28 setembro 2021

“Histórias de vida da nossa gente”


Francisco Domingos, “O Mouraria”


Estamos em 1910. Em abril, nasce no Colmeal o terceiro filho de Benjamim Domingos e de Maria Olinda.  Será batizado com o nome de Francisco[1].

Estava-se ainda em monarquia e, por essa altura, as grandes cidades, sobretudo Lisboa, capital do reino, vivem dias agitados, de revolta iminente. Dois anos antes, em 1908, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro do trono, D. Luis Filipe, tinham sido assassinados – o governo de ditadura de João Franco, com o apoio régio, tinha reforçado a consciência popular de que era preciso mudar. E mudou!

Lá para o final do ano, a 5 de outubro de 1910, as forças republicanas vencem finalmente os que se mantêm fiéis ao jovem rei, D. Manuel II, que parte para o exílio. Em Lisboa, é anunciado à população o fim da monarquia e a implantação de um novo regime – a República – recebida com grande euforia e expectativa de mudança[2].



A Constituição aprovada em 21 de Agosto de 1911[3], garantia direitos inacreditáveis, ou mesmo incompreensíveis para o cidadão comum…

…Que a Lei passaria a ser igual para todos; que a República não admitia privilégios de nascimento nem foros de nobreza; que cada um poderia praticar livremente a sua religião; que o ensino primário passaria a ser obrigatório e gratuito; que as pessoas poderiam reunir-se ou organizar-se livremente em Associações e expressar a sua opinião; que os cidadãos não poderiam ser sujeitos a castigos físicos e humilhantes; que ninguém poderia ser preso sem culpa formada… e tantos mais!

O poder, deixaria de ser transmitido de pais para filhos!   Com este novo regime, os governantes seriam escolhidos pelos eleitores, através do voto. Eram tantas as expectativas… Agora, a Nação poderia desenvolver-se!

Entretanto, o Colmeal, no seu isolamento e distância, segue ao ritmo das sementeiras e das colheitas, numa economia pobre, de subsistência, ano após ano… – ali não se esperava desenvolvimento, ali não havia futuro!

Sair… para Lisboa ou para o estrangeiro, era o sonho daqueles que se recusavam a perpetuar uma luta inglória, que já tinha sido a de seus pais e avós.

Sair… e procurar longe o que lhes negava a terra onde nasceram e onde queriam descansar na velhice.

Sair… em busca de um futuro melhor, para os seus filhos.

No verão de 1916, saíram muitos rapazes, mas não como sonhavam.  Foram mobilizados para o Serviço Militar Obrigatório – Portugal entrava na 1ª Grande Guerra. Perante as senhas de racionamento de alimentos e outros bens de primeira necessidade, esfumou-se o sonho de progresso. Os tempos eram de pesadelo, não de sonho.

No Colmeal, as privações geradas pelo racionamento foram especialmente duras, pois o que se arrancava à terra já mal dava para alimentar a família.




Francisco Domingos, por essa altura, era ainda criança, quase em idade escolar. No Colmeal frequentou a escola primária. Terá tido o privilégio de ter, como professor, António Joaquim das Neves, colmealense que, no final da carreira, foi homenageado pelos seus alunos de Sintra? Era um homem de sólidos valores humanistas e republicano convicto, cujo caráter decerto inspirou os seus alunos [4].

Fernando Costa diz que Francisco “foi para a capital ainda moço”[5]. Que sonho teria, quando partiu ainda jovem para Lisboa?




Acolhido em casa de conterrâneos, viveu na Rua João do Outeiro. Depois, na Rua do Capelão, aqui sob a asa protetora da sua tia Maria Inocência, “Mulher da Fava-Rica”[6]. Era uma família alargada, como era hábito na época, entre a comunidade migrante de colmealenses sob o mesmo teto, viviam várias gerações e ramos familiares.  Passado algum tempo, mudaram para um 3º andar da Rua do Benformoso. Sempre no bairro popular lisboeta que lhe daria a alcunha – Francisco Domingos «O Mouraria».  

