22 abril 2020

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA: A TRADIÇÃO DOS MASTROS EM HONRA DE S. SEBASTIÃO.


A Páscoa é a festividade mais importante das religiões cristãs, especialmente da católica, por celebrar a Ressurreição de Cristo, e consequentemente, a vitória da vida sobre a morte na cruz, por amor aos outros e para sua plenitude e salvação. Os outros - princípio fundador do Cristianismo - sem os quais a ligação a Deus não se faz, dizia D. Manuel Clemente em entrevista à RTP. 

Este ano, porém, tivemos uma Páscoa muito diferente, como diferente é a vida na multiplicidade das suas dimensões, por força do distanciamento a que nos obriga o poder imenso de um vírus ínfimo. Não obstante as perdas e o sofrimento, uma Páscoa repleta de inovação, entrega, generosidade e solidariedade. 

Na ausência de solenidades comunitárias, os rituais tiveram de se reinventar e os atos litúrgicos realizados sem a presença física dos crentes chegaram-lhes através de órgãos de comunicação social e plataformas digitais. As mesmas ferramentas que algumas famílias usaram para conviver, matar saudades e abraçar 



Deste modo, vimos: sacerdotes, como o cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente ou o bispo do Porto, D. Manuel Linda, a celebrarem sem fiéis, carregando sobre os ombros o pesar e a solidão do mundo, qual Papa Francisco a atravessar frágil e depois a rezar na Praça de S. Pedro vazia; os mesmos cardeal e bispo, o primeiro a abençoar a população e a cidade da porta da Sé, o segundo a fazê-lo da Ponte D. Luís; sacerdotes que celebraram em igrejas cheias com fotografias de paroquianos, párocos e leigos que cumpriram a visita pascal (boas-festas, compasso …), transportando pelas ruas a cruz nos braços ou em carros; fiéis, caso do José Álvaro que fez chegar a boa nova por mensagem, com votos de santa Páscoa da equipa que costuma fazer a visita. 

Este é o dia que o Senhor fez 

Cantemos e exultemos de alegria. 

Aleluia, Aleluia, Aleluia! 


Uma manifestação concomitante com a Páscoa, foi o aparecimento de cruzes enfeitadas com louro, alecrim e fitas coloridas, nas entradas/saídas de povoações. Sem ter nada a ver com a sugestão de os cristãos assinalarem a Ressurreição e a alegria pascal com cruzes à porta: a sugestão remetia para cruzes sóbrias, místicas e familiares, as das terras adejavam exuberância, coletividade e tradição. 



Por ter sido objeto de notícia, pôs-se a hipótese de as cruzes serem uma réplica do Crucifixo milagroso que encimava a Praça de S. Pedro, no tal dia (27 de março) em que o Papa aí orou sozinho [1]. Nessa muito tocante celebração, o Santo Padre agradeceu a todos os que generosa e abnegadamente combatem a pandemia nas várias frentes que têm permitido à maioria sobreviver [2]


Nada disso. Não havia semelhança entre o crucifixo romano e as cruzes que acolhem vigilantes à entrada de povoações. Tratava-se, afinal, de mastros erguidos em honra de S. Sebastião, visando pedir a sua intercessão para combater a doença que tanto sofrimento tem infligido e vidas ceifado. E está para infligir, por razões sanitárias e de impacto social e económico. 

Como sabemos, S. Sebastião - o padroeiro da antiga freguesia de Colmeal, hoje parte da União de Freguesias de Cadafaz e Colmeal - é o santo protetor da fome, da guerra, da peste e das doenças contagiosas, em geral. São estes atributos que justificam o Bodo, em cumprimento da promessa feita ao santo para salvar as gentes da peste que as dizimava. A tradição terá começado em Roma, no século VII, quando os seus restos mortais foram levados para a cidade e fizeram desaparecer o mal. Já no século XVI, por sua intercessão, fala-se de curas generalizadas em Milão (1575), Lisboa (1599) e um pouco por toda a parte, uma vez que o Bodo continua a ter lugar entre nós, como em muitas outras localidades e regiões do país. 


