terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

NEVE, UMA RARIDADE DESEJADA


Às oito horas já nevava. Farrapos miúdos e leves de algodão frio desprendiam-se do céu cinzento, caindo suave sobre a terra e a serra agradecidas. De acordo com a sabedoria popular, a neve é útil para nutrir o solo e as nascentes, bem como para destruir as pragas adormecidas.



Mais tarde, o caudal de brancura engrossou, e tudo ficou envolto num manto esfumado de frescura esvoaçante.


Quando alguns aproveitaram para desfrutar da frieza e da macieza daquela raridade desejada, pareciam figuras de uma tela impressionista.





Enquanto esperava por companhia, o cão deslumbrava-se de olhos fechados, e os passaritos, indiferentes ao frio e à beleza do fenómeno, procuravam alimento. Bem que eles chilreavam cedo, a anunciar a neve que se diz anteciparem quando, no inverno, até os mais ariscos se aproximam das casas.




Mais por causa da chuva do que do sol, foi neve de pouca dura. Ao longe, a crista da serra espreitava tímida, a pelidar por mais. Como as pessoas!



Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 11 Fev. 2013


3 comentários:

Anónimo disse...

São imagens de uma rara sensibilidade... e o texto, poético, toca-nos fundo e faz-nos sentir testemunhas daquele momento mágico.
Bem-haja, Drª Lisete!
Deonilde Almeida

António Santos disse...

Texto simples recheado de poesia como se refere no comentário anterior e polvilhado de belos pormenores fotográficos.
Nesses registos capta Lisete de Matos os que consigo resistem na sua aldeia. As pessoas, o fiel amigo e os passaritos, já tão acostumados à sua generosidade diária.
É muito bom ainda termos quem vá registando estes momentos de frio, ternura, resistência e beleza.
Obrigado Lisete pelo seu excelente contributo. Os registos ficam.

Paula Ramos disse...

Obrigada Lisete pelas imagens de rara beleza que os seus olhos mas também a sua aguda sensibilidade captaram.Afinal, a admirável criação divina não se espelha apenas nas páginas de revista ou nas paisagens longínquas com que sonha o nosso imaginário;está aí na nossa "serra"e, por isso também nos nossos corações.
Parabéns pela qualidade das fotos a que, aliás, já nos habituou!