20 setembro 2020

A União faz hoje 89 anos

Foi em 20 de Setembro de 1931 que a União Progressiva da Freguesia do Colmeal iniciou o seu já longo percurso. Primeira colectividade regionalista a surgir na ex freguesia do Colmeal e uma das mais antigas no concelho de Góis, foi pioneira de um movimento, o Regionalismo, criado para tirar do isolamento as nossas aldeias e onde tudo faltava. Feito maioritariamente pelos naturais que partiram à procura de trabalho na capital e em países distantes, tentando melhorar o seu nível de vida que lhes pudesse garantir o sustento dos familiares que ficavam.

Eram pessoas simples, humildes, de pouca instrução e cultura, mas com espírito lutador e uma vontade indomável, que ao longo dos anos foram conseguindo trazer para as suas/nossas aldeias os sinais de desenvolvimento que viam por onde labutavam.

Não fosse a situação de pandemia que atravessamos e estaríamos hoje a confraternizar no almoço de aniversário comemorativo dos oitenta e nove anos.

Permitam-me que recorde o nome daqueles que estiveram na génese da nossa colectividade – Abel Joaquim de Oliveira, Aníbal Gonçalves de Almeida, António Domingos Neves, António Martins Mendes, António Nunes dos Reis, Francisco Domingos, Francisco João Miranda, João Mendes, Joaquim Fontes de Almeida, Joaquim Francisco Neves, José Antunes André, José Henriques de Almeida, Manuel João Miranda, Manuel Martins e Manuel Nunes de Almeida. Muitos outros, depois deles e ao longo dos anos, têm procurado manter vivo o espírito do Regionalismo, naturalmente com mudanças e adaptações que os tempos aconselham.

Vamos acreditar que já poderemos comemorar, consigo e em segurança, o nosso próximo aniversário. Para si, estimado associado, que nos tem acompanhado e nos tem dado força para prosseguirmos, o nosso abraço de parabéns.

A. Domingos Santos

Presidente da Direcção


25 agosto 2020

Fragmentos da história do Colmeal

 

A mulher da “fava-rica”

 

– Ti Trindade, vou-me embora… vou para Lisboa!

– Vai, meu filho, vai, para aquela terra santa! Nunca mais me esquecerei daquela morada sagrada – Travessa de Santa Quitéria, Pátio Sarmento, nº8.

Este relato curioso[1], mas comovente, deixou-me intrigada. 

Soube depois que Maria da Trindade Gomes, nascida no Colmeal em 1872, a Ti Trindade “Miguel”, como era conhecida – Miguel de quem era já viúva – vivia junto à antiga escola, no adro da aldeia. «Nesse tempo, as crianças vinham do Carvalhal, Malhada, Soito, Aldeia Velha, do Sobral… vinha tudo aqui para a Escola… só não vinham os de Ádela e do Açor, que iam para os Cepos»[2]

Em tempo de chuva ou neve, as crianças das aldeias vizinhas conheciam bem aquela porta amiga e a lareira acolhedora, onde secavam a roupa antes das aulas. No tempo do calor, nas correrias e brincadeiras do recreio, iam pedir-lhe um pucarinho de água, para matarem a sede.

Ir-lhe buscar um cântaro de água, era o seu jeito ingénuo de dizer «Bem-haja, Ti Trindade!», mas refletia também uma educação sólida, de valores morais e sociais, onde a ingratidão e a futilidade não encontravam espaço.

Quando estes rapazes conseguiam cumprir o sonho dourado de “ir para Lisboa”, iam despedir-se. A Ti Trindade, além da bênção contida naquela lengalenga, entregava uma moedinha de 2$50 ou mesmo de 5$00, como se dissesse «que, por lá, ela se multiplique depressa nas tuas mãos!»

A gratidão dos rapazes explicava a visita de despedida. Mas, “terra santa”… “morada sagrada”?!...que história de vida poderia explicar tal veneração por Lisboa?

A Ti Silvina “da Eira” conheceu-a bem e, com invejável memória e aquele encanto dos bons contadores de histórias, recorda que a Ti Trindade foi para Lisboa quando casou, talvez na viragem do século (XIX para XX). Normalmente não era assim, explica-nos, pois «naquele tempo, os homens iam para Lisboa, mas as mulheres ficavam cá a trabalhar!» - tratavam da “fazenda” e do gado, garantindo o sustento da família e ainda cuidavam dos filhos e dos mais velhos, a quem a saúde ou as forças já faltassem para trabalhar.  

Nesse tempo, não havia abono de família, nem subsídios. Era simples – comia-se o que a terra dava, à custa de muito trabalho, e todos os braços tinham de contribuir, na medida das capacidades de cada um. As crianças, quando entravam de manhãzinha na sala de aula, já tinham cumprido alguma tarefa – um cântaro de água, o gado tratado, um molho de mato para “cama” das ovelhas e das cabras, um saco de pinhas… e quantas vezes bem longe as foram apanhar!  «Quando íamos todos juntos, ao mato e à lenha, saíamos bem cedo, atrás uns dos outros, em fila, a chorar, porque estava frio e chovia, pequenitos, enregelados, cada um com sua lamúria e forma de chorar, era uma sinfonia! (risos)»[3]. Era a rotina familiar.

Com a Ti Trindade foi diferente – «Ela ia daqui para Lisboa [com o marido] e havia uma senhora, a Joaquina Moreira, que era de cá. Essa vendia fava-rica e, quando as pessoas iam de cá para Lisboa, ela aconselhava-as a irem vender.»  Mas não era só ela…  «Era ela e muitas – havia cá muitas no Colmeal a vender fava-rica!», garante-nos a Ti Silvina: «A Maria dos Anjos do Alqueve, também vivia em Campo de Ourique e também vendia fava-rica. Aconteceu o mesmo com muitas outras mulheres do Colmeal - umas puxavam as outras.  A primeira terá sido uma Ana Chamiça, que era irmã do Ti José Marques. Essa foi desafiando as outras. Ensinava-as como deviam fazer.»

Era uma ocupação que não exigia escolaridade ou habilitações específicas, apenas determinação e, isso, não faltava a quem tinha a coragem de mudar de vida.  As duas primeiras décadas do século XX registaram um grande movimento migratório. Cerca de metade da população de Lisboa era natural de outros pontos do país. Chegavam, em fuga da miséria em que se vivia no interior, atraídos pelo sonho de uma vida melhor. O “Censo Extraordinário de 1925” reflete essa condição em que viviam: «uma boa parte dos analfabetos das duas capitais é constituída pelos indivíduos que das províncias a elas afluem, para desempenharem serviços domésticos, exercerem a sua profissão de operários ou outros mesteres para os quais não é exigida instrução literária alguma; por isso, enquanto existir fundo em todo o país, há-de ter sempre o seu reflexo nas grandes cidades»[4]

Os filhos, sobretudo os mais novos, muitas vezes ficavam “na terra”, ao cuidado dos avós, pois a vida em Lisboa era dura e não havia espaço nem tempo para cuidar deles. Não os queriam ver a alinhar naquele “imenso exército de crianças descalças e andrajosas que, desde cedo, apregoavam jornais ou trabalhavam por meia dúzia de tostões. Enquanto as raparigas abandonavam a fome e o trabalho rural para se empregarem como criadas nas casas citadinas, os rapazes, pelos oito anos, eram vistos nos andaimes das obras, ou nas mercearias, onde trabalhavam, dia e noite, em troca de comida e dormida.” [5]  Não! Ficavam melhor lá na terra, até terminarem a escola.

As saudades eram muitas e o único contacto era o correio, pois o primeiro telefone público só chegaria ao Colmeal no início dos anos 50.


Fonte: Fundação Portuguesa das Comunicações
 Fonte: Fundação Portuguesa das Comunicações

 Por vezes, algum conterrâneo trazia notícias e outros mimos da família. «A primeira vez que lá voltei [ao Colmeal], trouxe 16 volumes de lembranças, para entregar a pessoas lá da terra, que estavam em Lisboa. Nem sei como dei conta de tanta coisa! Alguns eram só um chouriço, talvez…»[6]  

Em Lisboa, n’“aquela terra santa”, como lhe chamava, muito trabalhou a Ti Trindade, mas prosperou e regressou ao Colmeal, para uma velhice confortável e tranquila. Estava explicada a imensa gratidão, que roçava o sacrilégio.  Foi a vender fava-rica que conseguiu enganar o destino.

A vender “Fava-rica”… Saltam, ruidosas, as memórias rodas de carroças, ferraduras a ecoar na calçada e os pregões matinais que ressoavam no meu mundo de infância, de S. Vicente de Fora ao Largo do Menino Deus. Entre elas, «Faaaava-Riiiica!!!» assim, tal e qual, “a apregoar muito alto, mas num pregão muito lento como diz o poema[7].

Percebi, mais tarde, que o mesmo pregão soava por toda a cidade, sobretudo nos bairros populares. Os melhores clientes eram, decerto, os que madrugavam para um trabalho árduo, porque a estiva ou os fretes no Mercado da Ribeira os aguardavam antes do sol nascer. Esses, talvez esperassem ansiosos “até vir a mulher da fava”, que lhes fornecia uma refeição tão aconchegante.

Fava, aquela leguminosa de alto valor nutritivo, todos conhecemos. Permanece na língua portuguesa em expressões curiosas como favas contadas (coisa certa, negócio seguro), mandar à fava (mandar embora, com enfado ou desprezo, por não querer ouvir ou aturar mais) ou pagar as favas (suportar prejuízo ou responsabilidade). Em tempos, também estava no bolo-rei – ai daquele a quem calhasse… teria de pagar o bolo do ano seguinte!

Mas, quando é que ela ficou “Rica”?

O dicionário informa-nos que fava-rica é a “fava seca que, depois de cozida e temperada, se usa na alimentação” [8].  Então, a sua “riqueza” poderá vir tanto do seu valor nutritivo, como do facto de, sendo seca,  se poder contar com ela ao longo de todo o ano e não apenas na sua época própria de colheita.

O que não explica é a razão do seu consumo ao nascer do dia e ao longo da manhã.

Hoje, na gulodice de um croissant ou de uns cereais empacotados, mais dificuldade temos em descobrir essa razão.

É sabido que, durante séculos, o pão foi a base da alimentação dos pobres – e é deles que falamos. O “milho grosso” ou “das maçarocas”, hoje tão banalizado, ainda não era conhecido na Europa, pelo que o pão era feito com os cereais conhecidos e cultivados, conforme as regiões – trigo, centeio, cevada ou milho painço. Quando faltavam cereais no reino, porque uns anos chovia demais e noutros nem pinga de água, pairava o fantasma da fome. Nessas ocasiões, diz-nos o historiador Oliveira Marques que «importavam-se muitas vezes favas do estrangeiro para ocorrer à penúria. (…) Moída para fabrico de farinha, ou simplesmente cozinhada, a fava chegava para matar a fome até ao regresso das boas colheitas.[9]

A descoberta da América e o conhecimento e cultivo das novas plantas que de lá trouxeram – milho grosso, batata, tomate, entre outros – poriam fim ao pesadelo das fomes frequentes que devastavam a Europa, mas o pão, esse continuaria a ser a base da alimentação dos pobres.

Nas cidades, o povo não podia cozer o seu pão, como na aldeia, ficando à mercê das padarias.  Assim, em tempos de crise ou conflito, que foram frequentes ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX, a subida do preço do pão ou a sua falta geravam revoltas, motins e assaltos a padarias, como aconteceu, sobretudo em Lisboa, em 1915, 1916, 1917 (“revoltas da fome”) e, de novo, em 1920, por todo o país.

Nesses tempos de crise, a fava-rica retomava o seu lugar, matando a fome aos pobres.  Depois, o mercado foi invadido pelas farinhas prontas a usar e que prometiam saúde e vigor “para o avô, para a neta e também para o atleta”. Esta mensagem sedutora chegava a todos os lares, através da telefonia – a grande novidade tecnológica da época.

A fava-rica que, já em 1885, Eça de Queirós, no romance “Os Maias”, indicava como uma das poucas coisas “genuínas”, que restavam na paisagem alfacinha[10], aos poucos, foi caindo em desuso … que ingratidão! Terá sido porque a memória popular a associava a tempos difíceis?

Curiosamente, outros povos – árabes sobretudo – que por cá viveram, muito antes de Portugal existir como reino, ainda hoje não dispensam a fava-rica da sua mesa. É o pequeno-almoço tradicional da Jordânia, do Egipto, da Síria, Palestina, Israel… Por lá, chama-se “ful mudammas” ou “ful medames”, conforme as regiões. No Egipto, os vendedores de rua, servem-no com pão e legumes – é o típico pequeno-almoço que vemos na imagem. 


Fonte de Imagem: 

By Zachbe at en.wikipedia, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=16987027

A fava é cozinhada basicamente do mesmo modo – depois de demolhada é cozida em água e sal e temperada com azeite e alhos, variando apenas, de região para região, algum pormenor de tempero ou embelezamento final, com ervas frescas (hortelã sobretudo), especiarias (pimenta, cominhos...) ou, até mesmo, pedaços de ovo cozido.

Decerto, foram esses povos que, nas suas andanças pela Península Ibérica, partilharam a receita e, provavelmente, a cultura da planta – a partir do ano 711, com a chegada dos mouros à Península, ou até mesmo muito antes. O arqueólogo Cláudio Torres, grande investigador da presença árabe em Mértola[11], garante que, há 2700 anos, ocorreu uma “corrida ao ouro” naquela região, que atraiu sobretudo muitos árabes para o sul do território que hoje é Portugal.

Eles, mantiveram-na na sua gastronomia. Por cá, a fava continuou a ser consumida na sua época, fresca ou, mais recentemente, congelada. Quanto à fava seca, base da fava-rica, várias razões poderão explicar o seu esquecimento.

A principal razão, poderá ser o facto de ter sido sempre cozinhada e fornecida por alguém exterior à família – o que hoje se chamaria “take away” – nunca tendo chegado a entrar, de forma sistemática, na tradição da cozinha familiar.

Mas existem outras razões… Para os séculos XIX e XX, o contexto histórico poderá ajudar-nos a compreendê-las. Por outro lado, conhecendo esse contexto, não podemos deixar de admirar aquelas “mulheres da fava-rica”, pela determinação com que viveram e lutaram por uma vida melhor.

Recorde-se que todo o século XIX e primeiras décadas do século XX, período em que estas mulheres viveram, foram tempos de insegurança e sobressalto, por todo o reino, mas sobretudo em Lisboa – devastação deixada por três invasões francesas, uma guerra civil, grave crise financeira de 1890 (bancarrota), duas grandes guerras mundiais, guerra civil espanhola que gerou grandes dificuldades e privações em Portugal, períodos de fome, várias epidemias (cólera, peste bubónica, varíola, tifo e pneumónica, que foi a mais grave), carência e racionamento de alimentos básicos, levantamentos militares, revoltas populares seguidas de declaração de “estado de sítio” com recolher obrigatório, retaliado com ataques à bomba[12],… e Lisboa era o centro de todos os acontecimentos.

Entretanto, também os primeiros transportes públicos, circulando a alta velocidade, espalhavam o terror nas ruas. Entre as rodas sobre os carris e as ferraduras dos animais, a matraquear a calçada, podemos imaginar o imenso ruído que produziam à sua passagem… Mas a população demorou a adaptar-se a esta ruidosa novidade – os atropelamentos eram frequentes, como refletem os registos de atendimento no Posto Médico da Santa Casa da Misericórdia[13].

Esta era a Lisboa das nossas “mulheres da fava-rica”.

Ainda a cidade dormia e já elas estavam a pé, para acender o fogareiro – é que «aquilo leva muito tempo a cozer!», como explica a Ti Silvina «e, naquele tempo, era com carvão. As pessoas cozinhavam nuns fogareiros – aí é que elas punham uma panela grande e faziam o comer. Levava ali à volta de 3h a cozer…»

O problema é que, naqueles tempos conturbados, eram frequentes as quebras de abastecimento do carvão, devido ao afundamento dos navios que o transportavam, sobretudo de Inglaterra.

Por tudo isso, as pessoas preferiam comprar feito, em vez de fazer em casa - «como elas faziam uma grande quantidade, compensava.»

António Santos, ainda criança, muitas vezes ajudou sua avó na preparação da fava-rica. Na manhã seguinte, bem cedo, ela iria descer os três andares da casa onde então morava, na Rua do Benformoso e, tal como diz o poema…

 

«À cabeça a grande cesta;

            e dentro desta

 a panela

 envolta em alva linhagem»

 

Iria percorrer a Mouraria, Escolas Gerais, Sé, Castelo, Alfama e, pelas ruas… e o pregão subiria no ar:

 

- «Fava rica… fava rica!...»

Panelinha a fumegar,

entre a aragem,

na friagem matutina! » 

 Maria Inocência Neves

«Panelinha… que era uma panelona», recorda o neto. «Eram muitos quilos à cabeça. E descer a cesta para atender a freguesia e erguê-la vezes sem conta, era um exercício tremendo para uma mulher tão franzina como era a minha avó tinha 1,56m de altura…».

A “avó” era Maria Inocência Neves, contemporânea da Ti Trindade “Miguel”, tal como ela, nascida nos finais do século XIX.

Viúva aos 30 anos, filhos para criar e dívidas para saldar, resultantes da doença do marido. Vemo-la na imagem[14], envolta no seu xaile de lã, e quase sentimos a “friagem matutina”, que, no inverno de Lisboa, enregela os ossos…

Mulher determinada, aceita a sugestão da prima e amiga Adelaide Reis[15] com ela aprendeu os segredos do negócio e foi vender fava-rica. «Ela e a minha avó viveram na mesma casa, na Rua do Capelão, nº 34 - 2º. O meu tio, António Domingos Neves, tinha ficado no Colmeal para completar a 4ª classe.  Adelaide Reis tinha 4 filhos - Armando, Ilda, Horácio e Alzira e, mais a minha mãe, com 4 anos, tudo a fazer tropelias lá em casa, devia ser o bom e o bonito», recorda António Santos.

Adelaide Reis  (imagem cedida por António Santos)

A rotina era a mesma, todos os dias – a “mulher da fava-rica”, alimentava os outros para alimentar os seus. Apenas o domingo era respeitado como dia de merecido descanso. O seu dia começava bem cedo e, nele, não havia espaço para diversões.

