22 julho 2013

ALMINHAS DO COLMEAL (parte 1)

ALMINHAS, EM GERAL 

1. SIGNIFICADO 


As alminhas são monumentos formados por uma pequena e simples construção, que aloja um retábulo ou painel de índole religiosa. Encontram-se à beira dos caminhos e estradas, a convidar à oração pelos defuntos, e a recordar aos vivos o mistério da vida feita passagem, que exige paragem. Inserem-se no culto dos mortos e na crença no purgatório - um estado intermédio de expiação e purificação antes da subida ao céu -, que a Igreja institucionalizou, a partir do século XVII [1] , na sequência do Concílio de Trento (1545-1563).

As alminhas correspondem, assim, a uma apropriação popular de dogmas da Igreja, influenciada, como em outros domínios da religiosidade, por cultos pagãos ancestrais. Há quem diga que são específicas de Portugal, predominando nas zonas centro e norte do país, mas existem, pelo menos, na Áustria e em zonas católicas da Alemanha.

Em geral, as alminhas eram construídas em memória ou homenagem a entes queridos, vivos ou desaparecidos e em cumprimento de promessas. Salvo exceções, emergem da iniciativa individual ou familiar, razão pela qual, não raro, são consideradas propriedade privada, o que poderá estar a contribuir para o abandono em que várias se encontram. Mas também podem ser de iniciativa coletiva, como as mais antigas de Carrimá ou as que a população do Cadafaz mandou fazer, em 1957, em homenagem ao padre André de Almeida Freire, no sítio onde sofreu o acidente que o viria a vitimar, em 1962.

Com o passar do tempo e a evolução das práticas religiosas, encontramos hoje alminhas que são uma manifestação de fé e devoção, por exemplo a Nossa Senhora de Fátima, mas que já não radicam no culto dos mortos. Frequentemente resultam do cumprimento de promessas, representado gratidão e agradecimento. Alminhas na forma e na localização, também elas nos acenam da berma dos caminhos, a tornar presente a espiritualidade tantas vezes ausente. 

[1] No estudo recente de Olinda Maria de Jesus Rodrigues “Alminhas em Portugal e a Devolução da Memória” (Univ. de Lisboa, Faculdade de Letras/Dep. de História da Arte, 2010), que pode ser consultado em repositorio.ul.pt/bitstream/10451/4563/2/ulfl081918_tm_1.pdf, faz-se a história da evolução do conceito de purgatório e do culto das almas. Também se referem, entre outros aspetos, as razões para a frequência com que as imagens do Arcanjo S. Miguel ou de Nossa Senhora do Carmo aparecem na iconografia das alminhas.


2. ESTRUTURA E COMPONENTES

Do ponto de vista da localização, as alminhas situam-se sempre à entrada/saída das povoações, tendencialmente em cruzamentos. Esta localização explica-se pela influência dos cultos pagãos já referidos - que erguiam altares nas encruzilhadas e extremidades das povoações para proteção das propriedades e culturas -, mas também pela ideia de passagem, que as impregna. Passagem do conhecido para o desconhecido, do povoado e seguro para o despovoado e inseguro, da vida para a morte, do purgatório expiação para o céu bem-aventurança ... Consequentemente, a localização junto de casas, significa, em muitos casos, que as localidades se expandiram para as extremidades. A localização em sítios isolados, significa, por sua vez, que alguém perdeu ali a vida de forma mais ou menos violenta.

No que se refere à estrutura, a mesma pode assumir a forma de nicho incrustado na rocha ou em paredes, de oratório erguido do chão ou de um qualquer suporte, de capela ou alpendre, normalmente com uns banquinhos, que convidam ao repouso, à reflexão e à oração. Também podem ser apenas uma cruz. Os materiais utilizados começaram por ser os disponíveis nos sítios, evoluindo depois para os próprios das épocas, dos gostos e do poder económico de quem as mandava construir. Os retábulos ou painéis também costumam ser muito simples. Inicialmente, eram em madeira, mas podem ser em pedra, zinco ou azulejo, caso da maioria que encontrámos. Através destes materiais, pode fazer-se ideia da época em que foram construídas ou reconstruídas, não raro alterando a composição inicial.

Do ponto de vista da imagética, tradicionalmente muito colorida e algo ingénua, temos, na base dos painéis, almas envoltas em chamas até à cintura ou ao peito, a erguerem o olhar e os braços suplicantes para o Cristo Redentor ou o santo mediador que os encima. É muito frequente a presença de anjos, que auxiliam as almas. Por vezes, às almas eram atribuídas as feições de figuras públicas ou inimigas, desse modo lhes atribuindo funções de crítica social. Algumas ostentam inscrições de apelo à oração: “ Pelas almas, Pai nosso, Avem”; “Pelas almas P.N.A.M.”; “Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós que estamos penando”; “Socorrei ó almas pias / As tristes almas fiéis / Lembrai-vos que em breves dias / No mesmo fogo estareis” (Alminhas, junto ao lagar, Cabreira).

3. PATRIMÓNIO MATERIAL E IMATERIAL

As alminhas são património. Património cultural e religioso, enquanto expressão da piedade cristã, remetendo para a fé dos nossos antepassados, para a crença na vida para além da morte, para a esperança na ressurreição, para a fé e as devoções atuais. Património construído, enquanto arquitetura religiosa e expressão de arte popular, refletindo os gostos, a construção local em diferentes épocas, a maior ou menor nobreza dos materiais, o poder económico das pessoas.

Apesar deste estatuto de património imaterial e material e, nessa medida, de recurso potencial ao serviço do desenvolvimento, é grande o descuido em que muitas alminhas se encontram. Para quando a sua recuperação e inventário? Para quando a criação de rotas das alminhas, municipais e intermunicipais?


ALMINHAS DO COLMEAL

Recentemente, o nosso conterrâneo Dr. João Nogueira Ramos manifestou interesse na inserção das alminhas do Colmeal, no seu site fantástico sobre o concelho de Góis, http://concelhodegois.weebly.com/ [2] . Tendo-me prontificado para fazer um primeiro levantamento, é esse trabalho muito inacabado que agora partilho, na convicção de que as alminhas são património coletivo e na expetativa de podermos melhorar e completar o levantamento, com a colaboração de todos.

Há alminhas que ficaram fora deste levantamento? Quais e onde? Em relação ao que se diz, há alguma alteração a fazer? Há alguma coisa que se deva acrescentar? Em que data, precisa ou aproximada, é que determinadas alminhas foram construídas? Por quem e porquê? Em que data é que foram reconstruídas? Por quem e quais as razões? Que alterações de localização, estrutura ou imagética é que sofreram com a reconstrução? Que histórias ou lendas é que se encontram associadas a determinadas alminhas? Que pormenores podem ser acrescentados? Enfim, informação que seria interessante recolher e registar, antes que se perca.

O levantamento foi feito nos finais de Maio/inícios de Junho de 2013. Agradeço muito a todos quantos me acolheram, levando-me até às alminhas mais recônditas, e facultando-me informação. Se esqueço alguém peço desculpas: Jaime (Açor); Alice, Maria Augusta, Maria Vitor e António Lopes (Aldeia Velha); Fernanda (Carrimá); Emília, Maria do Patrocínio, António e José Joaquim (Carvalhal); Maria Luísa, Elisabete, Fátima, Belmira, Maria Eugénia, Abel, Manuel Domingos, Manuel de Carvalho, Manuel dos Santos (Colmeal); Ana Maria e José Nunes (Góis); Aurora, Leziria, António Martins e João Vicente (Malhada); Maria da Conceição (Sobral); Júlia, Armando e António Duarte (Soito).

Encontrei ao todo quinze alminhas, destruídas que foram outras de que há notícia pela construção e o alargamento de estradas, talvez também por incêndios. A indiciar devoções e gostos mais ou menos recentes, a maior parte das alminhas encontra-se enfeitada com velas, jarras e flores artificiais, que dificultam o encontro do olhar das imagens com o nosso. Sempre que os retirei  para fotografar, voltei a colocá-los.

A maior parte das alminhas tem caixa de esmolas, algumas das quais abertas. Em princípio, as esmolas são hoje diminutas e, a serem retiradas, são-no localmente. Na paróquia, a Mordoma das Almas é Belmira Almeida, do Colmeal, que apenas recebe as ofertas que lhe entregam, valores que se destinam à celebração de Missas pelas almas. Os funerais já não se fazem acompanhar pelo Painel das Almas, “um grande painel em madeira acastanhada, com as almas pintadas que era levado por homens, um de cada lado”. 


[2] Pela abrangência da informação, pelo rigor, pela investigação subjacente, pela generosidade implícita no modo como dá a palavra aos outros, pelo amor manifestado, pelo gigantismo da obra …


AÇOR

Alminhas em forma de oratório com porta em vidro, situadas à beira da estrada, no Vale, junto à entrada sul da povoação. Foram mandadas construir em 1975, por José Nunes dos Santos, em substituição de umas antigas com painel em madeira, que existiam na parede da casa da família. O painel é em azulejo, e representa S. Miguel, com o diabo/dragão subjugado a seus pés pela lança que segura na mão direita, enquanto a esquerda segura a balança de pesar as almas. No canto inferior direito do painel pode ver-se a inscrição: “Estatuária. Coimbra”.

A imagem de S. Miguel é frequente em alminhas, devido às orientações da igreja nesse sentido. Não encontrámos mais no Colmeal, mas, curiosamente, é também a imagem das Alminhas do Padre André – cujo pai era do Açor -, a que já aludimos. S. Miguel é também o padroeiro de várias Confrarias das Almas em funcionamento em paróquias..

Na freguesia, só nestas alminhas e nas Belide (1959) é que são visíveis a data de construção e o nome de quem as mandou construir.

Estas alminhas foram limpas e pintadas em 2012 pela Silvina e o Manuel, filha e genro do falecido José Nunes dos Santos.

- Perto do Açor, no Vale do Açor, existiam umas alminhas antigas, com painel em madeira, que foram demolidas com a construção da nova estrada para o Colmeal. Havia a intenção de as reconstruir, mas isso não veio a verificar-se.





ALDEIA VELHA

- Alminhas muito antigas, situadas à entrada, mas já dentro da povoação, no cruzamento da rua principal com uma que conduz para a direita. Do ponto de vista da localização, são um caso evidente de umas alminhas que se tornaram interiores, devido ao crescimento da terra para as suas extremidades, no caso, por reconversão para habitação de palheiros e currais do gado.

São umas alminhas em forma de oratório construído a pedra e barro, mas que se apresentam rebocadas a cimento, material de que também parece ser o telhado. Segundo os residentes com quem falei, aquelas alminhas estiveram sempre ali e não foram objeto de qualquer alteração ao longo do tempo. Terão sido mandadas construir por uma senhora chamada Prazeres, que faleceu há muito tempo com mais de oitenta anos. Estimam, assim, que tenham cem ou mais anos.

A antiguidade destas alminhas depreende-se, sobretudo, através do retábulo, que é uma pintura sobre madeira, caso único na freguesia. Trata-se de uma pintura realmente muito básica, que se encontra muito esbatida pelo tempo. Mostra uma alma (feminina) a levantar os braços suplicantes para Cristo crucificado. De ambos os lados da cabeça dessa alma, há umas imagens escuras que tanto parecem aves, como chamas. Dos pregos nas mãos de Cristo, pendem uns fios para uma espécie de cálices muito esguios. Será sangue a escorrer? Será confusão com a balança de S. Miguel? Por cima dessas figuras, há umas flores da mesma cor. No canto inferior direito, constam a inscrição P. A. (Pai Nosso, Avé Maria) e dois A na vertical, enquanto, do lado esquerdo, os dois A são na horizontal. Serão a assinatura? No topo da cruz pode ver-se a sigla INRJ (Jesus Nazareno Rei dos Judeus), com que os romanos sinalizaram os motivos da condenação de Cristo. A base do nicho é em tabuinhas de madeira pintadas a azul. 





 - Alminhas também muito antigas, situadas num cruzamento da rua/estrada por baixo da aldeia, denominado “Almas”. Destas alminhas só resta o nicho feito de pedras. Ocupando o topo da parede de uma fazenda, encontra-se emoldurado na parte superior por um corrimão de videiras. Sobre o retábulo, de acordo com uma versão, nunca existiu, de acordo com outra, era em madeira, mas desapareceu. 



 - Nas proximidades de Aldeia Velha, na serra, existiram ainda as Alminhas da Assentada das Almas. Tantas vezes os pastores as terão destruído e construído que desapareceram. 


CARRIMÁ

- Alminhas em forma de oratório, situadas por baixo da povoação, num caminho que dá acesso a casas e terrenos de cultivo. Foram mandadas construir pela população em 1951, e reparadas em 1976, datas que constam da estrutura. Inicialmente construídas a pedra e terra, foram rebocadas quando dessa reparação, altura em que o painel em madeira, que começava a apodrecer, foi substituído pelo atual em azulejo.

O painel é em azulejo e tons de azul. Encimado por Cristo crucificado, há almas nas chamas, duas das quais estão a ser ajudadas por anjos. No topo da cruz, lê-se “INRJ”; No canto inferior direito, “Bruma Limitada. Coimbra”.

