19 julho 2021

UNIÃO PROGRESSIVA - Um caminho de noventa anos


Há nove décadas, mais concretamente em 18 de Agosto de 1931, a imprensa regional, através de A Comarca de Arganil dava-nos a notícia que a seguir recordamos


A Colónia Colmealense em Lisboa vai constituir uma Comissão de Melhoramentos.

Uma semana depois, este trissemanário, em notícia subscrita por José Henriques d’Almeida, informava com mais pormenor:

«Está-se organizando em Lisboa uma comissão de melhoramentos da freguesia do Colmeal, formada por filhos desta importante região.

Muito há a fazer em benefício de tão esquecida freguesia, pelo que nos congratulamos profundamente com a simpática iniciativa do punhado de nossos patrícios que a concebeu e que podem trazer para o Colmeal um progressivo desenvolvimento.»

José Henriques d’Almeida viria a integrar, como Tesoureiro, a Direcção liderada por Joaquim Fontes de Almeida, eleita em Assembleia-Geral de 4 de Outubro, presidida por Joaquim Francisco Neves, secretariada por Francisco Domingos e Manuel João Miranda.

«O regionalismo bem compreendido é aquele que procura dar progresso e civilização às inúmeras localidades do país, aproximando-as cada vez mais dos grandes centros. Tudo que se faça com esse fim é altamente proveitoso, não só para as regiões beneficiadas, mas também para toda a nação de que elas são as células vivas que a alimentam tanto mais fortemente quanto maior é o desenvolvimento civilizador que atingem.

E ainda que se careça da acção do Estado para que esse desenvolvimento se torne uma realidade, o certo é que a iniciativa particular deve ser o movimento impulsor, competindo a ela intervir junto do Estado para que ele realize as obras necessárias ao desenvolvimento das localidades, freguesias e concelhos, contribuindo também directamente, quer pelo trabalho dos indivíduos, quer pelo seu auxílio financeiro, para a realização dessas obras.» Assim continuava a notícia em A Comarca de Arganil subscrita por José Henriques d’Almeida, que trabalhou nesta primeira Direcção com Marcelino de Almeida, Francisco Domingos, Aníbal Gonçalves de Almeida, José Antunes André e Manuel Martins.

«Como intermediárias dessa múltipla acção, surgem essas comissões de melhoramentos que nós vemos constituir-se na nossa região, as quais tomam a seu cargo estimular as iniciativas das terras a que dizem respeito, angariando fundos com que vão em auxílio das câmaras e juntas de freguesia, expondo as suas necessidades e instando pela realização dos melhoramentos que as terras precisam. Foi por conhecerem as vantagens que para o Colmeal podem advir, que alguns seus filhos, cheios de vida e de boa vontade pelo engrandecimento da terra, onde nasceram e que residem em Lisboa, se resolveram constituir-se em comissão para trabalharem em prol do Colmeal.

E assim propõe-se a comissão desenvolver directa e indirectamente a terra que lhes foi berço, levando às entidades competentes uma representação mostrando as obras urgentes de que necessita o Colmeal, como sejam as vias de comunicação, fontes, escolas, etc., etc., tudo enfim quanto é necessário ao engrandecimento dum povo.»

Quase a terminar e com grande esperança e forte convicção «Será sem dúvida notável a acção da nova comissão de melhoramentos do Colmeal e é de esperar que ela possa fortemente contribuir para o desenvolvimento desta freguesia, uma das mais importantes do concelho de Góis.»

A imprensa regional teve um enorme papel no apoio e na divulgação do trabalho da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, no decorrer destes noventa anos. Para além de A Comarca de Arganil, que aqui referimos, também O Varzeense e os extintos Jornal de Arganil e O Colmeal sempre tiveram espaço nas suas páginas para dar a conhecer o percurso, nem sempre fácil, do querer e da determinação de um punhado de lutadores empenhados no bem-estar e desenvolvimento nas suas aldeias.



Lisboa, 19 de Julho de 2021

A. Domingos Santos


04 maio 2021

BELEZAS(DES) E RIQUEZAS DA SERRA. VESTIDA DE AMARELO

A serra lembra uma manta de retalhos. Nuns sítios, em virtude das intervenções florestais de que foi objeto, noutros, devido ao matizado das cores com que se veste, especialmente de amarelo. Um amarelo em geral ralo, mas com manchas compactas e berrantes de giesta, que sobressaem do fundo algo neutro e pardacento.









Neste tempo, o amarelo da paisagem é uma combinação da flor da carqueja, com as da giesta e de uma das espécies de tojo. Na sequência dos incêndios de outubro de 2017, acontece que a carqueja ainda não atingiu a pujança arbustiva que tinha, enquanto a giesta se multiplicou exponencialmente, como as acácias. A chuva dos últimos dias, que desanuviou a atmosfera e refrescou a natureza, tornou o amarelo ainda mais luminoso e ostensivo ou não fora ele a cor da luz, do calor e da abastança, no caso frugal, traduzida na memória dos milheirais maduros. E na alegria da Páscoa recentemente celebrada!


