30 outubro 2013

Nos Picos da Europa com a União – 1º dia











A nossa primeira paragem em terras de Espanha foi em Puebla de Sanábria, um simpático município raiano onde almoçámos. As terras de Sanábria, pela sua riqueza paisagística e a nível de flora e fauna, estão classificadas como Parque Natural, onde uma das suas jóias é o Lago de Sanábria que se insere no vale do rio Tera. 































 Léon é a capital da província de Leão, na comunidade autónoma de Castela e Leão, no noroeste de Espanha. As suas origens datam da época romana. A sua população faz com que seja o maior município da província. É uma cidade famosa pela sua catedral gótica, uma obra apoteótica que assenta sobre umas antigas termas romanas e onde se destacam os seus magníficos vitrais datados desde os séculos XIII ao XX. Também é conhecida por diversos outros monumentos e edifícios, como a Basílica de Santo Isidoro construída entre os séculos XI e XII sobre um anterior templo, um dos conjuntos arquitectónicos de estilo românico mais destacados de Espanha, onde o Panteão Real se evidencia, um mausoléu ricamente decorado no qual foi enterrada a família real do reino medieval de Leão e que também possui uma das melhores colecções do mundo de pinturas românicas. A Casa de Botines, uma das primeiras obras do arquitecto catalão António Gaudí e que se situa na Praça Santo Domingo está ocupada actualmente por um banco. O Mosteiro de São Marcos, originalmente a sede da Ordem Militar de Santiago, um grande exemplo do estilo renascentista, o novo MUSAC, Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão ou ainda a Casa dos Guzmanes, são outros monumentos de extraordinário interesse nesta cidade.



Durante o jantar típico de gastronomia asturiana ainda se cantaram os parabéns à associada Lourdes Ponte.

Fotos de Francisco Silva e A. Domingos Santos

28 outubro 2013

DA ARTESA E DA ARTE DO ARTUR


De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora, 6ª ed., s/d, 1ª ed. de 1952), “artesa” é uma espécie de caixa que serve para amassar, figurando como sinónimos “masseira” e “amassadeira para pão”. 

Por aqui, a artesa, na sua versão em madeira, que realmente também dava pelo nome de masseira, nem parecia uma caixa, nem servia para amassar. Feita por escavação, a enxó, do tronco de uma árvore, era um recipiente para o comprido, que servia como bebedouro para os animais. Dado que também havia artesas em granito, em geral, usavam-se as de madeira para as cabras, as ovelhas e as galinhas e as de granito – retangulares ou redondas –, para os porcos, que tinham a mania de as roer. 


As artesas caíram em desuso com o desuso das atividades que serviam ou com o recurso por parte delas a utensílios modernos mais leves e práticos. Para esse desuso também contribuíram o desaparecimento da autoprodução artesanal e a banalização da compra dos utensílios no mercado. 

A última artesa em madeira que vi a ser utilizada foi na Mata (Fajão), em 2003. Sendo a madeira perecível, as artesas neste material têm vindo a perder-se, mas as de granito continuam a ver-se a servir de banheira aos pássaros ou simplesmente a descansar, encostadas a uma qualquer parede. Claro, veem-se as que sobraram da procura pouco escrupulosa que se verificou há uns anos, com a consequente venda delas ao desbarato




Percebe-se, assim, que num dicionário mais recente igualmente de tipo escolar, concretamente o Dicionário Verbo da Língua Portuguesa (2ª ed., 2008), o termo artesa já não conste. Os dicionários comuns incorporam o vocabulário essencial de uma determinada língua, sendo a seleção das entradas feita através do estudo da frequência da utilização, oral e escrita, dos milhares de palavras que formam os corpus de referência. Como em muitas outras circunstâncias, também nos dicionários as velhas palavras vão dando lugar às novas, não raro quando ainda são úteis, como é o caso da palavra artesa que aqui nos ocupa.

Pois, não faz o objeto parte do espólio de inúmeros museus, pátios e jardins? E não continua a ser produzido, ainda que pontualmente, como o belo exemplar em madeira, que o Artur da Fonte (Colmeal) acaba de fazer, com a arte e o enlevo que todos lhe reconhecemos, a partir da lembrança das que fazia, na infância, para as galinhas das vizinhas? 




Chegaram, inesperados e bem-vindos, o Artur e a Luísa, sua mulher, trazendo a artesa nos braços e a generosidade no coração. E eu, de tão contente e surpreendida, nem terei agradecido devidamente! Faço-o agora, enaltecendo o labor e o talento do Artur, artesão da memória e da cultura do nosso passado, artífice das raízes e valores que fundam a nossa identidade e o nosso futuro.

