14 outubro 2021

Férias no Colmeal

 

Ao longo do tempo, tenho procurado divulgar e enaltecer os talentos criativos dos colmealenses, mas acredito que muitos permaneçam ocultos, por discrição ou desvalorização dos seus detentores. Partilhá-los, porém, contribuiria para o enriquecimento do património cultural da freguesia, e para a visibilidade de grupos populacionais menos favorecidos, em matéria de reconhecimento social e interesse científico.

Neste processo, observável no blogue ou na reedição do artigo de Fernando Costa “A Verdade e a Lenda de António d’Almeida Freire – Cirurgião” (Ass. Amigos do Açor, 2008), tenho deparado com autênticas surpresas e tesouros, nomeadamente no campo da escrita. Foi o que agora se verificou, ao folhear com cuidado uns lençóis amarelecidos do Jornal de Arganil, cujo desgaste resulta do tempo e das dobras que o reduziam, para caber na caixa do correio dos assinantes, na diáspora. Como à Comarca de Arganil e, progressivamente, a outros media locais e regionais, o semanário era esperado com expetativa e lido de fio a pavio, funcionando como elo de ligação às origens. Para muitos, os jornais configuravam, ainda, o principal material de leitura e contexto de escrita, visível nas notícias que se percebe emanarem de uma vasta e ativa rede de correspondentes locais.




Descrito o suporte, voltemos à surpresa em si própria. É constituída pela crónica de umas “Férias no Colmeal”, publicada em quatro partes, no último trimestre de 1959. Trata-se do trabalho de um jovem lisboeta de dezasseis anos, que foi estimulado a escrever pelo pai. É uma peça muito interessante, tanto do ponto de vista do conteúdo, como da forma. Nela, o cronista narra as suas férias no verão daquele ano, começando pela viagem de Lisboa para o Colmeal e terminando com a de regresso. Entretanto, passeia pela povoação e arredores, refresca-se no rio, participa em desfolhadas e festas, farta-se de dançar. Grande bailarino era o nosso cronista! E andarilho, dando razão aos que assinalam as jornadas a pé pelos caminhos ínvios da serra, como um dos temas favoritos dos naturais e oriundos da região. O estilo é surpreendentemente maduro para a idade, permitindo-nos, por um lado, visualizar as situações que descreve, por outro, sentir a emoção às mesmas inerente. Encantaram-me a descrição dos ambientes, as metáforas, a graça de algumas alusões, um ou outro recurso próprio da época ou da idade.



Enquanto documento autêntico e testemunho de uma época, “Férias no Colmeal” é um artigo de leitura imprescindível para quem queira recordar ou conhecer a aventura das viagens naqueles tempos de vai e vem anual atribulado entre a aldeia e a cidade ou o inverso, a perspetiva face à aldeia de um jovem da segunda geração, a entreajuda nas colheitas, as festas dos santos padroeiros, que representavam o expoente máximo do divertimento possível. Subjazem as inacessibilidades e o isolamento e, apesar deles, a coesão social e territorial, que promovia os intercâmbios festivos entre localidades da freguesia e outras.

Com agradecimentos ao saudoso Jornal de Arganil, segue-se o texto. Orgulhosos ficarão, também, os nossos ausentes sempre presentes.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 5 de outubro de 2021.

 

“Acabaram-se as aulas! Passou mais um ano letivo cheio de trabalho e de canseiras e as férias tão desejadas chegaram finalmente.

Estáva-se em meados do mês de junho e portanto com três meses e meio de férias à minha frente, para poder descansar e preparar-me para o novo ano que começou há poucos dias.

Antes de ir gozar as minhas férias àquela aldeia tão querida, escondida ao fundo dum vale, entre montes cobertos de árvores que dão um aspeto agradável e acolhedor à região, passei uns infindáveis quarenta e cinco dias tristes e monótonos, na cidade, com o seu barulho tão característico, a que já todos estamos acostumados e sem o qual nos parece impossível viver.

Os dias passavam, mas tão lentamente que pareciam anos, até que por fim as últimas folhas do calendário do mês de julho tombaram para sempre e surgiu o primeiro dia de agosto, um sábado radioso de sol, parecendo convidar-nos a abandonar a cidade e a procurarmos o ar puro dos campos

Então começou a azáfama do arrumar das malas, com grande alegria para mim, pois era sinal de que a viagem estava próxima. O dia ia quase ao fim, mas a hora de abalarmos nunca mais chegava.

Fomos finalmente para a estação. Digo, fomos, porque não ia só eu. Os meus pais também iam comigo. A muito custo conseguimos subir para o comboio com a nossa bagagem, que não era pouca e lá nos instalámos. Nem nos podíamos mexer, tal era a avalanche, não só de pessoas, como de malas, cestos, cabazes, etc.

