09 janeiro 2013

Uma visita ao Açor na Serra do Açor





Com este título publicou o semanário regionalista A Comarca de Arganil o Editorial assinado pelo seu Director António Lopes Machado. Foi no dia 27 de Setembro. Por nele se fazer referência a Ádela e ao Açor, aldeias periféricas da nossa freguesia do Colmeal e do concelho de Góis, e também a duas associadas da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, que muito apreciamos e estimamos, entendemos aqui proceder à sua transcrição.

“O Açor é uma pequena ave de rapina, da família dos falcões, que deve ter existido em grande número no alto concelho de Arganil, entre os rios Alva e Ceira, e que deu o nome à serra.

Mas não apenas à serra, mas a duas povoações da região, já nos vizinhos concelhos de Góis e Pampilhosa da Serra, o que significa que o açor era por aqui muito conhecido, como era naturalmente nas ilhas atlânticas, a que deu o nome de Açores.

A cinco quilómetros da Selada das Eiras, que é um ponto de derivação na Serra da Aveleira, depois das Torrozelas, há uma pequena aldeia chamada Açor. É o Açor de Ádela, que é a povoação que lhe fica mais próximo. Pertence à freguesia do Colmeal e concelho de Góis; e ali perto, do outro lado do rio Ceira, há outra povoação designada Açor, próximo das Boiças, que pertence à freguesia de Fajão e concelho da Pampilhosa da Serra, onde já não vive ninguém. A serra imensa estende-se por um e pelo outro lado do Ceira e a vida não será fácil vivê-la por ali, principalmente no Inverno, e pelo seu isolamento, embora hoje já tenham estradinhas muito razoáveis.

Ainda conheci regionalistas ao Açor e às Boiças, que muito fizeram pela sobrevivência das povoações, mas isso não chegou, naturalmente por falta de recursos que por a qui não abundam.

Mas voltando ao Açor de Ádela, onde ainda residem quase tantas pessoas como em Ádela, apesar de ser mais pequena. O Regionalismo também por aqui teve sempre grandes tradições.

Fui lá visitar duas senhoras que, com elevado grau de cultura para o meio, continuam a viver ali todo o ano ou a maior parte, apesar do seu isolamento no meio da imensa serrania.

A Dr.ª Lisete de Matos, funcionária superior do Ministério da Educação, reconstruiu a casa da família e manteve-lhe o aspecto original de paredes em xisto, com um bonito jardim e um castanheiro à porta. O castanheiro era a árvore mais maravilhosa que tínhamos nas nossas terras serranas mas que foram desaparecendo. Mas na serra ainda se dão, se fossem devidamente cuidados mas, infelizmente, as árvores que proliferam livremente são o pinheiro e o eucalipto, que dão madeira com menos tempo.

A Dr.ª Lisete de Matos escreveu em 1990 um livro muito interessante: «Gente da Serra do seu Quotidiano e Costumes». E depois outros se seguiram. Ocupa-se de pequenas coisas, dos objectos e do seu significado, quase as fazendo «falar». Gosta de escrever e interessa-se pela vida local, e logo no seu primeiro livro sublinhou: «População por demais apegada ao torrão natal, ao seu esforço se ficou a dever, durante décadas, a abertura de estradas, mais tarde o seu alcatroamento; a construção de lavadouros e fontanários; à existência de telefone, água e luz nas aldeias. Ligas de Melhoramentos, Liga de Amigos, Uniões Progressivas, etc., estas, por sua vez, filiadas na Casa do Concelho de Góis, casa da Comarca de Arganil, Casa das Beiras e outras agremiações regionalistas», afirma ao falar da sua terra.

E também ela gosta de participar. É presidente da Assembleia de Freguesia do Colmeal e dirigente da Associação Amigos do Açor.

Vive a vida local. Estuda os objectos e o seu significado, aparentemente insignificante e vai guardando alguns que já não se usam com vista a um museu local. É assim que se faz a história de um povo, que é grande ou pequeno conforme as pessoas que nele nasceram e dele se ocuparam.

A sua irmã, Josefina de Almeida, dedica-se à pintura a óleo e tem já uma obra notável que tem exposto em vários locais, designadamente em Lisboa, em Arganil e em Góis, onde ainda recentemente fez uma exposição com relativo êxito, em que a terra e a região estão presentes.

A serra e particularmente a região, sempre tiveram apaixonados pela Pintura, bastando para tanto recordar Guilherme Filipe e Fernando Costa.

Passámos por ali antes dos recentes incêndios e chamei a atenção do meu sobrinho e motorista Manuel para a densidade florestal apreciável, permanentemente ameaçada pelos incêndios, o grande flagelo que não raro deixa rastos dramáticos, como ainda agora aconteceu na freguesia de Coja, o que muito se lamenta.”

in “A Comarca de Arganil” Nº 11.975 de 27 de Setembro de 2012


Concelho de Góis




Um concelho. Cinco freguesias. Até quando?


Memórias




Memórias que nos transportam ao passado. Um passado não muito distante. Padieira, cravelho, pedras, barro, enfim, outros tempos.

Foto de A. Domingos Santos

05 janeiro 2013

Colmeal pela manhã



Casas brancas que outrora foram negras. Telhados vermelhos que em tempos eram de loisa. Um Colmeal diferente. Eira, um “bairro” cuidado, onde sobressaem o edifício da Junta de Freguesia e a Igreja, ainda em fase de recuperação.

Foto de A. Domingos Santos


As Últimas CRÓNICAS (MEMÓRIAS REGIONALISTAS)



António Lopes Machado acaba de publicar a sua mais recente obra a que deu o título de “As Últimas Crónicas” e que dedica “aos seus amigos e companheiros do Movimento Regionalista Arganilense, com quem conviveu ao longo de cerca de sessenta anos, sempre em fraternal convívio e amizade”.

Sem qualquer preocupação do tempo ou do lugar, resolveu reunir as últimas Crónicas que lhe pareceram com mais interesse. Ao falar do Regionalismo Arganilense, refere-se naturalmente ao movimento que surgiu, englobando os três concelhos que formavam a Comarca de Arganil, ou seja, os concelhos de Arganil, Góis e Pampilhosa da Serra.

Recorda que “Eram muitas as carências em toda a região da Beira interior em que estamos situados, e que hoje designamos por Beira Serra, longe de uma capital de distrito, Coimbra, perante o analfabetismo que grassava e a assistência à saúde que era muito precária. E viviam nessa altura muitas pessoas nas nossas aldeias serranas, à volta de uma agricultura de subsistência, hoje quase totalmente desertificadas.

Embora pouco desenvolvidos culturalmente, os naturais das aldeias serranas começavam a aperceber-se de que as suas terras não tinham futuro. E partiram. Para o Brasil e para a América, para os campos da borda d’água e principalmente para Lisboa, o grande destino. Gente simples, pouco letrada, que deixava na terra a mulher e os filhos. Viviam em Lisboa em «Casas da Malta», dividindo entre si as despesas, na zona da velha Mouraria e pela encosta até ao Castelo e S. Tomé.

Queriam trabalhar e aceitavam trabalhos duros sem olhar a sacrifícios: moços de esquina, limpa-chaminés, engraxadores, varredores de rua, estivadores, guardas-nocturnos, cangalheiros.” Como se lhes referiu Miguel Torga, o médico-escritor «E se a fome aperta, que remédio senão abalar! Em colónias, que é o tipo de emigração beiroa, o irmão a chamar o primo e o primo a chamar o amigo, não há sítio no mundo onde não chegue o seu braço. Qualquer trabalho lhe serve…».

Diz-nos Lopes Machado que “é quem está longe da sua terra que mais a sente e que mais gosta de a ver progredir”. Depois da fundação da primeira colectividade muitas outras vão surgindo. Nas décadas de 30, 40 e 50 assiste-se a uma multiplicação, primeiro ao nível de freguesia e de concelho, depois por cada localidade. O Regionalismo transforma-se assim num grande Movimento de Solidariedade que se mobiliza em festas e encontros com o fim de convívio e angariação de fundos para fazer face a diversas iniciativas – a estrada, a escola, a residência para a professora e o abastecimento de água estavam nas primeiras aspirações.

