23 setembro 2021

UNIÃO PROGRESSIVA DA FREGUESIA DO COLMEAL, NOVENTA ANOS


Noventa anos! São os que acaba de fazer a União Progressiva da Freguesia do Colmeal (UPFC). Por parte de muitos – fundadores, membros dos respetivos órgãos sociais e associados – anos e anos de entrega e dedicação à causa do regionalismo, primeiro com vista à melhoria das condições de vida nas terras, mais tarde e até hoje, evoluindo para novas dinâmicas e tipologias de ação, em linha com a mudança social e a substituição dos modos de vida e gerações.

A União Progressiva da Freguesia do Colmeal foi fundada em 20 de setembro de 1931, sendo a primeira a emergir na freguesia e das primeiras, na região. Como sabemos, o regionalismo traduz-se na constituição, em Lisboa, de associações de conterrâneos destinadas a promover o progresso e o desenvolvimento nas aldeias. O convívio organizado na cidade privilegiava a angariação de fundos e contribuía para a preservação da identidade e da pertença serrana.

O regionalismo é um fenómeno associativo singular, devido ao facto de surgir fora do contexto para o qual a sua ação se dirige e de visar melhoramentos, nomeadamente no campo das infraestruturas e acessibilidades. Nesta medida, o movimento é muito expressivo da intensidade dos laços que prendiam cada um e todos às origens, ao mesmo tempo que reflete o abandono a que as aldeias estavam e continuam votadas. Por alguma razão as pessoas se viram obrigadas a partir para a cidade ou para o estrangeiro, inicialmente deixando a família na terra e pensando regressar, pelo era necessário dotá-la com as comodidades e o bem-estar de que os citadinos beneficiavam.

Como me dizia em tempos um amigo e associado “O regionalismo nasceu das necessidades das pessoas, denota iniciativa, amor ao torrão natal e um desprendimento, digamos assim, um altruísmo muito grande. Eu acho que não há palavras para classificar essas iniciativas, porque eram pessoas que não tinham posses. (...)”.

Para assinalar os noventa anos da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, teve lugar no passado domingo 19 de setembro, na igreja local, uma missa em memória dos seus fundadores, dirigentes e sócios falecidos. Embora a participação possa ter sido afetada pela insegurança inerente aos tempos sanitários difíceis que vivemos, a igreja apresentava-se composta e houve quem viesse de Lisboa.



Conforme se antecipava na divulgação da iniciativa, tratou-se de uma homenagem simples, mas muito simbólica e comovente. A mim, humedeceram-se-me os olhos quando, na altura própria da missa, recordei os nomes inscritos no Memorial (UPFC, Lisboa, janeiro de 2009) e os muitos associados e associadas que tive o privilégio de conhecer, admirar e estimar, alguns, de amar. Bem que se lhes aplicam as leituras do dia, de que insiro excertos, com a devida vénia: “(…) a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos” (Carta de São Tiago 3,16-4,3); ou as palavras de Jesus quando dizia aos seus discípulos, que tinham vindo a discutir quem era o maior, “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Marcos 9,30-37).

Parabéns à União Progressiva da Freguesia do Colmeal pelos seus noventa anos, muito obrigada a todos e todas pelo trabalho, generosidade e solidariedade.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 22 de setembro de 2021.


07 agosto 2021

UNIÃO PROGRESSIVA - Um caminho de noventa anos - II

«Da numerosa colónia de Góis, actuando na capital, destacam-se os Colmealenses como sendo um dos seus mais fortes contingentes. Espalhados por toda a cidade, nas modalidades várias dum trabalho persistente e probo, os filhos da freguesia do Colmeal teem também a «sua casa», uma colectividade modelar que os defende e acarinha ao amor votivo à terra que os viu nascer. Trata-se da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, fundada em 20 de Setembro de 1931 e contando, hoje, mais de 200 sócios.»