Estas alminhas não têm caixa das esmolas, o que não era habitual, na época.





- Alminhas de nicho situadas no largo, à entrada da aldeia. Foram construídas por António Martins Nunes, nome cujas iniciais constam da base do nicho, bem como uma pequena cruz, à direita. O painel em azulejo mostra a Sagrada Família, com S. José e o jovem Jesus a carpinteirar, enquanto Nossa Senhora fia.

Estas alminhas lembram a grande devoção de António Nunes, que acalentou o sonho de ver construída uma capela em Carrimá, ainda que pequena. Para tanto, pediu um terreno perto do largo, e tentou mobilizar a comunidade, sem sucesso. “Ele tinha a vontade, mas como não tinha os meios, não conseguiu. Então decidiu fazer o nicho e pôr lá aquela imagem” (Fernanda).

A placa toponímica que encima o nicho também foi da iniciativa de António Martins Nunes, no caso com a colaboração do primo Luís. Foi colocada sobre as alminhas, possivelmente por estar ali um rebordo já feito, em homenagem ao presidente da junta de freguesia, que dotou a aldeia com estrada (1975/76) e outros benefícios, nomeadamente escadarias e caminhos cimentados. 




CARVALHAL DO SAPO

Alminhas situadas na descida para a aldeia, num sítio que me disseram chamar-se “Trincheira” e, também, “Relveiro do Rego”. A estrutura é em forma de capela relativamente pequena, apresentando uns banquinhos laterais individuais compatíveis com o pouco espaço disponível. O painel em azulejo mostra a imagem de Nossa Senhora do Carmo coroada, com o Menino sem coroa no braço esquerdo. Refiro os pormenores da posição do Menino e da coroa, porque divergem de imagem para imagem da mesma Santa. Como é frequente neste e outros painéis, no topo, de ambos os lados, há rostos de anjo. Na base, envoltas em chamas até ao peito, uma alma feminina e outra masculina são ajudadas por anjos femininos dotados de grandes asas.

São umas alminhas relativamente recentes, pois foram mandadas construir por Libânia Martins, no regresso de Angola, quando da descolonização.




- Alminhas muito comoventes, situadas num antigo caminho denominado Corredoiro, que dá acesso a terrenos e à antiga fonte. São de nicho e encontram-se inseridas num muro em pedra, lembrando a janela de uma antiga casa e o recurso aos materiais localmente disponíveis. Deverão ser muito antigas, a ajuizar pela madeira onde o Crucifixo, aparentemente mais novo, se encontra fixado. Poderá tratar-se de um dos casos de desvanecimento da pintura com o tempo, e de acréscimo posterior da cruz. Encontram-se limpas e cuidadas, sendo de destacar o gosto do suporte para as velas e flores, esteticamente condizente com a beleza e a harmonia do conjunto. Disseram-me que esse adereço está ali há uns tempos, e que aparece enfeitado por alma devota com flores naturais. Quando da nossa visita, era uma orquídea já murcha, que ali exalava fé, talvez amor! 




- Alminhas de nicho em pedra, situadas numa antiga saída para a Candosa e o Cadafaz, num sítio chamado Pinheiro. Também se encontram incrustadas numa parede, próxima do desmoronamento. Em princípio por desvanecimento da imagem, do retábulo só sobra a madeira, rachada ao meio e irregular nas extremidades. 



- Existiram no Carvalhal umas outras alminhas de capela ou alpendre, na Póvoa da Lomba. Foram mandadas construir haverá uns setenta anos, por José Maria Barata, em cumprimento de promessa dos seus avós, que as terão prometido em agradecimento pela sobrevivência de umas meninas gémeas. “Eram umas alminhas muito lindas, tinham Cristo, as gémeas e tudo! E davam ali muito jeito, cobertas e com os bancos ao comprido. Então quando chovia …! A gente vinha com os molhos de mato, pousava-os e sentava-se nos bancos a descansar! Foram demolidas há uns anos para passar um estradão dos ralis. Estão em casa da Cilinha, que também teve gémeas ….” (Maria do Patrocínio).

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 13 de junho de 2013

07 julho 2013

COLMEAL nos PICOS DA EUROPA

A União Progressiva da Freguesia do Colmeal de acordo com o seu programa de actividades que delineou para o corrente ano, preparou para si um aliciante e muito preenchido programa para que entre 4 e 8 de Outubro nos possa acompanhar num espectacular passeio aos Picos da Europa. Serão cinco dias espectaculares!











