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06 julho 2012

POUPAS À JANELA


Estava à janela desde cedo, fruindo do sol quente da manhã e das gulodices frescas que os pais lhe traziam, em entregas frequentes e a grande velocidade, voando quilómetros por dia.


Quando me aproximei devagarinho, escondeu-se para logo reaparecer, espreitando para um lado e para o outro, para cima e para baixo, na expetativa de mais um petisco!



Mal pressentia a aproximação do progenitor, abria o bico e esticava-se na sua direção, revelando uma misteriosa capacidade de antecipação. 



Quando já me doíam um braço por causa da posição e a consciência por causa do atentado à privacidade das poupas que estava a cometer, apareceu à janela, do lado direito, mais uma cabecita de crista deitada e bico ainda achatado. Era um poupinho mais pequeno e enfezado, o que não é de estranhar, considerando a voracidade do mano!


O ano passado, o casal só teve uma cria. Apesar da crise que também afeta as aves e muito, este casal de poupas está a aumentar a natalidade! Corajosas! Digo que é o mesmo casal, porque usou exatamente o mesmo espaço para nidificar. As poupas, como outras espécies ou elementos das mesmas, ainda casam e arranjam casa para a vida! 


A presença da observadora a escassos metros não perturbava, nem impedia as entregas. Apenas parecia provocar nos adultos aquele som cavo e fanhoso que as poupas por vezes emitem, em alternância com o poop, poop habitual. As crias encolhiam-se, receosas, mas mostravam-se logo, curiosas.

Simplesmente fascinantes: as poupas e as crianças e pais que lembram.

 Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 26 de Junho de 2012. 

10 maio 2011

PÉ n’A TERRA E NA RIBEIRA

Conforme divulgado, ocorreu recentemente no Açor, freguesia do Colmeal, a atividade “Flora Autóctone na Ribeira”. Integrando-se na iniciativa “PÉ n’A TERRA” do Projeto Biodiversity4all, a atividade visava proceder à identificação e levantamento da flora autóctone existente naquele lugar.
Apesar das desistências motivadas pela chuva diluvial do dia anterior, participou na expedição um grupo muito entusiasta e interessado, que primou pela cordialidade do convívio e pela intensidade do encontro e da partilha. Numa primeira manifestação da riqueza da biodiversidade local, a serra apresentava-se garbosamente vestida com a garridice das cores da Primavera. Dependendo da composição do solo e da orientação face ao sol, o verde caraterístico alternava ora com o amarelo vivo da carqueja, do tojo e da giesta, ora com o vermelho tinto da moiteira preta ainda viçosa e da queiró que começava a desabrochar. Aqui e ali, avistavam-se a moiteira branca ainda florida e o rosmaninho roxo prestes a florir.
Ajudada pelos bordões (um luxo, alguns!), a descida processou-se lentamente, com os participantes a pararem frequentemente para observar o património ou a biodiversidade.
Neste último domínio, o grupo cruzou-se com uma variedade assombrosa de espécies pertencentes a reinos, classes e famílias muito distintos. Não as podendo mencionar todas, destacam-se o tritão-marmoreado que descansava no fundo do poço, a aquilégia sempre bela e discreta, a espora-brava provocante e as muitas outras florezitas que então enfeitavam as bermas do caminho. Outros fossem os nossos meios, e teríamos podido captar o aroma doce da flor da laranjeira e do sabugueiro, o chamamento do peto e as serenatas do tentilhão. Não se ouviu o cuco. Deve ter decidido nesse dia pôr o pé noutra terra!
Na Ribeira, que parece uma floresta virgem, esperavam o grupo umas caracoletas apaixonadas e um sapinho minúsculo disfarçado com a cor vermelha das pedras onde se aquecia ao sol!
Entre muitas outras, lá estavam as tais espécies arbustivas e arbóreas que terão feito parte da flora original da região, datando de há cerca de dois milhões de anos: o folhado florido e a lentisca, o azereiro mais raro ainda sem flor, a aderneira também florida, o carvalho alvarinho, o feto-real e outros … Pelo caminho, tínhamos visto sobreiros e castanheiros. Na descida saudámos Ádela próxima, lá do fundo, pela nesga de céu visível, Aldeia Velha distante.
O grupo despediu-se do sítio com alguns participantes já a programarem o regresso. Depois do refresco prometido e da distribuição da documentação, entre a qual o folheto “Encantos e Recantos do Ceira” oferecido pela Junta de Freguesia, interrompeu-se o evento até data oportuna.
Não querendo deixar de participar, o pisco-ferreiro chegou pouco depois. Prefere formigas, mas não desdenha umas migalhitas apetitosas.
Lisete de Matos Açor, Colmeal, 8 de Maio de 2011.

04 abril 2011

PÉ n'A TERRA: UM EVENTO NACIONAL

O projeto BioDiversity4All vai comemorar o dia da Terra (22 de Abril de 2011) organizando o evento "Pé n 'A Terra".

A ideia principal é desafiar os parceiros para dinamizarem iniciativas locais de observação da biodiversidade, de forma coordenada e associada ao evento nacional. Estas iniciativas irão decorrer entre 22 de Abril e 25 de Abril aproveitando o fim-de-semana prolongado.

Os eventos terão uma forte componente de educação ambiental com vista à partilha de experiências e a um melhor conhecimento da biodiversidade nacional. As atividades já programadas constam do respetivo calendário: http://www.biodiversity4all.org (Especial dia da Terra/Evento Pé n’A Terra, Calendário).

Enquadrada naquela iniciativa, terá lugar na localidade de Açor, na freguesia de Colmeal, a atividade “Flora autóctone na Ribeira”, conforme descrição que se segue.

Quando: Sáb, 23 de Abril, 09:00 – 13:30

Onde: Açor (freguesia de Colmeal, concelho de Góis)

Descrição: A atividade terá lugar no Açor e proximidades, com início às 9.00 horas do dia 23 de Abril e fim cerca das 13.30, com um refresco. Sem prejuízo de os participantes poderem permanecer na aldeia, observando a biodiversidade local nas suas potencialidades e vulnerabilidades.

A atividade consiste numa deslocação a pé à Ribeira, com o objetivo de proceder à identificação e levantamento da flora autóctone ali existente (azereiro, folhado, lentisca, gilbardeira, aderneira e outras espécies). A Ribeira fica a cerca de 1 km da aldeia, exatamente no local onde confluem dois pequenos cursos de água para formar a Ribeira de Ádela, que vai desaguar no Ceira, em Colmeal. É um sítio junto ao qual existiam terrenos cultivados e moinhos de água, e onde também se ia lavar a roupa no Verão. Encontrando-se abandonado haverá uns 12 a 15 anos, o local ilustra bem a impenetrabilidade do território que sucede à desertificação humana. Para que esta dimensão seja visível, os caminhos serão limpos o mínimo possível. Para além das referidas espécies autóctones, abundam as herbáceas (por ex., a scilla monophyllos, que está agora a florir), os líquenes e musgos. O acesso faz-se através da vereda íngreme e sinuosa que o constante passar das pessoas abriu, e que as crianças também usavam para ir à escola, em Cepos. À saída da povoação, a vereda passa ao lado de levadas e de um poço, sendo observáveis várias pequenas aves e uma miríade de plantas. No eucaliptal que se segue, será possível observar as “sortes” pequenas em que o terreno se encontra dividido, os marcos feitos de pedras ao alto que as “testemunhas” sustentam escondidas na terra, várias espécies de mato, vestígios de fungos de Inverno ou de animais que passaram …

Prevendo-se um número máximo de 15, as inscrições deverão ser feitas até ao dia 18 de Abril. Para evitar dificuldades com a inversão de marcha, os participantes deverão estacionar as viaturas antes de entrar na povoação. O ponto de encontro é o primeiro marco fontanário. Para além do habitual, ajudará se forem portadores de um bordão de apoio para a descida e subida. No blogue http://upfc-colmeal-gois.blogspot.com/ é possível encontrar referências à aldeia e pequenos artigos entre outros aspetos sobre a biodiversidade local.

Contactos: Lisete de Matos Tel: 235761374; 968418190; lisete.matos@sapo.pt

28 junho 2010

PÚTEGAS E BIODIVERSIDADE

Finalmente, reencontrei as pútegas, que já não via há uns anos. Foi o meu pai quem as descobriu, quando roçava mato numa encosta soalheira. Depois de muito as ter procurado em vão, ali estavam elas, airosas mas discretas, junto à raiz de uns sargaços jovens, umas já desabrochadas, outras ainda a despontar do solo. Mostravam-se a quem estava a fazer alguma coisa por elas, cortando o mato de que gostam viçoso, mas não a quem ociosamente as procurava, espreitando e esgravatando por baixo dos sargaços floridos!
Como referia numa outra oportunidade (“Recordando as Pútegas”, A Comarca de Arganil, 14 Julho 2007), as pútegas (Citinus hipocistis), também chamadas de “buxigas”, amareladas, coalhadas e outros nomes, são uma herbácea parasita da raiz dos sargaços, mato de folha esguia e viscosa.
Mas há quem diga que também parasitam a raiz das estevas, o que é bem possível, uma vez que o sargaço e a esteva são plantas da mesma família, distintas, mas parecidas. Desprovidas de clorofila, as pútegas são uma pequena planta amarelo-avermelhada, de folhas escamiformes densamente imbricadas, e flores masculinas e femininas em cacho. Quando colhidas, exalam um aroma suavemente acre. À semelhança de outras plantas parasitas, as pútegas hibernam na raiz do hospedeiro, e só são visíveis, geralmente em conjuntos de cachos, na altura da floração, que coincide com a daquele. Começando por ser umas manchitas avermelhados a emergir do solo tufado, levam mais ou menos três semanas a atingir a plenitude em tamanho e formosura, raramente ultrapassando 12 cm de altura, a parte oculta incluída. Seguidamente, acastanham e esmorecem secando, para reaparecerem no ano seguinte, se as condições ambientais lhes forem favoráveis.
As pútegas são comestíveis, espremendo o creme branco e pegajoso, tipo coalhada, que enche as tetinhas bojudas. Talvez por isso suscitem tão gratas recordações a quem com elas lidou na infância, como algumas das minhas amigas, que desculparão a inconfidência. Para a Catarina, que é de Penha Garcia, os “carrondos” eram o mimo com que os pais a presenteavam no regresso do trabalho no campo; a Célia, que é de Viseu, adorava comê-las, e dava-me beijos, contente com a oportunidade de as recordar; à Teresa riam-se os olhos, lembrando as sacadas de “putígas” que costumava apanhar! A Teresa, que é de Pendilhe, em Vila Nova de Paiva, a terra do demo de onde também partiu o jovem Aquilino Ribeiro para, a caminho do seminário, se defender da troça dos meninos do Sul, perguntando-lhes: - E, ó amigos, vocês sabem o que são mostajos, o que são pútegas, e o que é um bom nabo pelo rabo dentro? (Aquilino Machado, Um Escritor Confessa-se, Lisboa, Livraria Bertrand, 1974, p. 55).
Curiosamente, reencontrei as pútegas na véspera do Dia Internacional da Biodiversidade, que se celebrou a 22 de Maio, no âmbito do Ano Internacional da Biodiversidade. Estas iniciativas das Nações Unidas visam travar a perda acelerada da diversidade biológica, e recuperar os habitats e sistemas naturais, como condição para o bem-estar humano e o progresso económico sustentado. Por razões naturais, Portugal é ainda um santuário de biodiversidade, nomeadamente vegetal e animal. No campo da flora, por exemplo, é possível andar por aí, e avistar sem esforço dezenas de plantas diferentes, pequenas e grandes. Um assombro e uma riqueza que importa preservar e conhecer! Mas muitas outras espécies de toda a espécie já desapareceram ou apresentam-se ameaçadas de extinção (165, dizem), pelas alterações climatéricas globais, a poluição, os incêndios, a introdução de plantas e animais exóticos, o tráfico de animais, ovos, peles e outros derivados, os venenos, armadilhas e laços cobardes, que envergonham as pessoas e os bichos por elas. Avultam, ainda, a urbanização do território, a pressão imobiliária, o consumo exagerado e as práticas agrícolas ou a falta delas.
É precisamente a ausência de agricultura, de subsistência, nesta zona, que poderá estar na origem do progressivo desaparecimento das pútegas, que já pouco se vêem, e que estão cada vez mais magras e enfezadas. Segundo o meu pai, não se comparam às de antigamente, tão gordas, que davam para fazer “queijos”, espremendo e juntando a coalhada de várias! Mas ainda as há e isso é um bom sinal! Tanto quanto me tem sido dado observar, as pútegas gostam de sargaços viçosos e do sol filtrado através das folhas tenras, o que exige o corte periódico do mato. Ora isso pouco se faz, devido aos custos, mas sobretudo porque o mato já não é preciso como cama para o gado e estrume para a terra. Apesar do muito que tem sido feito em matéria de protecção da biodiversidade, frequentemente por iniciativa de indivíduos e associações, as metas oficialmente previstas para 2010 estão longe da concretização desejada. Tão pouco se afiguram concretizáveis, a curto prazo, por motivo da crise económica instalada. Mais uma razão para uma maior participação de todos nós, reconhecendo, na sequência de S. Francisco de Assis ou Darwin, conforme as crenças, a irmandade, a igualdade e a interdependência de todos os seres vivos. O que é isso da biodiversidade? Como é que eu posso contribuir para a proteger e renovar? Como é que eu a coloco ao serviço da sustentabilidade económica e do conhecimento, sem fazer perigar a sua própria sustentabilidade? Em concreto, aqui e agora, o que é que eu posso fazer, em relação aos seres vivos que me rodeiam, e aos que me chegam incorporados nos bens que consumo?
Como se diz no Guia de Campo, DIA B, por estar ao alcance de todos, e constituir uma responsabilidade de cada um, a participação na preservação e no estudo da biodiversidade pode considerar-se uma questão de cidadania. Biocidadãos são todos aqueles que, pelas suas acções e comportamentos, contribuem para construir um mundo mais sustentável (Bruno Pinto e outros, Coord., Universidade de Lisboa, 2010, p. 17). Lisete de Matos Açor, Colmeal, 2 de Junho de 2010