16 janeiro 2021

O COLMEAL E A HISTÓRIA DO COLMEAL (2º)

(Continuação)

 

2. UMA ABORDAGEM MULTIDIMENSIONAL

Depois da supra e rápida incursão pelas circunstâncias que contextualizam O Colmeal, no mesmo sentido, importa voltar à ideia de carta que subjaz ao projeto. Ao tempo, na falta dos atuais meios eletrónicos, as cartas eram o principal meio de comunicação interpessoal a distância. Todos as conheciam, lidas e escritas pelos próprios ou por “escribas”, familiares, amigos e vizinhos, muitas vezes crianças. Eram esperadas com ansiedade e portadoras de boas e más notícias. Dependendo dos emissores e recetores, podiam ser telegráficas ou autênticos tratados de afeto, orientação espiritual e material, informação e reflexão. Exatamente como O Colmeal! Com a particularidade de, consistindo num órgão da Igreja, ser expetável que a componente religiosa e paroquial fosse dominante. Entende-se por religioso o relacionado com as crenças e as práticas de culto, por paroquial, a atividade de índole cultural, social e assistencial.

 

2.1. REGULARIDADES

No entanto, salvo exceções, nos números de O Colmeal que relemos, o espaço editorial tende para distribuir-se irmãmente entre a dimensão religiosa e a temporal. Esta distribuição é visível logo na primeira página, cuja imagem, quando incluída, pode ser religiosa, mas também de uma pessoa, povoação ou infraestrutura. Dada a pequenez das páginas, frequentemente, os temas nela abordados continuam para outras.

No plano religioso e paroquial, fazem manchete: as celebrações litúrgicas e outros temas de apostolado, catequese, educação e formação religiosa e moral; os anúncios e relatos das festas anuais e excursões, visitas pastorais; a reflexão sobre temas da atualidade devota. Igualmente de cariz religioso e/ou de formação moral e religiosa são as máximas que preenchem a tarjeta horizontal de encerramento da mancha, ao fundo. O número 67 (1966) já não traz esta tarjeta.

No campo secular, sobressaem, na primeira página, as notícias sobre: obras, necessárias, em vias de lançamento ou em curso; inaugurações, homenagens e visitas de figuras públicas; membros prestigiados da comunidade, sobretudo da diáspora, os seus descendentes incluídos.

Excecionalmente, a primeira página pode versar apenas uma das problemáticas. A título de exemplo, temos os números: 6 (Colmeal de ontem e de hoje); 31 (Concílios na História da Igreja); 65 (União e Progresso do Carvalhal e alusão a um cidadão da Malhada); 74-75, cuja primeira página é totalmente dedicada a Cepos.



Nas páginas seguintes, que não raro asseguram a conclusão dos artigos iniciados na primeira, encontra-se sensivelmente a mesma distribuição do espaço, provavelmente com maior peso da vertente secular. Isto porque as rubricas fixas devem ser vistas como paroquiais e laicas. Entende-se por rubricas fixas as que acompanham o boletim ao longo de vários anos. São as seguintes.

- Marco do Correio. Notícias, em geral de natureza pessoal, organizadas pelas diferentes povoações da freguesia/s: idas e vindas, festa anual, casamentos, batizados, falecimentos, doenças, acidentes, melhoramentos … As informações de Cepos aparecem ora inseridas nesta rúbrica, ora autonomizadas, ganhando expressão, sobretudo a partir das colunas Notícias de Cepos, Para Cepos ou De Cepos … Após um período de ausência, o logotipo da rubrica Marco do Correio regressa renovado com o número 55 (1965). A nova versão inclui um poste telefónico, a mostrar a importância entretanto ganha por essa extraordinária ferramenta de comunicação.

- A Vida de O Colmeal. Essencialmente, uma lista dos leitores que pagaram a sua assinatura, com indicação do valor. A assinatura começou por importar em 5$00, mas o pagamento podia e era generalizadamente superior. Em 1982, quando o boletim terminou, a assinatura era de 200$ em Portugal e 300$ no estrangeiro, custando o exemplar avulso 17$50. Mais tarde, a rubrica passou a chamar-se A vida do nosso Jornal, A vida do jornal… Indicando a localidade de residência, estas listas fornecem pistas, por um lado sobre a mobilidade geográfica das pessoas, por outro sobre a distribuição do jornal.