Os mastros em honra do santo devem datar da mesma época, embora não se tenha localizado a origem da tradição em Portugal. No Brasil, onde os respetivos rituais conhecem uma grande adesão, data do século XVI, estando associada a um surto de varíola levado da Europa. (https://www.novanews.com.br/noticias/geral/). 

Conforme informação dos senhores Maria Alice Braz e Carlos Alves, da Sandinha, os mastros têm de ser em número impar e cada pessoa da localidade deverá contribuir com uma das fitas que adornam e animam a cruz. Dir-se-ia que simbolicamente a lembrar ao mártir os devotos por quem interceder. 

Tudo aponta no sentido de a tradição dos mastros corresponder à cristianização de um ancestral ritual pagão de fertilidade. Tal como verifica-se com as cruzes que eram/são afixadas a 3 de maio, dia de Santa Cruz, para proteger dos males e assegurar a fecundidade dos campos e animais. Não raro, o sagrado e o profano a interpenetram-se, por motivos históricos e outros. Na Sandinha, os mastros são cinco, no Açor um, colocado por iniciativa Maria Elsa e do Fernando. Solidariamente, a pedir a intervenção de S. Sebastião a favor de todos. 



Infelizmente pelas piores razões, a tradição também se reinventou, resgatando os mastros em honra de S. Sebastião do esquecimento em que tinham mergulhado, no quadro da fantástica evolução civilizacional da humanidade, apesar de as vulnerabilidades que explicam a atual conjuntura sanitária e social. Os últimos de que há memória remontam aos finais dos anos cinquenta do século passado, prendendo-se com a peste suína africana. Integrando o património cultural imaterial, são uma expressão da piedade e devoção com que alguns segmentos das populações enfrentam os limites humanos, o desconhecido e o transcendente. 

Finalmente, depois deste errático discurso sobre religiosidade e tradição, em que a cruz esteve sempre presente, na semana da pascoela, resta sublinhar a importância da mesma para os crentes, enquanto objeto de culto, símbolo de Ressurreição, Cristianismo e vida. 

Votos de muita saúde, coragem e esperança. 

Lisete de Matos 

Açor, Colmeal, 18 de abril de 2020. 

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[1] O referido crucifixo em madeira tornou-se objeto de devoção quando, em 1519, foi a única peça a resistir a um incêndio que destruiu a igreja de São Marcelo Al Corso. Poucos anos mais tarde, a mesma imagem terá extinguido a peste que grassava, depois de transportada em procissão por toda a cidade de Roma durante dezasseis dias. (https://pt.aleteia.org/2020/03/19/a-historia-do-crucifixo-milagroso-que-salvou-roma-da-peste/). 

[2] Na mesma altura, reiterou que ninguém se salva sozinho e que temos de aprender a distinguir o essencial do supérfluo, acrescentando: Deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente …


06 abril 2020

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. SINAIS: AÇÃO HUMANA E ESPÉCIES DA FAUNA


Aproximava-se a primavera e, com ela, o tempo das caminhadas e passeios a pé. Caminhadas e passeios cujo sentido depende de quem caminha e de os objetivos com que o faz. Caminhar por gosto ou desgosto, evasão ou reencontro, razões de saúde ou convívio. Caminhar na natureza e por amor à natureza, desfrutando da beleza sempre diferente, da presença e ausência, do visível e invisível que ela nos proporciona. Ausente e invisível visíveis em sinais, marcas eloquentes não raro efémeras de realidades conhecidas ou desconhecidas!

