07 outubro 2014

COLMEAL EM TRÁS-OS-MONTES (3 – 2ª parte)


Continuamos a dar-vos nota do que foi o excelente passeio que a União Progressiva da Freguesia do Colmeal organizou para os seus associados e que de 12 a 15 de Setembro os levou à descoberta do Nordeste Transmontano. Vamos prosseguir a nossa visita à bonita cidade de Bragança.




A “Domus Municipalis” é um monumento singular (e ainda enigmático) da arquitectura românica civil e um exemplar arquitectónico eloquente do período tardo medieval. A sua edificação data, muito provavelmente, do primeiro terço de quatrocentos, podendo ter coincidido com a do castelo. A "Domus" é constituída por dois corpos distintos. As denominações primitivas -"cisterna", "sala de água" - indicam que os objectivos, que presidiram à edificação, teriam sido, primordialmente, de ordem utilitária. Incorpora uma cisterna de boa fábrica para armazenar águas pluviais e nascentes. O extra-dorso da abóbada, que cobre a cisterna, forma o pavimento lajeado do salão. É este espaço arquitectónico superior, constituído pelo salão fenestrado, que empresta originalidade à edificação brigantina. Se não podemos concluir que esta "parte aérea" tenha sido edificada para servir especificamente como Paços do Concelho (Casa da Câmara), também não podemos afastar a hipótese de o "salão" ter sido utilizado, logo que acabado, para nele se realizarem reuniões dos "homens bons".













Visitámos ainda o Museu do Abade de Baçal, criado há cerca de um século e situado no centro histórico da cidade de Bragança.
Integra actualmente no seu acervo parte importante do espólio proveniente do Paço Episcopal, do qual se destaca a própria capela. Ainda das colecções de arte sacra, podem distinguir-se um raro pluvial quinhentista, algumas esculturas barrocas de qualidade incontestável, o tríptico Martírio de Santo Inácio a Anunciação e ainda a Arca dos Santos Óleos. A este conjunto inaugural juntam-se mais tarde as colecções do Museu Municipal de Bragança e as recolhas do Abade Baçal, nomeadamente peças de arqueologia, numismática, epigrafia e etnografia, e outras aquisições. Nos testemunhos que pretendem ilustrar a história da região do Nordeste Transmontano destacam-se alguns das sociedades recolectoras e metalúrgicas que a habitaram. A romanização da zona de influência do museu está representada por colecções variadas. Os forais manuelinos, as varas de vereação e de justiça, as medidas-padrão quinhentistas para líquidos e sólidos são testemunhos materiais da afirmação da importância administrativa da região de Bragança. A colecção de máscaras que mais recentemente foi constituída permite dar conta dum importante complexo ritual do ciclo festivo tradicional e especifico da região.












O Museu Ibérico da Máscara e do Traje revelou-nos um esforço louvável no sentido de preservar e mostrar as tradições locais. Quem não conhece os “caretos”?
Inaugurado em 2007, é um espaço de divulgação das tradições relacionadas com as máscaras do Nordeste Transmontano e da Região de Zamora. Local único onde se encontram expostas máscaras, trajes, adereços e objectos feitos por artesãos portugueses e espanhóis e usados nas “Festas de Inverno” em Trás-os-Montes e Alto Douro e em Zamora.





Ao almoço, na bonita “Quinta das Covas” em Gimonde, junto ao rio Sabor e ao Parque Natural de Montesinho, deliciámo-nos com a inconfundível carne de porco bísaro, criado livremente no campo e alimentado a castanha, que se distingue pelo seu sabor e pela fina textura de gordura intramuscular que a torna marmoreada, macia e suculenta. Mas antes das sobremesas ainda nos regalámos com um espectacular cabrito no forno, uma especialidade à moda de Montesinho.

















   
De regresso a Bragança cada um procurou gerir o tempo livre como melhor entendeu para passear pelas ruas da cidade e apreciar os produtos manufacturados na região, como sejam a cestaria, os trabalhos de cobre e os linhos.










À noite, depois do jantar, os participantes foram confrontados com uma agradável surpresa que a UNIK lhes preparara – um grupo folclórico e de cantares regionais que a todos encantou e que no final da actuação a todos levou para a pista de dança para um animado e alegre convívio.
Foi um excelente final de dia enquanto no exterior os trovões soavam e os relâmpagos rasgavam a noite com uma claridade momentânea.

UPFC

Fotos de A. Domingos Santos
Apoio Turismo de Bragança 

02 outubro 2014

CADAFAZ E COLMEAL: TERRITÓRIO E HISTÓRIA


Lisete de Matos tem-nos habituado ao longo dos tempos, a excelentes trabalhos, fruto de pesquisas exaustivas que valoriza com a sua sensibilidade e arte de bem escrever. A sua recente colaboração para o livro de João Nogueira Ramos, GÓIS EM REDOR DE 12 PESSOAS, a que aqui já nos referimos, é prova disso.
No capítulo dedicado a um grande vulto nascido no Colmeal, André de Almeida Freire – uma das 12 pessoas – Lisete de Matos apresenta-nos sobre as extintas freguesias de Cadafaz e Colmeal, agora agregadas, um valioso texto e dados muito interessantes sobre o seu território e sobre a sua história. Não pretendemos usurpar direitos de autor, mas tão somente, dar a conhecer neste espaço, alguns dos aspectos que nos parecem mais interessantes.