Li uma vez, escrito por especialistas na matéria, que a sustentabilidade do artesanato tradicional passa por “fazer muito bem o novo, com a qualidade individualizada do antigo e toda a originalidade de invenção do futuro” ou por “fazer muito bem o antigo claramente identificado como tal”. É o caso do Artur, um exemplo a seguir por todos os que escolhem o artesanato como atividade. 

Nota: A “masseira”, sinónimo de “gamela”, a tal caixa que serve para amassar, mantém-se em uso. Pode encontrar-se nos espaços que vendem artesanato em madeira, e ver-se, praticamente todos os dias, num dos muitos programas televisivos, que falam da gastronomia tradicional como cultura e recurso da economia local.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 08/10/2013

Onde nos leva o voo do Papa-figos



Sou reconhecido como um viajante que escolhe bons destinos.
Vou guiar-te por um destino de montanhas e pessoas.

As montanhas oferecem as pedras que fazem parte da identidade do território.
Com as pedras se fez a sua História, mas com elas se faz um projecto de futuro.
Aldeias que estavam em ruína, a desaparecer, originaram um destino turístico premiado.
É algo único e notável, por ter surgido num dos territórios mais desfavorecidos do interior do país.
As pessoas dão-nos os afectos. A matéria-prima do bom acolhimento.
Com simpatia. Com conforto. Com bom gosto. Com sabores. Com um desafio.
Descobrir as Aldeias do Xisto é dar e receber uma palavra de cumprimento dos seus habitantes. Se deres mais umas quantas de conversa, receberás em troca uma história de vida.
É um destino com alma.

Vais estar no Centro de Portugal.
Num mar de montanhas, com montanhas de água.
As águas correm límpidas e a rede das praias fluviais compete com as praias do litoral.
Vamos dispor de muitos quilómetros de percursos para a descoberta e a aventura.
Aqui, onde em tempos a natureza escondeu algumas das suas relíquias, que agora ressurgem vários recantos.
Tena na mão a chave para entrar e descobrir este destino.

_Papa-figos

O Papa-figos (Oriolus oriolus) é uma ave migradora que, todos os anos, viaja desde a parte sul do continente africano para norte, com destino a sossegados bosques de folhosas caducifólias intercalados com campos agrícolas onde, entre dois ramos de uma árvore de grande porte, constrói o seu ninho. Em Portugal prefere, como destino, os territórios do interior. Chegando no início da Primavera, pelos finais de Agosto viaja de regresso à África tropical, sempre pensando em voltar ao seu destino.

Assim se inicia o livro Aldeias do Xisto – A descoberta começa aqui, recentemente publicado (Fevereiro de 2013) numa edição de Foge comigo! Lda e da ADXTUR – Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto.

Trata-se de uma rede de 27 aldeias dispersas por 16 municípios, bem no centro e no interior do país, fruto de um projecto turístico e de preservação de um património natural e cultural riquíssimo, iniciado há mais de dez anos. Aldeias requalificadas, algumas das quais com menos de dez habitantes. Costumes e tradições respeitados. Gastronomia autêntica onde pontifica o cabrito assado, a chanfana, o maranho e a tigelada. Bosques e florestas nas serras do Açor e da Lousã. Uma fauna e uma flora que capta a atenção, não só dos especialistas como dos vulgares visitantes, onde se destaca o narciso, o medronheiro, o azereiro, a trepadeira-dos-muros e as lontras que escolhem as águas límpidas dos rios Ceira e Alva. De registar a maior concentração de praias fluviais existente no país, mais de cinquenta.

As aldeias encontram-se ligadas por belíssimos percursos pedestres e trilhos de BTT, mas também se podem aceder por quem viajar de automóvel. Os mais radicais podem fazer canoagem, rafting e até pára-quedismo. Quem dispuser de mais tempo, poderá descansar nos vários alojamentos à disposição, conhecer o dia-a-dia das aldeias e deliciar-se com a rica gastronomia, fruto de séculos de saber e de bom gosto, que não deverá perder, nos inúmeros e bons restaurantes que encontrará no seu caminho.

Um livro que aconselhamos vivamente. Muito em breve estará á sua disposição na Biblioteca da União, no Colmeal.