Observada de perto, porém, o amarelo continua a destacar-se, mas inserido na mescla esverdeada da enorme diversidade de herbáceas e matos que povoam as margens das estradas, por vezes invadindo-as, estreitando-as, e tornando-as mais perigosas. Referindo apenas alguma dessa flora, a caminho do Colmeal e dele para sul, avista-se o branco singelo da flor do estevão, que pareceria um sargaço vulgar não fora o porte, e o azul retinto da singular giesta-azul (polygala microphylla) ou da discreta sargacinha, uma das muitas plantas a que chamam erva-das-sete-sangrias.





Para norte, nas proximidades de Torrozelas e Folques, saúdam-nos, modestas, a esteva e a giesta branca, a primeira com as suas (cinco) chagas, nome por que também é conhecida, a segunda, numa rara abundância, já que prefere os solos graníticos e quartzíticos.



Enquanto em algumas zonas a moiteira negra já desbotou com o calor de há uns tempos e a seca do vento quase diário, noutras, floresce do vermelho avinhado, a que a luz transformadora confere tons ora intensos e inebriantes, ora discretos e sóbrios.





De cor semelhante e igualmente da família das urzes, a queiró vai desabrochando, farta e chamativa, a moiteira branca ainda viceja. Há sítios onde uma outra espécie de tojo começa a enfeitar-se também de amarelo, impregnando o ambiente de um subtil aroma melífero. Por mais que tenha espreitado os interiores recônditos dos sargaços, não vi nem uma pútega!




Quem diria que apenas três anos depois de ter sido consumida pelo fogo, a natureza se encontraria longe de recuperação, é certo, mas já tão exuberante em beleza e riqueza?! A representar vida e um património e recurso natural inestimável, pelas suas propriedades e pela fruição estética e emocional que proporciona.

Infelizmente, a “feieza” e a pobreza - literais e cívicas -, também estão presentes nas curvas e contracurvas dos caminhos da serra. Proliferam traduzidas numa grande variedade de situações, de que se aborda apenas o lixo que desfeia e envergonha o território, particularmente, as bermas das estradas e os declives dos parques e refúgios de emergência. Quando é visível, uma vez que pode estar dissimulado pelos railes, ervas e matos circundantes, nas bermas pode ver-se em andamento, nos declives, é preciso parar e olhar lá para baixo.

Os sítios e a posição em que este lixo ponta do “iceberg” se encontra remetem para práticas e grupos sociais que tanto podem ser os mesmos como distintos. Assim: há lixo que se vê ter sido atirado pela janela dos carros fora, à laia de adeus; outro que se percebe ter sido trazido e despejado ali, como numa lixeira; outro, ainda, que é evidente ter sido deixado por quem esteve no lugar a trabalhar ou simplesmente a desfrutar do espaço, mediante pausa no percurso ou convívio programado.

No primeiro caso, encontram-se as mais diversas embalagens, nomeadamente de bebidas, entre as quais iogurte líquido, uma conquista do consumo, que o seu inventor jamais terá perspetivado tão poluente. Num determinado quilómetro de estrada, contei nove destes projéteis, admitindo que mais se encontrem escondidos nas ervas. Tratando-se de um troço com bastante movimento, presumo que o facto de ser plano facilite as tarefas de conduzir e beber ao mesmo tempo! Mas há de tudo: maços de tabaco, sacos e pedaços de plástico, sacos de ração e outros produtos, lenços e guardanapos de papel, máscaras… Num sítio, três faziam companhia umas às outras, uma de cada lado da via e outra acabadinha de aterrar sobre o traço contínuo! Já vi fraldas, mas não desta vez!


No caso da natureza usada como lixeira, há sacos com garrafas, muitos artigos indefinidos e material relacionado com setores concretos de atividade.


Por último, no campo do lixo deixado por utentes do lugar, avultam uma vez mais as embalagens e, por vezes, restos de consumíveis, como sejam os fios das roçadoiras. Neste domínio, foi particularmente chocante ver um espaço aprazível de lazer, que até tem contentor do lixo, poluído com latas, garrafas e descartáveis de plástico, inclusive dispostos, como se de um adorno se tratasse, na estrutura das alminhas existentes no local! Mas vi umas outras que penduravam elas próprias o saco para recolher os restos das velas ardidas!