São alguns desses sinais que tinha a intenção de partilhar. Depois, a normalidade desvaneceu-se, a devastação e a aflição instalaram-se, a ideia perdeu-se. Até pensar que, no contexto individual e coletivo de sofrimento, risco e vida suspensa em que nos encontramos, caminhar apenas virtualmente é um mal menor. É mesmo um privilégio que as tecnologias nos permitem. Acresce que rever os sítios onde enraizamos poderá ser uma forma de mitigar a saudade que temos deles e uns dos outros. E assim retomei os ditos sinais, também como contributo para estarmos juntos e virmos a casa ficando em casa. Na esperança inerente ao slogan “haverá tempo para voltar a desfrutar”. Entretanto, a primavera desabrocha colorida e melodiosa, os caminhos aguardam passos leves que os despertem, o espírito dos lugares permanece inspirador!

Como habitualmente, os sinais e vestígios a que aludo resultam da minha própria observação e alguns nem os sei interpretar. Mas alguém saberá e quererá partilhar esse saber, porque amar e preservar implicam conhecer.

Trata-se de observações não exaustivas sobre dois campos: um relativo às transformações que o homem – o atual e os nossos antepassados – impôs à natureza para dela sobreviver, na interdependência nem sempre harmoniosa da existência partilhada; outro relacionado com algumas espécies da nossa fauna.

As primeiras são transformações que continuam a humanizar a paisagem e a imbuir os sítios de memória, testemunhando o engenho e a tenacidade das pessoas, a sua história e os seus modos de vida. Juntamente com as atividades e práticas - usando ferramentas simples no passado e sofisticadas no presente -, estas estruturas integram todo um notável sistema de subsistência trabalhosa. Através delas, podemos sentir a presença dos que ao longo do tempo povoaram os lugares por onde passamos.

Quanto à fauna, o que procuro é mostrar alguns indícios da passagem recente ou da presença invisível de animais que dificilmente deixam ver-se. Só por descuido o fazem e apressam-se a desaparecer! São poucas as situações, mas quem dá o que tem …!

A maior parte das observações foi feita antes de o incêndio de 15 e 16 de outubro de 2017. Do património construído que ardeu restam as ruinas, para já, a natureza e a biodiversidade ainda não recuperaram totalmente. Nestas circunstâncias, falar delas no presente através dos registos, é um modo de exorcizar a ocorrência e de convocar o futuro. É acreditar e agir em conformidade com a renovação sustentável da vida na serra. Agora, com a necessária e rápida renovação da vida no país e no mundo. É exigir que a profecia (Robert K. Merton) se cumpra por si própria, como costuma acontecer nos planos social e económico. Solidários, somos um só, o homem, os homens, as mulheres e a natureza, na multiplicidade das suas valências. E, se semear é uma opção, colher o que se semeou (ou não) é incontornável.





























Santa Páscoa, votos de muita saúde.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 4 de abril de 2020

27 março 2020

SACOS DE RETALHOS – O meu trabalho em tempos de clausura


A propósito do excelente tema trazido por Lisete de Matos a este Blogue, Manuela Vieira Santos, associada da UPF Colmeal, enviou-nos esta foto. Como não a podemos inserir como comentário, levamo-la, deste modo, ao vosso conhecimento. 

“Aqui vai o meu trabalho em tempos de clausura”…, que aproveitamos para titular este pequeno apontamento. Uma sugestão que Lisete apresentava no texto “BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. FORMAS DE ENCONOMIA CIRCULAR”, que sugerimos o leiam de novo «Sacos de retalhosPor razões de uso e durabilidade, estes produtos devem ser feitos com retalhos novos ou com as partes mais poupadas da roupa. A confeção dos sacos pode e deve manter-se, associando a tradição à funcionalidade, agora que o plástico promete desaparecer, espera-se que tão rapidamente quanto se banalizou e instalou. Dão uns excelentes e muito invejados sacos do pão ou das compras!»


A. Domingos Santos
Foto de Manuela Vieira Santos


24 março 2020

UNIÃO PROGRESSIVA ADIA INICIATIVAS


A União Progressiva no momento difícil que atravessamos face à COVID-19 e de acordo com as recomendações e restrições que vêm sendo tomadas, informa os seus amigos e associados do adiamento das iniciativas que estavam previstas. Estamos a equacionar novas datas que dependerão, naturalmente, da evolução da situação.