A. Domingos Santos


Magusto no Colmeal



A Direcção da União Progressiva da Freguesia do Colmeal tem o grato prazer de convidar todos os Colmealenses para o MAGUSTO que se vai realizar no próximo domingo, dia 3, pelas 15 horas, no Largo D. Josefa das Neves Alves Caetano.

Castanhas, torresmos, água-pé e jeropiga esperam por si.
E nós, também lá estaremos para lhe fazer companhia.
Contamos consigo!

Pode acontecer haver um “ensaio” do magusto durante a tarde de sábado…

UPFC

22 outubro 2013

Nos Picos da Europa com a UPFC



Recentemente, entre 4 e 8 de Outubro, a União Progressiva da Freguesia do Colmeal proporcionou aos seus sócios e familiares, um excelente passeio por uma das mais maravilhosas zonas da vizinha Espanha – os Picos da Europa.


Os Picos da Europa erguem os seus lendários perfis no coração da Cordilheira Cantábrica, entre terras leonesas, asturianas e cantábricas. Integram o conjunto montanhoso mais espectacular da Península Ibérica e um dos mais privilegiados espaços naturais. Nos seus profundos vales, apertados em torno de rios que correm apressadamente para o mar, nas suas eriçadas cumeadas e na densa fisionomia dos seus bosques e prados verdejantes, esconde-se tanta vida natural que os converte num lugar único e com uma riqueza ecológica que é das maiores de toda a Espanha.

  
Mas o seu único ponto de interesse não é apenas a força da própria natureza, já que a riqueza destas montanhas não seria a mesma sem a presença do homem, um dos seus povoadores mais ancestrais. Desde a pré-história que os seres humanos souberam adaptar a sua forma de vida e amoldaram o seu carácter em harmonia com a aspereza e as peculiaridades destas montanhas, escrevendo assim as páginas duma densa história, indissociável deste ambiente tão impressionante.
As pradarias das montanhas constituem o alimento dos seus gados – ovelhas, vacas, cabras – dos quais obtêm a carne, o leite e os diversos queijos de produção local. Entre os gigantes calcários, ao abrigo dos vales e nas zonas mais planas, o homem estabeleceu, desde épocas muito antigas, pequenos núcleos rurais que conservam a sua impressionante beleza e um estilo de vida artesanal, em equilíbrio vital com o ambiente circundante.


Como testemunhos dos primitivos povoadores, perduram os restos pré-históricos, em cavernas e grutas naturais abertas, por milénios de actividade erosiva, nos seus rochedos calcários. A dominação destes povos montanheses pelo Império Romano, acrescida pelas dificuldades naturais de um território tão adusto, fizera que a conquista tivesse que afrontar numerosos obstáculos. Os cântabros foram os que ofereceram uma maior e mais valente resistência a tal colonização, tendo-se enfrentado abertamente, protegidos pelas defesas naturais que as montanhas ofereciam.
Os muçulmanos não manifestaram grande interesse por estas terras desconhecidas e de difícil conquista. Quando tentaram apoderar-se delas, a resistência veio dos territórios asturianos, sob a chefia de Pelágio, cujo impulso guerreiro alimentou a reconquista peninsular.


Não foi sem razão que os navegadores medievais chamaram de “Picos da Europa” a estas montanhas, já que as mesmas constituíam uma clara referência geográfica, por serem o primeiro perfil do Velho Continente, que se divisava do mar alto. Sob o ponto de vista geológico, a sua abrupta orografia calcária é jovem, porque as forças terrestres ergueram esta muralha rochosa há 300 milhões de anos, a partir do fundo de um antigo mar.
Os perfis montanhosos oferecem grandes desníveis orográficos, e estendem-se paralelamente à costa cantábrica, da qual apenas os separam 25 quilómetros.
Os gelos glaciares, especialmente do período Quaternário, configuraram livremente as gargantas e os vales, deixando uma profunda evidência nas paisagens.
Os rios Sella, Deva, Cares e o seu afluente Duje configuram e atravessam o maciço montanhoso. São rios de cursos tão tumultuosos como abundantes em trutas, e dirigem-se velozmente para o Mar Cantábrico. O Deva abraça o maciço pelo lado Este, a partir já da sua nascente, em Fuente Dé. Para chegar até ao oceano, rasga as montanhas e dá origem ao vertiginoso desfiladeiro de La Hermida, que Benito Pérez Galdis denominou o “esófago de Espanha”. O rio Cares é o mais famoso dos cursos fluviais e atravessa este território de Sul para Norte, a partir da nascente, no vale leonês de Valdéon. Com as pancadas das suas águas de cor esmeralda esculpiu a “Garganta do Cares”, o “canyon” calcário mais impressionante da Península. E também por entre fortes quebradas da paisagem, como são o desfiladeiro de Beyos, corre o Sella. Todos estes rios recebem os caudais de inúmeros afluentes e arroios, copiosamente alimentados pelas neves dos cumes e pelas chuvas atlânticas. É uma rede fluvial dinâmica, que perfila três maciços: o Ocidental ou “El Cornión”, o Central ou de “Los Urrieles” e o Oriental, ou “Andara”.