 Assim começava um extenso relato produzido por Luiz Ferreira, redactor em Lisboa de A Comarca de Arganil, ao tempo jornal trissemanário. Inserido na página 5 do número 1890, publicado em 28 de Outubro de 1932, que a seguir recordamos.

 


Procurando saber das aspirações dos Colmealenses e da acção já desenvolvida, fala com Manuel Nunes de Almeida, que presidia a uma Comissão Administrativa, nomeada após a primeira Direcção se ter demitido quarenta e cinco dias depois de eleita. «Sinto-me feliz por ter vingado a ideia inicial. A semente lançada à terra, em boa hora, germinou e a União Progressiva da Freguesia do Colmeal tem hoje assegurada a sua espinhosa mas consoladora missão.» O estado de abandono a que fora votada a freguesia, levou-os a reagir «reunindo esforços e boas-vontades para uma obra construtiva».

Com estatutos aprovados pelo Governo Civil de Lisboa, em 1 de Agosto passado, realça o propósito de «conseguir o máximo de solidariedade de toda a colónia da freguesia do Colmeal; educar, instruir e proteger os seus membros necessitados; auxiliar moral e materialmente todos os melhoramentos da freguesia do Colmeal e promover por todos os meios ao seu alcance manifestações de actividade que de qualquer modo possam contribuir para o engrandecimento da freguesia.»

Elenca alguns valores aplicados em melhoramentos e no auxílio aos mais necessitados. Não esconde a sua satisfação por já se ter conseguido receber valores declarados e a esperança de haver em breve o serviço de encomendas postais. Com bastante detalhe e conhecimento refere-se à falta de estradas, de escolas, das ligações telefónicas, da iluminação pública e da urgente necessidade da eliminação das fontes de chafurdo.

«E se de estradas derivarmos para os caminhos que ligam as povoações da freguesia, entre si, não podemos deixar de exteriorizar nossa mágoa! Esses caminhos estão quási que intransitáveis. De Inverno, principalmente, é um horror!»

Esta é a fotografia que surgia a ilustrar o excelente trabalho jornalístico de Luiz Ferreira, e que faz parte do arquivo histórico da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.



 

Lisboa, 04 de Agosto de 2021

A. Domingos Santos


19 julho 2021

UNIÃO PROGRESSIVA - Um caminho de noventa anos


Há nove décadas, mais concretamente em 18 de Agosto de 1931, a imprensa regional, através de A Comarca de Arganil dava-nos a notícia que a seguir recordamos


A Colónia Colmealense em Lisboa vai constituir uma Comissão de Melhoramentos.

Uma semana depois, este trissemanário, em notícia subscrita por José Henriques d’Almeida, informava com mais pormenor:

«Está-se organizando em Lisboa uma comissão de melhoramentos da freguesia do Colmeal, formada por filhos desta importante região.

Muito há a fazer em benefício de tão esquecida freguesia, pelo que nos congratulamos profundamente com a simpática iniciativa do punhado de nossos patrícios que a concebeu e que podem trazer para o Colmeal um progressivo desenvolvimento.»

José Henriques d’Almeida viria a integrar, como Tesoureiro, a Direcção liderada por Joaquim Fontes de Almeida, eleita em Assembleia-Geral de 4 de Outubro, presidida por Joaquim Francisco Neves, secretariada por Francisco Domingos e Manuel João Miranda.

«O regionalismo bem compreendido é aquele que procura dar progresso e civilização às inúmeras localidades do país, aproximando-as cada vez mais dos grandes centros. Tudo que se faça com esse fim é altamente proveitoso, não só para as regiões beneficiadas, mas também para toda a nação de que elas são as células vivas que a alimentam tanto mais fortemente quanto maior é o desenvolvimento civilizador que atingem.

