sexta-feira, 17 de junho de 2011

O MEU PRIMO E AS ANDORINHAS: UMA HISTÓRIA DE BONDADE


Chegaram em meados de Março, antecipando-se à Primavera e anunciando-a. Quando o meu primo (1) as viu pela primeira vez, voavam junto ao teto da sala, observando-o curiosas, com os grandes olhos negros que lhes iluminam o rosto. Pareciam cochichar: “tche”, “tche”, “tche”, “tche…”. Eram andorinhas-das-chaminés, que são das primeiras aves estivais a chegar, e que se distinguem das restantes espécies principalmente pelo pescocinho vermelho (2). Comparativamente com outras mais agitadas e barulhentas, são andorinhas muito delicadas e serenas. Depois de lhes censurar o atrevimento, o primo abriu-lhes a janela, e foi-se embora. Elas continuaram com o “tche”, “tche”, “tche”.

- Vês, não te disse que ele é muito simpático? Diriam os meus irmãos mais novos que é bué de …Tu sabes! Este é mesmo um bom sítio para fazermos ninho, e termos os nossos filhos. Se não gostas da sala por causa das notícias tristes da televisão, vamos para o vão das escadas. Lá, as paredes até são melhores, são mais rugosas.

- Tens razão, quanto à simpatia. Só acho o sítio perigoso por causa dos gatos do vizinho. Se até ao primo roubam comida depois de ele lhes levar panelões dela, imagina o que farão connosco se nos apanham! Além disso, a casa parece ser muito movimentada. Está sempre alguém a chamar … Nunca vi pessoa tão solicitada e solícita! Mas é contigo.

Competindo ao macho escolher o sítio para nidificar, a fêmea pode recusá-lo. Esta, porém, não o queria fazer. Apaixonada que estava, depois de se ter deixado seduzir pelas longas e belas guias caudais que ele exibia a prometerem resistência e longevidade, só desejava que tudo corresse bem. Teriam muito tempo para problemas nos próximos quatro ou mais anos de vida em comum.

Instalaram-se nas escadas, entrando e saindo por uma das janelas abertas do pátio. Levantavam-se cedo para apanhar insetos apetitosos voando, e ficavam por ali a rodopiar conversando, tche, tche, tche, tche, tche, tche. Quando pousavam nos fios que desfeiam a terra, era vê-los a deleitarem-se com o sol morno da manhã, espiolhando o corpito franzino. Por vezes, brincavam com as andorinhas-dauricas que passavam. Tratar do ninho é que nada! Era como se quisessem aproveitar bem os restos da lua-de-mel e da juventude apressada. Em casa, bico com bico, beijavam-se ternamente.



Quando finalmente começaram a recolher terra molhada e água, foi um esforço gratuito! Por falta de experiência ou porque o material era muito arenoso, tudo lhes caía do bico e das patas, e o ninho nunca mais ganhava a forma de meia taça que deve ter.

Preocupado com a desmotivação que o insucesso repetido pode causar, o primo decidiu ajudar, colocando umas prateleiras na parede e, sobre elas, pratos com barro e água.

- Tolinho! Como se precisássemos de ajuda! Somos pequenos, mas não somos inválidos! Isto dizia a fêmea, algo despeitada e um tanto ou quanto desiludida com a imperícia do marido que era igual à sua. Mas o primo insistiu, disponibilizando-lhes ráfia, e passando a molhar o barro todos os dias. Atento, o macho decidiu intervir.

- Ó cachopa, este impasse não pode continuar. Não é que eu não queira trabalhar, mas já estou farto, e tu também, embora não o queiras admitir. Por mim, deixava-me de arrogâncias bobas, e aceitava a ajuda do nosso amigo. Já viste? A ráfia cortada em bocadinhos miúdos como os nossos bicos e o barro amassado, tudo à mão de semear?

A fêmea entristeceu, duvidosa. Crescera numa família tão esforçada e persistente que a atitude do marido lhe soou a desistência e facilitismo. Sensata e racional, porém, pensou: “Por que não aceitar a ajuda de alguém que tanto nos estima? Que mal virá daí ao mundo? Não é suposto os seres vivos respeitarem-se e ajudarem-se mutuamente?” Embalada pela premência da maternidade iminente, chamou o marido, e retomaram a construção do ninho usando o material fornecido. Desta vez com sucesso! Orgulhosos e felizes, os dois abraçavam-se chilreando promessas de amor: “tche”, “tche”, “tche”, “tche”, “tche”, “tche” … As andorinhas desta espécie casam para a vida e são socialmente monogâmicas. Geneticamente podem ser poligâmicas, exatamente como outras espécies! Para evitar a infidelidade, os machos guardam as fêmeas, mas não consta que elas os guardem a eles!



Em inícios de Maio, a fêmea passou a ficar no ninho, que abandonava apenas para ir comer. Sabia que estava a cumprir as leis da natureza e os deveres de boa esposa, mas sentia-se só, muito só, no desempenho sozinha daquela responsabilidade. Frequentemente, o macho fazia-lhe companhia, “tche”, “tche”, “tche”, enquanto lhe contava o que vira lá fora: a luta inglória dos habitantes da terra contra as ervas daninhas, as dificuldades e faltas de que se queixam, os achaques dos mais idosos, a azáfama das abelhas a recolherem alimento polinizando as plantas, a trovoada ribombante que faiscava no céu apavorando o pobre do cão Catita … Um dia regressou a rir-se.

- Hi, hi, hi … Como de costume, acabo de fintar o parvo do gato. Aquele e os outros ficam ali assolapados em cima do muro, praticamente de boca aberta à minha espera. Depois, ficam é boquiabertos com a velocidade do voo rasante com que eu lhes passo por cima. Até o pêlo se lhes eriça! Hi, hi, hi …

- Deixa-te de gabarolices e tem mas é cuidado! A minha mãe sempre me disse que os gatos são muito espertos. Não é por acaso que os nossos amigos passam a vida a espantá-los. Se ele te apanhar, como é que eu vou criar os nossos filhos? Além disso, seria uma vergonha morrer correndo riscos desnecessários!



Os “Pequenos” nasceram passadas duas semanas. Eram quatro pescocinhos e gargantas vermelhas, que se esticavam e abriam famintos, língua de fora, mal cibalho se aproximava ou a luz das escadas se acendia. Apesar do vaivém incessante dos pais, nada parecia saciar o apetite devorador daquelas criaturas minúsculas. Apetite que continua, a exigir dos pais extremosos um número incontável de corridas por dia atrás de insetos distraídos.

No início, a mãe dormia com as crias para as manter quentes e proteger. Agora que já vestem uma penugem escura, e quase não cabem no ninho que estão prestes a deixar, vai dormir com o marido pendurada na parede. O “tche”, “tche”, “tche” … carinhoso que se ouve é o casal a discutir se dá para terem mais uma ninhada de filhotes. Talvez os “Pequenos” os ajudem a criar. Para já, antes que armem em trapezistas destemidos e se aleijem, têm panos por baixo do ninho a servir de rede.



Nunca antes se tinham visto andorinhas a nidificar na aldeia. Penso que vieram atraídas pela bondade do anfitrião que escolheram, conforme já antes fizeram cães e gatos carentes. Como souberam? Abençoado mistério que explica a alegria e o privilégio da presença das aves.

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 7 de Junho de 2011.

(1) Nome omitido em prol das aves.

(2) CISE (Centro de Interpretação da Serra da Estrela), Manual de Identificação das Andorinhas, Município de Seia/SISE, 2004 (disponível na Internet).

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