De momento, é extremamente importante respeitar e seguir as orientações que a todos vão sendo transmitidas, para se conseguir ultrapassar e vencer tão grande batalha.

Nós vamos continuar a trabalhar neste ano em que a União Progressiva da Freguesia do Colmeal completa 89 anos de existência.

A Direcção

Suspensão processo migração da TDT devido ao Covid-19



A União Progressiva da Freguesia do Colmeal recebeu ontem do Município de Góis, para conhecimento, o email seguinte, que entendemos por conveniente divulgar aos nossos associados.



Exmo. Senhor Presidente,

O processo de migração da rede de TDT está suspenso devido aos constrangimentos associados ao COVID-19. A suspensão do processo decorre da prévia articulação entre a ANACOM e a MEO, operador da rede de TDT, e mereceu a necessária concordância do Governo.
Na sequência desta decisão, os emissores que iriam ser alterados a partir de dia 16 de março de 2020 já não mudam de frequência na data prevista. O processo será retomado assim que as condições associadas à pandemia o permitam. Nessa altura voltaremos ao vosso contacto.
Esta decisão justifica-se por um conjunto de dificuldades referidas pela MEO, devido ao impacto das medidas de proteção civil e de saúde pública adotadas ou a adotar, em face das recomendações da Direção Geral de Saúde para o COVID-19. Neste contexto, a empresa refere ainda o recurso a equipas técnicas de fornecedores estrangeiros.
No que respeita ao apoio ao utilizador de TDT, assegurado diretamente pela ANACOM através da linha de atendimento gratuita e das equipas técnicas de proximidade que estavam no terreno para apoio às populações, também importava avaliar o impacto das medidas de contingência no seu normal funcionamento. Releve-se que a deslocação destas equipas às residências da população já estava a ser feita com todas as precauções para prevenção de contaminação, mas ainda assim estavam sujeitas a uma probabilidade de contágio cada vez mais elevada, podendo contribuir inclusivamente para a disseminação do vírus.
Em face dos vários riscos e da elevada incerteza sobre a concretização do processo de migração nos termos planeados, a sua suspensão imediata afigura-se prudente.
Agradecemos que divulguem esta informação às Câmaras Municipais qjue integram esta CIM.

Para mais informações poderão contactar:
Ilda Matos
96 806 52 82

Melhores cumprimentos
João Cadete de Matos
(Presidente do Conselho de Administração)

12 março 2020

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. FORMAS DE ECONOMIA CIRCULAR


Espalhados, os botões reguilas faziam no chão uma mancha multicolor de feitios e cores simultaneamente iguais e diferentes. Ainda sentada no sítio de onde a caixa dos botões se deixou cair, observei que se limasse umas arestas ficaria com um coração. Boa ideia! Bem precisaria de vários! 

A pensar numa pessoa doente, pouco a pouco, o coração foi tomando forma e batendo forte de afeto, pincelado de tons e sons que os sentidos viam e a memória lembrava. Enviado o coração (oh, maravilha das tecnologias!), preparava-me para devolver os botões à clausura da casa comunitária que os aperta, quando fui tomada de uma certa nostalgia. Afinal, os botões correspondiam a cerca de metade dos muitos que fui recolhendo, melhor dizendo, que a família foi abotoando, ao longo do tempo. Eram ao todo setecentos e vinte e sete, entre pequenos, médios e grandes. Maioritariamente, eram botões redondos e chatos, muito poucos, reboludos, quadrados ou enfeitados. Os brancos predominavam (276), seguidos dos cinzentos e afins (230), castanhos e afins (84), vermelhos (52, alguns novos), dourados (46) e azúis (24). Apenas seis eram amarelos, oito prateados e um verde. 

Fantástico, aquele meu coração efémero de botões e afeições! E muito indiscreto do ponto de vista das lembranças, emoções e reflexões que suscitava. Apesar de os botões servirem, precisamente, para fechar e ocultar! E desabrochar, quando de rosa ou outra flor, mas esses são outros! 


Desde logo, o coração era uma manifestação perfeita do classicismo e neutralidade do vestir português. Tristonho, como o parque automóvel, não obstante o gosto por estilos mais garridos, e a internacionalidade da moda e do próprio vestuário. Esta evidência resultava da desproporção entre o branco e escuro e as restantes cores, que traduziriam posturas e estados de espírito mais alegres, calorosos e otimistas. 

Uma outra faceta que o coração refletia é o espírito de poupança que caraterizava as populações rurais. “Quem não aproveita o que não presta, não tem o que lhe é preciso”. Tantas vezes se ouviu esta máxima, que recolher botões continua tão compulsivo como tirar os agrafes ao papel antes de o depositar no papelão. No caso, não vá alguma máquina engasgar-se ou partir os dentes com eles, nas operações de reciclagem! Mas praticamente não guardo fechos-éclair, o que não deixa de ser curioso! 

De observação em observação, já não conseguindo situar a maior parte dos botões, dei comigo a magicar sobre a sua origem. A raridade de alguns sugeria tratar-se de botões sobresselentes, a abundancia de outros, que foram cuidadosamente recuperados, quando a roupa foi inutilizada ou reciclada. Sim, porque à doada ou reutilizada não se ia retirar os botões! 

Grosso modo, pelo aspeto, eram botões provenientes da mais diversa roupa feminina e masculina, muitos de fronhas, do tempo que estas os tinham. Com algumas surpresas e mistérios indecifráveis. Por exemplo, o número significativo de botões de pijama, ainda que cada um possua ou possuísse vários. Ou de botões dourados, quarenta e seis, num universo tão pequeno quanto o do meu coração! De diferentes tamanhos e formas, ali estavam eles, luzidios e atraentes, a lembrar o ouro cujo pote alguém encontrou, depois de ter sonhado com o sítio onde os mouros o tinham escondido. O ouro moeda, metal precioso e símbolo de prestígio e estatuto social, ainda a exercer a sua sedução? Parecendo botões de blazer, está fora de questão terem pertencido a fardas, embora eu tenha usado uma durante anos. Bem bonita, por sinal: era azul-escura! 

Por fim, disse para com os meus botões, os reais e os metafóricos: e a roupa, o que terá sido feito dela? A maior parte foi “reciclada” e reutilizada. No campo do que chamo reciclagem [1] - uma reciclagem doméstica que configura mais uma reutilização - ocorrem-me várias práticas, umas em vigor mais ou menos transformadas, outras desaparecidas por desuso. 

Mantas de fitas e roupa. Na minha juventude, ainda se tecia no Açor. Neste contexto, as partes menos gastas da roupa eram cortadas em fitas que, depois de bem torcidas com o fuso, constituíam a matéria-prima que incorporava as cobertas de fitas ou trapos. Apenas iludiam o frio, mas eram novas e vistosas, consubstanciando a multivalência das pessoas, a economia de autossuficiência e o espírito de poupança associado à redução do consumo e do desperdício. Mais tarde, estas mantas passaram a ser tecidas na Cabreira. 

(…) Olha as colchas tecidas de farrapos 
por enrugadas mãos de alguma avó 
que para se entreter, vivendo só, 
fazia mantas com montões de trapos. 
(…) 
Essas coisas sem préstimo hoje em dia 
têm alma própria e guardo-as a preceito 
como se fossem joias de valia! [2]


Outro aproveitamento possível das mesmas partes da roupa ou da que deixava de servir a alguém era confecionar peças novas, nomeadamente para crianças. Sem estilistas conceituados e preocupações de reciclagem criativa, esta prática foi precursora, a décadas e décadas de avanço, dos modernos processos de transformação e renovação de vestuário. Existem inúmeros vídeos de apoio à modalidade. 

Rodilhas. Também eram em tecido usado, sendo mais ou menos acabadas e airosas, conforme a matéria-prima disponível, o gosto e o jeito da artesã. Serviam para equilibrar o cântaro ou a cesta à cabeça, função que perderam, pelo que passaram a revestir-se de objetivos decorativos. 


