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15 março 2017

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. NEVE DE POUCA DURA


Nevou, hoje. Uma neve rara e rala, macia e fresca, que caia suave e brandamente, esvoaçando calada por aqui e por ali. 

Apesar de pouco densa, rapidamente, pareciam outras a observadora e a natureza circundante. Revestidos daquela beleza translúcida e pintalgada de branco, as casas lembravam aguarela esbatidas, a magnólia florida perdia-se no conjunto, o castanheiro despido sentia-se afagado, as cameleiras e as oliveiras choravam, agradecidas. 










As espécies mais pequenas, essas enregelavam, caso das couves ditas galegas (em sinal de apreço ou preconceito?), da erva-leiteira (quelidónia, seruda, erva-andorinha …) ou da cebola-albarrã, trazida na esperança de afugentar as toupeiras ceguetas que desenraízam as plantas. 




Enquanto os lírios resistiam quaresmais e direitos, vaidosos e convencidos, os narcisos dobravam-se em busca do reflexo da própria imagem na neve passageira. Os primeiros resistem desde o tempo em que os jardins representavam um luxo porque a terra era escassa para assegurar o sustento das famílias, os segundos, desde a criação do mito, apesar de o narcisismo ser fatal!



Quanto poder transformador do ânimo das pessoas, da natureza e das coisas! Sendo a neve apenas água solidificada em cristais ínfimos, uns farrapinhos voláteis, simples e efémeros, se isolados! Um fenómeno meteorológico verdadeiramente mágico e fascinante! 

Foi neve de pouca dura! Apesar disso, quando o nevoeiro cinzentão chegou para anunciar o anoitecer próximo, ao longe, o topo da serra ainda branquejava, ainda emocionados, dois verdilhões beijavam-se …




Sem poder mostrar um nevão daqueles que encantam outras altitudes com as suas vantagens e inconvenientes, e que a “Ti” Aurora dizia serem bons para desinfetar as terras de malinas e pragas nocivas, é assim, “quem dá o que tem a mais não é obrigado”.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 3 de março de 2017.