E o comboio começou a deslizar, a princípio lentamente mas depois “a toda a mecha”, como se costuma dizer. A boa disposição reinava entre todos e a aragem fresca da noite, ao entrar pelas janelas abertas, mantinha a carruagem numa temperatura amena. À medida que o comboio devorava quilómetros e o tempo passava, o sono começou a invadir-nos. Fomos então obrigados a utilizar como “Wagon-Lit” aqueles macios e confortáveis bancos de madeira de terceira classe. Mesmo assim, com este conforto todo, dormitámos qualquer coisa.

A viagem decorreu da melhor maneira, quase rápida e às duas e meia já estávamos em Coimbra, a cidade universitária. Mostrava-se-nos toda iluminada, dando-nos uma ideia, mais ou menos, do que é, se a observarmos de dia. Os seus jardins, as suas casas antigas, o Choupal, a Sé Velha, e muitas outras coisas que a tornam bela, sem esquecer o Mondego, as tricanas e os estudantes com as suas serenatas.

Depois de longa espera, o comboio recomeçou a sua marcha, mais lenta, agora, do que fora até aqui.

As estrelas iam desaparecendo no céu, uma espessa neblina cobria os campos e os montes e o frio da manhã, que se fazia sentir, obrigou-nos a vestir alguns agasalhos. Já se podiam observar melhor aqueles campos à beira da linha. Vinhas aqui, árvores de fruto ali, milharais e hortas viçosas acolá, davam um aspeto bonito à região, que já de si é bela.

Às seis e pouco chegávamos à Louzã, onde estava um automóvel à nossa espera, para nos conduzir às proximidades do Colmeal.

Agora os assentos já eram mais confortáveis que os do comboio e fomos melhor instalados. O automóvel seguia pelo meio do arvoredo, enquanto nós, ora olhando para um lado, ora para o outro, não perdíamos aquelas paisagens, tão dignas de serem apreciadas.

Víamos casinhas alvas como a neve sobressaírem da verdura dos campos, dos vergéis próximos, dos campos de cultura; enfim, de todos os lados se viam casas, a dar uma nota de vida e alegria, em contraste com solidão dos montes. À beira da estrada viam-se apesar da hora matutina, os camponeses cuidando uns das suas terras e outros dos animais.

A paisagem é idêntica em todo o percurso. Como no comboio pouco dormira, aproveitei a comodidade do automóvel e … só acordei passada a Catraia do Rolão já na estrada que nos ligará, em breve, à nossa aldeia tão querida e à vista da aldeia do Carvalhal, aglomerado de casas onde àquela hora se elevavam umas colunas de fumo, a indicar que o café se estava a fazer e…, a tomar, é claro.

Aldeia Velha fica-nos ainda mais acima, e já víamos o Soito, com a sua eira verdejante e o Colmeal lá ao fundo, com o rio Ceira a beijar-lhes os pés.

Entretanto o automóvel parava indicando o términus, não da viagem, mas da etapa. Agora, a última etapa era mais difícil, pois tinha de ser feita a pé.

Ultrapassámos o Rossaio e daí a instantes estávamos à Ponte a olhar as águas límpidas do rio, onde eu iria tomar umas banhocas.

O Colmeal estaria à vista dentro de momentos.

O cemitério, onde repousam os restos dos nossos antepassados e a Igreja, que dentro de meses entrará na casa dos quatrocentos anos de existência, foram os primeiros sinais da aldeia a mais uns passos andados …

… Já eu estava no largo da Fonte.

Eram umas nove horas. Pouca gente se via; decerto tinham ido à missa dominical, que àquela hora se estava a celebrar; mas depois o largo começou a animar-se com os que iam chegando, ora dum lado, ora doutro.

Entretanto, eu ia tomar o pequeno almoço. Só à tarde é que vim até à “baixa”, onde alguns rapazes se entretinham a jogar o fito.

O meu primeiro dia no Colmeal estava quase no fim. A sombra cobria tudo com o seu manto e o sol já há muito se tinha escondido por detrás das cercanias distantes.

Ao outro dia, ainda fatigado da viagem, comecei com a minha série de passeios, que se prolongaram quase até ao fim do dia do regresso e que apenas foram interrompidos pelas chuvas arreliadoras, que por vezes caiam do céu cinzento, cor de chumbo.

Da parte da manhã ia para as Seladas, para aquele sítio maravilhoso no meio do espesso arvoredo, com a capelinha do Senhor da Amargura, onde nós vamos, por vezes, fazer as nossas preces. Passeava por entre os pinheiros, jogava à bola no terreiro fronteiro à capela, lia um romance ou fazia jogos com uns primos que geralmente me acompanhavam, para onde quer que eu fosse. À hora do almoço vínhamos para casa, porque era … horas de almoçar.

Da parte da tarde, íamos umas vezes para o rio, ou então passeávamos pelos mais diversos lugares, desde a Cortada, lá no fundo junto ao Ceira, até aos pinhais que circundavam o Ribeiro.

Fomos algumas vezes ao rio, onde tomávamos as nossas banhocas, naqueles dias de muito calor. Nem apetecia sair da água. Era tão agradável estar debaixo das bicas, à Ponte, com a água a cair, límpida e cristalina, sobre as nossas costas … Depois comíamos o lanche que sempre levávamos, pois sabíamos que a água nos abria o apetite.

Um dia, de passeio, fomos até aos Cavões. Depois de colher e saborearmos alguns frutos, viemos para a Cortada, onde nos demorámos até à hora do almoço, a pescar. Éramos três, os pescadores, e fizemos uma grande pescaria; nós somos bons! ...

Ao outro dia era a festa da Malhada e nós não pudemos faltar. Levantámo-nos cedo para irmos pela fresca e percorremos o caminho que separava as duas povoações, sem nos custar nada. Caminhávamos alegremente, pois “íamos para a festa”.

A princípio estava fresco, mas à medida que o sol subia no horizonte, o calor começou a apoquentar-nos.

Os foguetes, estralejando no ar e o desusado movimento nas ruas enfeitadas, davam a indicação de que a aldeia estava em festa.

Subimos até à capelinha de Nossa Senhora de Fátima, onde assistimos às cerimónias religiosas e donde pudemos estender os nossos olhos pelos montes distantes, com povoações e estradas por aqui e por ali.

O baile começava daí a pouco e nós lá fomos, como não podia deixar de ser, dar umas voltinhas. As pernas principiaram-nos a doer mas já o dia ia quase no fim. Assistimos ao fogo de artifício e depois viemos todos embora em cima de uma camioneta até ao Rossaio. Fazia frio, tal como acontecera de manhã. Quando chegámos a casa, cada um caía para seu lado, pois “vínhamos da festa”.

Alguns dias mais tarde, eles vieram-se embora e eu …

… Lá fiquei sozinho.

Sozinho, é como quem diz, sem companheiros para os meus passeios; mas eles não tardaram muito, pois a festa ia-se aproximando e quase todos os dias chegavam ao Rossaio automóveis com colmealenses que iam visitar a sua terra natal.

Quinze dias iam passados desde a minha chegada. Quando, por semana, não tinha nada para fazer, ia até junto dos pedreiros que trabalhavam na ampliação do largo, passar uns momentos de distração a vê-los trabalhar. (é mais agradável ver do que trabalhar) e eles ao verem-me já diziam – “Lá vem mais um engenheiro”.

Aos domingos, da parte da tarde, havia bailarico e então passava um bocado bastante animado. Começávamos o baile cerca das quatro horas e só parávamos depois da meia noite, quando as pernas já não podiam mais. Com a ida dos lisboetas, os bailes tornaram-se mais animados. A mocidade d’outros tempos parecia querer rivalizar com a de agora e diga-se a verdade, eram muito mais alegres e sabiam divertir-se muito melhor do que os de hoje.

Um domingo os “veteranos” fizeram um baile e foi sem dúvida o melhor de quantos lá vi. Pulavam e cantavam como se fossem vinte anos mais novos. As suas danças eram muito diferentes das de hoje. O verde-gaio marcado, o ladrão, o vira balsado, e outras que só eles sabem dançar levavam a palma comparadas com as de agora.

Os dias passavam. A festa dos Cepos chegou por fim. Eu e mais uns rapazes e raparigas combinámos ir e não faltámos. Chegámos àquela aldeia por volta das nove horas e fomos assistir à cerimónia religiosa, depois da qual viemos comer qualquer coisa, pois a caminhada abrira-nos o apetite. Um passeio pela aldeia serviu para fazer horas para o almoço. A seguir a este, fomos para o largo onde estavam a leiloar as fogaças. Findas estas, iniciou-se o baile, o qual só terminou quando viemos embora às duas da madrugada. Ao som dos discos toda a tarde bailámos e regressámos ainda com vontade de ficar. Pelo caminho, mesmo às escuras e aos tropeções, sempre cantámos e descansando aqui e ali chegámos ao Colmeal quase às quatro horas.

Uma semana depois era a nossa festa.

Ainda não rompera a manhã, a alvorada fez-se ouvir com os seus vinte e um tiros e daí em diante os foguetes e os morteiros não mais deixaram de estalar. O dia apresentava-se-nos enevoado com o céu bastante cinzento. O autocarro com a música que abrilhantaria a festa chegava daí a pouco à ”estação” (Rossaio). Em seguida dirigimo-nos a caminho da Ponte, onde recebemos a “Filarmónica Lousanense”, que depois acompanhámos na sua volta à povoação, como que a cumprimentar todos os colmealenses.

A procissão a caminho das Seladas fazia-se mais tarde e com o Senhor d’Amargura voltámos à igreja. Entretanto começava a chover e com a chuva chegava também um numeroso grupo de cepenses, que veio dar uma grande animação, principalmente ao baile, pois traziam toda a espécie de instrumentos.

Enquanto se celebrou a missa e pregou o sermão, sempre choveu, mas depois estiou. Foi só para apagar o pó dos caminhos e o sol mesmo a custo apareceu por entre as nuvens pesadas. A seguir ao sermão reorganizou-se a procissão, agora acrescida com os santos existentes naquela igreja. Com o guião vermelho à frente dirigimo-nos outra vez p’rás Seladas onde ficou o Senhor d’Amargura. Regressámos à igreja e depois a nossas casas onde o almoço nos esperava.

O relógio da torre já tinha dado as quatro horas quando fui até ao largo da Fonte. Este encontrava-se completamente cheio de pessoas que naquele momento dançavam o fado ao som das guitarras, das concertinas e das violas. O baile esteve sempre muito animado e prolongou-se até às cinco horas da manhã, quando já rompia a aurora.

Ao outro dia só para nos contrariar, sempre choveu. E o baile que estava destinado fazer-se …

… Não se fez.

O tempo estava incerto. Nunca se sabia se chovia ou se fazia sol. Logo num dos primeiros dias de setembro caiu uma grande tromba de água sobre a serra da Louzã, a qual fez subir o nível das águas do rio e estas, que até aqui tinham estado sempre límpidas, tomaram uma cor barrenta, cancelando assim os banhos que habitualmente lá ia tomar. Os colmealenses, entretanto, começavam a abandonar a sua terra e a regressar à capital, pensando já no verão de mil novecentos e sessenta, altura em que a igreja comemorará o seu 4º centenário.

Os dias, agora mais pequenos, passavam mais rapidamente.

O tempo das debulhas e das esfolhadas aproximava-se. As terras de milho já tinham perdido a sua cor esverdeada e apresentavam-se agora com uma cor dourada, onde por vezes se viam pequenos grupos de raparigas a colher as espigas.

Nas esfolhadas e nas debulhas juntava-se a mocidade da aldeia e então passavam-se uns momentos bastante animados; mas um dia ia acontecendo precisamente o contrário.

O milho tinha-se apanhado da parte da tarde e a esfolhada combinou-se para essa noite. Tinha-se falado à rapaziada nova e esta não faltara. Um pouco depois de todos já estarmos instalados, sentiu-se o soalho dar um estalido. Ficou tudo alarmado; o peso era muito, a casa era velha e o sobrado também e este não estava escorado.

Verificou-se, então, que três caibros se tinham partido. Passado o pior e depois deste ser escorado voltámos outra vez ao trabalho, o qual se prolongou ainda por algum tempo.

Depois, as chuvas outonais vieram interromper estes momentos de boa disposição, pois não havendo sol o milho não se podia secar.

A primeira quinzena do mês de setembro passara e o dia do regresso ia-se aproximando, com grande tristeza para mim, pois via as minhas férias acabadas.

O derradeiro dia chegou finalmente. Eram umas quatro horas quando eu comecei a fazer as despedidas e a abandonar a aldeia.

Quando embarcámos no Rossaio, eu ao olhar para trás, senti as saudades de deixar aquela aldeia hospitaleira, mas tinha que ser, pois as obrigações assim mo determinavam.

O carro pôs-se em andamento e às sete horas chegámos à Louzã, onde três horas depois tomámos o comboio que nos conduziria a Coimbra. Ainda não era meia noite já nós lá estávamos, mas apenas às quatro da madrugada, depois de muito esperar, conseguimos apanhar lugar no último comboio com destino à capital.

Outra vez a cidade com o seu bulício. Que diferença! … agora que eu vinha tão habituado ao sossego da aldeia, da aldeia que trazia no coração.

Adeus Colmeal! Até à vista. P’ró ano lá estarei a fazer-te mais uma visita.

A.S. “

 ____________________

[1] A. S.: in: Jornal de Arganil, ano 34º, 1 686, 15 de outubro de 1959; 1 687, 22 de outubro de 1959; 1 688, 29 de outubro de 1959; 1 689, 5 de novembro de 1959.


11 outubro 2021

COLMEAL - UNIÃO PROGRESSIVA



ASSEMBLEIA-GERAL

A União Progressiva da Freguesia do Colmeal completou em 20 de Setembro último noventa anos ao serviço do Regionalismo. Todos sabemos e temos consciência que nem sempre foi fácil o caminho percorrido nessas nove décadas.

Éramos a mais antiga associação regionalista da ex freguesia. Somos a mais antiga da actual união de freguesias. Temos um passado que nos honra.

A situação de pandemia que ainda vivemos inviabilizou neste último mandato, muitas das actividades que haviam sido programadas.

Vamos realizar a nossa Assembleia-Geral, em sessão ordinária, no próximo dia 23 de Outubro, pelas 15 horas, na Casa do Concelho de Góis.

Constam na Ordem de Trabalhos os seguintes pontos: Discussão e votação do Relatório e Contas da Direcção dos anos de 2019 e 2020 e do Parecer do Conselho Fiscal; eleição dos Corpos Gerentes para os anos de 2021 e 2022; discussão de qualquer assunto de caracter regionalista.  

Não havendo o número mínimo de sócios para a Assembleia funcionar em primeira convocação, poderá começar uma hora depois, com qualquer número.

Recordamos que na Assembleia-Geral reside toda a soberania de uma colectividade.

É muito importante para qualquer associação regionalista a presença dos seus sócios.

 

MAGUSTO

De há muitos anos a esta parte, tem a União Progressiva vindo a assumir a realização do já tradicional magusto.

A pandemia com que fomos surpreendidos, no ano passado, inviabilizou este nosso salutar convívio. Apesar de no momento presente a situação indiciar alguma esperança de melhoria, com uma elevada percentagem de pessoas vacinadas, a prudência e o bom senso levaram a Direcção em consonância com a sua Delegação no Colmeal, a decidir pela não realização do magusto, no próximo mês de Novembro.

A concentração de muitas pessoas e por vezes a não observância, mesmo involuntária, dos cuidados essenciais por parte de alguns poderia levar ao aparecimento de novos casos, que, obviamente, a todos preocupariam.

Confiamos que no próximo ano possamos entrar na normalidade.

Contamos com a sua melhor compreensão.

 

A. Domingos Santos

Presidente da Direcção

Lisboa, 10Out 2021


28 setembro 2021

“Histórias de vida da nossa gente”


Francisco Domingos, “O Mouraria”


Estamos em 1910. Em abril, nasce no Colmeal o terceiro filho de Benjamim Domingos e de Maria Olinda.  Será batizado com o nome de Francisco[1].

Estava-se ainda em monarquia e, por essa altura, as grandes cidades, sobretudo Lisboa, capital do reino, vivem dias agitados, de revolta iminente. Dois anos antes, em 1908, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro do trono, D. Luis Filipe, tinham sido assassinados – o governo de ditadura de João Franco, com o apoio régio, tinha reforçado a consciência popular de que era preciso mudar. E mudou!

Lá para o final do ano, a 5 de outubro de 1910, as forças republicanas vencem finalmente os que se mantêm fiéis ao jovem rei, D. Manuel II, que parte para o exílio. Em Lisboa, é anunciado à população o fim da monarquia e a implantação de um novo regime – a República – recebida com grande euforia e expectativa de mudança[2].



A Constituição aprovada em 21 de Agosto de 1911[3], garantia direitos inacreditáveis, ou mesmo incompreensíveis para o cidadão comum…

…Que a Lei passaria a ser igual para todos; que a República não admitia privilégios de nascimento nem foros de nobreza; que cada um poderia praticar livremente a sua religião; que o ensino primário passaria a ser obrigatório e gratuito; que as pessoas poderiam reunir-se ou organizar-se livremente em Associações e expressar a sua opinião; que os cidadãos não poderiam ser sujeitos a castigos físicos e humilhantes; que ninguém poderia ser preso sem culpa formada… e tantos mais!

O poder, deixaria de ser transmitido de pais para filhos!   Com este novo regime, os governantes seriam escolhidos pelos eleitores, através do voto. Eram tantas as expectativas… Agora, a Nação poderia desenvolver-se!

Entretanto, o Colmeal, no seu isolamento e distância, segue ao ritmo das sementeiras e das colheitas, numa economia pobre, de subsistência, ano após ano… – ali não se esperava desenvolvimento, ali não havia futuro!

Sair… para Lisboa ou para o estrangeiro, era o sonho daqueles que se recusavam a perpetuar uma luta inglória, que já tinha sido a de seus pais e avós.

Sair… e procurar longe o que lhes negava a terra onde nasceram e onde queriam descansar na velhice.

Sair… em busca de um futuro melhor, para os seus filhos.

No verão de 1916, saíram muitos rapazes, mas não como sonhavam.  Foram mobilizados para o Serviço Militar Obrigatório – Portugal entrava na 1ª Grande Guerra. Perante as senhas de racionamento de alimentos e outros bens de primeira necessidade, esfumou-se o sonho de progresso. Os tempos eram de pesadelo, não de sonho.

No Colmeal, as privações geradas pelo racionamento foram especialmente duras, pois o que se arrancava à terra já mal dava para alimentar a família.




Francisco Domingos, por essa altura, era ainda criança, quase em idade escolar. No Colmeal frequentou a escola primária. Terá tido o privilégio de ter, como professor, António Joaquim das Neves, colmealense que, no final da carreira, foi homenageado pelos seus alunos de Sintra? Era um homem de sólidos valores humanistas e republicano convicto, cujo caráter decerto inspirou os seus alunos [4].

Fernando Costa diz que Francisco “foi para a capital ainda moço”[5]. Que sonho teria, quando partiu ainda jovem para Lisboa?




Acolhido em casa de conterrâneos, viveu na Rua João do Outeiro. Depois, na Rua do Capelão, aqui sob a asa protetora da sua tia Maria Inocência, “Mulher da Fava-Rica”[6]. Era uma família alargada, como era hábito na época, entre a comunidade migrante de colmealenses sob o mesmo teto, viviam várias gerações e ramos familiares.  Passado algum tempo, mudaram para um 3º andar da Rua do Benformoso. Sempre no bairro popular lisboeta que lhe daria a alcunha – Francisco Domingos «O Mouraria».  

Em 1931, era já numerosa “A colónia colmealense em Lisboa”, referida no artigo publicado n’A Comarca de Arganil, em Agosto desse ano.


Fonte de imagem: Arquivo da UPFC



As “Comissões de melhoramentos” davam os primeiros, tímidos, passos e dois homens humildes – Abel Joaquim de Oliveira e o seu amigo José Antunes André – lançaram aos conterrâneos o desafio de se criar uma “Comissão” para a sua freguesia – nascia a UPFC-União Progressiva da Freguesia do Colmeal. Num verdadeiro espírito democrático, “nessa Comissão entrará um natural de cada povoação”.

Era “Gente humilde, de pouca cultura, mas imbuídos de um espírito lutador e de uma vontade indomável, que ao longo dos anos tudo fizeram para trazer para as nossas aldeias os sinais de desenvolvimento que viam por outras paragens”[7]

Nunca é demais recordar que, ao empenho destes homens, “se ficaram a dever as estradas por onde circulamos, a água que consumimos, os lavadouros que tanto facilitaram a vida às mulheres, a eletricidade, o telefone e muitas pontes e pontões que encurtavam distâncias e aproximavam as pessoas”, como refere Lisete Matos[8]

Francisco Domingos, com 21 anos, foi um dos seus fundadores. Porém quando, um ano depois, em 1932, “A Comarca de Arganil” noticiava que a UPFC comemorava o seu 1º aniversário e os membros dos corpos gerentes e sócios que participaram no almoço comemorativo, são solenemente fotografados, para a posteridade, Francisco Domingos não está presente. Andaria o seu espírito ocupado já com outras lutas?




Fonte de imagem: Arquivo da UPFC

Viviam-se, de novo, tempos muito conturbados. O Golpe de Estado de 1926 pusera fim à 1ª República. Salazar chegara ao poder e governava em regime de ditadura. Novamente a ditadura!



Deixou de haver liberdade de expressão do pensamento. Todas as publicações passaram a ser inspecionadas pela Censura e, qualquer notícia que, apesar de verdadeira, pudesse dar uma imagem menos elogiosa do país ou do governo, era riscada e proibida a sua publicação. O seu autor, corria ainda sério risco de passar a ser vigiado pela Polícia Política. Todas as publicações tinham de exibir a menção de terem sido aprovadas por aquela Comissão.

É que, recorda Fernando Costa, “As ditaduras de esquerda ou de direita têm sempre algo em comum: eliminam as liberdades públicas. (…) Igualmente não se desenvolve a cultura, pois quanto mais atrasado for um povo mais fácil se torna dominá-lo.” [9]

A Polícia Política fomentava a denúncia, semeando a desconfiança entre amigos, entre familiares. Uma brincadeira, uma anedota contada em “conversa de café”, podia terminar numa esquadra, “para averiguações”, que podiam prolongar-se por muitos meses ou mesmo anos, sem julgamento.

As revoltas sucediam-se, com elevado número de mortos, feridos, presos e deportados para Angola ou para uma das prisões privativas da polícia política: Aljube e Caxias em Lisboa, os fortes de Peniche e de Angra do Heroísmo, e, mais tarde (1936) a “Colónia Penal” do Tarrafal, em Cabo Verde.

Assim, se era proibido publicar opinião diferente, ou informar e esclarecer a população, a forma encontrada de o fazer foi através de folhas soltas, impressas – os panfletos – que se distribuíam às escondidas, clandestinamente, com grande risco para quem os escrevia, imprimia e distribuía.

Talvez a família não soubesse que “Francisco Domingos era, clandestinamente, distribuidor de panfletos políticos. Estes eram escondidos no fundo falso de um banco de cozinha, já antes da sua distribuição, já após, os que sobravam.” [10] Mesmo que alguém soubesse, calava! Nunca se sabia quem estava à escuta…

António Domingos Santos, lembra-se de ter ouvido, em criança, sua mãe contar que «… uma vez, entraram aqui uns homens, gritaram para ficarmos quietos e andaram à procura de uns papeis que achavam estar escondidos cá em casa…».

Desconhece-se quando, onde ou com quem adquiriu consciência política. Talvez nos tempos em que foi operário na Carris… o certo é que, em 2 de fevereiro de 1935, ainda não tinha completado os 24 anos, foi detido, pela primeira vez, pela PVDE[11].

O ano seguinte foi passado entre a cadeia do Aljube, a Fortaleza de Peniche e novamente o Aljube. Por essa altura, o Aljube aprimorava, com “requinte”, as condições de alojamento dos detidos – eram os tristemente famosos “curros”, celas de solitária, praticamente sem luz, com pouco mais de 1,20m por 2,20m. Um catre basculante servia de cama – quando descido, não sobrava espaço –, coberto com uma serapilheira e duas mantas.

Para esta prisão eram enviados os detidos “sem culpa formada”, sendo entregues aos torturadores para interrogatório, no 4º piso ou na sede da polícia política, na Rua António Maria Cardoso, ao Chiado. E, “sem culpa formada”, não foi só gente humilde que por lá passou. Por lá passaram homens das mais diversas profissões, alguns de nome bem-sonante – Arlindo Vicente, (candidato à Presidência da República em 1958, que desistiu para Humberto Delgado), o historiador Borges Coelho, o ativista católico Nuno Teotónio Pereira, o jornalista Raul Rego, Mário Soares, o pintor Júlio Pomar…

Ninguém pode ser preso sem culpa formada”… garantia a Constituição aprovada na 1ª República. Nesse tempo, em 1911, a Constituição era a Lei soberana, mas a soberania agora era de um homem só – era o tempo de “quero, posso e mando”. Estava-se em ditadura…

Quando, finalmente, foi levado a julgamento no Tribunal Militar Especial, foi condenado a 18 meses de prisão e à perda de direitos políticos, por cinco anos. Mais tarde, considerando que já tinha cumprido a pena, pediu que fosse restituído à liberdade.

A decisão superior é, no mínimo, surpreendente: “Indeferido, por continuar em prisão preventiva”, sendo enviado para o Forte de Caxias. Estava-se em ditadura…


Extrato da Ficha de Francisco Domingos, na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, mais tarde PIDE)

(Fonte de imagem:  Arquivo Nacional da Torre do Tombo)


Em outubro desse ano, foi ainda transferido para Angra do Heroísmo – outra prisão privativa da polícia política. Regressou cerca de dois anos depois, sendo então restituído à liberdade.

Finalmente livre! Assim, ele pensava…



Fonte de imagem: António Domingos Santos

Talvez por altura do Natal, enviou uma fotografia ao seu primo, António Domingos Neves que, como ele, fora fundador da União. No verso da foto, uma mensagem enigmática:

  “Bem certo que os Natais brevemente se apresentarão mais felizes, ofereço-te com um efusivo abraço este pedaço de papel”

Seis meses depois, em junho de 1939, era preso “para averiguações”, ficando incomunicável, tendo sido levado, novamente, para a cadeia do Aljube. É então fotografado de frente, de lado e de perfil, para os arquivos daquela polícia política.

Será restituído à liberdade no mês seguinte, em 24 de julho de 1939.

O sorriso tímido tinha-se perdido… algures entre o Aljube, Caxias e Peniche? Era agora um homem precocemente envelhecido. Tinha 29 anos.



Extrato da Ficha de Francisco Domingos, na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, mais tarde PIDE)

(Fonte de imagem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo)

 

O tempo era de conflito. Terminara a Guerra Civil de Espanha (1936/39) mas a 2ª Grande Guerra começaria em setembro desse ano. Portugal não estava diretamente envolvido, mas a população portuguesa, sofreu grandes privações e o racionamento de bens essenciais.




Francisco Domingos, recuperando a liberdade, retomou a filiação na UPFC, mas afastou-se de Lisboa e dedicou-se ao comércio – abriu uma mercearia na pequena vila de Sobral de Monte Agraço, a cerca de 40 km de Lisboa. Talvez tenha aprendido o negócio com o seu irmão Samuel, na pequena mercearia da Rua do Capelão, na Mouraria, onde viveu.



Antiga mercearia de Francisco Domingos (Sobral de Monte Agraço)

Fonte de imagem: António Domingos Santos


O Sobral de Monte Agraço era muito longe, para as estradas da época! Desse tempo, apenas se sabe que a camioneta “da carreira”, depois de passar por Alhandra, Vila Franca de Xira e Torres Vedras, deixava finalmente ao seu cuidado as encomendas que trazia, de Lisboa, para as pessoas da terra.  

Na zona central do Sobral de Monte Agraço, no meio da pequena praça, um coreto sugere memórias festivas. Mesmo ali ao lado, junto ao chafariz de que tomou o nome, um simpático e acolhedor restaurante atende hoje a clientela, como noutro tempo o fez, no mesmo local, Francisco Domingos. Por ali, ainda há quem se lembre dele e recorde a sua mercearia-taberna, tão ao jeito da época.


Em tempo de “senhas de racionamento” e sendo dono de uma mercearia, deve ter sentido de forma especialmente dolorosa o engrossar do “livro de fiados”, onde se registava o que cada um adquiria “fiado”, como era usual naquele tempo, nos meios mais humildes. Pagariam no final da quinzena, no fim do mês… ou quando tivessem dinheiro.

Dessa pequena vila, diz-se que “No século XX, as mudanças dos ciclos políticos, através da luta pela implantação da República e, mais tarde, pelo restabelecimento da democracia em Portugal, tiveram um enorme impacto em Sobral de Monte Agraço, nomeadamente através das ações de personalidades sobralenses que lutaram aguerridamente por estes ideais.” [12] 

Fica-nos uma dúvida pertinente – a escolha daquela vila, terá sido obra do acaso?

E ainda outra – terá ele sido uma das “personalidades sobralenses que lutaram aguerridamente por esses ideais”?

Discreto, como os tempos exigiam, quem se lembrava dele? Em conversa, a propósito de outras pesquisas, foi-nos referido, de passagem, pelo senhor Leonel Silveira[13], um conterrâneo goiense, que “um irmão do ti Manuel Domingos foi um dos que esteve preso no Aljube – estiveram lá muitos”. Assim, tal e qual, sem referir o nome de batismo. Falávamos dos tempos difíceis que viveram os colmealenses, nessas primeiras décadas do século XX, tanto no Colmeal como em Lisboa. Mais tarde, soubemos da misteriosa dedicatória no verso de uma fotografia e, recentemente, folheando um livro de Arnaldo Madureira[14], a propósito desses “tempos difíceis”, descobrimos nova pista: entre os presos listados, surge-nos “Francisco Domingos, O Mouraria”. Não podia ser coincidência!

Era um colmealense. Como ele, muitos outros, de várias origens, sacrificaram a sua juventude, a sua saúde, a sua família, muitos a própria vida, para “lavrar o terreno” onde haveria de germinar a semente da liberdade, que conduziu ao 25 de Abril de 1974.

No início de 1961, começou a Guerra Colonial.




No final desse ano, a 29 de setembro, o Boletim “O Colmeal” publicava a notícia da sua morte. Tinha 51 anos.


Deonilde Almeida




[1] Registo Paroquial, pois o Registo Civil apenas será estabelecido por Decreto de 18 de Fevereiro do ano seguinte.

[3] Biblioteca Nacional Digital - Constituição política da República Portuguesa de 21 de Agosto de 1911, Coimbra, 1911 (purl.pt)

[4] António Joaquim das Neves nasceu no Colmeal, em 1861. Foi nomeado professor para o Colmeal em 1882.

[5]DANIEL, “Figuras e Factos – Francisco Domingos”, Boletim “O Colmeal”, ano XXII, Agosto/1982, pág. 3 e 8  

[6] https://upfc-colmeal-gois.blogspot.com/2020/08/fragmentos-da-historia-do-colmeal_25.html

[7] In “Memorial” – Comemorações dos 80 anos do Regionalismo no concelho de Góis, Ed. UPFC, 2009, p.7

[8] In “Memorial” – Comemorações dos 80 anos do Regionalismo no concelho de Góis, Ed. UPFC, 2009, p.5

[9] DANIEL, “Figuras e Factos – Francisco Domingos”, Boletim “O Colmeal”, ano XXII, Agosto/1982, pág. 3 e 8

[11] PVDE-Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, criada em 1933 e que seria substituída, em 1945, pela PIDE-Polícia Internacional e de Defesa do Estado.

[13] Leonel Augusto Silveira Baptista nasceu em Lisboa – 28/Fev/1942 – filho de um grande Regionalista, Afonso Baptista de Almeida e de Albertina dos Anjos Baptista.

[14] Madureira, Arnaldo, SALAZAR - TEMPOS DIFÍCEIS”, Clube do Autor, 1ª ed, Novembro,2015, p.217