No regime de “TUDO INCLUÍDO”, a nossa proposta contempla todas as refeições com bebidas incluídas assim como as entradas nas várias visitas a museus, catedrais e outros monumentos, a subida em teleférico para se apreciar a deslumbrante vista dos Picos da Europa e ainda uma degustação dos famosos queijos de Cabrales.

Solicitamos e agradecemos que nos confirme a sua inscrição, o mais cedo possível, para os habituais contactos: António Santos – 962372866 ou Maria Lucília – 914815132/218122331.

Chamamos a sua particular atenção para o facto de o preço por pessoa Em Quarto Duplo € 490,00 e Suplemento Quarto Individual € 105,00 ter sido estabelecido para um mínimo de 40 participantes, que estamos confiantes poder atingir.

Porque conseguimos negociar com a Agência de Viagens um pagamento faseado, informamos que poderá efectuar as suas entregas por cinco vezes - 100 euros cada nos meses de Junho a Setembro e o remanescente até 31 de Outubro.
Para sua maior comodidade poderá fazê-lo via Multibanco para a conta da UPFC no Banco BPI com o NIB 0010 0000 3254 3590 0015 4.

E agora delicie-se com o programa que a seguir lhe apresentamos sucintamente:

4 Outubro - Lisboa | Puebla de Sanabria | Léon

Saída de Lisboa com destino a Puebla de Sanabria, já em Espanha, onde almoçaremos. Puebla de Sanabria é uma típica vila localizada na Sierra de La Culebra onde se destacam a igreja datada do século XII e o castelo do séc. XV. Continuação da viagem até Léon onde iremos passear pelas ruelas do pitoresco bairro antigo em volta da Plaza Mayor e visitar a Catedral com os seus magníficos vitrais datados do séc. XIII ao XX. Visitaremos ainda a Basílica de Santo Isidoro construída entre os séculos XI e XII. Jantar e alojamento.

5 Outubro - Léon | Oviedo | Cangas de Onis | Covadonga | Arenas de Cabrales (Picos Asturianos) | La Franca

Saída para Oviedo, capital cultural e comercial das Astúrias onde nos passearemos pelo seu núcleo medieval e faremos uma visita à sua Catedral de estilo gótico também conhecida como Sancta Ovetensis, referência à qualidade e quantidade das relíquias que contém, e ao seu “tesouro”, a Câmara Santa. Continuamos depois até uma das entradas para os Picos da Europa: Cangas de Onis. Poderemos ver a ponte romana construída no séc. XIV e sobre a qual está colocada o símbolo das Astúrias: a Cruz da Vitória. Após o almoço visitaremos o planalto dos lagos La Ercina e Enol, também conhecidos como os Llagos de Covadonga. Continuamos até ao Santuário de Covadonga, onde se destaca a Gruta Santa escavada na rocha. Seguiremos em direcção a Arenas de Cabrales, vila rodeada por imponentes montanhas, onde efectuaremos uma degustação de queijo. Jantar e alojamento.

6 Outubro - La Franca | Desfiladeiro da Hermida | Potes | Fuente Dé | Potes | Riano | Ribadesella | La Franca

Dia inteiro dedicado ao Parque Nacional dos Picos da Europa, um dos maiores parques naturais da Europa devido à sua superfície que cobre três áreas: Astúrias, Cantábria e Castela e Leão. Partida de La Franca passado pelo Desfiladeiro da Hermida até chegarmos a Potes, pequena cidade antiga, com casas adornadas com varandas ao longo do rio. É o principal centro da zona oriental dos Picos da Europa, localizado no meio de montanhas. Continuação para Fuente Dé. Aqui encontramo-nos no “coração” dos Picos da Europa. Subida em teleférico até aos 1.823m em somente 4 minutos e de onde se tem uma deslumbrante vista. Regresso a Potes para almoço, antes de seguirmos para a pequena e bonita localidade de Riano, localizada nas margens do lago com o mesmo nome. Continuação para Ribadesella, cidade costeira que fica à beira de um largo estuário. Regresso a La Franca. Jantar e alojamento.

7 Outubro - La Franca | Grutas de Altamira | Santillana del Mar | Santander | Burgos

Partida em direcção às Grutas de Altamira que apresentam uma das melhores mostras da arte rupestre pré-histórica, tendo sido declaradas Património da Humanidade pela Unesco. Para preservação as mesmas encontram-se encerradas ao público, pelo que faremos uma visita ao Museu de Altamira. Partida para Santillana del Mar que com as suas bem preservadas ruas medievais, é uma das mais pitorescas localidades de Espanha. Almoço. Partida para a costeira e bonita cidade de Santander, capital da Comunidade Autónoma da Cantábria, que se destaca pelas suas praias e pelo seu porto. Prosseguimos em direcção a Burgos para uma visita do seu centro histórico, com destaque para a Catedral, declarada Património Mundial pela Unesco, Praça Mayor, Arco de Sta Maria e a estátua de El Cid. Jantar e alojamento.

8 Outubro - Burgos | Valladolid | Salamanca | Lisboa

Partida para Valladolid onde se efectuará a visita de cidade destacando-se a Praça Mayor, o Palácio Real, a Universidade fundada no século XIII. Visita à Casa-Museu de Cervantes onde foram escritos alguns capítulos da obra “Don Quixote de la Mancha”. Depois, partida para Salamanca. Almoço A seguir, breve visita do centro histórico da cidade Universitária, que tem um dos melhores conjuntos espanhóis de arquitectura renascentista com destaque para os belos edifícios de pedra dourada em especial da Praça Mayor, as duas Catedrais e a Universidade do séc. XIII. Partida em direcção a Lisboa onde chegaremos ao final da noite.

Venha connosco ao Parque Nacional dos Picos da Europa, um território distinto no contexto geográfico ibérico. Uma cordilheira de altas montanhas e vales extensos de origem glaciar, gargantas apertadas, picos abruptos e lagos espelhados muito perto do mar, que dá guarida a tesouros naturais que se fundem com a história do país.
Uma viagem nas alturas pelo berço de Espanha. Venha porque vai valer a pena!

UPFC



10 junho 2013

ANTIGUIDADES E AFETOS



Fizeram-me chegar há uns tempos – lembrança que muito apreciei e agradeço –, “O Grande Livro das Antiguidades” (Rebo Productions, The Netherlands, 2000).

É um livro muito interessante, pelo assunto e pela extraordinária riqueza e diversidade da informação e das antiguidades que apresenta, organizadas por categorias que se regem, umas vezes pela funcionalidade dos objetos, outras pelo material de que são feitos, outras ainda, pelos estilos em que se inserem. Numa variedade absolutamente fantástica, as categorias desdobram-se em numerosas subcategorias!

No capítulo das cerâmicas, que me pareceu sem surpresa e por razões óbvias o mais extenso, consta, entre muitas outras, a porcelana de Meissen, cidade da então República Democrática Alemã, onde, pela primeira vez, tive oportunidade de acompanhar, numa fábrica transformada em museu vivo, o ciclo de produção da loiça, em visita guiada que recordo como exemplo de otimização de recursos e organização. A queda do muro de Berlim estava para breve. Também no que toca à loiça de Delft, recordo que a honrei, na ausência da informação que o livro me proporcionou, com a compra de uma série de tamanquinhas holandesas em miniatura!

Apesar de se tratar de um livro transversal e transnacional, que contempla produções provenientes dos mais diversos domínios e distantes partes do mundo, abrangendo do século XVIII à primeira metade do XX, não encontrei qualquer referência a marcas e produtos portugueses merecedores de menção. Entre outros, estou a pensar na loiça da Vista Alegre ou, no extremo oposto da posição social, nos pratos ratinhos, loiça de Coimbra que os beirões levavam para as ceifas, no Alentejo, e deixavam por lá, vendidos ou trocados pela prenda com que regressavam para a mulher amada, mãe, esposa ou namorada. É pena!

Por força do conceito de antiguidades que lhe subjaz – “objetos encantadores, desenhados por artistas e com um design bonito e funcional (p. 8) – a obra incide sobre a esfera doméstica e do consumo, deixando de parte a esfera do trabalho e da produção e os utensílios, digamos que menos diferenciados. Confirma-se, assim, como digo no livro “Dos Objectos para as Pessoas” (2007), que “nem sempre aos objetos mais humildes é dada a mesma visibilidade que às «jóias da coroa» ou às produções dos grandes autores” (p. 9).

No plano temporal, considera-se antiguidade um objeto com uns escassos cinquenta anos, conceção muito pouco atual, face à velocidade a que a mudança e o desuso se processam hoje em dia. De qualquer modo, vem dar razão à minha amiga que foi até ao eletrão com um ferro de passar e um computador, e depois voltou com eles para casa, precisamente por ter pensado que o novo de hoje será o antigo de amanhã!