Em 1931, era já numerosa “A colónia colmealense em Lisboa”, referida no artigo publicado n’A Comarca de Arganil, em Agosto desse ano.


Fonte de imagem: Arquivo da UPFC



As “Comissões de melhoramentos” davam os primeiros, tímidos, passos e dois homens humildes – Abel Joaquim de Oliveira e o seu amigo José Antunes André – lançaram aos conterrâneos o desafio de se criar uma “Comissão” para a sua freguesia – nascia a UPFC-União Progressiva da Freguesia do Colmeal. Num verdadeiro espírito democrático, “nessa Comissão entrará um natural de cada povoação”.

Era “Gente humilde, de pouca cultura, mas imbuídos de um espírito lutador e de uma vontade indomável, que ao longo dos anos tudo fizeram para trazer para as nossas aldeias os sinais de desenvolvimento que viam por outras paragens”[7]

Nunca é demais recordar que, ao empenho destes homens, “se ficaram a dever as estradas por onde circulamos, a água que consumimos, os lavadouros que tanto facilitaram a vida às mulheres, a eletricidade, o telefone e muitas pontes e pontões que encurtavam distâncias e aproximavam as pessoas”, como refere Lisete Matos[8]

Francisco Domingos, com 21 anos, foi um dos seus fundadores. Porém quando, um ano depois, em 1932, “A Comarca de Arganil” noticiava que a UPFC comemorava o seu 1º aniversário e os membros dos corpos gerentes e sócios que participaram no almoço comemorativo, são solenemente fotografados, para a posteridade, Francisco Domingos não está presente. Andaria o seu espírito ocupado já com outras lutas?




Fonte de imagem: Arquivo da UPFC

Viviam-se, de novo, tempos muito conturbados. O Golpe de Estado de 1926 pusera fim à 1ª República. Salazar chegara ao poder e governava em regime de ditadura. Novamente a ditadura!



Deixou de haver liberdade de expressão do pensamento. Todas as publicações passaram a ser inspecionadas pela Censura e, qualquer notícia que, apesar de verdadeira, pudesse dar uma imagem menos elogiosa do país ou do governo, era riscada e proibida a sua publicação. O seu autor, corria ainda sério risco de passar a ser vigiado pela Polícia Política. Todas as publicações tinham de exibir a menção de terem sido aprovadas por aquela Comissão.

É que, recorda Fernando Costa, “As ditaduras de esquerda ou de direita têm sempre algo em comum: eliminam as liberdades públicas. (…) Igualmente não se desenvolve a cultura, pois quanto mais atrasado for um povo mais fácil se torna dominá-lo.” [9]

A Polícia Política fomentava a denúncia, semeando a desconfiança entre amigos, entre familiares. Uma brincadeira, uma anedota contada em “conversa de café”, podia terminar numa esquadra, “para averiguações”, que podiam prolongar-se por muitos meses ou mesmo anos, sem julgamento.

As revoltas sucediam-se, com elevado número de mortos, feridos, presos e deportados para Angola ou para uma das prisões privativas da polícia política: Aljube e Caxias em Lisboa, os fortes de Peniche e de Angra do Heroísmo, e, mais tarde (1936) a “Colónia Penal” do Tarrafal, em Cabo Verde.

Assim, se era proibido publicar opinião diferente, ou informar e esclarecer a população, a forma encontrada de o fazer foi através de folhas soltas, impressas – os panfletos – que se distribuíam às escondidas, clandestinamente, com grande risco para quem os escrevia, imprimia e distribuía.

Talvez a família não soubesse que “Francisco Domingos era, clandestinamente, distribuidor de panfletos políticos. Estes eram escondidos no fundo falso de um banco de cozinha, já antes da sua distribuição, já após, os que sobravam.” [10] Mesmo que alguém soubesse, calava! Nunca se sabia quem estava à escuta…

António Domingos Santos, lembra-se de ter ouvido, em criança, sua mãe contar que «… uma vez, entraram aqui uns homens, gritaram para ficarmos quietos e andaram à procura de uns papeis que achavam estar escondidos cá em casa…».