- Sempre Alegres. Uma coluna de entretenimento, constituído por anedotas e adivinhas. O respetivo logotipo, que começou por ser um rosto masculino risonho, foi substituído, no número 67 (1966), por um bobo a fazer o pino, o que sugere referências mais eruditas. No número 92 (1968), a rubrica, que perde espaço, dá pelo nome Tristeza não faz bem e, logo a partir do número seguinte, por Canto para sorrir. O número 117 (1973) repõe a genuinidade inicial, ao fazer regressar os primeiros título e grafismo.




2.2. VARIEDADES

No plano das secções variáveis, a diversidade temática é grande e fazer sínteses pode ser redutor. Ainda assim, arrisca-se a menção: às vidas de santos, assunto que começa a rarear com o número 41 (1962) e praticamente desaparece, em 1965, com o número 50; ao lançamento de campanhas de angariação de fundos e, nos números seguintes, à indicação dos contributos recebidos (ex: Vamos comprar um sino, cuja sequência dá pelo título Badaladas); ao apoio aos pobres; às atividades de culto e paroquiais, especialmente as festas anuais; às contas da igreja; aos mordomos e mordomas; aos conterrâneos ilustres que se distinguiram por alguma razão; aos exames e formaturas; a militares que foram promovidos; a casamentos (novo/s lar/es), batizados (novo/s cristão/s) e falecimentos …

Igualmente continuadas ou não da primeira página, as notícias sobre infraestruturas e serviços básicos essenciais são numerosas, por se referirem a toda a freguesia/s e, não raro, repetirem, em virtude das demoras na execução. Destacam-se: as acessibilidades, como as estradas Rolão-Colmeal, Vale do Ceira, Cepos-Colmeal, mais tarde, Colmeal-localidades; o fornecimento de água, luz e telefone; os serviços médicos, depois, a Casa do Povo; o transporte público … Este é o domínio privilegiado da ação do regionalismo, envolvendo a União Progressiva da Freguesia do Colmeal e as comissões de melhoramentos das diferentes aldeias. Lembra, no presente e para o futuro, que ao regionalismo se ficaram a dever, por ação direta e pressão institucional, a melhoria das condições de vida nas terras e o progresso alcançado.

No campo das infraestruturas paroquiais e civis, há projetos que se prolongam ao longo de anos, demonstrando o abandono a que a região estava votada por parte dos poderes instalados, a persistência dos promotores – a paróquia ou as comissões de melhoramentos - e a generosidade de muitos. Uma generosidade tanto maior, quanto as recolhas de donativos eram várias ao mesmo tempo. Constitui exemplo a residência paroquial, que levou nove anos a ser ofertada e cinco a ser construída, sendo mencionada em cinquenta números do boletim [i]. É neste contexto que encontramos formas de financiamento como a oferta de um ovo por semana (1$00), dias e semanas de trabalho ou dos pregos necessários.

De referir, ainda, as simples frases e pequenas rubricas, de natureza formativa e cultural, que contribuem para tornar o jornal mais diverso e atraente, exercendo, por vezes e do ponto de vista gráfico, a função de fechamento de colunas. Estamos a falar de citações, pensamentos e quadras, e da rubrica Sabia isto? (curiosidades/cultura geral), que mais tarde dará pelos títulos Fique sabendo que, Já sabe que … Pingos de saber, Bagatelas …

A Biblioteca [ii] lê-se praticamente em todos os números dos primeiros anos, para agradecer a oferta de livros. Sobre a leitura em si mesma, diz-se, em fevereiro de 1960 (nº 1), que os leitores têm sido em grande número, mas, em junho de 1962 (nº 28), que continuam a faltar, possivelmente a refletir as consequências do despovoamento paulatino.

Em conformidade com o gosto ancestral pelas rimas, versos e romances da literatura popular, registe-se o facto assinalável de O Colmeal incluir poesia regularmente até ao nº 55 (fevº 1965), quando começa a rarear. Pode entrar espontaneamente ou a propósito de um tema, por exemplo, “Sinos da minha aldeia” na rubrica Badaladas (nº 12, janº 1961) ou umas quadras sobre alminhas num artigo sobre as mesmas (nº 10, novº 1960). Em geral, trata-se de poesia religiosa. Alguns números, porém, trazem os dois géneros, caso dos que inserem trovas sobre as aldeias, assunto a que voltaremos em próxima oportunidade.


 

2.3. ENTRELINHAS

O Colmeal é muito eloquente no que diz, e com base no que não diz e deixa dito nas entrelinhas do seu tecido formativo e noticioso. As observações que se seguem - outras ficando por fazer -, resultam do cruzamento desses três espaços de leitura.

A antecipar um futuro que veio a agravar-se, com reflexos na disparidade dos níveis educativas, O Colmeal fala várias vezes da falta de professores. As dificuldades de colocação eram tão constantes que, em estudo realizado em 1997/98, a mobilidade é apontada tanto por atores que tinham mais de setenta anos, como pelo mais novo, de trinta e oito. Se ainda hoje os professores temem o isolamento do interior, imagine-se, então! Entre outras situações:

Por motivo de falta de professora, encontra-se fechada a escola do Colmeal (…) As crianças terão de ir ao Carvalhal à escola ficando sujeitas aos vários perigos do caminho (…) [iii].

O Carvalhal vê ainda fechadas as portas da sua escola. São 34 crianças e nem o fator quantidade parece ter influência [iv].

Com a recessão demográfica, o problema deixou de colocar-se. As raras crianças resistentes vão à escola na sede do concelho, sendo transportadas diariamente ou ficando nas residências para estudantes, que contribuem para a socialização e o sucesso escolar, mas afastam definitivamente as crianças das aldeias.

Simultânea e implicitamente, o boletim define a docência no ensino básico como atividade essencialmente feminina, nos meios mais isolados e numa época em que as mulheres mal tinham conquistado o direito à profissão. Professores do sexo masculino, somente é homenageado António José Teixeira, que lecionou no Colmeal de 1934 a 1938 [v].

A carência de sacerdotes e a respetiva mobilidade, por sua vez, depreendem-se do facto de, ao longo dos dez anos relidos, terem paroquiado a freguesia, já em regime de acumulação, seis párocos. Presentemente, a paróquia está inserida na Unidade Pastoral de Góis, que abrange o concelho, com exceção para a freguesia de Alvares. O pároco, Pe. Orlando Fernandes, é ainda responsável por quatro paróquias do concelho de Vila Nova de Poiares [vi].

No plano do investimento, apenas se deu conta de uma curta alusão aos trabalhos de terraplanagem para a instalação da Quinta das Águias (nº 5, junho 1960). Aliás, de modo geral, a dimensão profissional e económica está ausente, a não ser estando permanentemente implícita, através da diáspora. Isto, apesar de artigos como Método de Trabalho (nº 32, novº. 1962) e O Trabalho dignifica (nº 48, julho 1964), e da publicitação do Guia do Marceneiro (nº 14 e seguintes, 1961). Ou de frases simples, como: As sementeiras processam-se a bom ritmo; As vindimas ficaram muito aquém do desejado [vii]. Dá que pensar, conhecendo a micro propriedade em presença e a escassa fertilidade do solo!

Diretamente, também as crianças estão ausentes, com exceção para o número 37 (1963), que inclui O Sol, um conto (de cariz moral) para os mais novitos. Indiretamente estão-no nas menções à catequese, à primeira comunhão, à escola ou em textos como A Educação Religiosa das Crianças ou A Família e a Educação dos Filhos [viii]. Passando os olhos por exemplares dos anos setenta, pareceu-nos que virão a ter uma maior e devida visibilidade.

Nos referidos cem números, o boletim mantém-se em linha com as posições oficiais da Igreja católica, permanecendo afastado dos movimentos progressistas que precederam e deram continuidade ao Concílio Vaticano II. Por exemplo, que tenhamos percebido, não se encontra qualquer referência ao contrassenso da guerra colonial, não obstante os colmealenses e cepenses que para ela se viram recrutados, conforme informação do próprio. A seu tempo, este alinhamento evoluirá para uma postura mais crítica e interventiva.

Embora as imagens não sejam as mais legíveis, n’O Colmeal encontra-se notícia de património construído e infraestruturas que já não existem. É o caso da antiga ponte sobre o rio Ceira (nº 60 e 63, 1965), de tetos em colmo em Aldeia Velha (nº 101, 1969) ou das alminhas situadas junto da igreja e construídas há pouco no local onde antigamente se erguiam outras [ix]. De modo muito atual, já no número 10 (1960) se perguntava: Porque não se restauram todas as Alminhas, “esses padrões de Portugal cristão“?

 


A terminar esta apresentação sucinta de O Colmeal, diríamos que o mesmo consubstancia uma abordagem multidimensional, a saber: formativo-cultural, informativa e gradualmente interventiva. Formativo-cultural, materializada nos conteúdos de apostolado e formação integral (religiosa, pessoal, moral, cultural, recreativa e, crescentemente, cívica); informativa, sobre as pessoas, a atividade paroquial e as dinâmicas especialmente do regionalismo; gradualmente interventiva, porque se vai tornando mais ativo na identificação das necessidades e respostas viáveis. Com as limitações inerentes ao tempo e à dupla dualidade do espaço em que atua e de que dispõe.

 

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, novembro de 2020

(Continua)


[i] O projeto foi lançado em 1960 (nº 17), a construção iniciada em 1964, dizendo-se, em novembro de 1969 (nº 100), que está em fase de acabamentos.

[ii] Inaugurada em 16 de novembro de 1959, com o objetivo de contribuir para o aperfeiçoamento moral, espiritual ou intelectual dos leitores.

[iii] “Escola”, O Colmeal, nº 63, novembro de 1965.

[iv] “Pela nossa Terra”, O Colmeal, nº 100, novembro de 1969.

[v] “Figuras que o Colmeal conheceu. Prof. António José Teixeira”, O colmeal nº 98, julho de 1969.

[vi] “Unidade Pastoral de Góis já tem novo Pároco”, O Varzeense, nº 773, setembro de 2020.

[vii]Pela nossa Terra”, O Colmeal, nº 97, maio de 1969 e nº 100, novembro de 1969.

[viii] O Colmeal, nº 40, outubro de 1963 e nº 83, julho de 1967.

[ix] “Alminhas”, O Colmeal, nº 20, setembro de 1961. 


09 janeiro 2021

O COLMEAL E A HISTÓRIA DO COLMEAL (1º)

 

Nota prévia

São dias inusitados e tristes os que vivemos. Pelo sofrimento e a tragédia das vidas perdidas, pela dependência e fragilidade em que estamos, numa afronta impensável à arrogância convencida em que vivíamos. Dias, igualmente, de generosidade e entrega, de solidariedade e altruísmo, que agradecemos a todos os que prestam auxílio às vítimas de doença e da crise generalizada em que mergulhámos. Para tanta dádiva de uns e gratidão de outros, não há palavras.

Nesta situação de tempo que conta tanto mais quanto começa a (des)contar, por razões que os especialistas saberão explicar, dei comigo a rever leituras antigas, entre elas a dos primeiros cem números de O Colmeal. Embora por alguns, nomeadamente seguintes, apenas tenha passado os olhos, foi uma leitura muito interessante, simultaneamente aprazível, penosa e pensativa, por estar em questão a narrativa essencial da freguesia, cruzada com as da região, do país e do mundo.

Funda esta convicção o facto de a história antiga constar de artigos e de a moderna transparecer, explícita e implicitamente, das problemáticas e temas que são (ou não) abordados. Embora as caraterísticas geográficas e as dinâmicas sociais sejam anteriores, os longínquos anos sessenta e setenta do século passado, a que o boletim se reporta, foram decisivos para a atualidade do território, em termos infraestruturais, demográficos, sociais, económicos e, mesmo, religiosos. Um desfecho recente foi a fusão com a limítrofe freguesia do Cadafaz, dando lugar à União de Freguesias de Cadafaz e Colmeal. De um outro ponto de vista ou na outra face da moeda, os mesmos anos que foram determinantes para o sucesso e a mobilidade social ascendente dos muitos conterrâneos e seus descendentes que, por toda a parte, ajudaram e ajudam a construir o desenvolvimento e as condições de vida a que os seus ascendentes ou eles próprios aspiravam.

Estes apontamentos são o produto da reflexão que a dita leitura me suscitou. Publico-os com o objetivo de contribuir para a valorização e a divulgação de um projeto e acervo documental que plasma a história da freguesia do Colmeal, em parte, também da de Cepos.

São apontamentos sobre O Colmeal enquanto testemunho e referem-se aos primeiros cem números e ao período 1960-1969. O recurso a números e conteúdos posteriores visa somente antecipar possíveis contornos do boletim, a caminho e na senda das mudanças socioculturais e políticas, entretanto ocorridas. Neles, depois de contextualizar o jornal e de o apresentar na dualidade religioso-secular que o informa, apontam-se tendências de evolução no campo da população-alvo e das matérias que contempla. Termina-se sustentando o seu papel como espaço de visibilidade e protagonismo, ferramenta cultural e fator de identidade e coesão social. Nem o próprio jornal sendo exaustivo, muito fica por dizer, a configurar desafio para outras leituras.

Preservar a memória individual e coletiva nunca será de mais, para que a palavra e a ação dos homens e mulheres tenha futuro. Repetindo-me, recordo uma vez mais o ensaísta Jorge de Sena, quando assinalava o risco de alguns permanecerem os insignificantes da história, enquanto outros se guindam ao estatuto de insignes ficantes [i].

 

1. CONTEXTO

  


 O boletim paroquial O Colmeal nasceu em 15 de fevereiro de 1960, por iniciativa do Pe. Fernando Rodrigues Ribeiro. Sempre que o pároco era o mesmo, o boletim englobava a freguesia de Cepos, hoje União de Freguesias de Cepos e Teixeira.

No que respeita à forma, que oportunamente foi objeto de tratamento minucioso [ii], O Colmeal é um caderno de 27X19 cm, com quatro páginas que, esporadicamente, passam a seis, oito, doze … A periodicidade começou por ser mensal, variando mais tarde em função de dificuldades ocasionais ou por decisão fundamentada. Deixou de publicar-se em agosto de 1982, depois de a despedida do então diretor fazer manchete no número 187, e de se informar que O Colmeal ia ter férias [iii].

Segundo o fundador, lembrando a existência de colmealenses, especialmente nesse grande mundo que é a cidade de Lisboa:

A finalidade é levar a todos, aos de longe e aos de perto um pouco de auxílio moral e espiritual, embora possamos dizer que foi o pensamento na colónia do Colmeal em Lisboa que nos levou mais facilmente a esta estranha aventura” (…). Com esta folha que acaba de nascer queremos nós pôr-nos mais em contacto com todos. Ela será afinal uma carta escrita para toda a família colmealense”.

  


O Arcebispo-Bispo de Coimbra, D. Ernesto Sena de Oliveira, autorizou e abençoou o jornal, pedindo que fosse em tudo eco da Voz do Evangelho [iv].

Embora o auxílio moral e espiritual possa assumir múltiplas formas, sendo sempre um eco do evangelho, aqueles dois enunciados remetem para preocupações algo distintas. Enquanto o fundador do boletim enfatiza a população-alvo e a vertente secular inerente ao conceito de carta, o Arcebispo-Bispo realça a mensagem e, nessa medida, a vertente religiosa e apostólica. A dualidade religioso-secular acompanhará a formulação dos objetivos do jornal ao longo do tempo [v], influenciando o peso dos diferentes conteúdos.

De qualquer modo, atendendo à época, diríamos que tanto o pároco como o prelado inscrevem o boletim num registo migratório e numa estratégia de recurso à imprensa como reforço e meio de evangelização privilegiado, para fazer face às mudanças sociais e aos processos de intensa secularização em curso. A medida remonta a Leão XIII [vi] e deu origem a uma panóplia de publicações, nacionais, regionais e locais [vii]. Apenas o Pe. Fernando - um jovem sacerdote -, o faz antecipando orientações que viriam a sair do Concílio Vaticano II, correspondendo a preocupações pré-existentes no seio da Igreja católica. O concílio teve lugar em inícios de 1962 e o decreto [viii] sobre as comunicações, em 1966. O próprio boletim menciona vários órgãos de comunicação congéneres, entre eles O Varzeense, ainda ativo, que o Pe. Fernando fundou, em Vila Nova do Ceira, depois de sair do Colmeal. A semelhança temática entre alguns leva-nos a pensar que existiria um guião para a elaboração destes jornais.

O acréscimo das migrações, por sua vez, vem potenciar o papel evangelizador da imprensa, para contrabalançar as consequências da mobilidade geográfica e social, no plano dos valores, crenças e práticas, designadamente religiosas. Nas palavras de D. José Policarpo:

(…) a curto e médio prazo, a mudança significa uma nova maneira de viver, de trabalhar, de pensar, de sentir, de entender o passado e o futuro, de ordenar os valores e as prioridades, de dar sentido à vida e à morte, ao casamento e à família, ao tempo e à natureza, a Deus e à religião. (…) [ix]

Nos anos de sessenta a oitenta, o fluxo (e)migratório foi muito elevado, devido a terem-se agravado as condições de pobreza, falta de trabalho e autoritarismo que explicam e continuam a alimentar o êxodo de populações. Perante o mesmo, a Igreja só podia reforçar a sua ação. A título informativo, refira-se a celebração do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado desde 1914 e, entre nós, a criação da Obra Católica Portuguesa de Migrações precisamente em 1962.

Fazendo uma rápida retrospetiva da evolução demográfica na freguesia do Colmeal, verifica-se que perdeu, na década de trinta, 7,8% da sua população, na de quarenta, 16,6%, na de cinquenta, 15,1% e, na de sessenta, 62,2% (quinhentos e noventa e três indivíduos). Confirma-se que a (e)migração se acentuou a partir da década de quarenta, estabilizando na de cinquenta, para atingir o seu auge na de sessenta, a acompanhar as tendências nacionais. Porém, contrariamente à relativa estabilidade que teve lugar no país, na década de oitenta, a freguesia continuou a perder população (-34,3%) [x], tal como o concelho e toda a zona do Pinhal Interior Norte. Contribuíram para o agravamento da desertificação humana a paragem do retorno, o envelhecimento da população, a quebra na taxa de natalidade, a estagnação económica e, sempre, as dificuldades de acesso [xi].



Lisete de Matos

Açor, Colmeal, novembro de 2020



[i] Jorge Sena, “Diário Popular”, 1 de junho de 1978.

[ii] Henrique Miguel Mendes, “Recordar O Colmeal”, http//upfc-colmeal-gois.blogspot.pt, 8 de março de 2008. Sequência: 11 e 29 de março de 2008; 6 e 16 de maio de 2008; 4 de junho de 2008; 16 de julho de 2008; 22 de agosto de 2008. A existirem outros artigos, não os localizámos.

[iii] “Na hora do adeus”, O Colmeal, nº 187, agosto de 1982.

[iv] “Porquê, para quê e quando?”, O Colmeal, nº 1, fevereiro de 1960.

[v] A formulação de objetivos mais global que encontrámos é a da manchete “Mais um Ano”, O Colmeal, nº 24, de 1962. Sob o lema servir, referem-se a pátria e a freguesia, os paroquianos ausentes e os presentes e, quanto ao conteúdo, as notícias, o apoio anímico e o caminho do céu, levando a todos a mensagem salvífica de Deus.

[vi] Carta, 25 de janeiro de 1882. Mas o L’Osservatore Romano, um dos mais antigos jornais do mundo, é de 1861 e, já agora, a Rádio Vaticano, de 1929.

[vii] Entre elas, o Novidades, fundado em 1885.

[viii] Inter-Mirífica, 4 de dezembro de 1966, na sequência do qual a Igreja instituirá o Dia Mundial das Comunicações Sociais (domingo antes do Pentecostes).

[ix] D. José Policarpo, “A religião”, Portugal Hoje, INA, Lisboa, 1995, p.81.

[x] Na década de setenta, deu-se um crescimento de 38,5%, mercê do regresso às aldeias de migrantes internos e de alguns emigrantes.

[xi] Lisete Paula de Almeida de Matos, Gente da Serra: Modos de Vida entre a Cidade e a Aldeia. Lisboa, FCSH/Universidade Nova, 2000.

30 dezembro 2020

UNIÃO PROGRESSIVA DA FREGUESIA DO COLMEAL, NATAL 2020

 

Chuviscava e fazia frio. Pouco passava das nove horas e já estávamos a caminho. Chamava-nos a missão de lembrar aos mais novos que, apesar da situação difícil que vivemos, o Natal persiste como espaço e tempo de celebração, renovação e afeto. E foi uma festa porta a porta muito bonita, esta que a União Progressiva da Freguesia do Colmeal (UPFC) decidiu promover, através da sua delegação no Colmeal, na impossibilidade da realização do convívio entre geracional a que estávamos habituados. Uma iniciativa muito louvável e gratificante, que reflete o carinho das pessoas, o empenho da instituição e a sua capacidade para fazer diferente, em diferentes circunstâncias.

No Carvalhal, por onde começámos, esperavam-nos, entre alguns adultos, o Tiago, o Miguel, o Mikael, o Ulisses e a Frida, os últimos da Ribeira do Carvalhal. A Ester, sua irmã, não compareceu. De poucos meses de idade e protegida pelo abraço caloroso da sua mãe, lembrará, seguramente, o Menino cujo nascimento celebramos! Muitos parabéns e felicidades.





Em Aldeia Velha, onde o frio parecia mais intenso, mas o calor humano compensava, teve-se a grata surpresa de encontrar alguns dos mais velhos, que, como eu, são apreciadores do convívio alargado que este ano a UPFC não pôde fazer. Não menciono nomes, para não correr o risco de esquecer alguém, mas gostei muito de os rever. Como aos “caçulas” do Tomaz, da Quinta das Águias, a Sofia e a Maria, com apenas um ano, que parecia um esquimó delicioso! Todos os nossos concidadãos fossem empreendedores como o Tomaz e não teríamos problemas demográficos!







Na Malhada, para onde seguimos, lá estavam a Ambar e a sua mamã, muito cumpridoras, mantendo-se à porta, acolhedoras mas distantes. Logo ali ao lado, a D. Lurdes queixava-se da falta de telefone: “Não tenho visto ninguém, e nem telefone tenho para me distrair”. De pouco lhe serviu a minha solidariedade, por me queixar do mesmo!



Na Foz da Cova, foi a vez de reencontrar o Salomão e o Loan, que solicitamente vieram ter connosco à entrada da povoação. Muito responsáveis, mãe e filho mais velho com máscara e os maiores cuidados, em benefício próprio e nosso.






No Soito, o Iuri e o André esperavam-nos, no largo. Autênticos homenzinhos, simpáticos e faladores! Olha-se para o Iuri e o coração estremece-nos da lembrança! Tal como no Carvalhal, a constituir um bom sinal, avistámos várias pessoas.






Finalmente, no Colmeal, a Maia e o Diniz aguardavam-nos com expetativa. A Matilde não estava, mas já se agilizou uma forma de a contemplar. Na terra sede da ex freguesia do Colmeal, onde os convívios de Natal tinham lugar, implicando um movimento significativo, foi para mim algo estranha e penosa aquela entrega das lembranças, no largo, e com a presença apenas dos pais das crianças. Tão pouca gente e a necessidade de tanta, saturação do isolamento e do confinamento!






Em geral, as crianças receberam-nos e aos brinquedos com agrado e aparentemente surpreendidas com a visita matinal. Afinal, é cedo de mais para o Menino Jesus descer pela chaminé, e o Pai Natal nem sempre lembra as meninas e meninos que resistem, na serra. Gostei muito. Um ano passado sobre o nosso último encontro, estão todos muito mais crescidos, lindos e desenvoltos. Quando a Catarina lhes perguntava pela escola, os que a frequentam respondiam estar a correr bem. Uma conquista digna de merecido louvor, por parte deles, da escola e dos professores, alguns dos muitos heróis dos tempos exigentes que correm.

Enquanto presidente da assembleia geral da UPFC, agradeço a iniciativa à direção, presidida por António Domingos Santos e aos elementos da delegação local - Catarina Domingos, José Álvaro Domingos, Tiago Domingos e Elizabete Castanheira - o esforço, mas também o gosto e a alegria da sua concretização. Conforme anteriormente referido, não serão esquecidos os sócios e utentes do Lar da Sagrada Família, na Cabreira.

Desejo a todos – colmealenses, amigos e vizinhos - um Natal e um Novo Ano com muita saúde e tão feliz quanto possível.

Açor, Colmeal, 06 de dezembro de 2020.

Lisete de Matos


ROSTOS E SENTIMENTOS

 

Embora não sendo entendida em coisa nenhuma,

Obedecendo apenas ao ensinamento do decorrer dos anos,

Com cadências e desenganos,

Sem consentimento, vou dar a minha opinião,

Podem até julgar que é atrevimento.

Vou falar de alguns rostos que encontro no meu caminho,

E dizer que em cada um vejo amargura, sombra e azedume,

Igualmente medo e tristeza.

Principalmente as pessoas que, como eu, são de idade avançada.

Mais sentimos o peso da solidão,

Muitos de nós andamos em confusão,

Acho mesmo à beirinha da depressão.

Certamente que é devido às restrições relacionadas com a covid.

E não só!...

Seja como for, a verdade é que vivemos em desconforto colectivo,

Amargamente sentido.

Os nossos rostos tinham expressões bem mais bonitas.

Quando estávamos em equilíbrio, demonstrávamos alguma felicidade,

Mesmo sendo na quarta idade.

Deixávamos transparecer a nossa alma, onde se podia ver um lago azul,

De água límpida que brilhava com o Sol.

Faz-nos muita falta ver correr para nós braços abertos, 

A dar um forte e caloroso abraço,

Animando-nos sem cansaço.

E segredando-nos ao ouvido palavras de conforto e amizade,

Demonstrando-nos que estão connosco, disponíveis para ajudar

E compreender sem julgar.

Mostrando-nos, mesmo, a essência de um bom caracter

Disposto a alumiar o nosso caminho, quando há nuvens no céu

Ou noites de breu.

Ajudando, tanto quanto possível, a encontrar maneira

De ainda gostarmos de nós próprios, esquecendo as decadências,

Vivendo bem com as falências.

Seria tão bom se, em vez de sombras, pudéssemos sentir e ver

Este nosso mundo vestido de cores alegres e brilhantes,

Como estrelas no céu composto também com aroma campestre,

Em vez de perfume agreste.

Acredito ainda que todos vamos sorrir, para nos sentirmos mais leves

E, quase sem dar conta, seremos mais felizes.

Para alegria de quantos se cruzarem no nosso caminho.

A vida em sociedade seria bem mais grata, transmitindo simpatia

E sabendo ouvir os outros, porque, afinal, todos temos algo a dizer

Sobre o sentimento e dor que estamos a viver.

Para um mundo mais alegre e mais fácil de entender 

Vamos todos fazer força, para banir os intratáveis donos da verdade,

Os arrogantes, os preconceituosos, assim como os prepotentes.

Vamos ter esperança de encontrar, aqui ou noutro lugar,

A paz que nos encha o coração, sem nunca mais nos faltar.

Ainda vivo a sonhar,

Que um dia vou encontrar,

Quem sempre me vá dar,

Doces favos de mel,

E abraços a granel.


Josefina Almeida

Outubro de 2020


in O Varzeense nº 777 – 30Novembro2020