sábado, 23 de dezembro de 2017

INCÊNDIOS DE OUTUBRO. DOIS MESES DEPOIS


Ardeu a 16 de outubro, mas em aldeias próximas já tinha ardido no dia e na semana anteriores. Dois meses depois, persistem o luto e a tristeza da serra, das terras e das almas, sem tréguas ou fuga possível, ande-se para sul, norte, nascente ou poente. Perdas incomensuráveis, inenarráveis, irreparáveis, nomeadamente nos campos da memória, da biodiversidade e do património construído.


O território parece outro, na crueza das suas escarpas xistosas e na evidência do papel do homem na construção da paisagem. Desaparecido o denso manto verde que o cobria, veem-se por toda a parte penhascos novos (!), caminhos antigos, barrocos que desviavam as águas dos terrenos de cultivo, “combâros”, socalcos magros que protegiam da erosão e asseguravam mal o sustento frugal das pessoas, currais agora transformados em ruinas.



Nos olivais, a azeitona jaz no chão atormentada, sem ter dado ao mundo a luz que prometia. Nas zonas de pinhal, o chão e as estradas acastanham da caruma caída, uma ameaça escorregadia como gelo. As árvores de fruto ou continuam de pé desamparadas ou já foram decepadas, umas quase rentes para que renasçam vigorosas, outras mais por cima, tudo dependendo do método de recuperação defendido. Muitas não o farão, tão fundo o fogo cavou em seu corpo indefeso, jovem ou centenário. As feridas abertas lembram bocarras medonhas e frias.








Até agora, choveu muito pouco. Todavia, sem vegetação que retenha a água e a faça penetrar no solo ressequido, o suficiente para somar devastação à devastação. Apressados, negros e lamacentos, os caudais formados precipitaram-se serra abaixo, destruindo terrenos e atolando estradas e rios.

Mas há indícios de esperança! As ervas e os fetos que despontam pujantes a verdejar de diferença, o “tertulho” sem par desabrochado de um fungo que resistiu ao fogo e ao calor intenso, milhares e milhares de formigas amontoadas a manifestarem-se. Por serem assim ou em sinal de desagrado, apresentam o ventre vermelho. Lentamente, as aves que restaram – talvez 5% dos efetivos habituais – vão retomando as suas rotinas, umas usando a água gelada para se limparem da experiência, outas debicando no comedouro novo, criação em xisto com que o Valdemar as brindou. Não chilreiam, ainda mudas de incredulidade e pavor. Sobre os outros animais, há quem diga ter visto um esquilo à procura de castanhas cruas, uma mãe javali com as crias muito enfezadas, uma raposa morta na beira da estrada … Enfim, é a natureza a refazer-se, com o poder regenerador e a generosidade de que os homens ainda a não privaram. Para as cabras, a ADIBER tem trazido comida, de um produtor solidário chegaram dois porquinhos. Muito bonito.











De resto, no que dos humanos e das instituições depende, nada mais aconteceu. Falando apenas da nossa localidade de residência, onde ardeu até dentro de casa, mas apenas uma segunda habitação se perdeu: a água que faltou continua insuficiente; os tubos que arderam, entrapados ou disformes à vista; as bocas-de-incêndio, inexistentes; as telecomunicações ausentes; a floresta consumida, de pé, à espera de mão amiga que a lance à terra e remova, para que possa renascer.


Lisete de Matos

Açor, Colmeal 19 de dezembro de 2017.

2 comentários:

Orlando Sousa Santos disse...

Sem comentários ... porque tudo o que se diga sabe a conversa circunstancial perante tão belo texto e tanta beleza triste.

Rosário Cardoso disse...

Obrigada pelo texto e pelas fotos, fico triste porque conheço a zona e ver essa paisagem faz doer o coração, tenho esperança que volte a ficar tudo verde e bonito, mas sei que vai levar tempo
Rosário Cardoso
4 Janeiro 2018