De acordo com o livro, colecionar antiguidades é um investimento, e pode ser muito enriquecedor, permitindo o estudo da história, das técnicas, dos estilos e das artes (p. 9-10). Não menciona as dimensões do respeito pelo labor dos artífices e de símbolo e memória de afetos, que presidem às preocupações de preservação de muitos de nós, cidadãos, autarquias ou associações. Preocupações essas que se traduzem na reutilização dos objetos, com a mesma ou função distinta da que tinham originariamente, e na sua inclusão em museus e centros de interpretação.

Trata-se de realidades e abordagens distintas? Sem dúvida! Precisamente por isso é que são tão enriquecedoras, interessantes e complementares, justificando que continuemos a construir o nosso próprio espólio de memória e identidade, “a evocar histórias de vida, afetos, aromas e sabores, espaços e tempos sociais. E a sugerir o futuro, no devir ininterrupto do tempo e das gerações” (Dos Objectos para as Pessoas, p. 10). Também a contribuir para a sustentabilidade da economia local, como recurso ao serviço da investigação e do turismo cultural e de lazer.

Que eu saiba, temos os museus ou núcleos museológicos de Fajão e do Piódão, do Colmeal (Miniaturas do Artur) e da Cabreira, do Açor e do Cortarredor, do Soito, da Aigra Nova e da Pena, mas outros poderão surgir, no pressuposto de que os objetos devem permanecer no espaço físico e simbólico a que pertencem e de que os museus devem funcionar em rede.

O livro pertence à biblioteca da União Progressiva da Freguesia do Colmeal. Consulte-o e não se arrependerá.

Lisete de Matos


Açor, Colmeal, 5 de Maio de 2013

Comandos voltaram à Serra do Açor e ao Colmeal

A União Progressiva da Freguesia do Colmeal preparou e realizou um fim-de-semana diferente em que nos embrenhámos por aquele país totalmente desconhecido para a maioria dos que nos acompanharam e em que procurámos descobrir os hábitos e as tradições das nossas gentes, e apreciar os lugares escondidos pelos recantos das encostas, com a sua personalidade própria, a sua história e o seu património.

A primeira paragem foi na linda vila da Lousã. Datam do período da dominação romana os mais antigos vestígios que testemunham a presença do homem na região da Lousã. Monumentos funerários e diversos objectos ali encontrados atestam essa presença. Consolidando-se na Idade Média, a Lousã viria a prosperar no século XVIII e seguintes, graças à industrialização. Hoje, a par de um cunho actual, a vila mantém o seu casco antigo preservado e está rodeada de uma serra onde se encontram diversas aldeias encravadas nas encostas da serra com o mesmo nome.




Uma visita guiada ao Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques, que está a funcionar num edifício municipal recuperado e adaptado onde se encontram mais de trezentas peças da sua colecção particular, um espólio etnográfico riquíssimo, fascinou todos os participantes. No piso intermédio onde se encontram os serviços educativos e existe um auditório para conferências foi também possível apreciar a interessante Exposição de Escultura de Ana Marta Pereira.



O castelo da Lousã, também chamado de Arunce ou de Arouce, já fica fora dos limites da vila, a cerca de três km e encontra-se no alto de uma espécie de promontório, rodeado de um vale profundo onde corre a ribeira de S. João.

Como se lhe refere Paulo Rios Peralta (2009) “Lendas e História de um povo tendem a cruzar-se e por vezes a confundir-se... Também a mítica que envolve a fundação da Lousã está envolta em mistérios de alguma forma bucólicos, o que a torna mais apetecível.
É neste contexto que surge o Castelo de Arunce com todo o seu mistério, capaz de nos transportar para tempos avoengos de batalhas e amores quiçá proibidos…
O cenário em que se integra o castelo da Lousã, a península onde se insere e todo o espaço envolvente transporta-nos assim para além da realidade e é envolto neste quadro que a lenda se torna realidade. Conta a história ter sido este castelo mandado construir pelo Rei de Conímbriga chamado Arunce. Este castelo constituiria assim um local de refúgio que, embrenhado na floresta, confundia os ataques inimigos.
É perante uma invasão a Conímbriga, então porto de mar, perpetrado pelo Príncipe Lausus, que o Rei Arunce se vê obrigado a fugir para a atalaia da Lousã, levando consigo a sua filha Peralta e todas as suas riquezas. Contudo, no momento da fuga, a Princesa Peralta e o Príncipe Lausus terão trocado olhares que os deixou enamorados.
O ímpeto de Lausus leva-o a ir em busca da sua amada, percorrendo as serranias da região.
O velho monarca, sabendo das intenções do seu inimigo, resolve ir ao encontro de Lausus, deixando Peralta e as riquezas fechadas no Castelo da Lousã.
Este encontro militar acaba contudo por se tornar fatídico para Arunce e Lausus…
Não havendo ninguém conhecedor do refúgio da Princesa, conta a lenda que ainda hoje, de vez em quando, se ouve o soluçar apaixonado da jovem Peralta, aguardando pelo seu Príncipe. …