Desconhece-se quando, onde ou com quem adquiriu consciência política. Talvez nos tempos em que foi operário na Carris… o certo é que, em 2 de fevereiro de 1935, ainda não tinha completado os 24 anos, foi detido, pela primeira vez, pela PVDE[11].

O ano seguinte foi passado entre a cadeia do Aljube, a Fortaleza de Peniche e novamente o Aljube. Por essa altura, o Aljube aprimorava, com “requinte”, as condições de alojamento dos detidos – eram os tristemente famosos “curros”, celas de solitária, praticamente sem luz, com pouco mais de 1,20m por 2,20m. Um catre basculante servia de cama – quando descido, não sobrava espaço –, coberto com uma serapilheira e duas mantas.

Para esta prisão eram enviados os detidos “sem culpa formada”, sendo entregues aos torturadores para interrogatório, no 4º piso ou na sede da polícia política, na Rua António Maria Cardoso, ao Chiado. E, “sem culpa formada”, não foi só gente humilde que por lá passou. Por lá passaram homens das mais diversas profissões, alguns de nome bem-sonante – Arlindo Vicente, (candidato à Presidência da República em 1958, que desistiu para Humberto Delgado), o historiador Borges Coelho, o ativista católico Nuno Teotónio Pereira, o jornalista Raul Rego, Mário Soares, o pintor Júlio Pomar…

Ninguém pode ser preso sem culpa formada”… garantia a Constituição aprovada na 1ª República. Nesse tempo, em 1911, a Constituição era a Lei soberana, mas a soberania agora era de um homem só – era o tempo de “quero, posso e mando”. Estava-se em ditadura…

Quando, finalmente, foi levado a julgamento no Tribunal Militar Especial, foi condenado a 18 meses de prisão e à perda de direitos políticos, por cinco anos. Mais tarde, considerando que já tinha cumprido a pena, pediu que fosse restituído à liberdade.

A decisão superior é, no mínimo, surpreendente: “Indeferido, por continuar em prisão preventiva”, sendo enviado para o Forte de Caxias. Estava-se em ditadura…


Extrato da Ficha de Francisco Domingos, na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, mais tarde PIDE)

(Fonte de imagem:  Arquivo Nacional da Torre do Tombo)


Em outubro desse ano, foi ainda transferido para Angra do Heroísmo – outra prisão privativa da polícia política. Regressou cerca de dois anos depois, sendo então restituído à liberdade.

Finalmente livre! Assim, ele pensava…



Fonte de imagem: António Domingos Santos

Talvez por altura do Natal, enviou uma fotografia ao seu primo, António Domingos Neves que, como ele, fora fundador da União. No verso da foto, uma mensagem enigmática:

  “Bem certo que os Natais brevemente se apresentarão mais felizes, ofereço-te com um efusivo abraço este pedaço de papel”

Seis meses depois, em junho de 1939, era preso “para averiguações”, ficando incomunicável, tendo sido levado, novamente, para a cadeia do Aljube. É então fotografado de frente, de lado e de perfil, para os arquivos daquela polícia política.

Será restituído à liberdade no mês seguinte, em 24 de julho de 1939.

O sorriso tímido tinha-se perdido… algures entre o Aljube, Caxias e Peniche? Era agora um homem precocemente envelhecido. Tinha 29 anos.



Extrato da Ficha de Francisco Domingos, na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, mais tarde PIDE)

(Fonte de imagem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo)

 

O tempo era de conflito. Terminara a Guerra Civil de Espanha (1936/39) mas a 2ª Grande Guerra começaria em setembro desse ano. Portugal não estava diretamente envolvido, mas a população portuguesa, sofreu grandes privações e o racionamento de bens essenciais.