O Regionalismo dos tempos actuais já é muito diferente e o autor aponta a direcção “… as nossas colectividades regionalistas têm um grande papel a desempenhar no campo cultural.”

O livro está organizado em quatro partes. Na primeira, como não podia deixar de ser estão os “Temas Regionalistas”. Na segunda, “Viagens” relata-nos a sua ida à Europeade de Folclore na Suíça e a Porto Seguro, ao encontro de um conterrâneo. Ocupa a terceira parte com a “Divagação pelas Ordens Militares e Religiosas” e finaliza com “A Comarca de Arganil – Uma dúzia de Editoriais”.

António Lopes Machado teve a gentileza de nos oferecer um exemplar deste seu livro, para a Biblioteca da União, no Colmeal.

Fotografia de A. Domingos Santos       

Primavera na serra




Foi em Maio do ano passado.

Visite a freguesia do Colmeal. E aproveite para apreciar paisagens de sonho.

Foto de A. Domingos Santos

Os nossos velhos



Querem ausentá-los mas eles não se ausentam. A sociedade coloca-os nos jardins, por inúteis, mas não o são; e recordam-se e fazem correr os rosários das memórias, e martirizam-se com as dores no corpo e as dores na alma, estas as piores de todas elas; são deixados, mesmo que, aparentemente, os não deixem; por vezes desorientam-se e perdem-se nas ruas. Os nossos velhos foram tipógrafos, estradeiros, carpinteiros, construíram prédios e barragens, navios e pontes; as suas mãos tornearam a madeira e furaram as montanhas e montaram os carris e fizeram as vindimas e afagaram-nos e tiveram-nos ao colo, protegem-nos, vigiam-nos, nossos pais, nossos avós. Os nossos velhos.

O polimento secular da bestialidade fizera das relações humanas um traço de civilização. Os celtas atiravam os velhos dos penhascos, porque incómodos, e já não eram precisos. Os laços sociais que se foram estabelecendo não impediram as guerras e as atrocidades inomináveis. A educação e a harmonia de costumes não são dados adquiridos, e o poder de uns sobre outros é um elemento da luta de classes. Os homens são bons, quando novos, apenas porque produzem. Velhos, deitam-nos para o lixo.

A regressão dos sentimentos e das atitudes, impulsionada pelos novos modelos sociais que nos impõem, desemboca em múltiplas incertezas. O desprezo pelos velhos é uma das variantes dessa regressão, que não nos propõe outros valores. E indica que temos de enfrentar um desafio moral delicado, com que seremos, inevitavelmente, confrontados. O conceito de família, tal como o conhecemos, tem sido aniquilado pelas novas leis de valor. Mas estas leis não significam que sejam as melhores. Pelo contrário.

As doutrinas do "mercado" estão a pulverizar o modelo europeu de sociedade, até agora o mais harmonioso porque o mais humanizado. Será preciso redefinir as bases do contrato social? 

Deitar os velhos fora, abandoná-los em caricaturas de "lares" ou nos gelados corredores dos hospitais parece característica do tipo de sociedade em formação. Aprender a conhecer é aprender a fazer e a viver em conjunto. Remover os velhos do nosso carinho e dos nossos afectos, é removermo-nos a nós próprios da condição humana. Querem ausentá-los, mas eles não se ausentam. Estão ali, muito mais atentos do que se possa presumir. Eles são a memória de todos, a nossa pessoal memória, e a nossa certeza do que fomos para entendermos o que seremos.

Extorquem tudo aos velhos, agora, até, por aumento das tarifas nos transportes, a possibilidade de viajar em Lisboa. Não se queixam, mas não afrouxam. Ei-los. Estão aqui e ali. Vou a O'Neill e reproduzo-o: "Velhos, ó meus queridos velhos, / saltem-me para os joelhos: / vamos brincar?"

por BAPTISTA-BASTOS, Diário de Notícias, 22 de Agosto de 2012