O Rancho Folclórico Serra do Ceira, conforme o seu título indica, não representa uma freguesia, muito menos uma aldeia. O «Serra do Ceira», que nasceu de acção dinâmica do padre Dr. Manuel Pinto Caetano, antigo pároco das freguesias de Colmeal e Cadafaz, sempre teve por lema representar o folclore das Serras e Vale do Ceira, que se estende desde Fajão (Pampilhosa da Serra), Cepos (Arganil), até Vila Nova do Ceira, passando pelas freguesias de Colmeal e Cadafaz, do concelho de Góis.
Após alguns contratempos, por vezes necessários a qualquer crise de crescimento, surgiu um tanto inesperadamente como director artístico José Álvaro de Almeida Domingos, um jovem de 22 anos, embora ligado ao agrupamento desde a sua fundação.
No ano corrente, os convites não se fizeram esperar. A representação, por vezes brilhante, nos festivais de Viana do Castelo, Ribeira de Frades, Santo Tirso, Aldeia do Bispo (Sabugal), Martim de Freitas (Fafe), Góis, Matosinhos, Serpins e Pampilhosa do Botão, além das actuações nas festas e romarias das Meãs, Esporão, Colmeal, Cepos, etc., confirmam o alto nível do grupo, lídimo representante cultural do concelho de Góis, e o apreço em que é tido o folclore desta zona do distrito de Coimbra.
Não fora as tremendas dificuldades económicas e o «Serra do Ceira» teria este ano o seu «baptismo» internacional. «As deslocações custam fortunas – diz-nos o Álvaro Domingos – e sem o apoio das chamadas entidades oficiais não temos a mínima hipótese de aceitar convites do estrangeiro, de países onde a presença de emigrantes portugueses é notória».
O Álvaro Domingos, com a modéstia e o entusiasmo que todos lhe conhecemos e reconhecemos, não se cansa de falar do muito que tem aprendido, por esse país fora, ao conhecer outras regiões, contactar com outros povos e agrupamentos folclóricos, e foi-nos adiantando que os encargos previstos em orçamento para o ano corrente foram na ordem dos «800 contos», os quais, cobertos somente em parte com a efectivação de «leilões, excursões, publicidade, donativos, etc.», só seria possível saldar verificando-se «ajuda monetária do Governo Civil, Câmara Municipal e Ministério da Cultura».
O director do «Serra do Ceira», que constantemente, sem discriminação de pessoas e entidades, «agradece o apoio dispensado no exercício da sua missão», enaltece «a familiaridade e amizade» existente entre todos os elementos do grupo – na ordem dos 35 – lança os seus apelos às agremiações regionalistas do Vale do Ceira e Casa Concelhia, «para ajudarem economicamente» a solver os problemas.
O nosso interlocutor, com uma certa tristeza estampada no rosto e na forma de se expressar, lembra que «a falta de valores humanos, derivada do despovoamento das nossas aldeias, pela inexistência de condições de fixação para os jovens», era motivo mais que suficiente para os responsáveis – autarcas, regionalistas e não só – se unirem para ser viável a continuidade de um «rancho concelhio forte, coeso e digno», onde não existam divisões originadas no exterior, por bairrismo que o Álvaro Domingos classifica de «ciumento», mas a que chamamos doentio, por ser individualista.
Do nosso diálogo, efectuado aos poucos e durante vários dias, ressalta ainda «o subsídio de 200 contos, concedido pela Câmara de Góis», e que o rancho apresenta «sempre danças e cantares da região» e, em função de novas pesquisas, foi ampliado «o reportório com a apresentação de Na Trincha da Saia, A Caminho da Castanheira e o Vira das Pancadas, melodias recolhidas em Cadafaz, Fajão e Cepos, respectivamente».
Embora a música tradicional, tal como a clássica, a literatura e a arte em geral não mereçam os favores das últimas gerações, felizmente ainda há muitos jovens, entre os quais o «Alvarito» Domingos, que amam a música popular, o folclore. Desse amor ao folclore, às danças e cantares da região que lhe serviu de berço assumiu em «momento de crise» – disse – a presidência do «Serra do Ceira», que, com todas as suas consequências, assumirá «até ao fim do mandato».
Ainda quisemos saber se o «Serra do Ceira» já tinha contratos para a próxima temporada, em que localidade do concelho de Góis se realizaria o próximo Festival de Folclore Beirão, mas foi-se escusando com «o futuro só a Deus pertence», endossando compromissos para a «futura direcção, que vier a sair da próxima assembleia-geral» – afirmou como que a encerrar o nosso já longo diálogo.
Em face do mutismo do «Alvarito», como todos velhos e novos o tratamos, não aprofundámos a questão. Mas, tal como o nosso interlocutor, apelamos aos «homens bons», aos autarcas e regionalistas no sentido de apoiarem o «Serra do Ceira» e, automaticamente, o grupo manter-se forte e unido, continuando, como todos desejamos, a representar condignamente a região, concretamente o concelho de Góis.
Na verdade, se somos tão poucos no concelho de Góis e aqueles que se dispõem a trabalhar e sacrificar por interesses comuns ainda menos, por que razão, directa ou indirectamente, consciente ou inconscientemente, se hão-de fomentar e apoiar cisões que não levam a lado nenhum? Os goienses, quer sejam naturais da sede concelhia, de Vila Nova do Ceira, Cadafaz ou Colmeal, certamente não desconhecem que só a «união faz a força».
Vamos, pois, todos unir-nos em volta do Rancho Folclórico Serra do Ceira.
FERNANDO COSTA
In “A Comarca de Arganil” de 17 de Setembro de 1985
Espólio de Fernando Costa