  

As Ermidas da Nossa Senhora da Piedade, cuja construção remonta ao século XV, são um importante Santuário Mariano e ficam situadas mesmo em frente ao castelo de Arouce. São três as capelas, sendo a mais antiga e de maior dimensão a Capela de S. João, construída entre os séculos XIII e XIV. Possui um conjunto de esculturas do séc. XV e XVI talhadas em pedra de Ançã: S. João Baptista, S. João Evangelista e S. Paio, e ainda um frontal de altar em azulejos seiscentistas. A completar o conjunto, a Capela da Agonia, edificada no séc. XVIII e a Capela de Nossa Senhora da Piedade, que só descia à vila em ocasião de calamidade pública e aquando da criação da Irmandade de Nossa Senhora. A imagem passou a permanecer durante cerca de um mês na Igreja Matriz, regressando em grandiosa procissão ao seu Santuário. Em 1912 foi construída a quarta Capela: a do Senhor dos Aflitos, situada no morro em frente ao Castelo. Esta pequena capela, em estilo neo-românico, com cantarias, tem um altar revivalista executado pelo escultor conimbricense João Machado.






Num agradável ambiente e com uma extraordinária envolvente todo o grupo se rendeu à gastronomia local que nos privilegiou com produtos regionais e onde a confecção e a apresentação extremamente cuidada mereceram o nosso aplauso. Talvez por isso o almoço parecia não ter fim.




Na Fraga da Pena foi a paragem seguinte. As águas da Barroca das Degraínhas ao encontrarem-se com as da Ribeira da Mata formam uma cascata com algumas dezenas de metros em vários desníveis e com uma vegetação abundante e verdejante que se desenvolveu ao seu redor. A parede rochosa por onde se despenha a água está coberta de musgo, tal como ao longo dos acessos que nos levam até à pequena lagoa onde as pessoas se podem banhar. É um cenário idílico, um autêntico e verdadeiro recanto do paraíso que muitos desconhecem, onde impera uma impressionante serenidade e frescura e que nós fomos encontrar em plena Área Protegida da Serra do Açor.

A Mata da Margaraça ocupa uma parte da vertente norte da serra da Picota. É um espaço privilegiado de encontro com a Natureza. Constitui um raro testemunho da vegetação espontânea da paisagem serrana, considerado como o último reduto da vegetação original do centro do país. Pertença do Instituto da Conservação da Natureza é hoje apenas uma pequena amostra do que em tempos foi, um dos mais opulentos maciços florestais do território. Está classificada como Reserva Natural da Rede Nacional de Áreas Protegidas e Reserva Biogenética do Conselho da Europa.










Piódão é, sob o ponto de vista turístico, um dos principais pontos de referência de todo o concelho de Arganil. Esta típica aldeia em forma de presépio, com casario em xisto e telhados de loisa é propícia a um regresso ao passado bem presente no dia-a-dia dos seus habitantes, poucos, que se espalham pelos socalcos, onde praticam uma agricultura de subsistência. Considerada de interesse nacional, a aldeia do Piódão, localizada em plena serra do Açor, é hoje um local privilegiado para quem procura um turismo rural. Foi possível visitar o Museu situado mesmo ali perto da Igreja Matriz e depois percorrer algumas das ruas estreitas, interessantes não só pela particularidade da sua construção como dos pormenores que encerram e se encontram na passada.




Com o dia a chegar ao fim era imperioso rumarmos ao Sarzedo para mais um jantar gastronómico. Esperava-nos uma divinal chanfana, um prato típico preparado à base de carne de cabra velha a que se junta vinho tinto, aguardente, alecrim, alho, azeite, cebola, sal e salsa, e que pode ainda levar colorau, cravinho, louro, malagueta, pimenta, toucinho de porco, conforme os “saberes antigos” que se vão transmitindo de geração em geração para os “sabores actuais” de cada um de nós.



À noite ainda houve tempo para um passeio pelas ruas quase desertas de Arganil e para um digestivo e dois dedos de conversa na esplanada. Na manhã seguinte o clarim ia fazer-se ouvir cedo para o “toque de alvorada”.


Fotos de A. Domingos Santos