20 outubro 2015

Magusto no Colmeal








A União Progressiva da Freguesia do Colmeal, mais uma vez e na sequência do que tem vindo a fazer em anos anteriores, irá novamente assegurar esta antiga tradição do MAGUSTO, pelo que convida todos os Colmealenses a associarem-se a esta manifestação tão querida das gentes da serra.

Será no próximo domingo, dia 1 de Novembro, pelas 15 horas, no Largo D. Josefa das Neves Alves Caetano, no Colmeal.

Castanhas, torresmos e jeropiga estarão à sua/vossa espera.
E nós, também lá estaremos para vos fazer companhia.
Venha! Contamos consigo!

UPFC

16 outubro 2015

BOIS DE TRABALHO/EXPOSIÇÃO


A 7 de setembro, dia do meio da Feira do Mont’Alto, e dia da feira dos bois, lá estava matinalmente. Como eu, muitos outros entusiastas, amigos e conhecidos de anos anteriores, entre eles, o senhor Júlio, de Aldeia Velha.

Reportando-me às últimas notícias sobre este assunto (http//upfc-colmeal.gois.blogspot.com: 15 de janeiro de 2013 e 10 de outubro de 2011), há várias diferenças a assinalar, correspondendo à consolidação de tendências que já se vinham notando.

O número de visitantes pareceu-me ligeiramente inferior, mas mais jovem. Os homens continuam em maioria, mas havia senhoras como expositoras/vendedoras, o que é um bom sinal.


  
No que toca aos animais, das juntas de bois imponentes de anos anteriores, apenas uma marcava presença. Duas outras, mais jovens, continuavam nas viaturas, aparentemente indecisas sobre se ir ou ficar. Os restantes criadores/expositores terão deixado a atividade ou não compareceram, devido aos elevados custos de manutenção e transporte dos animais, e à falta de apoios. A ser assim, uma situação insólita, já que o evento têm, no âmbito da Feira do Mont’Alto e da Ficabeira, um papel cultural e económico semelhante ao de outras iniciativas, continuando a representar negócio, preservando uma tradição e atraindo consumidores para outras atividades e produtos.




Em contrapartida, aumentou a presença dos potros e burros, que estavam a ser comercializados numa perspetiva de lazer, mas, sobretudo, de trabalho. Lembram-se de um cavalo que passeava as crianças pelo recinto ou de um pónei maluco que rebolava no chão, a sugerir brincadeira? Desapareceram e o que os vendedores enfatizam é a capacidade de trabalho dos animais, sem prejuízo de poderem ser montados.



- Já viu animal mais bonito? É a Rola, tem quatro anos …, dizia-me, trajado a rigor, o dono de um potro acavalado. Se aquele amigo ali não se chegar à frente, entrego-lha por 800.00€. Mas olhe que faz tudo: lavra, puxa uma carroça ou uma charrete, vai ao mato, à lenha, deixa-se montar … E mansa … Rola, o que é que as senhoras dão aos maridos?

E encostava o rosto ao animal, que correspondia, aproximando o focinho.

- Isso, isso, beijinhos, linda menina …


Perto, uma rapariga procurava vender uns potros mais pequenos.

- Esta prenha vendo-lha por 750.00€ e aquela ali, que ainda não se sabe se também está cheia, por 400.00. Fazem tudo, tudo. Para montar, esta está mais habituada …

- E o macho?

- Ah, o Alfredo? O Alfredo são 400.00€, mas é um macho inteiro …

- Inteiro ?!…

- Sim, não é capado, é um macho de cobrição, é o pai dos filhos delas …


  
Conforme pode ver-se pelas fotografias, os burros continuam fofos e ternurentos ou não tenha sido o burro o animal escolhido pela Sagrada Família, para fugir da perseguição de Herodes. Nem me aproximei, tanto o medo de não resistir ao ar desprotegido do pequenino e à ameaça de extinção que paira sobre a espécie!


Pela primeira vez vi porquinhos. Estavam muito tristes, amontoados no fundo de um atrelado, e eu triste fiquei a pensar se estariam a ser respeitadas as normas de transporte animal.

A Feira do Mont’Alto, como outras, tem vindo a adaptar-se às novas necessidades da economia e dos modos de vida atuais. É neste contexto que a feira dos bois parece estar a transformar-se em feira dos burros e potros, uma evolução muito curiosa. É como se a crise, que tem reduzido os salários, as pensões, o emprego e o progresso social, em geral, também esteja, por um lado a promover o regresso dos animais às fainas agrícolas, por outro, a reduzir o seu tamanho, na expetativa de minorar os custos de produção. Naturalmente, em linha com o declínio da produção agrícola, que é residual na zona, e com a progressiva ascendência das atividades de turismo e lazer.

Mas lá que os bois de trabalho/exposição continuam lindos e de olhar meigo, lá isso continuam!

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 26 de setembro de 2015

MINDFULNESS - Uma Arte de Acalmar o Espírito




Relaxar, Acalmar o Espírito, afastar-nos um pouco dos problemas do dia-a-dia é o objectivo de MINDFULNESS, segundo os especialistas na matéria. 
As Mandalas para colorir, ou por palavras mais simples - desenhos para pintar com lápis de cor - são uma forma de atingir uma certa paz de espírito, durante os minutos que dedicarmos à "Pintura".
Bastam uns minutos por dia ou por semana, conforme as nossas obrigações nos permitirem.
É muito conhecido. Eu só agora descobri, através de uma Amiga nossa Colmealense.

Aqui vos envio o meu "Trombinhas, para vos desejar Sorte.
O Elefante dá sorte! 
Abraços a todos

Aurora Braz 

Se não foram mais longe foi porque não puderam! (IV)


«Compara-se uma juventude a outra»
«Alguma vez os jovens ou adolescentes de determinada geração foram semelhantes nas suas normas de pensar e agir, aos das décadas anteriores ou dos séculos passados?» (in «Correio da Serra», 15/9/72)

A morosa integração da mulher e da gente moça, de ambos os sexos, no Regionalismo, tem de se interpretar e acompanhar em função dos usos, costumes e tradições da generalidade do país.
A mulher, segundo a óptica discriminatória, «não precisa» de estudar. A sua finalidade era trabalhar na agricultura, efectuar a lida de casa e gerar filhos.

A mulher, apesar do seu movimento de emancipação ter acordado em fins do século XIX, continua a ser a «escrava», tal como no passado. No sentido da emancipação da mulher, algo se tem conseguido, embora muito haja ainda a fazer no campo da promoção feminina. É certo que há mulheres em altos cargos e a dirigir, inclusive, povos. Elas são, no entanto, e ainda, uma minoria que nem sequer é significativa.
Por sua vez os filhos, possíveis quadros regionalistas do futuro, «eram» para obedecer e nada mais. Rapazes sem barba no Regionalismo, isso nunca!

Em todas e quaisquer «manifestações de actividade», que iam desde representações colectivas junto dos poderes públicos, reuniões para discussão ou aprovação de problemas inerentes à aldeia, convívios, confraternizações e Assembleias Gerais, os presentes eram só homens e na maioria dos casos com mais de 25 anos, ou seja, após o serviço militar.
A integração da mulher e da gente moça, no Regionalismo, foi um processo lento, extraordinariamente moroso, que esteve aliado paralelamente ao processo de reconversão de mentalidades.

Há uns 15 anos só havia uma senhora a exercer cargo regionalista. Não recordamos se em Direcção, Conselho Fiscal ou Assembleia Geral. Rapazes, possíveis ou prováveis dirigentes do futuro, já encontrávamos mais, mas, mesmo assim, muito poucos.
As mentalidades tinham evoluído, é certo, mas não se criavam condições para a integração plena dos rapazes e das raparigas nas agremiações regionalistas. Hoje, neste aspecto, o panorama é diferente, para melhor. E neste sentido teve influência decisiva o fomento e desenvolvimento de «Comissões de Juventude», agregadas às agremiações. Neste sentido a UPFC foi uma das inovadoras.
Embora controversas, as «Comissões de Juventude», como controverso tudo quanto é novo e diferente, têm desenvolvido actividade positiva e, como «alfobre», fornecido novos valores, de ambos os sexos, ao Regionalismo.
Esperamos que a tradição recente das «Comissões de Juventude» tenha continuidade e se apresentem moralmente cada vez mais robustas.

No Regionalismo colmealense existiram sempre certas tradições. Umas recentes e inovadoras, como a focada anteriormente, outras antigas. Umas positivas, outras negativas. Umas perderam-se, outras mantêm-se. Uma das tradições negativas que se mantém é o afirmar-se com frequência, de ânimo leve, sem qualquer fundamento, por desconhecimento de um passado longínquo ou recente: a União nunca fez nada pela freguesia. À falta de melhor argumentação (ela existe) caberia desde logo, como é lógico, interrogar-se: - E o que fez a freguesia pela União Progressiva da Freguesia do Colmeal?

*

Por insistência da UPFC, os CTT, em 8 de Junho de 1932, ampliaram o serviço de «Valores Declarados» ao Colmeal. Este benefício tem hoje pouca utilização mas, nos anos trinta, foi um serviço inestimável para toda a freguesia. Por esse sistema, os que se encontravam ausentes enviavam à família os vinte ou cinquenta escudos, de vez em quando. Era um serviço «porta a porta». O Vale Postal tinha que ser, tal como hoje, levantado em Góis. Para ir a Góis eram 30 quilómetros, era um dia.
Também em Julho de 1932 foi enviada a primeira exposição ao Director dos Correios do Distrito de Coimbra, solicitando a «criação de encomendas postais na nossa freguesia».

Antes do fim desse mesmo ano (1932) verificou-se a execução do primeiro empreendimento material da União: construção da ponte sobre a ribeira do Soito. A execução foi na íntegra custeada pela UPFC. Tal ponte ainda existe, embora com o tabuleiro alargado.

Em Julho de 1935, o Regionalismo colmealense organiza a primeira excursão à Serra. Nessa excursão iam dois reputados jornalistas da Imprensa Arganilense: o «Ti» Luís Ferreira e Joaquim Dias Pereira. Eles, melhor que ninguém, descreveram em várias crónicas publicadas em «A Comarca de Arganil» e no «Jornal de Arganil» o atraso existente, a odisseia, a aventura, o calvário para do Rolão chegar ao Colmeal e para depois sair da nossa sede de freguesia para a Carvalha da Sarnoa (Celavisa), onde a camioneta aguardava os excursionistas para o regresso.
Este serviço desinteressado e outros futuros da Imprensa Regional e seus colaboradores teve influência decisiva no alicerçamento e futuro da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.

Em 1937 construiu-se e foi inaugurado o abastecimento de água existente no Largo do Colmeal, em substituição do «Chafurdo». Em princípios de 1938 a água foi conduzida do Largo até à «Cruz-da-Rua». O primitivo encontrava-se no mesmo local do actual.
Estes melhoramentos, executados através de comparticipações públicas, custaram, só à parte da União, cerca de 15 contos. Para a época era muita «massa».
Nesse período procedeu-se, igualmente, à captação de água e foi executado um chafariz no Sobral e em 1939 projectada a captação da água em Aldeia Velha.

No entanto, desde a fundação da União, a ideia dominante dos seus dirigentes era dotar a freguesia com uma estrada. A estrada seria, segundo uns, «o progresso dos progressos», para outros e para a freguesia um caso de «vida ou morte».
Sem nunca, através de todas as épocas, os dirigentes da UPFC colocarem de parte a estrada para Góis, que os poderes públicos não construíam, tudo levando a supôr com a finalidade de afastar os povos dos centros de decisão, os colmealenses nunca desertaram da efectivação dessa via; inclusive por ela batalharam quando a legislação não permitia a abertura de estradas das povoações «servidas ou com menos de 100 habitantes». Tiveram, isso sim, em face dos imponderáveis, que tentar outra saída.

Quanto à estrada inicialmente do Colmeal para a Carvalha da Sarnoa, por Celavisa, acabaram os representantes das duas freguesias por não chegarem a acordo após várias reuniões conjuntas, iniciadas em 1935. O mesmo fracasso se verificou, décadas mais tarde, entre cadafazenses e colmealenses, no respeitante à ligação para Góis.
Finalmente a UPFC mandou elaborar projecto parcelar da Estrada do Rolão. Em Janeiro de 1938, provavelmente dia 4, iniciou-se a marcação de terreno e trabalhos preliminares para a abertura desta via de comunicação.

in Boletim “O Colmeal”, Nº 167 – Novembro de 1980
Arquivos da União

07 outubro 2015

"Colmealenses na Sétima Arte"



Jorge Miguel Braz Santos - assistente de realização e coautor do argumento para o filme "A Vida Invisível", a receber o Prémio, por delegação do Realizador Vitor Gonçalves.
"A Vida Invisível", recebeu o prémio de melhor filme Português de 2014. Classificação da Sociedade Portuguesa de Autores.

Aurora Braz

Se não foram mais longe foi porque não puderam! (III)


«PROGRESSO – INSTRUÇÃO» (Binómio que figurava no primeiro Brazão da UPFC)

O regionalismo colmealense, impulsionado nos seus primeiros anos, o que nunca é demais realçar, por homens parcialmente iletrados, duros mas leais, conseguiu, sem quaisquer filosofias, antes com trabalho, sacrifícios, sobrepondo o colectivo ao individual e com muito amor ao próximo, transmitir a gerações posteriores de dirigentes, algumas dessas virtudes.

Dentro destes princípios humanos, a instrução, as crianças das escolas, os homens e as mulheres de amanhã, sempre mereceram um carinho muito especial por parte da União Progressiva da Freguesia do Colmeal. Material escolar, caso de cadernos, borrachas, lápis, canetas, livros de estudo e outros artigos didácticos, eram entregues periodicamente aos alunos.
Ainda recentemente, aquando do Ano Internacional da Criança, a direcção da União proporcionou a dezenas de crianças uma deslocação à capital, a vários e aprazíveis locais. Igualmente as últimas direcções têm procedido à distribuição de brinquedos.

Com a migração constante e já definitiva, para outras zonas do país e do estrangeiro, o número de habitantes foi diminuindo e, automaticamente, o de crianças. Simultaneamente, em face da política educacional, a quantidade de professores para todo o país era insuficiente porque, estupidamente, não se desenvolvia a cultura. Como só «interessava», segundo o poder político, «saber ler e contar» na sede de freguesia, o número de edifícios escolares foi reduzido a uma escola, que passou a ser mista.
As crianças de todas as aldeias da freguesia frequentavam a escola do Colmeal, excepto as de Ádela, que, tal como no presente, aprendem nos Cepos a instrução primária.

Para saberem «ler e contar» qualquer coisa as crianças que frequentavam a escola (nem todas a frequentavam) tinham de palmilhar com sol abrasador, chuva e por vezes neve em parte do percurso, dez quilómetros e mais.
Para minorar este Calvário de algumas crianças da freguesia, iniciou a União Progressiva da Freguesia do Colmeal, em 1933, antes da eliminação da escola feminina, petições, exposições, relatos na imprensa regional, no sentido de serem construídos novos edifícios escolares em outras aldeias.
Dez anos volvidos, ou mais, Malhada e Carvalhal viram concretizada esta aspiração que tinha tanto de humana como de justa.

Através da sua acção lenta mas profícua, o regionalismo colmealense vinha contribuindo, dentro das suas possibilidades, para que cada um viesse a sair de dentro das suas trincheiras e começasse a interessar-se pelos problemas comuns da terra que o viu nascer.
No campo da assistência médica (apesar de criado o partido médico do Colmeal nunca instalado por falta de concorrentes), outra das grandes necessidades prementes e difíceis de concretizar, por falta de vias de comunicação e de uma política voltada para a saúde pública, também o labor da União, foi útil, foi positivo.

Após inúmeras exposições, endereçadas ao longo dos anos às mais variadas entidades, recebeu, finalmente, a União Progressiva da Freguesia do Colmeal o ofício nº 1070 da presidência da Câmara Municipal de Góis, com data de 20 de Novembro de 1953, no qual se informava «… concordando inteiramente com a justa pretensão, só a julgo possível depois da instalação do posto médico…».
Embora modesto, conseguiu o regionalismo o «Posto médico» (antiga escola do Canto), bem assim o mobiliário e seu apetrechamento com o material mínimo indispensável.
Se o «Posto médico» funcionou número de vezes muito limitado, a responsabilidade não foi da União. A União foi «burlada»!
Quem subscreveu tal ofício não desconhecia as limitações médico-sociais concelhias, a inexistência de uma política nacional de saúde, o isolamento em que então ainda se encontrava o Colmeal.
Tal promessa não era, não foi, para cumprir.
Embora fechado e sem funcionamento o posto médico não podia ser encerrado. Era «para inglês ver» mais um «posto médico» a figurar como «existente» nas «estatísticas», deste país.

Anualmente aparecia na União Progressiva da Freguesia do Colmeal uma ficha do I.N.E. para, após preenchida, ser devolvida, dentro de determinado prazo, por causa de possíveis «sanções». Nem sempre a direcção procedia à sua devolução dentro do prazo para forçar a remessa de novo ofício com a indicação de novas «penalidades». Normalmente a União Progressiva da Freguesia do Colmeal devolvia a ficha com a indicação «não se verificou movimento por falta de médicos».
Em 1974 1975 a União, e congéneres da freguesia, passaram a custear a deslocação de clínico à sede de freguesia.

Nestes últimos anos a assistência médica tem sido garantida pelo serviço á periferia, salvo quando a Câmara Municipal de Góis não tem fundos, ou estes não lhe são garantidos por quem de direito, para liquidação do transporte aos clínicos.

Evidentemente, como não podia deixar de ser, também a terceira idade não era esquecida. Durante inúmeros anos, pela Páscoa ou Natal, era efectuada uma distribuição de géneros alimentícios. Conforme as possibilidades financeiras da colectividade, assim eram as quantidades ou o número de beneficiários, ou optava-se pelos mais necessitados, visto todos precisarem na freguesia.
Por se tratar de assunto delicado, controverso na opinião de uns, discriminatório na de outros, perdeu-se a tradição para evitar, ao que julgamos, polémicas ou melindres, nem sempre com razão.
Hoje, em face da evolução social, tal era injustificado.

in Boletim “O Colmeal”, Nº 166 – Outubro de 1980
Arquivos da União

01 outubro 2015

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA: CABEÇO DO GATO E ARREDORES


Andei há dias pelo Cabeço do Gato e arredores. O Cabeço do Gato é o topo da serra da Aveleira para uns, da Gatucha para outros, onde se encontra instalado, precisamente, o marco geodésico da Gatucha, a 963 m de altitude. Os arredores são lugares como a Chã, o Mucilhão e a Panasqueira, a sudoeste, a Gatucha, a poente, a dar para Celavisa, a Pedra de Água, a Selada Domingos dos Cepos a que também chamavam Relveirinho e a Carvalhalva, para norte, a Selada do Escudeiro, uma assentada a caminho da Aveleira. Tudo sítios próximos ou a poucos quilómetros uns dos outros, cujos nomes – a confirmarem que a serra “muda de nome sem mudar de dorso” - revelam a familiaridade que as pessoas tinham com eles. Uma familiaridade de uso, construída no dia-a-dia, palmo a palmo, passando, trabalhando e convivendo.



Como refere António Domingos Santos, a propósito da caminhada “Vamos voltar ao Cabeço do Gato” (http://upfc-colmeal-gois.blogspot.pt/2012/04/caminhada-vamos-voltar-ao-cabeco-do.html, sábado, 21 de abril de 2012): “Do Cabeço do Gato a vista é deslumbrante. Buçaco, Caramulo e Estrela são algumas das serras que se vislumbram e até onde o olhar alcança. (…) Serranias polvilhadas de aldeias, casais e lugarejos. Arganil sobressaía. Olhando para o outro lado, Carvalhal, Aldeia Velha, Malhada, e o Soito um pouco mais abaixo, sinalizavam a presença da freguesia do Colmeal. Lá no alto as eólicas, no gigantismo das suas silhuetas, iam girando”.
Realmente uma paisagem sublime e avassaladora, de cumes e cumes arredondados, que se sucedem e abraçam, formando, envoltos na bruma esfumada de alguns dias, um oceano ondeado e misterioso.


Mas é do espírito do lugar que eu quero falar. Na definição de os especialistas em monumentos e sítios, o espírito do lugar é o conjunto dos elementos tangíveis e intangíveis, isto é, o conjunto dos elementos físicos e espirituais, que conferem sentido, emoção e mistério a um determinado lugar. Entre os primeiros elementos contam-se os edifícios, sítios, paisagens, caminhos e objetos, entre os segundos, as memórias, lendas, texturas, aromas, documentos ...
No caso de o Cabeço do Gato, diria que a componente intangível é formada pelo espírito de que a zona se foi imbuindo, em contacto com as pessoas, com a vastidão do tempo e do espaço, as intempéries e a solidão dos dias desertos de hoje.
Nos tempos em que as aldeias transbordavam de vida, o Cabeço do Gato e mais propriamente os já mencionados sítios de Chã, Panasqueira, Gatucha, Pedra de Água, Selada Domingos dos Cepos, Carvalhalva e Selada do Escudeiro funcionavam como entreposto de encontro e passagem, de veredas e populações que a povoavam e atravessavam, subindo e descendo, para cá e para lá.


Diariamente, encontravam-se por ali os pastores e os rebanhos de Açor e Ádela, por vezes também os da Aveleira, conforme recorda a “Ti” Arminda, de Ádela, do alto dos seus lúcidos e encantadores noventa e sete anos. Diz que os pastores da Aveleira eram boa gente, mas que os das Torrozelas usavam um varapau com o qual não hesitavam em bater, se os rebanhos se misturavam. O melhor, por isso, era evitar a Carvalhalva e seguir para a Chã, onde também apareciam os pastores do Sobral, dos povos da Ribeira de Celavisa e a “Ti” Bezerra, do Vale de Asna. Os pastores e os rebanhos de Cepos, normalmente, não passavam da Selada das Eiras.


Enquanto o gado comia e a serra escutava solícita, os pastores mais velhos conversavam: os rapazes, provavelmente, falando do desejo de irem para Lisboa, as raparigas sonhando casar, para poderem seguir o mesmo destino. Entretanto, os mais novos brincavam, trepando os pedregulhos salientes e observando mais uma vez, na Pedra de Água, o molde vazio de um carro de bois em ouro, que a rocha escondia, e alguém descobriu e roubou. Segundo a “Ti” Arminda, é a tiradoira que se vê mesmo bem, de acordo com outros conhecedores, veem-se uma roda e a tiradoira. Seguramente a justificar o topónimo “Cabeço do Gato”, mais acima, uma outra fraga mostrava a forma oca de um gato igualmente em ouro, cuja sorte foi idêntica. Como foi a do caldeirão, que ocupava uma cova funda e redonda, onde o mato nunca crescia. Muito abastados eram os mouros, e criativos, os pastores daqueles longínquos anos vinte, trinta e início dos quarenta do século passado! A brisa ainda exala o aroma morno do leite que mitigava a necessidade de alguns!



Tanto mato crescido, tempo e erosão passados sobre o sítio, do gato e do caldeirão nem sinais! Quanto ao carro, enquanto me pareceu vê-lo desenhado no chão pela posição lateral de duas rochas, revelou-se à minha irmã escavado no topo de uma das fragas. “Vês, vês a tal tiradoira?”, dizia contente, como se tivesse descoberto o tesouro sonhado! Segundo a lenda, quem sonhar com um tesouro escondido visualizando o sítio onde está, consegue encontra-lo, se o for procurar imediatamente sem contar nada a ninguém!
Diariamente cruzavam-se também por ali, indo ou vindo, não raro carregados e cansados, os que por alguma razão tinham de ir a Arganil ou a alguma das povoações em caminho. Também me lembro de regressar de Góis subindo Gatucha acima, numa noite de trovoada, mas essa vereda ligava à Panasqueira. Aliás, era o caminho por onde se ia à Feira de S. Miguel, em Celavisa, ou apanhar a carreira, na Sarnoa, junto à Senhora da Boa Viagem.
O grande movimento ocorria, porém, à quinta-feira, dia do mercado semanal em Arganil e por alturas da Feira do Mont’Alto, a 6, 7, e 8 de Setembro. Esta era a feira mais importante das redondezas, sendo nela que a população maioritariamente se abastecia de utensílios, ferramentas, têxteis, etc.. Durante os três dias, imagine-se o bulício, alguns levando para lá fardos de palha, sacos de carvão, milho, centeio e outros produtos, quase todos trazendo para cá panelas, cântaros, cestas e muitos outros artigos. Imaginem-se também as conversas, os olhares furtivos e prometedores, os namoros começados e o colorido andante, embora as pessoas tendessem para vestir-se de escuro. Era tanto o movimento para lá e para cá na vereda que vinha do Colmeal, trazendo as gentes da freguesia e de terras da Pampilhosa da Serra, que a minha bisavó Preciosa ia para o Poço Cimeiro vender refresco de capilé, ao copo. A minha bisavó ficou viúva muito cedo, com quatro filhos pequenos e a mão direita defeituosa.



Mais abaixo, já perto da Selada do Escudeiro e a descer para a Aveleira, o encontro dava-se com os indivíduos e grupos que vinham dos lados de Fajão e das freguesias de Cepos e Teixeira.
Humanizada pela intensidade da presença humana, à serra só faltava chorar com os casais que desciam para se despedir em Arganil, com a mulher que regressava sozinha, com as crianças doentes que os pais transportavam ao colo ou numa cesta, à cabeça, com as raparigas que iam vender grelos de nabo, calçando tamancas, que se lhes prendiam à neve, com os meninos trabalhadores que mal podiam com a enxada … Ou rir de contentamento, nas situações agradáveis!


Quando o Estado se apropriou dos baldios (Decreto de 1942), os rebanhos foram expulsos para as cotas inferiores da serra, onde não cabiam e os pastores, empurrados cada vez mais para a (e)migração. Mas, em termos de trabalho, o cimo da serra continuou a ser frequentado pelos adultos e crianças que trabalhavam na “floresta”, escavando o solo árido para semear e plantar árvores, rasgando as fragas duras para abrir os estradões, que tanto facilitaram o acesso às aldeias. “Aí é que era mesmo duro. (…) mais a mais, para uns braços tão tenros e com as mãos cheias de bolhas”. Não admira que o meu primo Amilcar guarde desse tempo uma memória tão viva!
Cruzamento de caminhos e destinos, as bruxas não podiam faltar. Feias e escarninhas, apareciam fogosas, a dançar rodopiando, e a molestar os homens que se deixavam apanhar. Desapareceram com as populações, montadas nas suas vassouras de moiteira ou giesta!


Enfim, parte do tal intangível e da magia do Cabeço do Gato e arredores, recordados como sítios de pertença, trabalho e permanência, por alguém que agora os visita como paisagem e espaço transitório de lazer e contemplação.
E, neste novo registo, como beleza e riqueza da serra que importa potenciar, considerando que o sítio já funciona como ponto de encontro e reencontro. Percebe-se isso através de as caminhadas da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, da mensagem civicamente inscrita numa pedra - e não na própria estrutura do marco geodésico -, da colher deixada junto aos penedos da Pedra de Água, para o caso de alguém precisar, das garrafas esquecidas ou estilhaçadas contra as pedras indefesas, sugerindo pedras de outra natureza …



É proibido caçar, mas, paradoxalmente, a destoar na beleza agreste da serra, pode ver-se o abrigo de uma associação de caça e pesca.
Afagadas pela longevidade do tempo e do vento, pelo ímpeto das neves de antigamente e pelo gelo dos invernos frios de sempre, os penedos mostram-se de arestas lisas e arredondadas, replicando o ondeado da montanha.




Apesar de a secura do verão enxuto, por entre a erva e o mato crestados, frágeis e delicadas cilas-de-outono teimam em resistir!


Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 16 de setembro de 2015.


BODAS DE PLATINA



Os meus pais, com 67 anos de casamento.
Cumplicidade total. Tanta coisa para contar.

Aurora Braz

Se não foram mais longe foi porque não puderam! (II)


«Para defender a nobre Causa regionalista em prol do bem comum, só se exige que sejamos bons portugueses, bons regionalistas e amantes do torrão natal.» (Joaquim Dias Pereira, in «Região das Beiras», 30-4-43).

Esqueça o leitor que vive em 1980, recue a 1930 e, nuns ou noutros casos, sectores ou aldeias, a décadas mais recentes, mesmo e porque não a princípios do ano anterior.
Veja o programa:

Não havia estradas entre as várias povoações e o exterior, apesar do Colmeal figurar, desde o século anterior, como «servido» pela lendária e nunca concluída estrada Góis a Cebola (hoje S. Jorge da Beira).
É preciso também não esquecer que escolas havia duas (masculina e feminina), ambas na sede da freguesia.

Desconhecia-se o telefone, os registos, valores declarados e encomendas postais.
Como iluminação caseira utilizava-se a candeia alimentada a borras de azeite ou petróleo, embora a sede concelhia tivesse sido electrificada antes, mesmo, de algumas cidades.
O «abastecimento» de água, em todas as aldeias, era o famigerado e anti-higiénico «chafurdo».

Grave, também, era quando qualquer um adoecia. Tinha que ir alguém, dezenas de quilómetros, a pé, requisitar o clínico e à freguesia se deslocavam heroicamente, a pé, ou a cavalo, os médicos de Góis, Arganil ou Pampilhosa da Serra. Depois, não menos heroicamente, lá voltava o mesmo «portador» ou outro a percorrer os mesmos 30 ou 40 quilómetros (ida e volta), para adquirir os remédios.
E quando era necessário gelo para aplicar em qualquer enfermo? Para o gelo se derreter o mínimo possível, a distância Arganil-Colmeal, ou outras povoações, tinha de ser palmilhada de noite e, mesmo assim, perdia-se metade do gelo.
Já fizeram uma ideia, mesmo superficial, o que era um saco de gelo e serradura às costas, percorrer de noite, na maioria dos casos sem luar, o percurso Arganil, Lomba, Portal do Lourenço, Fonte do Asno, Aveleira, Selada do Escudeiro, Cabeço do Gato, Sentada da Panasqueira, Covil, Laigieira, Sentada do Chiqueiro, Relva do Meio, Sancho, etc., etc.?

Embora civilização, cultura e humanismo fossem vocábulos a que alguns portugueses, mesmo antes da época Renascentista, souberam dar um sentido real e mesmo actuante, tais séculos passados eram pura e simplesmente desconhecidos no Colmeal, como na Beira-Serra em geral.
Civilização não havia, imperava o analfabetismo; e tudo, em todas as actividades da vida, era desumano.
Para este efeito contribuíam, em parte, as serras. As serras que envolviam a freguesia tinham uma personalidade própria. Eram seres que viviam, sentiam e se comoviam com os sacrifícios do homem que, carregado ou não, as subia e descia. Só o rio, ao fundo do vale, onde as mulheres lavavam a roupa, os homens se banhavam nus como vieram ao mundo e movia os moinhos, se mostrava indiferente. A personalidade das serras do interior revelava-se com nitidez na sua influência sobre o atraso do homem. O homem regionalista no entanto, um dia, havia de dominar, alterar a sua fisionomia e deixar de se influenciar com a serra rasgando-lhe estradas.

*

E quando a doença era grave e o médico aconselhava o transporte do enfermo para Góis?
Fazem, igualmente, uma pequena ideia do que era transportar um doente em maca, durante 15 quilómetros, sempre por carreiro de cabras, através de montes e vales?
Em face do isolamento total e mais tarde parcial, quantos conterrâneos, de todas as aldeias da freguesia, vieram a falecer antes da chegada do médico, dos medicamentos, ou na maca em direcção ao hospital mais próximo?
Também à falta de melhor, as parturientes eram assistidas por curiosas experientes mas irresponsáveis e os óbitos emitidos, sem qualquer competência, pelo regedor.

Igualmente dinheiro não havia, nem onde o ganhar. O pouco que as leiras produziam, numa agricultura rudimentar e arcaica, tal como hoje, era insuficiente para alimentar uma casa de família. Para liquidarem os géneros alimentícios que a terra não produzia nem produz, peças de vestuário ou utensílios domésticos, migravam os homens periodicamente para o Alentejo, outras províncias ou Lisboa, durante alguns meses, onde se dedicavam à ceifa, apanha da azeitona e uva, ou na capital a actividades livres (moços de fretes das praças abastecedoras, «Almeidas», engraxadores, etc.). Quando da sementeira ou recolhimento, regressavam sempre com algum pecúlio para pagar as dívidas.

A freguesia não tinha nada de nada. Aquilo a que a União Progressiva da Freguesia do Colmeal se propunha era a esperança num porvir melhor, mas, simultaneamente, e parcialmente, o impossível.
Impossível sob a mesma bandeira, a eliminação das mais primárias carências das várias e dispersas aldeias colmealenses, pela grandiosidade dos problemas existentes em todas elas, como, fundamentalmente, pela falta de apoio material dispensado à União Progressiva da Freguesia do Colmeal.

Durante vários anos de existência a União Progressiva da Freguesia do Colmeal, com um número de sócios na ordem da centena e uma receita ínfima – as quotas variavam entre 1$00 e os 2$50 – as possibilidades eram poucas ou nenhumas. Tal como a vaca necessita de bom pasto para «fabricar» leite de qualidade para amamentar as crias, também a União necessitava de muitos e bons sócios de toda a freguesia e do apoio económico das populações para, assim, concretizar os anseios das mesmas.
Como podiam os colmealenses de toda a freguesia ajudar materialmente se não possuíam nem dinheiro para adquirir os géneros alimentícios ou as coisas mais primárias para a casa de cada um?
Por este importante facto esse imprescindível apoio nunca existiu em termos reais, talvez até por terem concluído ser muito mais fácil e mais rápido os naturais de cada aldeia resolverem entre si os seus próprios problemas, como se veio a verificar.
A almejada e idealizada «solidariedade de todos os naturais da freguesia» não foi viável, apesar do primeiro melhoramento ter sido executado fora do Colmeal. Evidentemente, sem apoio não era possível passar da teoria à prática. Quantos sonhos desfeitos?


in Boletim “O Colmeal”, Nº 164 – Julho/Agosto de 1980
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