Atente-se na musicalidade e na poesia que Lisete de Matos coloca nas suas palavras ao referir-se ao território. “O Cadafaz e o Colmeal são os territórios mais montanhosos do concelho de Góis. Situados na confluência das serras do Açor e da Lousã, dos seus cumes mais altos avista-se, ondulando sob o céu azul do tempo bom ou cinzento do mau, um oceano fantástico de montes, que se sucedem e perdem no horizonte longínquo. As comunidades estendem-se e elevam-se ao longo do rio Ceira, cujas margens ostentam vaidosas as terras que as formam, umas deitadas na assentada das serras, outras aninhadas no regaço doce dos vales, outras, ainda, encavalitadas no dorso fino ou roliço das lombas e encostas. São terras dispersas, em geral de pequena dimensão, que ornamentam e humanizam a paisagem, parecendo colmeais alinhados ou presépios antigos. A diversidade do povoamento, a que acresce a do próprio casario, constitui desde logo um dos grandes fascínios a atrações da serra.

Com as suas terras e lugares, o Cadafaz e o Colmeal são comunidades muito antigas, a julgar pelos achados arqueológicos que têm sido encontrados. Entre eles, destacam-se a Pedra Riscada e os algares ou buracas dos mouros.”

Aborda de seguida a existência dos algares e buracas que são atribuídas aos mouros e de uma levada, a conhecida Levada dos Mouros, que ao longo do Ceira atravessava quatro concelhos. E um retrato perfeito e também uma homenagem aos que “… para sobreviverem na serra agreste e xistosa, vivendo essencialmente da pastorícia e da agricultura de subsistência, as gentes tiveram de a transformar, dominando as fragas, o mato, a floresta primitiva e os animais bravios. Disputaram a terra e a água e partilharam-nas mais ou menos amigavelmente. Construíram socalcos e “cômbaros” nas encostas, lameiros nas ribeiras fundas. Encaminharam cursos de água, construíram poços, levadas e barrocos, que atravessaram com pontes e pontões em pedra e madeira. Usando as tecnologias de então, e recorrendo ao xisto mole e miúdo ou ferrenho e facetado, que existia nos sítios, construíram casas, currais, moinhos e lagares. Abriram caminhos e trilharam veredas íngremes, longas e sinuosas, construíram estradas de bois

De tal modo se impuseram á serra que, no primeiro foral de Góis, datado de 5 de janeiro de 1314, já são dadas cartas de foro aos habitantes de Colmeal, Carvalhal do Sapo e Cadafaz, entre outros.

A passagem dos territórios a paróquias dá-se por 1560 com obrigações estabelecidas aos seus habitantes que “eram obrigados a ir três vezes no ano à Igreja Matriz de Góis…

“… Comunidades com quase quinhentos anos, o Cadafaz e o Colmeal apresentam identidades fortemente marcadas e arreigadas, para as quais muito contribuíram o isolamento, que persiste, o regionalismo e outros factores de ordem cultural, como O Colmeal, jornal paroquial que se publicou e serviu de diáspora entre 1960 a 1982.

“… devido à insuficiência da agricultura e do trabalho assalariado, desde cedo que a população do Cadafaz e do Colmeal, como a do concelho e da própria região, foi forçada a partir, passando a (e)migração a incorporar a cultura e as estratégias locais de sobrevivência.”
No quadro apresentado com a população das extintas freguesias do Cadafaz, do Colmeal e do concelho de Góis, retiramos os seguintes números: 10.305, 1.099 e 1.259 habitantes em 1864. Século e meio depois, os números do censo de 2011 dão-nos números alarmantes, pela sua exiguidade e fruto do abandono das pessoas que partiram à procura de melhores condições de vida. 4.260, 190 e 158.

“Terras de encantos e espantos, o Cadafaz e o Colmeal são uma grandiosa e aprazível sala de visitas, cujos anfitriões – as gentes e a natureza – primam pela hospitalidade”, como Lisete de Matos sublinha e bem neste seu importante trabalho transcrevendo uma elogiosa referência constante no Guia de Portugal, 3º vol., F. C. Gulbenkian, 1984.

GÓIS EM REDOR DE 12 PESSOAS, de João Barreto Nogueira Ramos, 1ª edição, de Maio de 2014, um livro a merecer a sua leitura atenta e que proximamente estará disponível na Biblioteca da União, no Colmeal.


A. Domingos Santos

COLMEAL EM TRÁS-OS-MONTES (3 – 1ª parte)


A União Progressiva da Freguesia do Colmeal de acordo com a programação das suas actividades para o corrente ano visitou com seis dezenas de associados e amigos da colectividade o Nordeste Transmontano entre os dias 12 e 15 de Setembro.

Em Trás-os-Montes, numa região que encerra uma beleza particular e a torna única, com as suas magníficas paisagens onde a Natureza é rainha, os seus monumentos e as cidades cheias de história, passámos quatro magníficos dias.

Mas viajar não é só história, é também descobrir outras realidades, cheiros e sabores, é conhecer novas gentes, novas tradições…

Tentaremos dar-lhe a conhecer, resumidamente, o que foram estes dias e hoje vamos falar-lhes do terceiro.

Domingo, que estava dedicado à visita da cidade de Bragança, trouxe-nos uma temperatura agradável e a continuação de bom tempo.
Localizada a pouco mais de vinte quilómetros da fronteira, a cidade procura aliar tradição e modernidade. O centro histórico foi objecto de requalificação e passou a existir um passeio pedonal ao longo das margens do rio Fervença, que a atravessa.


























Começámos pelo Castelo onde na sua torre de menagem e ocupando os quatro pisos se encontra instalado o Museu Militar de Bragança, que tem por missão promover a valorização, o enriquecimento e a exposição do património histórico-militar.
Os participantes foram percorrendo os panos altos de muralha e alguns dos sete torreões que ladeiam a torre de menagem sendo que a subida ao torreão mais alto não constituiu obstáculo para ninguém porque dali a paisagem era deslumbrante, não só da cidade como dos arredores. E não se podia perder esta oportunidade.











Visitámos a Igreja da Sé, um edifício datado do século XVI, construído em terrenos que pertenciam ao Mosteiro Beneditino de Castro de Avelãs e destinado a convento de freiras Claras, que acabaria por ser entregue aos padres da Companhia de Jesus, em 1562, onde, em instalações anexas, fundaram um colégio.
Hoje, encontra-se recuperado para instalação do Centro Cultural Municipal, Biblioteca Municipal, Conservatório de Música e Espaço Memória da Cidade. Com a expulsão da Ordem (1759), aqui se estabeleceu (1766) o Seminário Diocesano que, nos fins de oitocentos, realizou importantes obras de ampliação.
A entrada principal localizada lateralmente, faz-se por um portal em que os valores renascentistas são interpretados livremente. Na construção que ampliou o templo, abre-se uma entrada secundária (um simples arco de volta perfeita); das janelas, a mais elaborada data de 1749.




O Pelourinho, símbolo do poder concelhio ergue-se no largo de S. Tiago, onde existiu uma igreja com este nome. Implantava-se junto à "Domus Municipalis", edifício com que estaria em consonância e poderia ter sido nestas "andanças" que foi encastrado numa porca. O monumento é, assim, constituído por dois elementos bem separados no tempo: o pelourinho propriamente dito (coluna de fuste liso e coroamento), e uma figura zoomórfica proto-histórica, um berrão (popularmente designado por "porca da vila"). Deste casamento resultou um conjunto anacrónico, mas original.




A edificação da Igreja de Santa Maria poderá remontar aos primórdios do burgo. As alterações mais significativas ocorreram ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII. Erigido no terceiro quartel de quinhentos, o corpo do monumento apresenta um interior dividido em três naves por colunas poligonais; a capela-mor deve datar de 1580 e a capela dos Figueiredos de 1585. A preciosa e expressiva imagem de Sta. Maria Madalena no altar-mor é uma obra seiscentista das oficinas de Valhadolid. De apreciar o papel de relevo das colunas pseudo-salomónicas e os enrolamentos dos frontões.







Igreja de São Vicente. Já em meados do séc. XIII é referida a freguesia de S. Vicente. Pelas características da cabeceira, tem-se enquadrado o primitivo templo no estilo românico, mas há estudiosos que o incluem no conjunto de obras góticas.
Remodelações e ampliações posteriores - séculos XVI a XVIII - justificam-se pela degradação a que chegara, face à sua localização numa praça de usos múltiplos. Destacam-se no exterior o portal maneirista e, no interior, a capela do Santo Cristo.
No período barroco a talha dourada (primeira metade do século XVIII) invade a capela-mor numa manifestação artística que visava fazer do templo uma Domus Aurea.
Exteriormente, destaque para o chafariz com armas reais (datado de 1746 e o único existente, ao tempo, no perímetro da cidade); o Passo (oitocentista), que atesta a importância da Semana Santa em Bragança; o Painel de azulejos comemorativo da proclamação, em 1808, do General Sepúlveda contra a invasão francesa.

Face ao desenvolvimento do texto e ao elevado número de fotografias inseridas vemo-nos na obrigação de dividir o terceiro dia em duas partes. Não deixe de continuar a acompanhar esta nossa viagem. Vai ver que vale a pena.

UPFC
Fotos de A. Domingos Santos e Casimiro Félix
Foto sala de armas Museu Militar – Revista do Exército nº 631 – Outº 2013
Apoio Turismo de Bragança