A 7 de setembro, dia do meio da Feira do Mont’Alto, e dia da
feira dos bois, lá estava matinalmente. Como eu, muitos outros entusiastas,
amigos e conhecidos de anos anteriores, entre eles, o senhor Júlio, de Aldeia
Velha.
Reportando-me às últimas notícias sobre este assunto (http//upfc-colmeal.gois.blogspot.com:
15 de janeiro de 2013 e 10 de outubro de 2011), há várias diferenças a
assinalar, correspondendo à consolidação de tendências que já se vinham notando.
O número de visitantes pareceu-me ligeiramente inferior, mas
mais jovem. Os homens continuam em maioria, mas havia senhoras como
expositoras/vendedoras, o que é um bom sinal.
No que toca aos animais, das juntas de bois imponentes de
anos anteriores, apenas uma marcava presença. Duas outras, mais jovens, continuavam
nas viaturas, aparentemente indecisas sobre se ir ou ficar. Os restantes criadores/expositores
terão deixado a atividade ou não compareceram, devido aos elevados custos de
manutenção e transporte dos animais, e à falta de apoios. A ser assim, uma
situação insólita, já que o evento têm, no âmbito da Feira do Mont’Alto e da
Ficabeira, um papel cultural e económico semelhante ao de outras iniciativas,
continuando a representar negócio, preservando uma tradição e atraindo
consumidores para outras atividades e produtos.
Em contrapartida, aumentou a presença dos potros e burros,
que estavam a ser comercializados numa perspetiva de lazer, mas, sobretudo, de
trabalho. Lembram-se de um cavalo que passeava as crianças pelo recinto ou de
um pónei maluco que rebolava no chão, a sugerir brincadeira? Desapareceram e o
que os vendedores enfatizam é a capacidade de trabalho dos animais, sem
prejuízo de poderem ser montados.
- Já viu animal mais
bonito? É a Rola, tem quatro anos …, dizia-me,
trajado a rigor, o dono de um potro acavalado. Se aquele amigo ali não se chegar à frente, entrego-lha por 800.00€.
Mas olhe que faz tudo: lavra, puxa uma carroça ou uma charrete, vai ao mato, à
lenha, deixa-se montar … E mansa … Rola, o que é que as senhoras dão aos
maridos?
E encostava o rosto ao animal, que correspondia, aproximando
o focinho.
- Isso, isso, beijinhos,
linda menina …
Perto, uma rapariga procurava vender uns potros mais pequenos.
- Esta prenha vendo-lha
por 750.00€ e aquela ali, que ainda não se sabe se também está cheia, por
400.00. Fazem tudo, tudo. Para montar, esta está mais habituada …
- E o macho?
- Ah, o Alfredo? O
Alfredo são 400.00€, mas é um macho inteiro …
- Inteiro ?!…
- Sim, não é capado, é
um macho de cobrição, é o pai dos filhos delas …
Conforme pode ver-se pelas fotografias, os burros continuam
fofos e ternurentos ou não tenha sido o burro o animal escolhido pela Sagrada
Família, para fugir da perseguição de Herodes. Nem me aproximei, tanto o medo
de não resistir ao ar desprotegido do pequenino e à ameaça de extinção que
paira sobre a espécie!
Pela primeira vez vi porquinhos. Estavam muito tristes, amontoados
no fundo de um atrelado, e eu triste fiquei a pensar se estariam a ser
respeitadas as normas de transporte animal.
A Feira do Mont’Alto, como outras, tem vindo a adaptar-se às
novas necessidades da economia e dos modos de vida atuais. É neste contexto que
a feira dos bois parece estar a transformar-se em feira dos burros e potros,
uma evolução muito curiosa. É como se a crise, que tem reduzido os salários, as
pensões, o emprego e o progresso social, em geral, também esteja, por um lado a
promover o regresso dos animais às fainas agrícolas, por outro, a reduzir o seu
tamanho, na expetativa de minorar os custos de produção. Naturalmente, em linha
com o declínio da produção agrícola, que é residual na zona, e com a
progressiva ascendência das atividades de turismo e lazer.
Mas lá que os bois de trabalho/exposição continuam lindos e
de olhar meigo, lá isso continuam!
Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 26 de setembro de 2015