Francisco Domingos, recuperando a liberdade, retomou a filiação na UPFC, mas afastou-se de Lisboa e dedicou-se ao comércio – abriu uma mercearia na pequena vila de Sobral de Monte Agraço, a cerca de 40 km de Lisboa. Talvez tenha aprendido o negócio com o seu irmão Samuel, na pequena mercearia da Rua do Capelão, na Mouraria, onde viveu.



Antiga mercearia de Francisco Domingos (Sobral de Monte Agraço)

Fonte de imagem: António Domingos Santos


O Sobral de Monte Agraço era muito longe, para as estradas da época! Desse tempo, apenas se sabe que a camioneta “da carreira”, depois de passar por Alhandra, Vila Franca de Xira e Torres Vedras, deixava finalmente ao seu cuidado as encomendas que trazia, de Lisboa, para as pessoas da terra.  

Na zona central do Sobral de Monte Agraço, no meio da pequena praça, um coreto sugere memórias festivas. Mesmo ali ao lado, junto ao chafariz de que tomou o nome, um simpático e acolhedor restaurante atende hoje a clientela, como noutro tempo o fez, no mesmo local, Francisco Domingos. Por ali, ainda há quem se lembre dele e recorde a sua mercearia-taberna, tão ao jeito da época.


Em tempo de “senhas de racionamento” e sendo dono de uma mercearia, deve ter sentido de forma especialmente dolorosa o engrossar do “livro de fiados”, onde se registava o que cada um adquiria “fiado”, como era usual naquele tempo, nos meios mais humildes. Pagariam no final da quinzena, no fim do mês… ou quando tivessem dinheiro.

Dessa pequena vila, diz-se que “No século XX, as mudanças dos ciclos políticos, através da luta pela implantação da República e, mais tarde, pelo restabelecimento da democracia em Portugal, tiveram um enorme impacto em Sobral de Monte Agraço, nomeadamente através das ações de personalidades sobralenses que lutaram aguerridamente por estes ideais.” [12] 

Fica-nos uma dúvida pertinente – a escolha daquela vila, terá sido obra do acaso?

E ainda outra – terá ele sido uma das “personalidades sobralenses que lutaram aguerridamente por esses ideais”?

Discreto, como os tempos exigiam, quem se lembrava dele? Em conversa, a propósito de outras pesquisas, foi-nos referido, de passagem, pelo senhor Leonel Silveira[13], um conterrâneo goiense, que “um irmão do ti Manuel Domingos foi um dos que esteve preso no Aljube – estiveram lá muitos”. Assim, tal e qual, sem referir o nome de batismo. Falávamos dos tempos difíceis que viveram os colmealenses, nessas primeiras décadas do século XX, tanto no Colmeal como em Lisboa. Mais tarde, soubemos da misteriosa dedicatória no verso de uma fotografia e, recentemente, folheando um livro de Arnaldo Madureira[14], a propósito desses “tempos difíceis”, descobrimos nova pista: entre os presos listados, surge-nos “Francisco Domingos, O Mouraria”. Não podia ser coincidência!

Era um colmealense. Como ele, muitos outros, de várias origens, sacrificaram a sua juventude, a sua saúde, a sua família, muitos a própria vida, para “lavrar o terreno” onde haveria de germinar a semente da liberdade, que conduziu ao 25 de Abril de 1974.

No início de 1961, começou a Guerra Colonial.




No final desse ano, a 29 de setembro, o Boletim “O Colmeal” publicava a notícia da sua morte. Tinha 51 anos.


Deonilde Almeida




[1] Registo Paroquial, pois o Registo Civil apenas será estabelecido por Decreto de 18 de Fevereiro do ano seguinte.

[3] Biblioteca Nacional Digital - Constituição política da República Portuguesa de 21 de Agosto de 1911, Coimbra, 1911 (purl.pt)

[4] António Joaquim das Neves nasceu no Colmeal, em 1861. Foi nomeado professor para o Colmeal em 1882.

[5]DANIEL, “Figuras e Factos – Francisco Domingos”, Boletim “O Colmeal”, ano XXII, Agosto/1982, pág. 3 e 8  

[6] https://upfc-colmeal-gois.blogspot.com/2020/08/fragmentos-da-historia-do-colmeal_25.html

[7] In “Memorial” – Comemorações dos 80 anos do Regionalismo no concelho de Góis, Ed. UPFC, 2009, p.7

[8] In “Memorial” – Comemorações dos 80 anos do Regionalismo no concelho de Góis, Ed. UPFC, 2009, p.5

[9] DANIEL, “Figuras e Factos – Francisco Domingos”, Boletim “O Colmeal”, ano XXII, Agosto/1982, pág. 3 e 8

[11] PVDE-Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, criada em 1933 e que seria substituída, em 1945, pela PIDE-Polícia Internacional e de Defesa do Estado.

[13] Leonel Augusto Silveira Baptista nasceu em Lisboa – 28/Fev/1942 – filho de um grande Regionalista, Afonso Baptista de Almeida e de Albertina dos Anjos Baptista.

[14] Madureira, Arnaldo, SALAZAR - TEMPOS DIFÍCEIS”, Clube do Autor, 1ª ed, Novembro,2015, p.217


23 setembro 2021

UNIÃO PROGRESSIVA DA FREGUESIA DO COLMEAL, NOVENTA ANOS


Noventa anos! São os que acaba de fazer a União Progressiva da Freguesia do Colmeal (UPFC). Por parte de muitos – fundadores, membros dos respetivos órgãos sociais e associados – anos e anos de entrega e dedicação à causa do regionalismo, primeiro com vista à melhoria das condições de vida nas terras, mais tarde e até hoje, evoluindo para novas dinâmicas e tipologias de ação, em linha com a mudança social e a substituição dos modos de vida e gerações.

A União Progressiva da Freguesia do Colmeal foi fundada em 20 de setembro de 1931, sendo a primeira a emergir na freguesia e das primeiras, na região. Como sabemos, o regionalismo traduz-se na constituição, em Lisboa, de associações de conterrâneos destinadas a promover o progresso e o desenvolvimento nas aldeias. O convívio organizado na cidade privilegiava a angariação de fundos e contribuía para a preservação da identidade e da pertença serrana.

O regionalismo é um fenómeno associativo singular, devido ao facto de surgir fora do contexto para o qual a sua ação se dirige e de visar melhoramentos, nomeadamente no campo das infraestruturas e acessibilidades. Nesta medida, o movimento é muito expressivo da intensidade dos laços que prendiam cada um e todos às origens, ao mesmo tempo que reflete o abandono a que as aldeias estavam e continuam votadas. Por alguma razão as pessoas se viram obrigadas a partir para a cidade ou para o estrangeiro, inicialmente deixando a família na terra e pensando regressar, pelo era necessário dotá-la com as comodidades e o bem-estar de que os citadinos beneficiavam.

Como me dizia em tempos um amigo e associado “O regionalismo nasceu das necessidades das pessoas, denota iniciativa, amor ao torrão natal e um desprendimento, digamos assim, um altruísmo muito grande. Eu acho que não há palavras para classificar essas iniciativas, porque eram pessoas que não tinham posses. (...)”.

Para assinalar os noventa anos da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, teve lugar no passado domingo 19 de setembro, na igreja local, uma missa em memória dos seus fundadores, dirigentes e sócios falecidos. Embora a participação possa ter sido afetada pela insegurança inerente aos tempos sanitários difíceis que vivemos, a igreja apresentava-se composta e houve quem viesse de Lisboa.



Conforme se antecipava na divulgação da iniciativa, tratou-se de uma homenagem simples, mas muito simbólica e comovente. A mim, humedeceram-se-me os olhos quando, na altura própria da missa, recordei os nomes inscritos no Memorial (UPFC, Lisboa, janeiro de 2009) e os muitos associados e associadas que tive o privilégio de conhecer, admirar e estimar, alguns, de amar. Bem que se lhes aplicam as leituras do dia, de que insiro excertos, com a devida vénia: “(…) a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos” (Carta de São Tiago 3,16-4,3); ou as palavras de Jesus quando dizia aos seus discípulos, que tinham vindo a discutir quem era o maior, “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Marcos 9,30-37).

