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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

BOIS DE TRABALHO/EXPOSIÇÃO


A 7 de setembro, dia do meio da Feira do Mont’Alto, e dia da feira dos bois, lá estava matinalmente. Como eu, muitos outros entusiastas, amigos e conhecidos de anos anteriores, entre eles, o senhor Júlio, de Aldeia Velha.

Reportando-me às últimas notícias sobre este assunto (http//upfc-colmeal.gois.blogspot.com: 15 de janeiro de 2013 e 10 de outubro de 2011), há várias diferenças a assinalar, correspondendo à consolidação de tendências que já se vinham notando.

O número de visitantes pareceu-me ligeiramente inferior, mas mais jovem. Os homens continuam em maioria, mas havia senhoras como expositoras/vendedoras, o que é um bom sinal.


  
No que toca aos animais, das juntas de bois imponentes de anos anteriores, apenas uma marcava presença. Duas outras, mais jovens, continuavam nas viaturas, aparentemente indecisas sobre se ir ou ficar. Os restantes criadores/expositores terão deixado a atividade ou não compareceram, devido aos elevados custos de manutenção e transporte dos animais, e à falta de apoios. A ser assim, uma situação insólita, já que o evento têm, no âmbito da Feira do Mont’Alto e da Ficabeira, um papel cultural e económico semelhante ao de outras iniciativas, continuando a representar negócio, preservando uma tradição e atraindo consumidores para outras atividades e produtos.




Em contrapartida, aumentou a presença dos potros e burros, que estavam a ser comercializados numa perspetiva de lazer, mas, sobretudo, de trabalho. Lembram-se de um cavalo que passeava as crianças pelo recinto ou de um pónei maluco que rebolava no chão, a sugerir brincadeira? Desapareceram e o que os vendedores enfatizam é a capacidade de trabalho dos animais, sem prejuízo de poderem ser montados.



- Já viu animal mais bonito? É a Rola, tem quatro anos …, dizia-me, trajado a rigor, o dono de um potro acavalado. Se aquele amigo ali não se chegar à frente, entrego-lha por 800.00€. Mas olhe que faz tudo: lavra, puxa uma carroça ou uma charrete, vai ao mato, à lenha, deixa-se montar … E mansa … Rola, o que é que as senhoras dão aos maridos?

E encostava o rosto ao animal, que correspondia, aproximando o focinho.

- Isso, isso, beijinhos, linda menina …


Perto, uma rapariga procurava vender uns potros mais pequenos.

- Esta prenha vendo-lha por 750.00€ e aquela ali, que ainda não se sabe se também está cheia, por 400.00. Fazem tudo, tudo. Para montar, esta está mais habituada …

- E o macho?

- Ah, o Alfredo? O Alfredo são 400.00€, mas é um macho inteiro …

- Inteiro ?!…

- Sim, não é capado, é um macho de cobrição, é o pai dos filhos delas …


  
Conforme pode ver-se pelas fotografias, os burros continuam fofos e ternurentos ou não tenha sido o burro o animal escolhido pela Sagrada Família, para fugir da perseguição de Herodes. Nem me aproximei, tanto o medo de não resistir ao ar desprotegido do pequenino e à ameaça de extinção que paira sobre a espécie!


Pela primeira vez vi porquinhos. Estavam muito tristes, amontoados no fundo de um atrelado, e eu triste fiquei a pensar se estariam a ser respeitadas as normas de transporte animal.

A Feira do Mont’Alto, como outras, tem vindo a adaptar-se às novas necessidades da economia e dos modos de vida atuais. É neste contexto que a feira dos bois parece estar a transformar-se em feira dos burros e potros, uma evolução muito curiosa. É como se a crise, que tem reduzido os salários, as pensões, o emprego e o progresso social, em geral, também esteja, por um lado a promover o regresso dos animais às fainas agrícolas, por outro, a reduzir o seu tamanho, na expetativa de minorar os custos de produção. Naturalmente, em linha com o declínio da produção agrícola, que é residual na zona, e com a progressiva ascendência das atividades de turismo e lazer.

Mas lá que os bois de trabalho/exposição continuam lindos e de olhar meigo, lá isso continuam!

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 26 de setembro de 2015

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Bois de trabalho

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Amigas/os

De permeio com a vindima, venho saudar-vos, no regresso de férias, com os bois de trabalho, que muitos recordam com carinho. Mostravam-se, uma vez mais, garbosos como os donos, na Feira do Mont' Alto (Arganil). Não seriam mais de vinte, mas eram os suficientes para permitir aos muitos observadores mais ou menos nostálgicos ou interessados pelas espécies bovinas - sempre mais homens do que mulheres - o prazer do reencontro com aqueles antigos e pachorrentos companheiros de trabalho duro e andar vagaroso.



Alguns eram reincidentes: lindos e gigantescos, são animais de exposição e concurso, hoje que as máquinas fazem com eficiência acrescida o trabalho que lhes competia, e que as estradas, por onde os respectivos carros chiavam gemendo de esforço e lonjura, foram substituídas por outras, infelizmente nem sempre compatíveis com as exigências do presente.



Outros não: eram bezerros para comercialização, e cada junta custava a módica quantia de 2 000.00€. Precisamente o dobro do que custava há catorze anos, quando o meu tio Acácio me dizia, esperando que eu concretizasse o sonho que a idade já não lhe consentia: "Ó menina, que lindos animais! E baratos! Por duzentos contos leva-se para casa uma junta de bois de luxo!"



Pela primeira vez, vi burros na feira. Burros, mesmo burros, que por acaso eram burras! Segundo o vendedor, os machos ou são castrados – e, aí, é como se fossem fêmeas - ou, a determinada altura, ficam malucos e desatam a morder tudo e todos ... Trezentos euros cada e o impresso já preenchido para pedir o subsídio devido pela manutenção de um animal em vias de extinção! Se é que a voracidade da crise ainda não tragou o dito subsídio! Desta vez resisti à tentação …

Abraço

Açor, Colmeal, 15 de Setembro de 2011

Lisete de Matos