E ainda que se careça da acção do Estado para que esse desenvolvimento se torne uma realidade, o certo é que a iniciativa particular deve ser o movimento impulsor, competindo a ela intervir junto do Estado para que ele realize as obras necessárias ao desenvolvimento das localidades, freguesias e concelhos, contribuindo também directamente, quer pelo trabalho dos indivíduos, quer pelo seu auxílio financeiro, para a realização dessas obras.» Assim continuava a notícia em A Comarca de Arganil subscrita por José Henriques d’Almeida, que trabalhou nesta primeira Direcção com Marcelino de Almeida, Francisco Domingos, Aníbal Gonçalves de Almeida, José Antunes André e Manuel Martins.

«Como intermediárias dessa múltipla acção, surgem essas comissões de melhoramentos que nós vemos constituir-se na nossa região, as quais tomam a seu cargo estimular as iniciativas das terras a que dizem respeito, angariando fundos com que vão em auxílio das câmaras e juntas de freguesia, expondo as suas necessidades e instando pela realização dos melhoramentos que as terras precisam. Foi por conhecerem as vantagens que para o Colmeal podem advir, que alguns seus filhos, cheios de vida e de boa vontade pelo engrandecimento da terra, onde nasceram e que residem em Lisboa, se resolveram constituir-se em comissão para trabalharem em prol do Colmeal.

E assim propõe-se a comissão desenvolver directa e indirectamente a terra que lhes foi berço, levando às entidades competentes uma representação mostrando as obras urgentes de que necessita o Colmeal, como sejam as vias de comunicação, fontes, escolas, etc., etc., tudo enfim quanto é necessário ao engrandecimento dum povo.»

Quase a terminar e com grande esperança e forte convicção «Será sem dúvida notável a acção da nova comissão de melhoramentos do Colmeal e é de esperar que ela possa fortemente contribuir para o desenvolvimento desta freguesia, uma das mais importantes do concelho de Góis.»

A imprensa regional teve um enorme papel no apoio e na divulgação do trabalho da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, no decorrer destes noventa anos. Para além de A Comarca de Arganil, que aqui referimos, também O Varzeense e os extintos Jornal de Arganil e O Colmeal sempre tiveram espaço nas suas páginas para dar a conhecer o percurso, nem sempre fácil, do querer e da determinação de um punhado de lutadores empenhados no bem-estar e desenvolvimento nas suas aldeias.



Lisboa, 19 de Julho de 2021

A. Domingos Santos


04 maio 2021

BELEZAS(DES) E RIQUEZAS DA SERRA. VESTIDA DE AMARELO

A serra lembra uma manta de retalhos. Nuns sítios, em virtude das intervenções florestais de que foi objeto, noutros, devido ao matizado das cores com que se veste, especialmente de amarelo. Um amarelo em geral ralo, mas com manchas compactas e berrantes de giesta, que sobressaem do fundo algo neutro e pardacento.









Neste tempo, o amarelo da paisagem é uma combinação da flor da carqueja, com as da giesta e de uma das espécies de tojo. Na sequência dos incêndios de outubro de 2017, acontece que a carqueja ainda não atingiu a pujança arbustiva que tinha, enquanto a giesta se multiplicou exponencialmente, como as acácias. A chuva dos últimos dias, que desanuviou a atmosfera e refrescou a natureza, tornou o amarelo ainda mais luminoso e ostensivo ou não fora ele a cor da luz, do calor e da abastança, no caso frugal, traduzida na memória dos milheirais maduros. E na alegria da Páscoa recentemente celebrada!


Observada de perto, porém, o amarelo continua a destacar-se, mas inserido na mescla esverdeada da enorme diversidade de herbáceas e matos que povoam as margens das estradas, por vezes invadindo-as, estreitando-as, e tornando-as mais perigosas. Referindo apenas alguma dessa flora, a caminho do Colmeal e dele para sul, avista-se o branco singelo da flor do estevão, que pareceria um sargaço vulgar não fora o porte, e o azul retinto da singular giesta-azul (polygala microphylla) ou da discreta sargacinha, uma das muitas plantas a que chamam erva-das-sete-sangrias.





Para norte, nas proximidades de Torrozelas e Folques, saúdam-nos, modestas, a esteva e a giesta branca, a primeira com as suas (cinco) chagas, nome por que também é conhecida, a segunda, numa rara abundância, já que prefere os solos graníticos e quartzíticos.



Enquanto em algumas zonas a moiteira negra já desbotou com o calor de há uns tempos e a seca do vento quase diário, noutras, floresce do vermelho avinhado, a que a luz transformadora confere tons ora intensos e inebriantes, ora discretos e sóbrios.





De cor semelhante e igualmente da família das urzes, a queiró vai desabrochando, farta e chamativa, a moiteira branca ainda viceja. Há sítios onde uma outra espécie de tojo começa a enfeitar-se também de amarelo, impregnando o ambiente de um subtil aroma melífero. Por mais que tenha espreitado os interiores recônditos dos sargaços, não vi nem uma pútega!




Quem diria que apenas três anos depois de ter sido consumida pelo fogo, a natureza se encontraria longe de recuperação, é certo, mas já tão exuberante em beleza e riqueza?! A representar vida e um património e recurso natural inestimável, pelas suas propriedades e pela fruição estética e emocional que proporciona.

Infelizmente, a “feieza” e a pobreza - literais e cívicas -, também estão presentes nas curvas e contracurvas dos caminhos da serra. Proliferam traduzidas numa grande variedade de situações, de que se aborda apenas o lixo que desfeia e envergonha o território, particularmente, as bermas das estradas e os declives dos parques e refúgios de emergência. Quando é visível, uma vez que pode estar dissimulado pelos railes, ervas e matos circundantes, nas bermas pode ver-se em andamento, nos declives, é preciso parar e olhar lá para baixo.

Os sítios e a posição em que este lixo ponta do “iceberg” se encontra remetem para práticas e grupos sociais que tanto podem ser os mesmos como distintos. Assim: há lixo que se vê ter sido atirado pela janela dos carros fora, à laia de adeus; outro que se percebe ter sido trazido e despejado ali, como numa lixeira; outro, ainda, que é evidente ter sido deixado por quem esteve no lugar a trabalhar ou simplesmente a desfrutar do espaço, mediante pausa no percurso ou convívio programado.

No primeiro caso, encontram-se as mais diversas embalagens, nomeadamente de bebidas, entre as quais iogurte líquido, uma conquista do consumo, que o seu inventor jamais terá perspetivado tão poluente. Num determinado quilómetro de estrada, contei nove destes projéteis, admitindo que mais se encontrem escondidos nas ervas. Tratando-se de um troço com bastante movimento, presumo que o facto de ser plano facilite as tarefas de conduzir e beber ao mesmo tempo! Mas há de tudo: maços de tabaco, sacos e pedaços de plástico, sacos de ração e outros produtos, lenços e guardanapos de papel, máscaras… Num sítio, três faziam companhia umas às outras, uma de cada lado da via e outra acabadinha de aterrar sobre o traço contínuo! Já vi fraldas, mas não desta vez!


No caso da natureza usada como lixeira, há sacos com garrafas, muitos artigos indefinidos e material relacionado com setores concretos de atividade.


Por último, no campo do lixo deixado por utentes do lugar, avultam uma vez mais as embalagens e, por vezes, restos de consumíveis, como sejam os fios das roçadoiras. Neste domínio, foi particularmente chocante ver um espaço aprazível de lazer, que até tem contentor do lixo, poluído com latas, garrafas e descartáveis de plástico, inclusive dispostos, como se de um adorno se tratasse, na estrutura das alminhas existentes no local! Mas vi umas outras que penduravam elas próprias o saco para recolher os restos das velas ardidas!



Ainda que do mesmo não se espere grande inteligência ou cidadania, não se percebe como é que o lixo não consegue sair pelos mesmos meios com que chegou. Carro ou mochila que trás também leva! Hoje em dia há ecopontos em várias terras e contentores do lixo em todas. Quando basta um esforço mínimo, e as pessoas até pagam uma taxa para o encaminhamento e tratamento do lixo que produzem, não se entende a razão para tanto desrespeito pela natureza e pelos outros. A própria recolha dos lixos mais volumosos pode ser solicitada às Câmaras ou às empresas municipais para tanto vocacionadas.

Perante estas situações e a visão dos micro plásticos e outros produtos a infiltrarem-se no solo e a escorrerem para o oceano, contaminando-os, não consigo deixar de imaginar a serra e o planeta, em geral, atarefados e já nauseados, a digerir todos estes resíduos e impróprios para consumo, enquanto deveriam estar focados na vida e na criação das condições de beleza, bem-estar e riqueza de que todos carecemos!

Embora já não me compita fazer sugestões, sempre digo que a escola tem de continuar a insistir na formação cívica e ambiental das novas gerações, e estas na dos seus pais e avós. Como as autarquias, na formação dos agentes públicos e privados que operam no terreno, na sensibilização da população e na dotação dos espaços com recipientes apropriados. Revisitar e reativar a chamada política dos 3r’s (reduzir, reutilizar e reciclar) nunca será de mais e hoje, Dia da Terra, seria um bom pretexto para começar.

Nota. A observação relativa ao último assunto foi feita nas estradas Açor- Góis e Açor-Arganil, respetivamente, nos dias 2 e 5 de abril. Por serem tão inestéticas, das fotografias tiradas incluem-se apenas quatro.


Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 22 de abril de 2021.

14 abril 2021

N’ O COLMEAL, TERRAS EM POESIA

Volto hoje ao boletim paroquial O Colmeal. O boletim foi fundado em fevereiro de 1960 e publicou-se até agosto de 1982. Para além da então freguesia do Colmeal, referia-se também à de Cepos, por o pároco ser o mesmo.

Conforme assinalava oportunamente (“O Colmeal e a História do Colmeal”, 9, 16 e 23 jan., 2021), nos primeiros tempos, o boletim publicava regularmente poesia, prática que ia ao encontro do gosto pelas rimas, versos e romances da literatura popular. Subordinada à mensagem, em geral, a mesma fazia parte integrante da estrutura informativo-formativa. Predominava a poesia de cariz religioso e edificante, mas havia secular, nomeadamente alusiva às diferentes aldeias. São estas “quadras”, na designação do boletim (fotos 3 e 5), que venho recordar.

As “quadras” foram reproduzidos a partir do jornal, razão que justifica a diferente apresentação. Algumas foram objeto de montagem para facilitar a leitura, constando em todas o autor e o número de O Colmeal onde podem ser encontradas. Inserem-se por ordem alfabética das terras a que respeitam, e por data, sempre que são duas ou mais.

Com esta coletânea de preciosidades telúricas, pretende-se, por um lado, enaltecer o boletim e o mérito dos seus colaboradores, por outro, contribuir para a coesão e a proximidade das localidades, que ele promovia. Lembro que este trabalho decorre da leitura dos primeiros cem números, pelo que, salvo duas exceção, não integra eventuais produções posteriores.

A poesia surge logo no primeiro número e na primeira página de O Colmeal, a anunciá-lo como expressão e presença da terra natal, numa época em que o apego às origens persistia indelével para muitos, apesar da mobilidade e das distâncias. “A nossa terra é sempre a nossa terra! Por isso, nós temo-la no coração e ela tem-nos no coração dela”! Muito bonito e significativo!

 


As “quadras” alusivas às aldeias surgem por iniciativa de autores e, só mais tarde, por estímulo e desafio do pároco, como digo no artigo supramencionado. Apontam neste sentido as situações anteriores à chegada do Pe. António Diniz, em finais de 1965 (apresenta-se no nº 63, nov., 1965 e despede-se no nº 86, outº., 1967).

