quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pessoas Sem Idade





No Ano Europeu dedicado ao Envelhecimento Ativo e Solidariedade entre Gerações, o livro Entre Gerações, escrito por Laurinda Alves com fotografia de Isabel Pinto, mostra uma série de projetos que resultaram do concurso de ideias com o mesmo nome, que em 2010 foi lançado simultaneamente em Portugal, através do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano, e no Reino Unido, pela Delegação da Fundação Gulbenkian em Londres. O objectivo do Entre Gerações foi promover a relação intergeracional, fomentando a convivência e o trabalho em conjunto de pessoas que, desta forma, se ajudaram mutuamente, mais do que se poderia esperar; o livro homónimo, que se ocupa da documentação desses projectos, garante que este esforço não cairá no esquecimento, mostrando que os mais jovens podem aprender com os mais velhos enquanto ajudam a quebrar a solidão em que muitos destes estão mergulhados.

Do concurso de ideias foram seleccionados 18 projetos, sete dos quais portugueses. Ao longo deste livro, abundantemente ilustrado pelo trabalho fotográfico de Isabel Pinto, Laurinda Alves percorre o país, desde Bragança até Beja, passando por Foz Coa, Aveiro, Leiria e Lisboa, mostrando como o desencontro geracional está longe de ser uma inevitabilidade. São disso exemplo as actividades levadas a cabo no sentido de revitalizar o histórico e degradado Parque Infante Dom Pedro, em Aveiro, a Aldeia Pedagógica da Portela, em Bragança, na qual os mais velhos ensinam aos jovens a experiência quase perdida da ruralidade, ou o projecto Toca, nascido no Intendente, que se dedica a aproximar as comunidades de alguns dos mais estigmatizados bairros lisboetas. As imagens simples, belas e expressivas captadas pela lente de Isabel Pinto imortalizam harmoniosamente os rostos, ora frescos de juventude ora envelhecidos pela vida, dos participantes.

Sendo a demografia portuguesa caracterizada por baixas taxas de natalidade e elevadas taxas de mortalidade, o que se traduz no progressivo envelhecimento da população, a ausência de medidas de fundo significa que existe um crescente setor em risco de isolamento e de alienação. É contra esta ameaça que o livro se manifesta, mostrando que novos e velhos têm muito a ganhar com a reaproximação. Onde quase todos viram uma fatalidade, Laurinda Alves descortinou uma oportunidade: uma das consequências desta sociedade cada vez mais idosa é o acumular de experiência, de conhecimento, de memória, e não existirá pior erro do que permitir que todo este saber se esfume. Mais do que isso, como defende a autora deste “manifesto humanista”, estamos perante novos paradigmas, como a existência de pessoas cujos comportamentos e ações fogem àquilo que se espera de alguém da sua idade, pessoas “que não estão condicionadas pela sua idade biológica”.

 in Fundação Calouste Gulbenkian Newsletter Nº 132 de Abril 2012, pág. 32


Sem comentários: