Como referia a propósito dos insetos
(upfc-colmeal-gois.blogspot.pt, 30 de outubro, 2018), na sequência dos incêndios
de 15 e 16 de outubro de 1917, há espécies vegetais e animais que continuam
desaparecidas. Entre essas espécies contam-se os mamíferos, os anfíbios e os
répteis, cujas perdas foram significativas, devido à propagação rápida e generalizada
do fogo, ao fumo e ao calor intensos. Desde então, apenas vi uma raposa, na
altura, extremamente magra e de pelo maltratado, vestígios da presença de
javalis e, muito recentemente, uma salamandra, que, no dia seguinte, já tinha
sido pisada.
Verdadeiramente, aquelas espécies já escasseavam antes dos
incêndios, vítimas de fatores em que se destacam: os medos e mitos ancestrais
de que são objeto; o atropelamento, por efeito perverso do progresso
unilateral; a caça abusiva, envolvendo métodos desleais e cruéis; o abate, por impiedade
dos que não lhes perdoam a ousadia da competição na caça ao pouco, e agora nada,
que há para caçar; a mecanização das atividades e a poluição ambiental geral, e
dos cursos de água, em particular, que afeta sobretudo os anfíbios. Enfim, como
os humanos, com quem sempre viveram em interação conflituosa e amistosa, em
regiões como a nossa, os animais ressentem-se da falta de terrenos cultivados,
da alteração generalizada dos habitats e do despovoamento e abandono do
território.
Meramente a título de exemplo, os morcegos, que hoje são
raros, eram em tempos uma multidão que esvoaçava ágil por toda a parte, conferindo
magia e mistério ao crepúsculo. A maioria são insetívoros e parece que precisam
de milhares deles para satisfazerem a voracidade daquele corpinho pequeno e
bizarro.
Também o coelho-bravo, que era extremamente importante no
ecossistema, em virtude de estar na base da alimentação de inúmeras espécies,
se encontra praticamente extinto, por doença, caça excessiva e falta de
alimento. Neste caso, agora que a vegetação vai rejuvenescendo tenra, não seria
de dar uma ajudinha à natureza, repovoando a serra com eles? Não será possível,
através de complementos alimentares, combater as doenças que os afetam? E da
sensibilização, evitar a caça indiscriminada e excessiva? Ficam as sugestões
para o Instituto de Conservação da Natureza e para os gestores das reservas que
se veem assinaladas por aí.
No campo dos répteis, o mesmo acontece com os lagartos, que nunca
mais encontrei, possivelmente castigados por terem a mania de perseguir as
mulheres, dizia-se! A ser assim, imagino que os bichos apenas estivessem a
fugir para o lado errado!
É a alguma desta vida selvagem que aludo hoje, fazendo-o,
repito, “na esperança de que o ecossistema recupere rapidamente e as possamos
encontrar de novo por aí, a relacionarem-se connosco, entre si e com o meio
ambiente, conferindo-lhe mais vida, cor, beleza e estranheza. Também para que
nos orgulhemos da riqueza da biodiversidade que tínhamos e esperamos voltar a
ter”, dando cada um o seu melhor, enquanto cidadão ou profissional, para a
preservação e a recuperação dos habitats e dos seus ocupantes naturais. Todos
podemos ser naturalistas e bio cidadãos, contribuindo, através da ação e da
opinião informada, para legar aos vindouros um mundo tão completo quanto
possível, mais inclusivo e sustentável.
A mostra está longe de corresponder ao universo das espécies
existentes, a nível local e nacional: 104 de mamíferos, 24% ameaçadas de extinção;
30 de répteis, 32% ameaçadas; 17 de anfíbios, 19% ameaçadas. À fraca densidade
populacional e consequente dificuldade de avistamento, acrescem os hábitos
noturnos e a compreensível desconfiança dos animais, que os leva a fugir
espavoridos, mal se apercebem da nossa presença. Só se aproximam das pessoas por
necessidade imperiosa, não raro para mendigar alimento, humilhação que a
dignidade humana não deveria consentir a pessoas ou animais.
Em homenagem ao escritor, recorro a Aquilino Ribeiro (O
Romance da Raposa, Livª. Bertrand, 1961) para caraterizar parte dos mamíferos que
habitavam a região, antes da referida ocorrência: javali de ar nada cordial, policial; texugo, narigudo, barrigudo, alma de besugo, com calçotes de veludo; fuinha de gravatinha de neve e rabo em espanejador; papalva que se esconde com
a alva; raposeta, pintalegreta,
senhora de muita treta; gato-bravo,
animal ferino, mofino, ventas de pepino;
lontra que ninguém encontra; ratazanas
e ratinhos malandrinhos … Já agora, tentando imitar Aquilino, corços e
veados espevitados; saca-rabos descarados;
esquilos ladinos; ouriços-cacheiros espinheiros; toupeiras mineiras; coelhos
que desejaríamos ver velhos …
Como não posso valer-me do autor para apresentar os anfíbios
e os répteis, passo à listagem dos animais de que possuo registos partilháveis.
A pequenez da mostra reflete a escassez dos efetivos, a disparidade entre os existentes
e os avistados, e entre estes e os fotografados, dada a sua irrequietude.
Mamíferos
Raposa, o animal selvagem mais doméstico, tantas as capoeiras
que visitava, quando elas eram frágeis e as galinhas abundantes. Fuinha, bicho que
empresta o nome ao avarento, sabe-se lá porquê, uma vez que não é o único a
guardar as sobras das refeições! Texugo, que é sempre o mesmo, mas que chamam
de cão, quando está magro e porco, quando está gordo. É dessa suposta gordura
estival que vem a expressão “estar gordo que nem um texugo”. As unhas das patas
dianteiras que se mostram não são retráteis. Ouriço-cacheiro, também chamado
porco-espinho, um bichinho que apresenta a particularidade de se enrolar numa
bola de picos, talento defensivo que eu também gostaria de ter! Rato-do-campo, roedor
minúsculo, muito ágil e laborioso, cujo rabito é tão comprido como a cabeça
mais o corpo. Pode ser uma fofura ou um desastre, tudo dependendo de ter-se
instalado na comida aconchegante dos pássaros ou num guarda-fato com roupa em
desuso! Toupeira, endemismo ibérico, aveludado e roliço, que escava e
conspira oculto, desenraizando as plantas, e enraizando interesses duvidosos, como
pressupõem os processos e.toupeira! Apesar de oxigenar e limpar o solo de
presenças inúteis, é considerada uma praga difícil de combater… De todos os
pontos de vista!







Anfíbios
Sapo-comum, que não distingo das outras espécies. Rã-verde,
que vive em águas represadas, enquanto a rã-ibérica prefere as águas correntes.
Salamandra-de-pintas-amarelas, visita pachorrenta das noites frias e molhadas.
Tritão-de-ventre-laranja, habitante de águas paradas ou pouco movimentadas, e endémico
do ocidente da península ibérica. Tritão-marmoreado, que usa o mesmo tipo de
habitats e tem a barriga preta com pintas brancas.
Répteis
Lagarto-de-água, mais uma espécie endémica da parte ocidental
da península ibérica. Lagartixa-do-mato, por aqui chamada sardanisca, que confundo
com a lagartixa-ibérica. Osga-comum, que não provoca os cobrões que lhe eram
atribuídos. Cobra-de-água-de-colar ou de cachecol branco, por causa do frio, digo
eu! Cobra-de-escada ou riscada, dois exemplares, variando a cor e os desenhos
do dorso com a idade. Cobra-de-ferradura, normalmente 30/50 cm de beleza e
magreza! Licranço, também chamado escoparo e cobra-de-vidro, 15/25 cm de
cobrinha inofensiva, apesar da má fama: “se o escoparo visse e a víbora
ouvisse, não havia nada que lhes resistisse”.
Com exceção para a víbora, que não vejo há décadas, todos
estes répteis são inofensivos e úteis em termos ambientais. Até a cabeça da víbora
dava sorte à pessoa que a levasse consigo sem saber, desde que obtida em
determinadas condições e benzida por quem o soubesse fazer!
Lisete de Matos
Açor, Colmeal, novembro de 2018.