segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A DE MEDRONHO É UMA LOUCURA



Corria o ano de 1988 e a afirmação em título é do Ti Albano, aludindo às dificuldades inerentes ao fabrico artesanal da aguardente de medronho e ao seu preço. São dificuldades que persistem agravadas, como se verá neste texto de 2009, de que me lembrei há dias quando estava a fazer aguardente bagaceira. A terminar um ciclo de registo de atividades e modos de fazer que começam a rarear, com ele presto homenagem a todos os empreendedores de saberes antigos que continuam atuais, lembrando, em especial, os que me proporcionaram o fascínio da transformação mágica da massa dourada do medronho ou do cardaço tinto do vinho em aguardente transparente e perfumada: o meu pai Jaime, o meu cunhado Américo, o Amilcar e, dos que já partiram, o meu avô José Martins, a minha mãe Brancaflor, o Ti Albano e a Ti Ricardina.



A aguardente de medronho, também conhecida por “medronheira” e “medronho”, é a bebida alcoólica que resulta da destilação do medronho fermentado. O medronho, por sua vez, é o fruto do medronheiro, que por aqui se chama ervedeiro. Este é um arbusto, mas pode atingir porte arbóreo, sobretudo quando pouco já lhe cortam a folhagem como rama para o gado, e arrancam as torgas (raízes) como lenha para a fogueira. Trata-se de um arbusto muito peculiar e bonito, nomeadamente no outono, quando se apresenta deslumbrantemente vestido do branco-pérola da flor e do vermelho-vivo do fruto. Por isso também é usado como planta ornamental.




O ervedeiro é endógeno e espontâneo em algumas zonas das serras do Açor e Lousã, ocupando as encostas de que os pinheiros e os eucaliptos ainda não se apoderaram totalmente. Devido à topografia íngreme e resvaladiça do terreno, o medronho continua, como dizia o Ti Albano, “… difícil de apanhar…. A gente escorrega, entorna o balde ou o cesto, depois um gajo tem de estar a apanhar aquilo novamente. Muito trabalhoso!”


Na realidade, apanhar medronhos é hoje mais difícil e trabalhoso do que há décadas, por razões ambientais associadas ao despovoamento e ao desaparecimento dos rebanhos. Entre essas razões avultam a imersão dos medronheiros em matagais impenetráveis, a altura de muitos e os efeitos dos incêndios recorrentes, aos quais os arbustos sobrevivem, mas conservando durante anos os chamiços negros dos ramos ardidos. Lindos e sedutores por fora, vestidos de luto e agressivos por dentro!


Para “fundir” em quantidade e a aguardente ter boa graduação e sabor, o medronho deve ser apanhado o mais maduro possível, mas não tão maduro que se desfaça entre os dedos ou na abada bojuda da apanhadora! Poderá ainda não estar vermelho, mas tem de estar pelo menos amarelo. Uma vez que os medronhos não amadurecem todos ao mesmo tempo, a exigência de maturação faz com que a apanha seja progressiva, tendo de se voltar várias vezes ao mesmo sítio. Por experiência própria se pode dizer que é possível apanhar medronhos num mesmo arbusto ao longo de dois meses, só se parando quando eles caem de maduros ou o gelo do inverno os coze. Acresce que podem ser frutos muito enganadores, parecendo completamente amarelos à distância, mas só o estando do lado do sol! Uma desilusão, depois do esforço de chegar até eles, vencendo a resistência da vegetação circundante, resvalando, protegendo o conteúdo precioso do balde!


Estando em questão a produção para consumo próprio, o medronho é fermentado nas antigas dornas em madeira ou nas modernas em plástico. Se servem para fazer o vinho, também têm de servir para fazer a aguardente! Aos frutos junta-se alguma água, “se não a massa é rõe de mexer e os medronhos podem aquecer.” A massa é mexida frequentemente, para curtir sem azedar, e a aguardente não sair azarguada (avinagrada). Mas também há quem não a mexa, deixando-a criar uma crosta, que serve de tampa e é inutilizada quando do fabrico. A massa fermenta dois a três meses. “Quanto mais tempo ficar a fermentar, mais dá”. Além disso, “se a aguardente for feita antes de o medronho estar curtido, sabe a verde, não é tão saborosa.” Costumando ser feita em fevereiro ou março, antigamente chegava a fazer-se em janeiro e dezembro, de modo a aproveitar a licença de um ano para fazer a aguardente de dois. Bem que a necessidade aguçava o engenho!

Esquecendo aqui as alquitarras, que são excelentes para fazer bagaceira, mas não medronheira, os alambiques permanecem idênticos, continuando a panela ou caldeira incrustada numa parede, com o fundo dentro da fornalha. Apenas o recipiente com água fria, que o tubo de arrefecimento atravessa, tende para ser em cimento, quando antes era em madeira. Lembro-me de um que era uma grande gamela retangular. Em geral, os alambiques encontram-se instalados nos pátios ou telheiros, onde também se situava o forno. Atualmente, quem faz aguardente possui alambique. Antes, porém, não existindo na região a tradição do alambique comunitário, como não existia a do forno, as famílias que o não possuíam recorriam ao de um vizinho, pagando poia. No Açor, onde os alambiques são relativamente pequenos (60, 80, 120 l), a poia era de 1 litro de aguardente por alambicada. Também era costume deixar a cinza da fornalha como adubo para a terra. Nada se perdendo, tudo se transformando …



No fabrico da medronheira, não se pode encher muito a panela, porque a massa tem de ser mexida até ferver, para não se agarrar ao fundo. Se a massa estiver muito espessa, acrescenta-se água até o pau de a mexer tombar ligeiramente para o lado, quando deixado em pé, solto, no meio dela. Depois de a massa ferver, fecha-se a panela, colocando-lhe a cabeça, e vedando a junção com barro ou farinha de trigo amassada. Para saber se já se pode colocar a cabeça, aproxima-se da boca da panela uma carqueja a arder ou um fósforo aceso: se o vapor se incendiar, a panela pode ser fechada.



O lume tem de ser mantido constante e brando, para a destilação se processar lentamente, e a aguardente correr em fio, durante horas, pelo arame que pende do tubo, a fazer de bica. Antigamente, havia quem usasse uma caruma como bica. Se o lume ficar muito forte, corre-se o risco de o alambique vomitar, isto é, de a massa lhe subir à cabeça (literalmente!), sujando-a, bem como ao tubo de arrefecimento e à aguardente já produzida. Imagine-se a estragação e o trabalho, com a operação de desmontar, lavar e montar tudo de novo!

Para a necessária lentidão do processo contribuem o arder comedido das torgas de urze, o monte delas à entrada da fornalha a fazer de porta, o carvoiço (carvão miúdo misturado com cinza) que se vai lançando sobre o lume para o abafar e amortecer. Mas não adormecer, situação em que é preciso espevitá-lo com a forquilha! Tudo assim minucioso e preciso, exigindo sensibilidade, saber e muita experiência! Nas terras ou situações em que as fornalhas têm porta, é possível que o processo se torne mais simples, dispensando a presença humana permanente e atenta.


A qualidade e a quantidade de aguardente que cada alambicada dá dependem da maturidade dos frutos e da respetiva fermentação, da adequação do processo de fabrico e da capacidade do próprio alambique. Mantendo um teor alcoólico razoável, a produção média situar-se-á entre os 7 e os 11%. Para medir a graduação, recorre-se ao pesa-aguardente ou à simples observação das contas (bolhinhas) que a aguardente faz ao cair no copo que, para esse efeito, está dentro do funil.


Quando a graduação baixa, deixando o líquido produzido de fazer contas, e tornando-se azulado, já não presta, é o que se chama malafaia. Quem não sabe provar por não ser apreciador, pode fazer o teste de atirar com líquido para a entrada da fornalha: se a chama vier lamber o derrame, continua a ser aguardente, se não, já é malafaia. Chegam a tirar-se  litros dela, que se misturam na massa da alambicada seguinte. Também há quem misture alguma na aguardente, desse modo aumentando a quantidade, mas diminuindo a qualidade. Pouco ardente, a água(rdente) tem muitas vantagens, claro! Poderá é não servir para adormecer a dor de dentes adormecendo o dorido ou para fazer como alguém que dizia, enquanto o meu avô lhe tratava uma perna ferida: “Uuuuii, ti Zé Martins! A velhaca arde mesmo! Deixe-ma mas é beber, que ela lá vai ter por dentro!”

Finalmente, descarrega-se o alambique, lavam-se as peças, recomeça-se …


Uma loucura! Mas uma loucura saudável para quem apanha o medronho, e aprazível para quem gosta de saborear a medronheira à conversa com os amigos ou de a produzir impregnando-a de si. Em 1988, a medronheira vendia-se a 400$00 o litro. Hoje, uma valorização de 500% seria insuficiente para reconhecer o esforço e o saber que incorpora, a sua genuinidade e singularidade.


Lisete de Matos: Texto e fotos, com exceção para uma.

Açor, Colmeal, dezembro de 2009; outubro de 2013.

3 comentários:

António Santos disse...

Excelente trabalho este. Aliás, como todos aqueles que a autora nos tem proporcionado. É bom que existam estes registos para memória futura. Parabéns pela sua dedicação. E também à homenagem que presta a quem, infelizmente, já partiu.

Abel Neves disse...

Gostei de ver este artigo sobre os alambiques, bem como o Amigo Amilcar na árdua tarefa da produção da aguardente.- Parabéns à sua autora por este artigo que bem retrata o árduo trabalho, cheio de saber e de experiencias ancestrais, para que nada se perca no tempo e chegue às gerações novas.
Boas Festas para todos os Amigos da
União.
Abel Neves

Anónimo disse...

Parabéns por mais este excelente trabalho de recolha e divulgação do nosso património.
É notável o cuidado tido no rigor dos temas que divulga, a par da simplicidade do registo de expressões utilizadas, tal como eram ditas, tal como as recordo ouvir, mas de que desconhecia o significado.
Li algures que a riqueza não se devia medir pelo que se tem mas pelo que se partilha. Nesse sentido, a Dra. Lizete é uma pessoa de uma enorme riqueza - bem haja!

Deonilde Almeida (colmeal)