Ainda que do mesmo não se espere grande inteligência ou cidadania, não se percebe como é que o lixo não consegue sair pelos mesmos meios com que chegou. Carro ou mochila que trás também leva! Hoje em dia há ecopontos em várias terras e contentores do lixo em todas. Quando basta um esforço mínimo, e as pessoas até pagam uma taxa para o encaminhamento e tratamento do lixo que produzem, não se entende a razão para tanto desrespeito pela natureza e pelos outros. A própria recolha dos lixos mais volumosos pode ser solicitada às Câmaras ou às empresas municipais para tanto vocacionadas.

Perante estas situações e a visão dos micro plásticos e outros produtos a infiltrarem-se no solo e a escorrerem para o oceano, contaminando-os, não consigo deixar de imaginar a serra e o planeta, em geral, atarefados e já nauseados, a digerir todos estes resíduos e impróprios para consumo, enquanto deveriam estar focados na vida e na criação das condições de beleza, bem-estar e riqueza de que todos carecemos!

Embora já não me compita fazer sugestões, sempre digo que a escola tem de continuar a insistir na formação cívica e ambiental das novas gerações, e estas na dos seus pais e avós. Como as autarquias, na formação dos agentes públicos e privados que operam no terreno, na sensibilização da população e na dotação dos espaços com recipientes apropriados. Revisitar e reativar a chamada política dos 3r’s (reduzir, reutilizar e reciclar) nunca será de mais e hoje, Dia da Terra, seria um bom pretexto para começar.

Nota. A observação relativa ao último assunto foi feita nas estradas Açor- Góis e Açor-Arganil, respetivamente, nos dias 2 e 5 de abril. Por serem tão inestéticas, das fotografias tiradas incluem-se apenas quatro.


Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 22 de abril de 2021.

14 abril 2021

N’ O COLMEAL, TERRAS EM POESIA

Volto hoje ao boletim paroquial O Colmeal. O boletim foi fundado em fevereiro de 1960 e publicou-se até agosto de 1982. Para além da então freguesia do Colmeal, referia-se também à de Cepos, por o pároco ser o mesmo.

Conforme assinalava oportunamente (“O Colmeal e a História do Colmeal”, 9, 16 e 23 jan., 2021), nos primeiros tempos, o boletim publicava regularmente poesia, prática que ia ao encontro do gosto pelas rimas, versos e romances da literatura popular. Subordinada à mensagem, em geral, a mesma fazia parte integrante da estrutura informativo-formativa. Predominava a poesia de cariz religioso e edificante, mas havia secular, nomeadamente alusiva às diferentes aldeias. São estas “quadras”, na designação do boletim (fotos 3 e 5), que venho recordar.

As “quadras” foram reproduzidos a partir do jornal, razão que justifica a diferente apresentação. Algumas foram objeto de montagem para facilitar a leitura, constando em todas o autor e o número de O Colmeal onde podem ser encontradas. Inserem-se por ordem alfabética das terras a que respeitam, e por data, sempre que são duas ou mais.

Com esta coletânea de preciosidades telúricas, pretende-se, por um lado, enaltecer o boletim e o mérito dos seus colaboradores, por outro, contribuir para a coesão e a proximidade das localidades, que ele promovia. Lembro que este trabalho decorre da leitura dos primeiros cem números, pelo que, salvo duas exceção, não integra eventuais produções posteriores.

A poesia surge logo no primeiro número e na primeira página de O Colmeal, a anunciá-lo como expressão e presença da terra natal, numa época em que o apego às origens persistia indelével para muitos, apesar da mobilidade e das distâncias. “A nossa terra é sempre a nossa terra! Por isso, nós temo-la no coração e ela tem-nos no coração dela”! Muito bonito e significativo!

 


As “quadras” alusivas às aldeias surgem por iniciativa de autores e, só mais tarde, por estímulo e desafio do pároco, como digo no artigo supramencionado. Apontam neste sentido as situações anteriores à chegada do Pe. António Diniz, em finais de 1965 (apresenta-se no nº 63, nov., 1965 e despede-se no nº 86, outº., 1967).

A refletir a dupla inserção geográfica e social das comunidades, e a intensidade da relação entre ambas, os autores são residentes e ausentes, a maioria naturais das terras. Em linha com as dinâmicas migratórias e a realidade demográfica delas resultante, os residentes tendem para ser mulheres, os ausentes, homens. Alguns usam iniciais, outros assinam com a denominação dos naturais das localidades, pelo que nem sempre se conhece a sua identidade. A poderem-no fazer, seria interessante partilharem agora connosco essa sua experiência de criatividade, quem sabe, se escrever de novo?

Num contexto inclusivo da poesia, em que relevam autores como Clarisse Barata Sanches e A. Jesus Ramos, as aldeias aparecem com o número 50, onde um “Adelense” exprime, com grande sentimento e muito comoventemente, o chamamento da terra e a profundidade dos laços que a ela o prendem. Na altura, ainda o regresso era indissociável da partida, embora, na sua geração e por razões supervenientes, já poucos o tenham concretizado! Ádela é, de resto, a povoação mais cantada, sendo-o por ausentes, residentes e um oriundo, na autoidentificação do próprio. Aldeia Velha e Malhada também surgem duas vezes. Sem que seja por falta de poetas, há povoações omissas.

As “quadras” são eloquentes a falar da geografia e da paisagem, dos modos de vida e do destino migratório (“ …se um dia me for embora …”), da interação entre os que partiam e os que ficavam, do enlevo com que as terras eram vistas e sentidas ... Um caso, pelo menos, já revela a atual apropriação urbana das aldeias como reserva ambiental e espaço aprazível de lazer e transitoriedade. De qualquer modo, na expressão de A. Correia de Oliveira, igualmente retirada de O Colmeal, “… as saudades são olhos/ E fazem de longe perto …”.



Independentemente da estética, este labor lírico funcionou, certamente, como fator de autoestima e reforço da pertença a cada lugar, ao mesmo tempo que promovia a afirmação do conjunto que o boletim representava, agregando e aproximando. Podendo parecer contraditório, o facto é que, apesar de cada povoação se poder erigir internamente como “micropátria” [1], para fora e em contextos mais alargados, não deixava de referenciar-se à freguesia e ao concelho, se não à então chamada, e mais conhecida, região de Arganil.


Resta-me acrescentar a menção já feita no artigo anterior de que o desafio das “quadras” contribuiu, igualmente, para o desenvolvimento da participação, da criatividade e da escrita, dimensões que devem ser sublinhadas, pela importância de que se revestiam. E revestem.

É a segunda vez que me refiro a conterrâneos poetas. Na primeira (http://upfc-colmeal-gois.blogspot.pt/, 14 de dez. 2016), falava de Manuel Alves Caetano Júnior, Felisbela de Almeida Fontes, José Fernandes de Almeida e Josefina Almeida. Entretanto, estando ainda de parabéns, Josefina Almeida e José Fernandes de Almeida publicaram, respetivamente, os livros “Marcas da Vida” (LXª, 2018) e “Memórias de Poesia e de Prosa” (Lxª, 2020), enquanto Armando Jacinto de Almeida comentava no próprio blogue:


(…) A poesia é uma arte muito dotada,

Eu a escrevo, com uma alta limitação...

Mas se eu pudesse pintar, pintava,

As nossas aldeias, em forma de coração...

(…)

A terminar, encontrei um poema de Maria Antonieta F. Almeida, que me permito incluir nesta homenagem. Chama-se “Mensagem” e não alude a uma terra em particular, mas ao dever da felicidade na terra de todos nós.















 

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, fevereiro 2021.



[1] No conceito da investigadora Maria Beatriz Rocha-Trindade: “As micropátrias do Interior português”, Análise Social, nº 98, Univ. de Lisboa/ISCTE, 1987, pp. 721-732.


22 março 2021

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. LAÇOS

Não se avista há duas semanas, apesar de o anoitecer de espera ativa. Na natureza, que continua deserta, a explicação não pode estar. Embora esforçada, de repente, não ia repovoar-se do sustento necessário à autonomia para que nasceu, mas de que as circunstâncias a privaram. Terá encontrado um acolhimento mais hospitaleiro, quem sabe se um serviço mais requintado? Bom que fosse isso! Mas não, há razões objetivas para pensar que alguma coisa lhe aconteceu. O desfecho temido da proximidade com os humanos, cujos laços e abraços nem sempre são de afeto? Jamais o saberemos. Entretanto, somos por aí tão poucos e igualmente tão vulneráveis …

Cativos e efetivamente responsáveis pelos que cativamos no devir imparável em que todos vamos, a esperança dissipou-se, noites passadas de ausência aflita. Agora que desapareceu, na aldeia ou nas imediações já não pode ser perseguida, falar dela já não atenta contra a sua segurança. Deste modo, impotentes, resta-nos partilhar a sua história, na convicção de que o amor exige conhecimento e de que só se vê bem com o coração [i]. Espera-se que contribua para reforçar os laços que prendem solidariamente as pessoas umas às outras e à natureza, na diversidade das suas componentes. Solidariedade traduzida em empenho e ação concreta, visando o bem-estar atual, mas também o dos vindouros e o futuro do futuro.

De acordo com o Relatório Planeta Vivo 2020 [ii], o reequilíbrio da relação entre os homens e o planeta torna-se necessário para preservar a diversidade de vida da Terra e permitir uma sociedade justa, saudável e próspera e, em última instância, para garantir a nossa própria sobrevivência.

Entre a razão e o coração

Chegou em princípios de abril. Andava no quintal a debicar alguma coisa que os passaritos tinham espalhado. De vez em quando, olhava para o comedouro, mas estava muito alto, como as uvas da fábula, que a raposa desdenhou por não conseguir chegar-lhes. As uvas estariam verdes, desta vez, as sementes, rijas que nem osso!