À geografia característica destes territórios, deste modo perfilada, agrega-se a grande diferença de altitudes, superior a 2000 metros, e que favorece a ampla diversidade da flora e da fauna. E assim, nos ásperos cumes, que são um reino das rochas, do vento e do frio intenso, apenas cresce uma mata escassa e rasteira. As camurças saltam pelas pedreiras e no ar voam as águias-reais, e os abutres leonados. Ao baixar pelas encostas encontra-se uma valiosa comunidade de espécies arbóreas, na qual predominam os fetos, os zimbros e as giestas. Nestas zonas, chamadas “altos” (“puertos”), o homem encontrou sempre, desde uma época imemorial, o lugar idóneo para estabelecer frescas pastagens, que são o alimento estival dos seus gados.


Entre a paisagem aberta distingue-se a discreta beleza do pássaro codornizão dos rios alpinos; faz-se escutar o canto melódico da cotovia, ou ressoa o grito das cornejas. À medida que as montanhas se convertem em vales, os bosques de vidoeiros, de carvalhos, de faias e os bosques mistos de castanheiros, vidoeiros, tílias, aveleiras, azinheiras, freixos e aceráceas vão criando uma espessura vegetal, na qual de refugia uma fauna típica e característica da geografia ibérica, como o urso pardo ibérico, o lobo e o “urogallo”. Entre os bosques desenvolvem a sua existência os veados, as corças, os gatos monteses, as raposas e os javalis, ao passo que os arminhos, as martas e os arganazes procuram os lugares mais frescos, entre muitos outros mamíferos típicos da fauna mais representativa da Cordilheira Cantábrica.


A protecção destas montanhas teve o seu início em 1918, quando o rei Afonso XIII classificou o primeiro parque nacional espanhol, ao qual chamou “Parque da Montanha de Covadonga”, que, deste modo, se converteu num dos espaços naturais protegidos pioneiros em todo o mundo. Em 1955 a sua zona protegida foi ampliada, atingindo os actuais 64.660 hectares – 24.719 em Léon, 15.381 em Cantábria e 24.560 em Astúrias – e denominando-se agora “Parque Nacional dos Picos da Europa”.

Fotos de Francisco Silva e A. Domingos Santos

Texto de apoio - Turespaña   

CANGALHA



Quando no passado mês de Maio tivemos a oportunidade de visitar na vila da Lousã o Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques, a “peça do mês” era a cangalha.
O folheto que aqui reproduzimos e que nos dá uma explicação sobre o seu fabrico e utilização foi elaborado pelo Núcleo de Investigação do Ecomuseu da Serra da Lousã com base na publicação “Alfaia Agrícola Portuguesa, de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira”.
Consideramos muito interessante esta divulgação porque, como se costuma dizer, “o saber não ocupa lugar”.


“Cesto em verga para carregar, sobre os burros, estrumes, ou produtos agrícolas.

Por todo o Litoral Central, e por grande parte da região interior que lhe corresponde, assim como pelo Leste transmontano, são muito vulgares as cangalhas de verga – fundamentalmente dois cestos ligados por uma ponte mais ou menos alta, desse mesmo material. Cangalhas semelhantes encontram-se igualmente nos Açores.

Também na corda litoral entre Aveiro e a Figueira da Foz, são usadas as cangalhas feitas de tranças de bunho. O seu fabrico é muito simples: a trança é passada por duas cravadas no chão em direcções convergentes (mais afastadas em baixo), e depois entrelaçadas com braças; outras tranças reforçam a boca deste saco trapezoidal. A cangalha é colocada transversalmente sobre o dorso do burro, formando um saco de cada lado. Nas vizinhanças da Figueira da Foz vimos cangalhas como o descrito, usadas apenas para o estrume.



Na maior parte do País, as cangalhas são substituídas por dois cestos vulgares amarrados com cordas, ou cestos que têm forma apropriada a esse fim. As cangalhas também eram usadas para outros fins, como por exemplo para distribuir o pão, adaptadas a bicicletas e motorizadas.”

