quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

COLMEAL. BODO 2017



Celebrou-se uma vez mais o Bodo, no Colmeal. Teve lugar a 21 do corrente, com organização das localidades de Colmeal, Sobral, Saião e Salgado.

Para não me repetir em relação ao que disse em anos anteriores, recordo apenas que o Bodo é uma celebração em louvor do mártir S. Sebastião, santo protetor da fome, da peste e da guerra. Data de tempos idos, quando as populações prometeram todos os anos dar um bodo aos pobres se o santo as protegesse e livrasse da peste, que as dizimava. Concretizado o milagre, a celebração realiza-se em várias localidades do país, envolvendo rituais e a partilha de géneros distintos, o que aponta para a transversalidade da epidemia.

Tratando-se de um evento que evoluiu de religioso para profano-religioso, as duas vertentes decorreram de modo muito harmonioso e consistente. Mais cheia do que habitualmente, a i(I)greja refulgia de contentamento e os cânticos soavam mais densos e cativantes. Já na procissão, descendo e subindo pela rua central, era a fantástica tessitura vocal da D. Ilda que sobressaia.





A elevada participação de residentes e naturais ou oriundos de diferentes localidades reflete o apego de muitos à tradição, por nostalgia ou apreço pelas funções de afirmação e convívio que foi adquirindo. A propósito, devido à importância de que se reveste, nomeadamente com vista à continuidade da tradição, é de assinalar a presença das coletividades, representadas por membros dos seus órgãos sociais. Igualmente de assinalar, é a presença no convívio do padre Carlos Cardoso, uma honra e um sinal de disponibilidade interessante, por parte de um pároco tão sobre ocupado.

Do alto do seu andor, S. Sebastião presidia à festa, regozijando-se com a abundância de hoje, e observando, compreensivo, a atração que a mesa farta exercia sobre os convivas. Pudera! Àquela hora e com aquele frio! As filhós estavam ótimas, tudo o resto também, dizem-me.






Entretanto, na escada de onde assistia, valia ao Santo a companhia das crianças e jovens para quem, felizmente, o Bodo configurará um estranho gosto e imperativo dos mais velhos.





Para alegria dos apreciadores do seu gesto, a D. Silvina lá estava a distribuir simpatia, café quente e bolos, alvos de grande adesão e merecido agrado. Um encanto, agora ajudada pela Maria Cecília, sua filha! Que o possam fazer por muitos, muitos anos!


O Bodo corporiza e reflete muitos dos traços que distinguem a Beira Serra, na dualidade da sua formação por populações residentes mas essencialmente móveis, na existência dividida das gerações mais velhas entre a cidade e a aldeia, o presente e o passado, modos de vida e realidades sociais diferentes. É, assim, uma tradição cuja evolução importa acompanhar.


Uma vez que no Colmeal o Bodo é rotativamente oferecido pelas diferentes localidades, individualmente ou por grupos (Colmeal, Sobral, Saião e Salgado; Ádela e Açor; Soito; Malhada e Carrimá; Aldeia Velha; Carvalhal) no próximo ano, o mesmo será organizado por Ádela e Açor. Até lá, repetindo-me, que S. Sebastião nos guarde das novas e mortíferas formas de peste e guerra, das fomes de pão e de todas as outras.

Para mais informação sobre o Bodo no Colmeal poder-se-ão reler os artigos de 2012 e 2015 em: http://upfc-colmeal-gois.blogspot. com, 11 de fevereiro de 2012; A Comarca de Arganil, 23 de Fevereiro de 2012; http://goismemorias.weebly.com/o-bodo.html; http://upfc-colmeal-gois.blogspot.pt/2015/01/o-bodo-no-colmeal-2015.html, 24 de janeiro de 2015; O Varzeense, 30 de janeiro de 2015.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 25 de janeiro de 2017


1 comentário:

António Santos disse...

Bem-haja aos que, com a sua devoção e o seu trabalho, fizeram com que a tradição se mantivesse. Que assim continue por muitos anos. E que haja quem registe, com tanta mestria, como mais uma vez aqui foi feito neste espaço, o cumprimento de uma promessa.