Magra, muito magra e de pelo maltratado, parecia realmente acabrunhada e desesperada, arguta e resoluta, como a Salta-Pocinhas de Aquilino Ribeiro [iii]. Fugiu quando me viu, mas retrocedeu ao sentir o aroma irresistível de um alimento salvador. Aproximou-se e, rapidamente, abocanhou a comida que eu, atónita, tinha deixado cair aos pés. Se falasse teria dito, na voz aflautada, cana rachada que Aquilino lhe atribui:

- Ando a cair de debilidade …, a morrer de fraqueza, há três dias que não provo migalha….




Quantos mais dias seriam, coitada?! Ao tempo, não havia insetos, nem fruta, quanto mais caça, a natureza enlutada e estéril depois de os incêndios de outubro do ano anterior (2017).

Voltou para pedir mais, comeu e abalou satisfeita. Por mim, chorei amarga e copiosamente, tomada pelo insólito e a magia do encontro, chocada com mais aquela manifestação das consequências nefastas de um incêndio voraz. De facto, a raposa só estava ali - a passar pela humilhação de mendigar alimento ao homem seu grande inimigo - porque não havia nada comestível no seu habitat natural, de encostas e vales carentes de vida, prenhes de morte! Ela própria, como teria sobrevivido? De onde teria vindo?

Ciente de que não é suposto alimentar os animais selvagens, para não criar dependência nem os expor aos riscos da proximidade com os humanos (atropelamento, abate gratuito, envenenamento, laços e outras armadilhas traiçoeiras), pensei que não o deveria voltar a fazer. Mas o bicho reapareceu, nessa noite, em cima do fogão a lenha de um vizinho, a cheiricar o conteúdo das panelas. Um perigo, se o fogão estivesse aceso! Depois disso, passou a vir praticamente todos os dias, ao escurecer, a furta passo, mais silenciosa que se calçasse alpargatas de ladrão [iv]. Mostrava-se quando ouvia barulho ou falar e, se encontrasse a porta aberta, entrava para dizer “cheguei”, e sair sem demora. Que fazer se o território continuava ermo e vazio? Deixar o animal à míngua, ele que já era só a pele e o osso? Submetê-lo aos inconvenientes do furto? Bem ou mal, para ajudar a natureza, o item “raposa” passou a fazer parte da minha lista de compras.





Uma lindeza e uma delicadeza

Fascinada, fui reparando na sua beleza. Era um animal pequeno, aparentemente uma fêmea jovem. Batizei-a de Kika, mas qualquer nome servia, uma vez que aparentava reagir apenas à voz e sem grande entusiasmo! A refletir o enlevo que suscitava, também lhe chamavam Patusca, Linda, Menina, Bichinha, Rapariga ... Precisou de dois anos para responder adequadamente à palavra “toma”!

O pelo, que à chegada era baço e pastoso, foi-se tornando acanelado, brilhante e macio. Presume-se, visto que não gostava que lhe passassem as mãos por ele! Na implantação da cauda e nos ombros, apresentava manchas esbranquiçadas, sendo igualmente branca a parte anterior do corpo. As patas eram finas e escuras, de certeza lestas e resistentes, tal a rapidez com que saltava, de rabo alçado a servir de alavanca! Isto, quando se assustava! Apesar de serem da família dos canídeos, neste aspeto, nas garras e nas pupilas ovais, as raposas são parecidas com os felinos.





A cauda, inicialmente triste, foi-se tornando firme e farfalhuda. Para não roçar o chão, sujando a ponta branca, a Kika mantinha-a esticada e ligeiramente dobrada. Segundo uma fábula norueguesa, as raposas ficaram com a ponta do rabo branca, quando uma ia a fugir da camponesa a quem roubou a manteiga, e ela lhe atirou com o resto, manchando a cauda à espécie para sempre. Ainda não existia champô raposino, tão pouco tira-nódoas!




A cabeça era pequena e algo triangular, com orelhas espevitadas, escuras e lisas por fora, claras e muito peludas por dentro. O focinho pontiagudo tinha as bochechas maquilhadas de branco e um GPS sexto-sentido feito de bigodes fartos e extensos. Quando engordou, a sua expressão facial tornou-se mais airosa e feliz. Uma lindeza e uma delicadeza!




Possivelmente por ser jovem e estouvada, a Kika não exalava grande cheiro a “raposum”, uma marca odorífera inconfundível da espécie. Ao contrário da Salta-Pocinhas, era bastante imprudente. A bajouja andava, deitava-se e sentava-se bem à vista de todos, ignorando a cegueira das viaturas e das pessoas que não perdoam às raposas serem predadores como elas. Acontece o mesmo com as águias e outros bichos que representem competição na caça ao pouco, e agora nada, que há para caçar. Perante tal à vontade, de pouco valia a alguns dos residentes na aldeia a discrição sobre as suas visitas, a fim de protegê-la de curiosidades e ameaças desnecessárias.






Insubmissa, convincente, determinada, persistente …

Cheguei a pensar que a raposa fosse cega, tantas as vezes que passava por mim, ignorando-me ou fingindo fazê-lo. Era muito senhora do seu nariz! Embora tendesse para chegar sensivelmente à mesma hora, podia atrasar-se ou faltar, dando azo a cogitações sobre se teria tido algum mau encontro ou simplesmente perdido o relógio. E era um alívio quando reaparecia, sorrateira e desentendida! Mantendo-se as condições ambientais que a tinham feito aproximar-se da povoação, voltar significava que nada de pior lhe tinha acontecido! Em relação aos atrasos, distinguia-se da raposa do principezinho [v], que defendia a pontualidade para antecipar a felicidade dos encontros muito desejados! Daí que, ocasionalmente, a esperássemos chamando no escuro:

- Kika, já vieste? Estás onde? Kika …, bicho lindo … - E, para dentro:

- “Nã” …, por enquanto, nada peludo nem patudo, lá fora ....

Em relação às faltas sem aviso prévio, não raro tinha de ouvir:

- Olha lá, ó Kika, que desplante é este? Desaparece-se assim sem dizer nada? Nunca ouviste falar de recados, telefonemas e SMSs? Nós aqui preocupados e sua excelência a veranear sabe-se lá por onde!

Ela, nem truz nem muz! Observou-se, porém, que parecia evitar as noites de temporal, possivelmente para não estragar o fino casaco de pele que vestia! E as de lua-cheia, imagina-se que para andar com ela a desvendar segredos e esconderijos! Mas também podia adiantar-se, como naquele dia em chegou cedo e “emailava” a um amigo, mandando uma quase selfie:

- Bom dia. Eis-me aqui para reclamar. Por ser domingo de Páscoa, cheguei às 7.30 h da manhã, à espera das amêndoas que mandou darem-me. Mas nada, tive de contentar-me com a dieta do costume e uma omelete quentinha. Do mal, o menos, regalei-me com os ovos! Boa Páscoa.

Quando destas visitas diurnas – aliás, pouco próprias de um animal crepuscular e noturno -, a raposa, que parecia gostar de companhia, aproveitava para descansar e dormitar perto de quem se encontrasse visível. A sequência habitual era: sentar-se e bocejar; deitar-se e bocejar; fechar os olhos. As tentações e tentativas de a mimar, faziam-na afastar-se! Com as espantalhas, fazia longas e comoventes conversas, sobre as venturas e desventuras da sua vida atribulada!






Por vezes, aparecia cansada, visivelmente a deitar os bofes pela boca aberta. Outra vez, viria com as patas magoadas ou sujas, e só foi comer depois de as ter lambido demorada e cuidadosamente. A saúde e a higiene em primeiro lugar! E ainda a Covid-19 não tinha chegado! Outro imperativo maior era a sede.






Ladina e dotada de uma cheiradeira apurada, nada lhe escapava, estivesse coisa que se comesse na mão ou em qualquer outro lugar. Pois se nem as galinhas mal guardadas escapavam ao atrevimento das suas antepassadas?! De qualquer modo, determinada e convincente, descarada mas frontal, astuta mas generosa e responsável, como adiante se verá, é uma grande injustiça para o animal chamar raposa às pessoas que são desleais e falsas, calculistas e egoístas!




Era uma raposa muito lambisqueira, no dizer do autor citado e gourmet, no de um amigo que soube do belo prato de chanfana que recusou! Mas comia esparguete cozido, de modo muito semelhante aos humanos que não lidam bem com aqueles “fiaratos” escorregadios! Ao contrário de outros animais, servia-se preferencialmente com os incisivos, pouco usando a língua como talher. Ou seria por falta das papas da fábula A Raposa e a Cegonha? Asseada e poupada, costumava apanhar o que deixava cair do prato. Quando não gostava ou queria mais, aproximava-se, sobretudo da porta de onde via a comida sair, sedutora e toda falinhas mansas, a dizer:

- Olha eu aqui, tão asadinha! Anda, vê lá dentro que eu espero! Não vais querer que eu volte com fome, depois desta caminhada de quilómetros, sozinha e por maus caminhos! Já me basta o desconforto da minha toca, que nem forrada é, consumidos que foram pelo fogo o musgo e as folhas!

E era vê-la, no regresso, a saltitar e a empinar-se sobre as patas traseiras para chegar à comida! Tinha de haver cuidado, pois, pegava os alimentos com suavidade, mas não distinguia uma mão cheia de uma vazia, e primava pelo afiado dos dentes! Embora comesse à mão com desenvoltura, por respeito, nunca foi incentivada a fazê-lo.

- Ó comilona rabuda, sai-me de debaixo dos pés que te aleijo! Qual é a pressa?






Era muito irrequieta, mas acanhada: ou enchia a boca e saía disparada, ou comia a olhar para os lados. O rumorejar doído do vento nos chamiços negros dos pinheiros perturbava-a tanto quanto às pessoas, que nunca tal lamúria tinham ouvido! Muito frequentemente, escutando o que só ela escutava, interrompia o repasto para, de orelhas e bigodes atentos, e de pé ou sentada num qualquer poleiro, melhor espreitar à volta e captar os murmúrios da noite. As raposas, nascendo cegas e surdas, parece que veem e ouvem muito bem.




Seguidamente, voltava e retomava a correria, de boca cheia, ora para cima, para baixo ou para o lado, só a presença assustadora de um gato a fazendo recuar. Era um gato maltês negro como pez, que começou por esperar que a raposa se ausentasse para lhe assaltar o prato e, mais tarde, passou a atacá-la, rosnando-lhe ferozmente e erguendo para ela as mãos de unhas perversas. A um gato mais dócil terá ela, debalde, tentado privar da refeição, enquanto mantinha com outros uma relação de respeito mútuo! Gatos: um risco inesperado da proximidade com os humanos! Ignorava o ladrar dos cães presos, e dos outros, a não ser que decidissem persegui-la!




Depois de os ataques do gato, que chegou a feri-la atrás de uma orelha, a Kika refinou o desassossego, precisando de mais de uma hora para o vai e vem de se alimentar e espreitar. Diria a minha avó que era um saricoté ou que tinha bichos-carpinteiros no rabo! Para Zorro, faltavam-lhe a máscara e o capote, de zorra raposa velha não tinha nada!

Uma vez saciada, ia-se embora a lamber os beiços contente, geralmente para visitar outros amigos daimosos! Até teve de aprender línguas, para este tirar das quartas comidas e não bebidas! Na realidade, comia ou armazenava mais que os 500 g diários de que fala a literatura da especialidade. Depois, instalava-se no seu poiso favorito e, à luz ténue da iluminação pública, lembrava um mocho!





A determinada altura, a Kika passou a evitar a pessoa com quem melhor se relacionava. Como nunca explicou por quê, admite-se que tenha confundido a silhueta, a voz, talvez mesmo a viatura dessa pessoa com as de alguém que lhe fez mal. Ou que ela intuía não ser afeiçoado à vida selvagem! Por duas vezes a vi fugir da voz de caçadores que passavam. Este episódio confirma a memória prodigiosa das raposas, ao mesmo tempo que sugere que também são dadas a confusões, defeito tão humano que nem se estranha! Felizmente que o amigo em questão não é de represálias, e continuou a dispensar-lhe alimento à distância.

Mãe extremosa

Por causa das perseguições de que sempre foi objeto, nomeadamente por razões económicas e desportivas, a espécie é muito resistente e resiliente, tendo desenvolvido a estratégia de reproduzir-se precocemente. Sabendo-se que a Kika tinha, pelo menos, o ano de frequência da aldeia que acabava de fazer, fomos acalentando a esperança de a ver encontrar um namorado, e com ele constituir família. Entretanto, sem que nada o fizesse prever, apareceu um dia evidentemente mais esguia.

- A Kika está mais magra, mais elegante …

- Está mais elegante? Pois, a gordura já não é formosura! Se calhar tem algum casting ou passagem de modelos, sei lá … A praia vem longe …!

- A mim, palpita-me que teve crias! Como não se lhe conhece companheiro, devem ser fruto de uma escapadinha romântica até ao Colmeal, Cepos ou outro sítio onde andem raposas. Grande pontaria, considerando a respetiva época reprodutiva de apenas dois/três dias por ano! Como é sabido, a espécie é solitária nos meios pobres em alimento e gregária nos restantes.

- “Nã”, não creio … Para isso, tinha de ter andado mais pesada e molengona …

- Então, e não estava gorda que nem um texugo, com uma barriga cheia que desapareceu? As raposas acasalam no inverno e parem na primavera. Bate certo!

Num flagrante atentado à sua intimidade, enquanto comia, tentei ver com as mãos se as tetinhas estavam salientes, mas ela fugiu, recatada. Enquanto se adensavam o mistério e o encantamento, percebeu-se que a pilosidade do baixo-ventre tinha dado lugar a uns inchaços rosados. Sentada, viam-se perfeitamente.






 

- Coisa mais linda, com bebés! Estranho é andar aqui! De acordo com os livros, o macho deveria estar a alimentá-la na toca e, mais tarde, alimentarem os dois os filhos.

