28 maio 2009

Escrever para…

.
Com o título “Escrever para conferir importância e visibilidade” publicou o Jornal de Arganil em 7 de Maio um artigo de Lisete de Matos que, pelo seu interesse, aqui tomamos a liberdade de transcrever. “No âmbito da celebração dos dias mundiais do Livro e da Poesia, decorria na Biblioteca da Escola Secundária de Arganil um encontro com alunos do 10º ano do Curso Profissional de Turismo. Desafiados a serem eles a descobrir o género de escrita da autora, através da observação de um pequeno conjunto de artigos publicados em jornais e do livro Dos Objectos para as Pessoas (1987), o Hugo perguntou, curioso: - Por que é que só escreve aqui sobre a região, e não sobre Lisboa? - Boa pergunta, Hugo! Falar sobre as razões que me levam a escrever sobre a região, ou sobre problemáticas que se prendem com todos nós remete-nos para as razões pelas quais escrevo. São várias, como então procurei dizer e agora repito mais sinteticamente. Escrevo para comunicar, pois entendo que a linguagem escrita continua a ser um instrumento privilegiado de comunicação que me permite partilhar afectos, sentidos e perspectivas de um modo muito mais preciso e completo do que a oralidade. Pese, embora, a importância desta em contextos presenciais ou tecnologicamente mediados. Escrevo para conferir importância escrita e visibilidade social a realidades e experiências que falam pouco de si, pelo que permanecem silenciadas e silenciosas, contribuindo, desse modo, para o reforço da identidade e para a construção da memória colectiva. No dizer de Maria Irene Sousa Santos, “o silêncio só é de ouro para quem o excesso da palavra se tornou luxo sufocante” (Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 4/5, 1980, p. 118). Escrevo para intervir socialmente, agindo e reagindo em função de situações e acontecimentos que me emocionam ou desgostam: gestos bonitos e acções solidárias que importa valorizar e divulgar, contribuindo para a elevação da auto-estima e para a confiança na bondade humana; injustiças ou problemas sociais para que importa chamar a atenção, na esperança de serem resolvidos; recursos que singularizam e enriquecem a região, podendo ser potenciados ao serviço do desenvolvimento… Escrevo para me apropriar do poder simbólico e material que a escrita representa e que tem sido exercido por bem poucos. Poucos esses que se guindam, como dizia Jorge de Sena, à posição de insigne(s) ficantes da história, enquanto a maioria permanece insignificante (Diário Popular, 1978/06/01), qualquer que tenha sido a sua participação para a construção dessa mesma história. Escrevo para reflectir e para clarificar ideias, ao mesmo tempo que materializo as palavras com que penso. Escrevo porque gosto, porque escrever é uma actividade criativa intelectualmente muito estimulante e enriquecedora, porque me diverte perseguir as ideias, as palavras e as frases, pensar e repensar, escrever e reescrever. Continuando a usar o dicionário, e a deslumbrar-me com a riqueza vocabular da língua portuguesa e a polissemia de muitas palavras.
.
Lisete de Matos Açor, Colmeal, 12 de Abril de 2009”

1 comentário:

António Santos disse...

"Escrevo para comunicar"
"Escrevo para conferir importância escrita e visibilidade social a realidades e experiências que falam pouco de si"
"Escrevo para intervir socialmente, agindo e reagindo em função de situações e acontecimentos que me emocionam ou desgostam"
"Escrevo para me apropriar do poder simbólico e material que a escrita representa e que tem sido exercido por bem poucos."
"Escrevo para reflectir e para clarificar ideias"
"Escrevo porque gosto, porque escrever é uma actividade criativa intelectualmente muito estimulante e enriquecedora"...

Hugo, fizeste uma boa pergunta.
Hugo, tiveste uma excelente resposta. Toma bem sentido nela e aproveita os ensinamentos que nela estão contidos.

Obrigado Hugo pela tua pergunta.
Obrigado Lisete pela sua resposta.