"Mas porquê?"
Invisível e confortavelmente instalada, entre duas frondosas
videiras a Ti Maria do Outeiro, seguia com emoção a cena que se
desenrolava na outra margem do rio. - Homens em ceroulas,
gesticulando ordens e homens desnudados com a água pela cintura a puxarem
cabos. Degustando um belo pêssego de roer, seguia com atenção o pessoal dentro
de água, tanto mais que o seu companheiro era um deles e já havia meses e meses
que não o via desnudado. Sem dar conta, atirou um pêssego indo cair
no meio do poço. Sentindo-se observados e com o pontão no sítio, os homens
abandonam de imediato a zona, indo ao encontro do Aveleira que os aguardava
para lá da curva do rio, a jusante.
Mãos experientes e sintonizadas, retiram do saco de
serapilheira duas redes impecavelmente ordenadas e limpas. -Vá Albertino, pega
aí na ponta e vai prender além na parede do lodeiro e que fique bem
preso, como tu sabes, - Certo Aveleira! -Eu acompanho e desenrolo até prender
na outra margem. Colocada a primeira, deram início a segunda a
montante.
-Olha lá bem o pessoal, aponta o Albertino! -Só agora e
nessa figura! -Tu e Tu em ceroulas, mas vocês vem cá fazer o quê? -Vá toca
a despir e a pegar naqueles paus e esburacar as paredes para os peixes saírem.
- Mas não se despiram e não foram para a àgua. Já com os lábios meio
roxos e arrepiados do frio, os homens dos cabos do pontão lá entraram na
água. Batendo e esburacando o leito do rio, encaminhando assim os peixes para a
armadilha fatal. - Aqui reside a questão. "Mas porque" ?
Se não entravam na água, porque se despiam, ficando em ceroulas. (1)
Ao cair da noite, uma suave brisa envolveu o centro da
aldeia, acompanhada de um forte cheiro a peixe frito em azeite. Nas
cozinhas, à luz da candeia de petróleo se degustava peixe frito com broa de
milho, tinto da adega e uma saborosa sopa de feijão com hortaliça, sempre
presente na velha panela de ferro, à fogueira e ou no fogão a lenha.
Na manhã seguinte, os nossos homens voltaram às
suas atividades, enquadradas no quotidiano da aldeia.
Dois foram ajudar a capar o "Rabietas", o porco do
Zé Graveto. Outros dois foram desempegar (2) o moinho da quinta, o qual se
encontrava inoperacional derivado à cheia. outro foi à Martinha buscar um
saco de sal para conservar as azeitonas e por fim o nosso amigo Albertino, foi
aquecer o forno e cozer a broa.
E nós ficamos por aqui.
Um bom fim de semana para todos.
(1) Já em adulto questionei um interveniente, sobre a questão de não se despir e a resposta, " Alguém tinha de coordenar"
(2) Desempegar era o termo usado para pôr o moinho a funcionar, depois de uma cheia.
Fotos:
Foto 10 - Vista parcial do Colmeal, abrangendo o centro da aldeia. Tirada do bairro da Eira. |
Foto 11 - Por estas cascalheiras se desenrolaram os factos, |
Foto 12 - Neste local, os intervenientes deram aval à sua arte de pesca. Na data, a água neste local era muito profunda, chegando mesmo a não haver pé. |
P.S. As fotos 1 a 9, fazem parte dos episódios anteriores.
Colmeal, 29 de Agosto de 2025
Domingos Nunes
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