Sacos de retalhos e rolos tapa-frinchas. Por razões de uso e durabilidade, estes produtos devem ser feitos com retalhos novos ou com as partes mais poupadas da roupa. A confeção dos sacos pode e deve manter-se, associando a tradição à funcionalidade, agora que o plástico promete desaparecer, espera-se que tão rapidamente quanto se banalizou e instalou. Dão uns excelentes e muito invejados sacos do pão ou das compras! O mesmo em relação aos chouriços tapa-frinchas, cheios de serradura ou areia fina. 



Bonecas de trapo e bolas. Com as rosas do jardim, as bonecas faziam de filhas e comadres das meninas, de professoras e bruxas. Tudo no feminino, repare-se, o que também é elucidativo! Ao tempo, pouco se jogava à bola, mas, a jogar-se, ela seria de trapos. Tendo ganho estatuto artesanal e ecológico, os artigos em pano abundam no mercado. Alguns modelos são tão estilizados, que resultam mais decorativos do que lúdicos. Há vídeos que apoiam a confeção neste domínio. 



Mechas e Tufos. As mechas faziam-se com algodão branco ou estopa. Eram tiras revestidas de uma papa seca de enxofre. Queimavam-se dentro dos pipos do vinho para os desinfetar. Existe um produto semelhante no mercado, tal como existem os fumigadores, que vieram substituir os tufos, rolos de algodão cujo fumo afugentava as abelhas quando da cresta. 


Panos do pó e da loiça. Dependendo da matéria-prima de que o vestuário é feito, há sempre a possibilidade de o transformar em panos do pó, da loiça, quem sabe se em pedaços descartáveis que podem ser usados em substituição do papel de cozinha ou do pano lavável, implicando poluição e consumos acrescidos. 

Embora mais esporadicamente, a roupa menos apropriada a reciclagens domésticas, como os casacos, era (é) reutilizada na confeção de espantalhos, disfarces de carnaval e tornadoiros. Depois de terem visado assustar os pássaros, os espantalhos procuram hoje – que os campos estão incultos - atrai-los, pela beleza e musicalidade que conferem ao ambiente. Juro que já vi um com o ninho de um casal de chapins nas costas! Para efeitos de disfarce, as roupas velhas eram simplesmente combinadas e vestidas do modo mais surpreendente e protetor do anonimato. Atualmente, parece verificar-se o contrário: no carnaval, os foliões vestem (e despem) bonitas fatiotas novas, no dia-a-dia, alguns usam calças rotas caríssimas, devido ao trabalho extra de as esburacar! É a criatividade a exercer-se de modo mais ou menos ambiental ou consumista! Os tornadoiros serviam para desviar/orientar a água de rega nas levadas e regos. Tradicionalmente, eram constituídos por torrões de terra que as raízes de ervas prendiam. Quando as pessoas deixaram de os poder ir buscar e a roupa se tornou mais abundante, algumas peças passaram a tornadoiro. Ou a tapa-gateiras das portas! 




Finalmente, na minha juventude, ainda existiam os farrapeiros/as, profissionais que andavam de terra em terra a comprar por “dez réis de mel coado” roupa e outros objetos usados. A atividade cessou nos finais nos sessenta, por razões relacionadas com as migrações e a evolução económica do país. Porém, nos centros urbanos, persistem atividades algo semelhantes, com fins lucrativos ou solidários. 


Olh’ó farrapeiro. Trapo, garrafas, papel …Olh’ó farrapeiro … 

(…) Ó minha farrapeirinha, 
ó minha troca farrapos. 
Tenho uma camisa nova, 
toda cheia de buracos. (…) [3]

Eram, são formas de economia circular a funcionar, no campo do vestuário como em outros. A mesma economia de que atualmente tanto se fala, enquanto conceito e modelo de produção e consumo que envolve, entre outras dimensões, a redução, a partilha, a reutilização e a reciclagem, estendendo a vida dos materiais e bens, e fazendo-os reentrar nos ciclos de produção. Tendo implícita a chamada política dos 3Rs: reduzir, reutilizar e reciclar. Como nas práticas supramencionadas. 