- Será que a Kika é mãe solteira? Abandonada por um malandreco qualquer que nem dá a cara?! E a pensão de alimentos?

- Pois, vá-se lá saber! A aridez mantém-se, mas ele deve ser demasiado tímido ou orgulhoso para vir pedir … !

- Hum, é mas é um valdevinos, e a coitada é que tem de fazer tudo! Vir de manhã e à noite! E a voracidade com que agarra e leva a comida?! Não tarda! A esta hora já deve estar a recomendar aos raposinhos para ficarem calados, e não abrirem a porta a ninguém. Notícias do lobo-mau não há, mas o urso pardo que andou em Montesinho pode estar de passagem!

- Talvez, mas não me parece que tenha crias! E ainda bem! Já viu, se aparece aí com os filhotes para alimentar?

- Lá teremos de arranjar madrinhas e padrinhos que os ajudem a sustentar, organizar um espetáculo solidário, um crowdfunding …! Enfim, tudo em prol do ambiente e da biodiversidade. O pior é se algum dia o instinto fala mais alto, e a bicharada decide visitar a capoeira mais próxima! Não seria a primeira vez! Os pequenos começam a comer com um mês.

Se comiam! Constava que eram três, e quem pouco comia era a Kika, focada que estava na criação deles, e em escapar aos gatos que lhe cobiçavam os mantimentos! Impensáveis, a força mandibular e a quantidade que um animal tão frágil consegue transportar! Parecendo que não, o take away não é fácil, como se viu, uma noite. A raposa corria à frente do carro, com o saco recheado que tinha acabado de desviar, na boca. Apesar do escuro, fazia calor e ela corria carregada sobre o asfalto ainda quente do sol escaldante do dia. Corria sozinha, de pés descalços, talvez doridos, e nem sequer podia abrir a boca para refrescar! Sem queixume, o que uma mãe não faz pelos filhos! Desconfiada com a luz que a seguia, por duas vezes olhou para trás, antes de sumir-se nas herbáceas que ocultavam a parte inferior da via, estreitando-a.

Na volta, ei-la de novo na estrada, cansada de tantos cansaços. Pudera! A ser ali que tinha os filhos, era pelo menos a quarta vez que fazia os 3 KM que separavam o sítio da aldeia e do Colmeal, para sul. Admite-se, porém, que fizesse o caminho mais vezes, para levar os víveres que recolhia e escondia. Caminhantes exímias e muito rápidas, as raposas podem andar bastantes quilómetros por dia, mas tantos … Não admira que estivesse outra vez magra e com a pelagem menos farta e luzidia.

- Bonito! Ó Kika, então, é aqui que tens os meninos? Já viste o exemplo que estás a dar-lhes, deitada no meio da estrada! Não só podes ser atropelada, como denuncias a vossa presença. Santa ingenuidade!

Um dos pequenos espreitou à janela dos fetos, e desapareceu discreto no meio deles. Logo de seguida espreitou outro, que desapareceu também. Para evitar aproximações, não falámos com eles, nem procurámos voltar a vê-los. Terão sobrevivido, eles e os das ninhadas seguintes? Do pai, nem sinais! O mundo raposino também em mudança! Desfeito o mistério, aumentaram a magia e o feitiço!

Com variações pouco significativas, esta interação humano-raposina prolongou-se por cerca de três anos. Membro legítimo da comunidade, a raposa era objeto da generosidade de muitos. Quando um anfitrião se ausentava, logo outros assumiam esse papel. Alguns dos que vinham de férias traziam mimos e, antes da pandemia, vários foram os restaurantes que, solicitamente, embrulharam sobras que a deliciaram. Na adversidade, ter-nos escolhido foi um privilégio.

A segunda prole terá sido de quatro crias e a mãe regougava próximo, diziam que a chamá-las. Primeiro que percebesse que som roufenho era aquele, na noite! Em setembro, já liberta dos filhos, que se tornam independentes entre os três e os cinco meses, passou a chegar mais tarde. Era como se, em pleno recrudescimento da pandemia, quisesse evitar o contato social excessivo que os restos do verão quente e o Natal frio de 2020 propiciaram. Desapareceu a poucos dias do desconfinamento, quando estava de novo luminosa, de pelo brilhante e barriguita roliça de esperanças …!




Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 22 de março de 2021.



[i] Antoine de Saint Exupéry, O Pequeno Príncipe, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1963, pp. 64-74.

[ii] https://www.msn.com/pt-pt/noticias/ultimas/vida-selvagem-em-decl%.

[iii] Aquilino Ribeiro, O Romance da Raposa, Liv. ª Bertrand, 1961, pp. 19, 23, 20, 98.

[iv] Aquilino Ribeiro, idem, p. 33.

[v] Antoine de Saint Exupéry, op. cit., p.71