A refletir a dupla inserção geográfica e social das comunidades, e a intensidade da relação entre ambas, os autores são residentes e ausentes, a maioria naturais das terras. Em linha com as dinâmicas migratórias e a realidade demográfica delas resultante, os residentes tendem para ser mulheres, os ausentes, homens. Alguns usam iniciais, outros assinam com a denominação dos naturais das localidades, pelo que nem sempre se conhece a sua identidade. A poderem-no fazer, seria interessante partilharem agora connosco essa sua experiência de criatividade, quem sabe, se escrever de novo?

Num contexto inclusivo da poesia, em que relevam autores como Clarisse Barata Sanches e A. Jesus Ramos, as aldeias aparecem com o número 50, onde um “Adelense” exprime, com grande sentimento e muito comoventemente, o chamamento da terra e a profundidade dos laços que a ela o prendem. Na altura, ainda o regresso era indissociável da partida, embora, na sua geração e por razões supervenientes, já poucos o tenham concretizado! Ádela é, de resto, a povoação mais cantada, sendo-o por ausentes, residentes e um oriundo, na autoidentificação do próprio. Aldeia Velha e Malhada também surgem duas vezes. Sem que seja por falta de poetas, há povoações omissas.

As “quadras” são eloquentes a falar da geografia e da paisagem, dos modos de vida e do destino migratório (“ …se um dia me for embora …”), da interação entre os que partiam e os que ficavam, do enlevo com que as terras eram vistas e sentidas ... Um caso, pelo menos, já revela a atual apropriação urbana das aldeias como reserva ambiental e espaço aprazível de lazer e transitoriedade. De qualquer modo, na expressão de A. Correia de Oliveira, igualmente retirada de O Colmeal, “… as saudades são olhos/ E fazem de longe perto …”.



Independentemente da estética, este labor lírico funcionou, certamente, como fator de autoestima e reforço da pertença a cada lugar, ao mesmo tempo que promovia a afirmação do conjunto que o boletim representava, agregando e aproximando. Podendo parecer contraditório, o facto é que, apesar de cada povoação se poder erigir internamente como “micropátria” [1], para fora e em contextos mais alargados, não deixava de referenciar-se à freguesia e ao concelho, se não à então chamada, e mais conhecida, região de Arganil.


Resta-me acrescentar a menção já feita no artigo anterior de que o desafio das “quadras” contribuiu, igualmente, para o desenvolvimento da participação, da criatividade e da escrita, dimensões que devem ser sublinhadas, pela importância de que se revestiam. E revestem.

É a segunda vez que me refiro a conterrâneos poetas. Na primeira (http://upfc-colmeal-gois.blogspot.pt/, 14 de dez. 2016), falava de Manuel Alves Caetano Júnior, Felisbela de Almeida Fontes, José Fernandes de Almeida e Josefina Almeida. Entretanto, estando ainda de parabéns, Josefina Almeida e José Fernandes de Almeida publicaram, respetivamente, os livros “Marcas da Vida” (LXª, 2018) e “Memórias de Poesia e de Prosa” (Lxª, 2020), enquanto Armando Jacinto de Almeida comentava no próprio blogue:


(…) A poesia é uma arte muito dotada,

Eu a escrevo, com uma alta limitação...

Mas se eu pudesse pintar, pintava,

As nossas aldeias, em forma de coração...

(…)

A terminar, encontrei um poema de Maria Antonieta F. Almeida, que me permito incluir nesta homenagem. Chama-se “Mensagem” e não alude a uma terra em particular, mas ao dever da felicidade na terra de todos nós.















 

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, fevereiro 2021.



[1] No conceito da investigadora Maria Beatriz Rocha-Trindade: “As micropátrias do Interior português”, Análise Social, nº 98, Univ. de Lisboa/ISCTE, 1987, pp. 721-732.