Até onde me levou o desatino de um simples coração de botões! 

Lisete de Matos 

Açor, Colmeal, 6 de Fevereiro 2020 

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[1] Em termos concetuais, a reciclagem consiste na transformação de um material noutro com as mesmas caraterísticas, a reutilização, na transformação num material com características diferentes. De algum modo, neste texto, mais do que o material está em causa a função. 
[2] João de Castro Nunes, Mantas de Trapos. A propósito do livro Dos Objetos para as Pessoas, 1997, de Lisete de Matos. 
[3] Da tradição popular.

COLMEAL – UNIÃO PROGRESSIVA

V PASSEIO TURÍSTICO – ROTA DAS COLMEIAS


A União Progressiva da Freguesia do Colmeal realizou, no passado dia 16 de Fevereiro, o V Passeio Turístico – Rota das Colmeias com enorme afluência de participantes, muitos quais se faziam acompanhar de familiares e amigos. O itinerário delineado era magnífico em termos de paisagem, todo ele dentro do território da freguesia de Cadafaz e Colmeal. Algumas dificuldades aqui e ali que os mais afoitos ou melhor preparados ultrapassavam sem dificuldades de maior e/ou com a ajuda dos companheiros. O espírito de companheirismo e entreajuda esteve sempre presente o que é muito significativo e de louvar.
No Largo D. Josefa das Neves Alves Caetano foram dadas as boas vindas e as recomendações a ter em conta.


Como se constatou durante o passeio turístico, verificou-se sempre por parte dos intervenientes o máximo cuidado na preservação da envolvente. No dia seguinte, a Organização procedeu à retirada de toda a sinalética colocada ao longo do percurso, à semelhança do que se fez nas edições anteriores.

O itinerário percorrido pelos participantes começou no Colmeal, no Largo D. Josefa das Neves Alves Caetano e prosseguiu pelo Asseiro do Soladinho, Relva do Meio, Fonte da Corte, Portela, Foz d’Ádela, Gaeiras, Vale da Lobeira, Assentada do Cabeço do Gato, Panasqueira, Mimosa, Candosa, de regresso ao Colmeal. Pelo meio houve a habitual paragem para reforço alimentar e convívio dos participantes.
Face o elevado número de participantes, que tem aumentado de ano para ano, o almoço foi preparado e servido por uma equipa de voluntários no Parque “Os Pioneiros”, numa tenda cedida pela Câmara Municipal de Góis.


Convívio excelente e comentários simpáticos pela organização e pela ementa, o que muito nos agrada e nos leva a encarar com optimismo, a realização do VI Passeio Turístico, no próximo ano.

Depois do almoço e tomada a bica, as atenções viraram-se todas para a pista de obstáculos, à Quinta. Enchente do costume e muita curiosidade para ver como passar/ultrapassar os diversos obstáculos. Tudo na máxima segurança.
Foram mais três/quatro horas de são convívio, que só parou ao cair da noite. O tempo esteve, mais uma vez, solidário com a Organização. Há quem diga que a União tem um pacto com S. Pedro.


A União Progressiva da Freguesia do Colmeal agradece, muito sensibilizada, aos voluntários que colaboraram graciosamente e aos patrocinadores que tornaram possível a realização deste V Passeio Turístico – Rota das Colmeias.
A Câmara Municipal de Góis, Junta da União das Freguesias de Cadafaz e Colmeal, Góis Moto Clube, Bombeiros Voluntários de Góis, Guarda Nacional Republicana, Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e O Varzeense, mais uma vez foram fundamentais para o sucesso da iniciativa.
Vamos continuar a trabalhar com afinco e entusiasmo para divulgar e dar a conhecer o concelho de Góis e as nossas aldeias. As potencialidades da nossa região, em termos paisagísticos e gastronómicos, são enormes.

Está já no ar a preparação do próximo…

A Direcção