UPFC


No meu tempo, quando eu era criança...


No meu tempo as crianças não tinham consolas, nem brinquedos sofisticados, mas havia as cinco pedrinhas, os pregos na praia, o jogo da bilharda, o jogo da pica, os arcos, as bolas de trapo quando não havia dinheiro para as outras. Também não havia “Barbies” mas havia outras bonecas, umas caras, outras baratas e até algumas feitas de trapos. Não havia sacos de plástico. Havia sacos de papel pardo, embrulhos de papel e muitas, muitas guitas e cordéis. O papel higiénico era um luxo.

Aproveitavam-se os papéis de embrulho e os jornais que se cortavam em quadrados e se espetavam num gancho, dava mais trabalho, era menos higiénico, mas evitavam-se os desperdícios. Não havia fogões eléctricos, eram de lenha, nem máquinas de lavar, nem micro-ondas, nem varinhas mágicas, era o “passe-vite”. Frigoríficos já havia, mas só nas casas mais ricas.

Não havia televisão, só telefonia que às vezes se percebia mal por causa dos ruídos e as crianças pensavam que o homem que lia as notícias estava dentro do aparelho e até a Lélé e o Zequinha dos “Diálogos Humorísticos”, embora ele, o Vasco Santana, fosse muito gordo. Também havia o Capitão Marques Pereira que dava aulas de ginástica que nós seguíamos religiosamente com acompanhamento de música e as cadeiras da sala como suporte.
Já havia telefones, mas eram poucos, o nosso era o “9 de Nelas” e era difícil fazer as ligações, só através da menina que estava na central. Telemóveis, computadores, Magalhães nas escolas, iPods, Bluetooth, GPS … nem pensar. Nas escolas tínhamos sacas de serapilheira com um boneco estampado, onde transportávamos os livros, lousas de ardósia e cadernos de uma ou duas linhas e quadriculados, o livro de leitura com histórias lindas e poemas, o caderno de problemas e, na quarta classe, os livros de História, de Geografia e de Ciências. Para escrever usávamos lápis de lousa, lápis de carvão e canetas de aparo com o respectivo tinteiro. Esferográficas e canetas de feltro ainda não existiam. Nunca ouvimos falar em dinossauros, nem em naves espaciais nem em extra-terrestres, mas sabíamos todos os rios e serras de Portugal e a tabuada na ponta da língua.

No meu tempo faltavam muitas coisas que hoje há. Mas as portas das casas estavam sempre abertas e havia sempre gente em casa. Nas casas ricas havia empregadas e nas pobres, vizinhas. E, é claro, a Mãe estava sempre presente. Os avós também estavam lá em casa, tal como os bebés e as crianças pequenas. Não havia lares de terceira idade nem infantários para os bebés.
Os Pais passavam muito tempo fora de casa porque iam trabalhar mas voltavam sempre para as refeições e para dormir. As Mães só saíam para ir às compras ou para falar com as amigas. O trabalho delas era em casa. As crianças não tinham medo que os Pais se separassem.

As crianças no meu tempo morriam mais embora parecessem mais resistentes. Havia poucos hospitais e poucos médicos mas os que havia eram muito dedicados e até iam a casa ver os meninos doentes. Meninos com olhos tortos e surdos havia bastantes porque só havia médicos especialistas nas grandes cidades. Também havia alguns meninos que nasciam deficientes. Mas crianças com depressões ou hiperactivas ou com distúrbios de comportamento quase não se encontravam. Também não havia “bullying” nas escolas embora houvesse umas boas sopapadas e guerras de pedras, bolas de neve ou jactos de água. Quando muito, de vez em quando, havia uma cabeça partida.

Porque é que será tão difícil conjugar os bons hábitos de antigamente com as aquisições da modernidade de hoje? A culpa deve ser nossa, dos antigos, que desprezámos as nossas experiências, que nos cegámos com as facilidades e nos inebriámos com a corrida do tempo.

Tenho 75 anos. Uma vida feita de tantos retalhos diferentes… Foi a minha experiência que me fez pensar em tudo isto…Será que algum dia viremos a ter crianças felizes como nós? Com outra vida, outra alegria diferentes da do nosso tempo, e com o conforto da modernidade e a experiência e sabedoria dos nossos Avós ou Bisavós?

Maria de Assunção Ferraz de Oliveira

in Revista REVIVER, Nº 3 – Junho de 2013

Amarelo na encosta









Fotos de António D. Santos