Naquela época, o fado ressoava das ruas da Mouraria, mas, nesse tempo, era coisa de rufias e gente de má vida. Terá visto as primeiras Marchas Populares[16] ou assistido a uma cegada[17]? O teatro de revista[18], a novidade do Parque Mayer, era muito popular, mas os bilhetes custavam dinheiro… Ainda se lembrava da procissão da Senhora da Saúde – era um dia de alegria – mas os republicanos não gostavam dessas manifestações e, desde 1910, a Senhora não saía pelas ruas de Lisboa.

Em 1940, quando a Senhora da Saúde voltou à rua, Maria Inocência viu passar a procissão, na Rua do Benformoso, do 3º andar da nova casa, na sua varanda engalanada com colchas.

A vida continuou… apenas com mais andares para descer com a giga da panela à cabeça, equilibrada na rodilha. António Santos não esconde o orgulho e o carinho com que emoldura a memória desses tempos…

«A minha avó comprava as favas secas num estabelecimento da Rua dos Cavaleiros, que se chamava Celeiro (não o Celeiro de agora, onde as senhoras vão comprar aqueles pacotinhos com coisas para manter a linha). Quando se subia, ficava do lado direito, um pouco antes da Rua Marquês Ponte de Lima.

Levava um saco de pano, daqueles que se atavam em cima e trazia, se a memória não me atraiçoa, cinco litros de fava seca. As medidas eram de madeira, quadradas ou retangulares e depois havia uma tábua, a rasa, rasoura ou rasoira que eliminava o que estava a mais.

Em casa, estas favas ficavam em água, de um dia para o outro. Ficavam a amaciar… Havia um tabuleiro em madeira (cerca de 1m X 0,5m), onde no dia seguinte as favas eram colocadas. O tabuleiro ficava em cima de um banco da cozinha, perto da janela, porque as favas eram vistas uma a uma. Despejavam-se aos poucos num dos lados do tabuleiro, e uma a uma, eram vistoriadas e era-lhes retirado, com uma pequena navalha ou canivete aquela parte que a ligava à vagem e se havia sinal de bichinho, retirava-se também. Assim iam passando para o outro lado do tabuleiro.

De madrugada, talvez duas horas da manhã, era colocada ao lume uma enorme panela, para cozer as favas.  

Antes das sete, saía para a venda. Cesto de verga com uma grande panela de esmalte. Jornais à volta para não deixar arrefecer e ao mesmo tempo aconchegar para não balançar. Toalha branca por cima, impecavelmente branca. Uma concha, que servia ao mesmo tempo para dosear o pedido, uma pequena bolsa para as moedas porque as notas eram escassas…»


 

 Panela de esmalte e cesta de verga (giga), utilizados por Maria da Assunção Neves, que também foi “mulher da fava-rica”.

A panela, pesa 2Kg. Dois pares de pegas facilitavam a descida da cesta, em cada venda, e a sua elevação de novo, para cima da rodilha.

Imagens cedidas por Manuela Costa (neta de Maria da Assunção)


O fogão de Maria Inocência já era agora de ferro, recorda o seu neto, e «funcionava a carvão e com briquetes e, à volta, para fazer um pouco de altura, eram colocadas umas “bolachas”, feitas de ciscos, compradas na Rua do Terreirinho – havia lá uma carvoaria. Quando eu ia para a Escola Primária, ia por essa rua e, às vezes, agachava-me durante um tempinho a ver, por uma pequena janela rente ao chão, como um homem, enfarruscado, fazia os briquetes, com um molde de ferro. Eram rodelas de carvão amassadas com barro para conservar o calor nos fogareiros.  Era o mesmo que fazer agora um hamburger…»

Seguindo o exemplo das suas antecessoras, também Maria Inocência terá incentivado outras conterrâneas a tentar a sorte em Lisboa, ensinando-lhes o que tinha aprendido.


Calou-se o pregão da “inesquecível Fava-rica”, como lhe chama Afonso Batista de Almeida, mas o seu exemplo de mulher lutadora, que enfrentou as amarguras da vida com trabalho, generosidade e doçura, ficou bem gravado na memória de quem a conheceu, como garante o autor da homenagem publicada, em jeito de epitáfio, no Jornal de Arganil[19] 

Foram muitas… muitas as mulheres do Colmeal a alimentar, pela madrugada e manhã, os trabalhadores dos bairros populares. Aníbal Santos, recorda que “pelas 5h, quando eu ia para o Mercado da Ribeira – era Moço de Mercado, até à hora de entrar no trabalho – encontrava as mulheres da fava-rica já a vender”.  Ouvindo o pregão da mulher da fava-rica, as clientes vinham à porta da casa com um prato ou panelinha e compravam uma refeição bem nutritiva e ainda “a fumegar”, como diz o poema.

Mulheres que madrugavam para cozinhar, que percorriam as ruas, escadinhas e calçadas de Lisboa, equilibrando à cabeça o alimento de tanta gente.

Mulheres que enfrentaram, com o seu trabalho árduo, as adversidades da época em que viveram, para que fosse melhor o amanhã dos seus filhos.

Mulheres que, no seu pregão, gritaram surdamente “Não somos o que nos acontece – somos o que fazemos com aquilo que nos acontece”.

Mulheres inspiradoras! Avós das mulheres que agora são avós.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, como dizia Camões num soneto. Lá vai o tempo do enorme e suculento “bife a sair do prato” – as vontades agora são de comida saudável e, por todo o lado, surgem ofertas de refeições vegetarianas. Em substituição da carne, procuram-se as proteínas das leguminosas, mais amigas da saúde, da bolsa e do ambiente.

Um dia destes… quem sabe? um jovem, passeando pelos bairros populares Mouraria…Castelo…Graça…Alfama… –, entrará num desses novos restaurantes alfacinhas e escolherá na ementa um prato vegetariano, com nome e sabor bem exótico – “ful mudammas” – sem suspeitar que, duas ou três gerações atrás, uma sua antepassada calcorreou aquela mesma calçada, “a apregoar muito alto, mas num pregão muito lento, «faaaava-riiiiica!!!»


Deonilde Almeida


[1] Relato de Mário de Jesus Martins que, sendo ele ainda criança, a conheceu já bem velhinha e a ouviu diversas vezes despedir-se, assim, dos jovens que partiam.

[2] Testemunho de Silvina dos Santos Nunes (Ti Silvina)

[3] Testemunho de Aníbal Almeida Santos

[4]  Godinho, Vitorino (Director-Geral de Estatística),  Introdução ao relatório de 1926

https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes&PUBLICACOESpub_boui=73039670&PUBLICACOESmodo=2&xlang=pt

[5] Pimentel, Irene Flunser, Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial, Esfera dos Livros, 4ª edição, p.157

[6] Testemunho de Américo Santos

[7] “A mulher da fava-rica”, Augusto de Santa-Rita, In Revista “Pim Pam Pum”, Suplemento infantil do jornal “O Século”, nº 164, 30/Jan/1929 (http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/PimPamPum/1929/N164/N164_item1/P6.html )

[8] Dicionário Ilustrado Vol. 2, Porto Editora, Lda

[9]  Marques, A.H. Oliveira, A Sociedade Medieval Portuguesa, Ed. Sá da Costa, Lisboa, 1974, p.11

[10]  Ed. Círculo de Leitores, Lisboa,1975, p.458


[11] Fonte:https://www.sabado.pt/vida/pessoas/detalhe/claudio-torres-mertola-tornou-se-grandiosa-porque-houve-aqui-uma-corrida-ao-ouro-ha-2700-anos?ref=HP_DestaquesPrincipais

[12] Os livros de “Registo de agressões, desastres e suicídios” do Posto Médico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa refletem bem esses tempos conturbados. Só no dia 9 de fevereiro de 1927, as vítimas de granada e estilhaços de bomba foram sendo socorridas ao longo do dia e é curiosa a evolução da caligrafia dos registos – primeiro muito cuidada, foi ficando cada vez mais desleixada, tornando-se quase ilegível ao fim do dia.

[13] Podemos apenas imaginar a quantidade de casos que terão sido socorridos no Hospital de S. José mas, lamentavelmente, esses registos não estão tratados arquivisticamente, pelo que não podem ser consultados.

[14] Imagem de José Manuel Vasconcellos, “Receitas à moda antiga”, Ed. Selecções do Reader’s Digest, 1ª edição, Setembro de 1997

[15] Adelaide Reis, colmealense e “mulher da fava-rica”, viria a ser sogra de José Saramago, futuro Prémio Nobel da Literatura, por casamento deste com a sua filha, a artista plástica Ilda Reis.

[16] “Leitão de Barros, fazendo uso do seu prestígio na cidade e no Diário de Lisboa, percorreu as coletividades para que cada uma mostrasse o que tinha de particular, com o objetivo de dar um cunho lisboeta às marchas, chamando mais público. Em 1934, 300 mil pessoas assistiram ao desfile de 12 bairros e 800 marchantes, desde o Terreiro do Paço até ao Parque Eduardo VII” (fonte: http://festasdelisboa.com/marchas-populares/ )

[17] “Representações teatrais de carácter amador e popular, na generalidade representadas por homens, nas ruas (…) de franca adesão popular e muitas vezes com um vincado carácter de intervenção, a regulamentação da censura em 1927 iria contribuir, de forma lenta mas irreversível, para a extinção deste tipo de espetáculo.” (fonte: https://www.museudofado.pt/historia-do-fado )

[18] “Nas classes populares, o teatro de revista é do agrado geral. Importado de Paris, este espetáculo era, na origem, uma espécie de revista do ano (daí o nome de Revista do Ano) apresentando canções, apontamentos de sátira política e números de dançarinas de cancan. (…)Para as camadas populares, a revista constitui um tempo de transgressão, durante o qual é possível pôr os políticos a ridículo e denunciar, ao som da música, escândalos e injustiças sociais.” Couto, Dejanirah, História de Lisboa, Ed. Gótica, Lisboa, 2003 (p.238)

[19] Excerto da notícia publicada por Afonso Batista de Almeida no Jornal de Arganil, em 18/12/1969


29 junho 2020

UNIÃO DISTRIBUI MÁSCARAS


A União Progressiva da Freguesia do Colmeal procedeu nestes últimos dias à distribuição de máscaras descartáveis pelos residentes de todas as aldeias e casais da ex-freguesia do Colmeal. Um pequeno gesto recebido com muita simpatia.




Aproveitamos para recordar que deverão ser respeitadas as regras de segurança que nos são transmitidas pelas autoridades de saúde, no sentido de nos protegermos da Covid - 19. Todos os cuidados são poucos.

Proteja-se a si e assim protegerá os outros.

UPFC

04 junho 2020

Festa do Colmeal 2020


Caros Colmealenses, vizinhos e amigos do Colmeal:

Os membros da comissão da festa do Colmeal comunicam a não realização da festa em agosto em 2020 e os desejos de contar com todos para a celebração conjunta no verão de 2021.
 
Como sabemos, esta não é a primeira vez que a nossa aldeia passa um agosto sem festa mas é a primeira vez que tal acontece para protegermos aqueles que nos são mais queridos. Não foi uma decisão fácil mas, nestes últimos dois meses, poucas foram.
 
Agradecemos o apoio que nos foi oferecido desde que a festa de 2019 chegou ao fim, seja em ofertas de brindes para a quermesse, patrocínios financeiros e, a mais importante, meios humanos para ajudar a montar e preparar os eventos que realizámos no passado e vamos continuar a realizar em 2021.

A missa que tem acontecido nos últimos domingos continuará a haver mas ainda não sabemos como e em que moldes será realizada a que terá lugar a do domingo de 9 de agosto, que habitualmente é seguida de procissão. Vamos aguardar para saber as instruções da Direção Geral de Saúde que estarão em vigor nessa altura e, mais perto da data, será comunicada a forma como será celebrada a parte religiosa nesse dia.

Mesmo sem festa, contamos ver-vos este verão no Colmeal com a certeza que voltaremos a reunir famílias e amigos nas celebrações de 2021, naquela que será a melhor festa do mundo a acontecer nas margens do rio Ceira.

--
Jorge Fonte

22 abril 2020

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA: A TRADIÇÃO DOS MASTROS EM HONRA DE S. SEBASTIÃO.


A Páscoa é a festividade mais importante das religiões cristãs, especialmente da católica, por celebrar a Ressurreição de Cristo, e consequentemente, a vitória da vida sobre a morte na cruz, por amor aos outros e para sua plenitude e salvação. Os outros - princípio fundador do Cristianismo - sem os quais a ligação a Deus não se faz, dizia D. Manuel Clemente em entrevista à RTP. 

Este ano, porém, tivemos uma Páscoa muito diferente, como diferente é a vida na multiplicidade das suas dimensões, por força do distanciamento a que nos obriga o poder imenso de um vírus ínfimo. Não obstante as perdas e o sofrimento, uma Páscoa repleta de inovação, entrega, generosidade e solidariedade. 

Na ausência de solenidades comunitárias, os rituais tiveram de se reinventar e os atos litúrgicos realizados sem a presença física dos crentes chegaram-lhes através de órgãos de comunicação social e plataformas digitais. As mesmas ferramentas que algumas famílias usaram para conviver, matar saudades e abraçar 



Deste modo, vimos: sacerdotes, como o cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente ou o bispo do Porto, D. Manuel Linda, a celebrarem sem fiéis, carregando sobre os ombros o pesar e a solidão do mundo, qual Papa Francisco a atravessar frágil e depois a rezar na Praça de S. Pedro vazia; os mesmos cardeal e bispo, o primeiro a abençoar a população e a cidade da porta da Sé, o segundo a fazê-lo da Ponte D. Luís; sacerdotes que celebraram em igrejas cheias com fotografias de paroquianos, párocos e leigos que cumpriram a visita pascal (boas-festas, compasso …), transportando pelas ruas a cruz nos braços ou em carros; fiéis, caso do José Álvaro que fez chegar a boa nova por mensagem, com votos de santa Páscoa da equipa que costuma fazer a visita. 

Este é o dia que o Senhor fez 

Cantemos e exultemos de alegria. 

Aleluia, Aleluia, Aleluia! 


Uma manifestação concomitante com a Páscoa, foi o aparecimento de cruzes enfeitadas com louro, alecrim e fitas coloridas, nas entradas/saídas de povoações. Sem ter nada a ver com a sugestão de os cristãos assinalarem a Ressurreição e a alegria pascal com cruzes à porta: a sugestão remetia para cruzes sóbrias, místicas e familiares, as das terras adejavam exuberância, coletividade e tradição. 



Por ter sido objeto de notícia, pôs-se a hipótese de as cruzes serem uma réplica do Crucifixo milagroso que encimava a Praça de S. Pedro, no tal dia (27 de março) em que o Papa aí orou sozinho [1]. Nessa muito tocante celebração, o Santo Padre agradeceu a todos os que generosa e abnegadamente combatem a pandemia nas várias frentes que têm permitido à maioria sobreviver [2]


Nada disso. Não havia semelhança entre o crucifixo romano e as cruzes que acolhem vigilantes à entrada de povoações. Tratava-se, afinal, de mastros erguidos em honra de S. Sebastião, visando pedir a sua intercessão para combater a doença que tanto sofrimento tem infligido e vidas ceifado. E está para infligir, por razões sanitárias e de impacto social e económico. 

Como sabemos, S. Sebastião - o padroeiro da antiga freguesia de Colmeal, hoje parte da União de Freguesias de Cadafaz e Colmeal - é o santo protetor da fome, da guerra, da peste e das doenças contagiosas, em geral. São estes atributos que justificam o Bodo, em cumprimento da promessa feita ao santo para salvar as gentes da peste que as dizimava. A tradição terá começado em Roma, no século VII, quando os seus restos mortais foram levados para a cidade e fizeram desaparecer o mal. Já no século XVI, por sua intercessão, fala-se de curas generalizadas em Milão (1575), Lisboa (1599) e um pouco por toda a parte, uma vez que o Bodo continua a ter lugar entre nós, como em muitas outras localidades e regiões do país. 


Os mastros em honra do santo devem datar da mesma época, embora não se tenha localizado a origem da tradição em Portugal. No Brasil, onde os respetivos rituais conhecem uma grande adesão, data do século XVI, estando associada a um surto de varíola levado da Europa. (https://www.novanews.com.br/noticias/geral/). 

Conforme informação dos senhores Maria Alice Braz e Carlos Alves, da Sandinha, os mastros têm de ser em número impar e cada pessoa da localidade deverá contribuir com uma das fitas que adornam e animam a cruz. Dir-se-ia que simbolicamente a lembrar ao mártir os devotos por quem interceder. 

Tudo aponta no sentido de a tradição dos mastros corresponder à cristianização de um ancestral ritual pagão de fertilidade. Tal como verifica-se com as cruzes que eram/são afixadas a 3 de maio, dia de Santa Cruz, para proteger dos males e assegurar a fecundidade dos campos e animais. Não raro, o sagrado e o profano a interpenetram-se, por motivos históricos e outros. Na Sandinha, os mastros são cinco, no Açor um, colocado por iniciativa Maria Elsa e do Fernando. Solidariamente, a pedir a intervenção de S. Sebastião a favor de todos. 



Infelizmente pelas piores razões, a tradição também se reinventou, resgatando os mastros em honra de S. Sebastião do esquecimento em que tinham mergulhado, no quadro da fantástica evolução civilizacional da humanidade, apesar de as vulnerabilidades que explicam a atual conjuntura sanitária e social. Os últimos de que há memória remontam aos finais dos anos cinquenta do século passado, prendendo-se com a peste suína africana. Integrando o património cultural imaterial, são uma expressão da piedade e devoção com que alguns segmentos das populações enfrentam os limites humanos, o desconhecido e o transcendente. 

Finalmente, depois deste errático discurso sobre religiosidade e tradição, em que a cruz esteve sempre presente, na semana da pascoela, resta sublinhar a importância da mesma para os crentes, enquanto objeto de culto, símbolo de Ressurreição, Cristianismo e vida. 

Votos de muita saúde, coragem e esperança. 

Lisete de Matos 

Açor, Colmeal, 18 de abril de 2020. 

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[1] O referido crucifixo em madeira tornou-se objeto de devoção quando, em 1519, foi a única peça a resistir a um incêndio que destruiu a igreja de São Marcelo Al Corso. Poucos anos mais tarde, a mesma imagem terá extinguido a peste que grassava, depois de transportada em procissão por toda a cidade de Roma durante dezasseis dias. (https://pt.aleteia.org/2020/03/19/a-historia-do-crucifixo-milagroso-que-salvou-roma-da-peste/). 

[2] Na mesma altura, reiterou que ninguém se salva sozinho e que temos de aprender a distinguir o essencial do supérfluo, acrescentando: Deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente …