08 junho 2017

UNIÃO PROGRESSIVA EM CAMPO MAIOR & ELVAS (1º dia)


No fim-de-semana de 3 e 4 de Junho, a União Progressiva da Freguesia do Colmeal rumou ao Alentejo, concretizando uma das viagens programadas para o presente ano no seu Plano de Actividades.
Campo Maior e Elvas foram os destinos de eleição para esta “escapadinha”, que nos permitiu melhor ficar a conhecer uma região marcada pela natureza e pelo seu rico património. Uma imensa paisagem natural que se estende da planície às agrestes serras fronteiriças, tal como pudemos comprovar, quase no final da nossa visita, do alto do Forte da Senhora da Graça.

O Município de Campo Maior encontra-se localizado no nordeste alentejano, distrito de Portalegre. Sentinela de fronteira, a história de Campo Maior é uma história de guerra, de que resta, como testemunho, a sua poderosa Fortaleza. Passou por todas as guerras, privações e desastres. Se foi brilhante a defesa da praça, em 1712 e em 1762, foi heróica a resistência face aos sítios que a fizeram capitular em 1801 e 1811. Mas a explosão em 1732, do paiol instalado na velha Torre de Menagem, que, num ápice, fez desaparecer dois terços da vila, foi uma verdadeira hecatombe.

Começámos este nosso primeiro dia com uma visita ao Centro de Ciência do Café, um espaço de características únicas na Península Ibérica.
Aqui se pretende mostrar e percorrer todo o ciclo do grão do café, desde a plantação em terras longínquas, passando pela fase de torrefacção, até ser bebido.
Conhece-se também a história da Delta e do seu fundador, Comendador Rui Nabeiro.






















A caminho da Igreja Matriz e da Capela dos Ossos, admirámos o belo edifício da Câmara Municipal, da época de Quinhentos, erguido na actualmente designada Praça Velha, e o pelourinho, que lhe fica fronteiro.
Esta praça constituiu, desde meados do século XVI às primeiras décadas do século XVIII, o centro político, administrativo, comercial e cívico do concelho de Campo Maior.






A Igreja Matriz de Campo Maior ou Igreja de Nossa Senhora da Expectação começou a ser construída no final do reinado de D. Sebastião (1557-1578). É monumental com os seus nove altares barrocos e duas tribunas (de meados do século XVIII). Ocupa um local central, destacando-se no perfil urbanístico do Centro Histórico, e veio substituir a antiga matriz trecentista intramuros, que era já pequena para albergar um número cada vez maior de fiéis. Obra sóbria e harmoniosa da arquitectura maneirista sofreu obras de restauro e remodelação em épocas subsequentes à da sua consagração.







A Capela dos Ossos, monumento que data de 1766, fica adjacente à Igreja Matriz. Foi construída em memória das vítimas da explosão do paiol da pólvora de 1732. A visita a este espaço justifica-se pelo facto de ser a segunda maior capela deste género em Portugal e por, ainda hoje, ao contrário das suas congéneres, conseguir mobilizar fiéis. Convida à reflexão sobre o efémero da existência. “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”, lê-se numa placa que recebe todos os seus visitantes.








O almoço foi servido no restaurante “A Muralha”, no Hotel Santa Beatriz, onde tivemos o primeiro contacto com a rica gastronomia alentejana. Depois, seguimos para a visita ao Lagar-Museu e ao Museu Aberto.




O Lagar-Museu, criado a partir do antigo lagar de azeite que funcionou até meados do século XX, no agora designado por Palácio Visconde d’Olivã, um dos mais antigos edifícios da vila, foi inaugurado em 2005. Hoje, chamado de Visconde, por ter sido o Visconde de Olivã o seu último proprietário, mas antes designado por Casa do Barata e antes ainda, por Paço. Ali se dá um maior realce aos equipamentos, às peças e aos objectos que nele eram utilizados, documentando deste modo as fases de produção do azeite. Trata-se de ilustrar uma das mais antigas tecnologias ligadas à agricultura, actividade dominante da economia campomaiorense até meados do século passado. À despedida e muito simpaticamente, a senhora que nos guiou na visita, explicou-nos como se fazem as flores de papel. E ficou prometida a nossa ida às Festas do Povo, onde cada rua trabalha o seu motivo, as suas cores, as suas flores de papel, transformando Campo Maior num imenso jardim florido.











O Museu Aberto explica-nos o passado histórico da vila desde as suas origens até à actualidade. Nele têm sido recolhidos vários documentos de interesse histórico e de valor etnográfico que mostram aspectos do modo de viver das gentes de Campo Maior ao longo dos diversos períodos da sua história.
A Praça Militar de Campo Maior tinha tal importância estratégica na defesa da fronteira leste de Portugal que, nos finais do século XVIII, foi dotada de um “Assento de Provisões de Boca” que podia garantir a defesa da vila, se sujeita a cerco, por vários meses, ou apoiar um exército numeroso como aconteceu no cerco que o duque de Wellington pôs à cidade de Badajoz, ocupada pelos franceses, em 1812.
A construção e concepção do Assento, onde está instalado o Museu Aberto, são atribuídas ao engenheiro militar Tomás de Vila Nova, num relatório militar de 1796.




















Na paisagem bela e incólume que é a planície alentejana de Campo Maior, Siza Vieira ergueu um edifício original, um volume horizontal, um rectângulo de 40x120 metros, caiado a branco, dividido em dois pisos na sua maior extensão, e um terceiro piso para a vertente mais social e pública do vinho. Aí foi criada a sala de provas que se abre para um terraço panorâmico com relvado e um espelho de água central. Este terraço panorâmico permite observar a vinha e o olival da herdade bem como avistar Espanha e a Serra de Portalegre. A serenidade que emana deste volume simples, contrasta com a complexidade que alberga no interior, onde convivem espaços monumentais destinados à produção e ao armazenamento, e a abertura das zonas sociais, concebidas para a prova e fruição do vinho.
Localizada junto às vinhas, na Herdade das Argamassas, a Adega Mayor é o sonho antigo do Comendador Rui Nabeiro tornado real pelas mãos do português Siza Vieira, um projecto que pretende colocar Campo Maior na rota internacional do Enoturismo, uma homenagem à arquitectura do vinho e da vida.























Ouguela foi a nossa última paragem antes de rumarmos a Elvas. Ouguela, que já foi vila, é hoje uma pequena aldeia com cerca de 60 habitantes. Localizada num monte a cerca de 270 metros de altitude, continua a manter o seu ambiente calmo e medieval.

Durante o séc. XVII, o antigo recinto medieval é profundamente transformado de forma a participar na defesa moderna da fronteira portuguesa. Recebe uma nova linha de defesa, preparada para a artilharia moderna e é transformado em aquartelamento militar. É assim que se desmantela o edifício da Igreja que, pelo menos desde os finais do séc. XV, dominava a praça do Castelo e o espaço, é transformado em praça d’armas, fronteira à Casa da Câmara e rodeada pelos aquartelamentos militares e outros edifícios de apoio. Nesta praça é construída uma Cisterna, reservatório de águas pluviais, sendo a Igreja transferida para um edifício no canto Noroeste da muralha, originalmente aberta para praça.

O Castelo de Ouguela era uma das mais importantes fortalezas militares de defesa da região. Fazia parte da 1.ª linha defensiva do Alentejo, com as Fortificações de Elvas, Campo Maior, Olivença e Juromenha. De arquitectura militar, medieval e moderna, constituía-se em elemento essencial à sobrevivência dos defensores perante um cerco. O grosso das muralhas medievais sofreu grandes transformações pelas obras setecentistas que lhe conferiram o perfil actual.








O Hotel D. Luís, em Elvas, com localização privilegiada em frente ao imponente Aqueduto da Amoreira, foi a última paragem deste primeiro dia. Para jantar e dormir. Em sala reservada para o Grupo UNIK/UPFC, degustámos novamente a gastronomia regional. No final, uma surpresa. Um aniversariante. Apagadas as luzes e cantados os parabéns. António Santos, com visível emoção ouviu as palavras proferidas e o poema lido por Santos Almeida, que lhe entregou uma prenda dos colegas da União. Depois, com a lágrima por perto, a todos agradeceu, sensibilizado, por tão grata surpresa.










UPFC
Fotos de Carlos Gama e A. Domingos Santos
Apoio Turismo do Alentejo - ERT  

04 junho 2017

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. OBSERVAÇÕES


A serra não para de me surpreender. Costumava vestir-se de vermelho arroxeado e amarelo, mas, este ano, é o amarelo que releva, sobre a tela verde-acinzentada e ondulante da paisagem. Também riscada e, por vezes nua, em virtude do abate generalizado do arvoredo, antes que alguma praga - inseto ou fogo - o consuma.




Nesta altura, a queiró é a planta arbustiva responsável pelo avermelhado e, com as restantes urzes, pela cor escura e o sabor agridoce do mel da região, um produto sobejamente conhecido e apreciado. Devido às secas que nos afligem – a da falta de água e outras – possivelmente a queiró desabrochou e secou mais cedo, deixando para a carqueja, a giesta e o tojo o protagonismo nas pinturas de primavera.



Realmente, apesar de o céu nebulado, o amarelo refulge e grita por toda a parte, a simbolizar luz e calor, a reclamar energia, prosperidade e felicidade. Espera-se! Porque também pode representar aviso, como nos semáforos! Por exemplo, de risco acrescido de desertificação e incêndio ou do imperativo de novas práticas de gestão e exploração florestal.






A propósito, há zonas onde continua a fazer-se a limpeza não da floresta sobrante, mas de uma faixa da mesma junto às estradas. A tratar-se de uma medida eficaz, qual o critério com que é tomada tão seletivamente, uma vez que não cobre grande parte do território?



E, falando de vias de comunicação, recentemente, a estrada Colmeal-Ádela e o inverso foi asfaltada, uma melhoria assinalável para residentes e visitantes. Nunca será de mais sublinhar a importância da rede viária e das telecomunicações para a sustentabilidade das regiões. Parecendo ter ficado mais estreita e com as margens exteriores altíssimas em algumas curvas, as bermas foram atapetadas a saibro, esperando-se que resista à chuva necessária e à erosão do uso!

Atualmente, a boa notícia é que a dita estrada vai ser dotada de traço central, a julgar pelas manchitas que enfeitam o asfalto até à estrema com o concelho de Arganil, a caminho da Selada das Eiras. As divisões administrativas sempre a fazerem das suas, como se fossem mais importantes do que as pessoas! Absurdo dividir ao meio uma estrada tão estreita e curvilínea? Será, para os utilizadores ocasionais. Para os outros, o traço branco é um prestimoso auxiliar de condução nas muitas noites de nevoeiro, embora este seja mais frequente no troço pertencente ao concelho vizinho.




Outra boa notícia é que vi pela primeira vez um casal de cartaxos. Parei de pasmo perante a beleza que se avistava e ali estavam eles, no topo da serra e no meio do nada, ele a saudar-me (ou a ameaçar-me desabrido, não percebi), ela, tímida, a manifestar-se baixinho, meio escondida nas medranças de um pinheiro. Andavam no mesmo sítio no regresso da terra onde fui, mas não no dia seguinte.



Nesse dia, no seguinte, o que vi foram aves de rapina a planarem felizes sob as nuvens estéreis que toldavam o céu, e um esquilo tão pequeno, que mais parecia um ratinho do campo! Porém, trocista e curioso como os outros, depois de escalar apressado o pinheiro mais próximo!



Ao longe, o cucar do cuco fazia-se ouvir. Apesar de o mau carater com que a natureza o bafejou, era, antigamente, uma presença muito desejada, por vir com o tempo das sementeiras. “Entre março e abril ou o cuco é morto ou não quer vir”, dizia-se, quando tardava. Como não se deixa “apanhar”, mando uma mancheia de pútegas, que são contemporâneas e parasitas como ele. Por aqui, estão em vias de desaparecimento.





Lisete de Matos

Açor, Colmeal, abril de 2017.