sábado, 17 de março de 2018

INTERDEPENDÊNCIAS



Muito a serra tem chorado! De emoção e agradecimento, tão sedenta estava da chuva, mas também de medo. Medo de mais perder e se perder, arrastada pela impetuosidade do pranto, na nudez forçada e desvalida em que se encontra. Sem nada que as demore, as gotas frias e soltas juntam-se rapidamente em riachos truculentos que se despenham declive abaixo, primeiro magros e pardacentos, depois fartos e branquejantes. Antes, porém, não raro limpam do fusco as púcaras que o fogo destapou, deixando ler que vieram da já desaparecida cerâmica da Carriça, em Coja, e lembrando a exploração resineira, que tanto impacto social e económico teve na região.







Pelo caminho, desobedientes e ingratos, ignoram os barrocos e valados que os antigos construíram para os acolher e desviar dos terrenos que cultivavam nas rugas e fraldas da serra. Pedra a pedra, milhões delas, direitos ou enviesados, distâncias enormes, barrocos que marcam a paisagem e configuram a engenharia de uso no seu melhor! Também podem ser eles ou os respetivos aquedutos a ficar obstruídos, tantos os inertes e lenhosas que a água transporta.







Nos terrenos invadidos, os sulcos rasgados são extensos e profundos, algumas das lajes que faziam de estrema desapareceram, a água escorre das paredes que sustentam os cômoros, fazendo-as perigar, o cascalho amontoa-se. Perdas materiais e simbólicas assinaláveis, considerando a escassa dimensão do património!












Entretanto, dessedentadas, há plantas que brotam audazes, ervas que verdejam teimosas, árvores recém-plantados por gente fiel à terra, resiliente e laboriosa.


Pós-incêndios, é a segunda vez que aludo à interdependência entre o homem e a sua envolvente natural e entre os diferentes elementos da natureza. Nunca será de mais, na iminência que dizem estarmos de fenómenos ambientais e atmosféricos cada vez mais extremos e frequentes. Desfeitos os laços …
Algumas fotografias refletem as circunstâncias nubladas e cinzentas dos dias a que se referem.

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 8 de março de 2018

3 comentários:

Domingos Nunes disse...

Excelente trabalho.
Parabéns à autora.

Anónimo disse...

Fantástico! Quantos caminhos, levadas e poços ficaram à vista, testemunho do labor, da determinação, da perseverança, da luta diária pela sobrevivência dos nossos antepassados, ao longo de gerações... será lamentável mas, decerto, ficarão condenados ao esquecimento ao longo das próximas primaveras.

Deonilde Almeida

Anónimo disse...

Val

E muito triste o que aconteceu.

Porém existe uma frase de uma canção francesa que diz:
“... des terres brûlées donnent bien plus des blés que les meilleurs avrils...”

“... são as terras queimadas que dão mais trigos ...”

A natureza vai retomar o espaço dela.

Com fé em Deus. Amém.