terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

MUSEU ETNOGRÁFICO DA LOUSÃ






O Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques situado na linda vila da Lousã alberga um espólio riquíssimo merecedor de ser apreciado com muita atenção. Por isso a União Progressiva da Freguesia do Colmeal entendeu introduzir no programa que preparou para o regresso dos Comandos à Serra do Açor e ao Colmeal uma visita a este espaço.

Na exposição permanente iremos ter oportunidade de admirar os carros e as cangas, os arados, as pás e as enxadas, a cerâmica/olaria, e nos núcleos situados no piso 2 podemos ficar a conhecer como se faz o pão, se prepara o linho/lã, a arte de ferreiro, os segredos da apicultura e recordar como era uma cozinha serrana com os seus diversos utensílios.


“Os primeiros carros que apareceram foram só de um animal, isto é, com varal duplo. Dizem que era mais simples pela aptidão da tal forquilha que há nas árvores, ter um par de animais e liga-los por uma trave.”


   
“Quando há uma certa riqueza, as pessoas têm de dar aos seus carros, aos seus bois, às suas cangas, o prestígio da sua casa. Elas ficam também com o brasão e então fazem-se cangas de luxo. Cangas para levar às festas, para levar a feiras e que são o prestígio da casa…” 


 
“À génese do arado atribuem-se várias hipóteses: desde uma pequena enxada que depois é puxada por um temão, às vezes tiradoira, onde se aplica a força de animais ou o aproveitamento natural de alguns pedaços de árvores que tinham fundamentalmente três peças – uma capaz de rasgar a terra, outra de ser ligada aos animais, e outra que lhe desse direcção, que era a rabiça. Três peças: rabiça, temão e dente…”


“… está aqui uma razoável amostragem das pás (célebres) de valador. Eram trabalhos difíceis. Normalmente eram homens da região da Bairrada, que iam fazer este trabalho por toda a Zona do Ribatejo e até ao Alentejo. Um pouco antes das culturas, depois das chuvas, eles iam fazer o escoamento para começarem as operações agrícolas de lavragem.” 




“… a nossa região tinha rebanhos, tinha carneiros e, naturalmente, tinha uma coisa que já se perdeu e eram os linhares, terras de linhos. …As formas de tecelagem vão desde as peças mais ou menos finas do linho - que ainda todos conheceram e têm encontrado nas arcas das avós –as mantas, colchas, tapetes, e outras, com uma decoração mais ou menos simples, mais ou menos requintada…”



  
“… este sistema de eira, de malhar, estão ali os trigos, estão ali os mangais, estão aqui os tipos fundamentais. E está aqui assim uma coisa muito rara, que é a colecção completa das cirandas ou crivos… os sistemas de moagem… as mós…” 


“… quando o homem descobre a possibilidade de ter uma qualquer forma de caixa na qual ponha as abelhas, já que não as pode domesticar, (…) vai servir-se dos materiais de cada região. Para nós é o cortiço, de muito fácil transporte. Nós, na Serra da Lousã, o que é que temos disto? Um bocadinho da mitologia do mel! Uma coisa cheia de virtudes mágicas! Um bom alimento, grosso, e escuro porque predomina fundamentalmente a urze…” 


“E é curioso que o latoeiro não só dava apoio à panela em que punha o pingo, para além de fazer o que lhe mandavam de novo, como assistia os pratos e as colheres de lata, uma vez que só os garfos eram, de facto, feitos pelo ferreiro. Além disso, é ainda ele que cuida da loiça: é o grande consertador dos pratos partidos, que conserta pondo gatos… Esta arte está em extinção, como está a do velho ferreiro…” 



“… há uma coisa muito interessante que é uma modificação deste comer simples e do povo e que é engraçado que os Lousanenses não esqueceram – “os aferventados”. Que é uma ligeira modificação desta velha técnica de comer e modificar o sabor das couves, do pão, da batatita, do que têm próximo, do que tem à mão e naturalmente regado com azeite, a velha gordura mediterrânica de que até esta região é rica.” 




Estamos certos de que os nossos Comandos e os seus acompanhantes se irão deliciar com todos estes utensílios, que já fazem de um passado não muito distante e que os nossos pais e avós muito bem conheciam.

Fotografias de A. Domingos Santos
Apoio Folheto do Museu


1 comentário:

Anónimo disse...

Para quem se interesse pelos modos de vida tradicionais rurais e pelos saberes e tecnologias que lhes estavam associados, vale de facto a pena visitar este museu. Devido ao espólio que apresenta, mas também pela própria apresentação, que em muito contribui para valorizar o património imaterial para que as peças remetem.
A propósito e por ter a ver, para mais proximamente sentir o homem e o social que estão por trás dos objetos, e lhes dão vida, poderá ler-se o livro de Paulo Monteiro “Terra que já foi Terra” (Edições Salamandra, 1985). É a edição de uma dissertação de mestrado em sociologia, cujo estudo decorreu em nove lugares, alguns já então desabitados, da serra da Lousã. Um desses lugares era o Candal, hoje "Aldeia do Xisto". O autor partiu da análise de um molho de cartas que alguém encontrou numa casa em ruínas, molho de cartas esse que, curiosamente, incorporava as cartas que em inícios do século XX uma mulher enviava ao marido emigrado, penso que no Canadá, e as que ele lhe enviava a ela.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal