos filhos delas …


  
Conforme pode ver-se pelas fotografias, os burros continuam fofos e ternurentos ou não tenha sido o burro o animal escolhido pela Sagrada Família, para fugir da perseguição de Herodes. Nem me aproximei, tanto o medo de não resistir ao ar desprotegido do pequenino e à ameaça de extinção que paira sobre a espécie!


Pela primeira vez vi porquinhos. Estavam muito tristes, amontoados no fundo de um atrelado, e eu triste fiquei a pensar se estariam a ser respeitadas as normas de transporte animal.

A Feira do Mont’Alto, como outras, tem vindo a adaptar-se às novas necessidades da economia e dos modos de vida atuais. É neste contexto que a feira dos bois parece estar a transformar-se em feira dos burros e potros, uma evolução muito curiosa. É como se a crise, que tem reduzido os salários, as pensões, o emprego e o progresso social, em geral, também esteja, por um lado a promover o regresso dos animais às fainas agrícolas, por outro, a reduzir o seu tamanho, na expetativa de minorar os custos de produção. Naturalmente, em linha com o declínio da produção agrícola, que é residual na zona, e com a progressiva ascendência das atividades de turismo e lazer.

Mas lá que os bois de trabalho/exposição continuam lindos e de olhar meigo, lá isso continuam!

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 26 de setembro de 2015

29 novembro 2013

A Feira dos Bois




Ao lermos o recente livro sobre a vida de José Maria Alves Caetano deparámo-nos a páginas 263, no capítulo Regional – Viagens, com um seu artigo publicado em 6 de Setembro de 1922 em A Comarca de Arganil, que a seguir tomamos a liberdade de transcrever na parte que se refere a uma visita que fez a Arganil e à feira dos bois.

   “Depois, uma visita mais detalhada à feira que, apesar de me não ter desagradado, me pareceu não ter progredido. Bem pode ser que me enganasse, visto que havia 39 anos que não via a feira e a nossa vista das 19 primaveras vê as coisas com cores mais vivas, predominando a cor-de-rosa.
   Pareceu-me, no entanto, que naquele tempo havia mais entusiasmo e que a feira era mais comercial e mesmo mais abundante em diversos artigos.
   Enfim, como já disse, é provável que os meus olhos me tivessem enganado.
   Gostei imenso da feira dos bois pela abundância e pelos belos exemplares que vi expostos, alguns bastante corpulentos e belamente tratados, ficando-me especialmente na retina uma junta do lugar de Ádela.
   Noutro tempo falava-se na feira dos bois em moedas (4$800 réis) e os preços oscilavam, para juntas de bezerros e bois de trabalho, entre 10 e 15 moedas; agora falava-se em centos de mil réis e em contos. Aquela junta de belos exemplares a que especialmente me referi, ouviu, se me não engano, um conto e duzentos mil réis, e os donos não aceitaram a oferta.”

Não pudemos deixar de associar esta passagem com um excelente trabalho da Dr.ª Lisete de Matos que recordávamos ter lido no extinto/suspenso Jornal de Arganil (29 de Setembro de 2011) e que tinha por título “Os bois de trabalho”.

   “Mostravam-se, uma vez mais, garbosos como os donos, na Feira do Mont’Alto. Não seriam mais de vinte, mas eram os suficientes para permitir aos muitos observadores mais ou menos nostálgicos ou interessados pelas espécies bovinas – sempre mais homens do que mulheres – o prazer do reencontro com aqueles antigos e pachorrentos companheiros de trabalho duro e andar vagaroso.
   Alguns eram reincidentes: lindos e gigantescos, são animais de exposição e concurso, hoje que as máquinas fazem com eficiência acrescida o trabalho que lhes competia, e que as estradas, por onde os respectivos carros chiavam gemendo de esforço e lonjura, foram substituídas por outras, infelizmente nem sempre compatíveis com as exigências do presente.
   Outros não: eram bezerros para comercialização, e cada junta custava a módica quantia de 2.000,00€. Precisamente o dobro do que custava há catorze anos, quando o meu tio Acácio me dizia, esperando que eu concretizasse o sonho que a idade já não lhe consentia: “Ó menina, que lindos animais! E baratos! Por duzentos contos leva-se para casa uma junta de bois de luxo!”

Como serão futuramente as feiras dos bois e quais os preços de mercado? Estamos certos de que alguém nos dará notícia e de preferência… na nossa imprensa regional.

A. Domingos Santos