quinta-feira, 3 de maio de 2012

“O Moço de Esquina” – Uma História por Contar





São tantos beirões que deixaram as suas aldeias em busca duma vida melhor, tantos que ainda hoje não sabemos, nem fazemos ideia, de quantos foram e para onde foram mourejar, na esperança de erguerem uma vida digna, feita de trabalho, talvez aventura, com sucesso ou insucesso. Supostamente fazendo tudo aquilo que mais ninguém queria fazer, para sustentarem a sua família e arranjarem o “pé-de-meia” para acautelarem um futuro incerto.

Somos tantos os desenraizados que ao longo dos tempos se foram adaptando aos novos hábitos das regiões de acolhimento, num propósito de serem assimilados e de vencerem dificuldades que a vida lhes ia colocando no caminho, sempre com a melhor dos desempenhos e coragem perante adversidades que iam surgindo. Somos tantos que ainda estatística nenhuma, ou estudo, falou de nós como se fossemos mais uns tantos nesta terra de ninguém.

Continuamos a ser muitos os que agora habitam espaços citadinos, ou labutam na lezíria do Ribatejo, quem sabe se na planície do Alentejo, sentindo-se mais de lá do que de cá. De tal sorte, que sobre esta diáspora pouco conhecida, fora dos grandes estudos sociológicos que nos diga, tanto quanto possível, quantos deixaram a sua aldeia serrana, para onde foram, o que fizeram e o que são hoje nessa terra onde se encontrem. Somos tantos que mal poderemos fazer uma ideia, para já não falar dos descendentes de segundas e terceiras gerações. Mas estes, certamente, poderão ser encontrados nas universidades, nas autarquias, nas grandes empresas e até mesmo no seio dos governantes. O beirão é assim…

Curiosamente, ou talvez não, nos vários ramos de negócio e nas velhas profissões populares, típicas duma cidade milenar como Lisboa, ainda é possível encontrar-se resquícios bem vivos da passagem de conterrâneos que fizeram vida digna de registo nesta cidade: foram eles estivadores, bagageiros, marçanos, almeidas, engraxadores, cauteleiros, taxistas etc. Sobre os quais já se escreveu abundantemente ao longo destes anos de aprendiz de escriba.

Porém, ainda nos falta falar da mais típica e popular profissão das ruas da cidade de Lisboa a quem lhe chamavam “moço de esquina”, ou “moço de fretes”, actividade credenciada pela Câmara desta cidade, que apenas requeria alguma força muscular, esperteza, matreirice e toda a disponibilidade para ajudar a resolver problemas surgidos à última hora. Dentro em breve teremos um trabalho sobre este tema.
O seu proverbial conhecimento sobre as ruas e becos da cidade e a sua reconhecida figura de boné e corda ao ombro, são símbolos próprios desta velha profissão que já não existe. Nada, nem ninguém, sabia mais sobre a sociedade citadina do que este homem dotado de grande afabilidade e de boa disposição. A sua prosápia era de tal maneira contagiante que não deixava ninguém indiferente, nem sem resposta.

Estes homens de baixa estatura e de boas cores, eram todos, ou quase todos, dos concelhos de Góis, Arganil e de Pampilhosa da Serra, tanto quanto nos é dado conhecer e a vida nos ensinou.

Adriano Pacheco


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