Parabéns à União Progressiva da Freguesia do Colmeal pelos seus noventa anos, muito obrigada a todos e todas pelo trabalho, generosidade e solidariedade.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 22 de setembro de 2021.


07 agosto 2021

UNIÃO PROGRESSIVA - Um caminho de noventa anos - II

«Da numerosa colónia de Góis, actuando na capital, destacam-se os Colmealenses como sendo um dos seus mais fortes contingentes. Espalhados por toda a cidade, nas modalidades várias dum trabalho persistente e probo, os filhos da freguesia do Colmeal teem também a «sua casa», uma colectividade modelar que os defende e acarinha ao amor votivo à terra que os viu nascer. Trata-se da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, fundada em 20 de Setembro de 1931 e contando, hoje, mais de 200 sócios.»

 Assim começava um extenso relato produzido por Luiz Ferreira, redactor em Lisboa de A Comarca de Arganil, ao tempo jornal trissemanário. Inserido na página 5 do número 1890, publicado em 28 de Outubro de 1932, que a seguir recordamos.

 


Procurando saber das aspirações dos Colmealenses e da acção já desenvolvida, fala com Manuel Nunes de Almeida, que presidia a uma Comissão Administrativa, nomeada após a primeira Direcção se ter demitido quarenta e cinco dias depois de eleita. «Sinto-me feliz por ter vingado a ideia inicial. A semente lançada à terra, em boa hora, germinou e a União Progressiva da Freguesia do Colmeal tem hoje assegurada a sua espinhosa mas consoladora missão.» O estado de abandono a que fora votada a freguesia, levou-os a reagir «reunindo esforços e boas-vontades para uma obra construtiva».

Com estatutos aprovados pelo Governo Civil de Lisboa, em 1 de Agosto passado, realça o propósito de «conseguir o máximo de solidariedade de toda a colónia da freguesia do Colmeal; educar, instruir e proteger os seus membros necessitados; auxiliar moral e materialmente todos os melhoramentos da freguesia do Colmeal e promover por todos os meios ao seu alcance manifestações de actividade que de qualquer modo possam contribuir para o engrandecimento da freguesia.»

Elenca alguns valores aplicados em melhoramentos e no auxílio aos mais necessitados. Não esconde a sua satisfação por já se ter conseguido receber valores declarados e a esperança de haver em breve o serviço de encomendas postais. Com bastante detalhe e conhecimento refere-se à falta de estradas, de escolas, das ligações telefónicas, da iluminação pública e da urgente necessidade da eliminação das fontes de chafurdo.

«E se de estradas derivarmos para os caminhos que ligam as povoações da freguesia, entre si, não podemos deixar de exteriorizar nossa mágoa! Esses caminhos estão quási que intransitáveis. De Inverno, principalmente, é um horror!»

Esta é a fotografia que surgia a ilustrar o excelente trabalho jornalístico de Luiz Ferreira, e que faz parte do arquivo histórico da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.



 

Lisboa, 04 de Agosto de 2021

A. Domingos Santos


19 julho 2021

UNIÃO PROGRESSIVA - Um caminho de noventa anos


Há nove décadas, mais concretamente em 18 de Agosto de 1931, a imprensa regional, através de A Comarca de Arganil dava-nos a notícia que a seguir recordamos


A Colónia Colmealense em Lisboa vai constituir uma Comissão de Melhoramentos.

Uma semana depois, este trissemanário, em notícia subscrita por José Henriques d’Almeida, informava com mais pormenor:

«Está-se organizando em Lisboa uma comissão de melhoramentos da freguesia do Colmeal, formada por filhos desta importante região.

Muito há a fazer em benefício de tão esquecida freguesia, pelo que nos congratulamos profundamente com a simpática iniciativa do punhado de nossos patrícios que a concebeu e que podem trazer para o Colmeal um progressivo desenvolvimento.»

José Henriques d’Almeida viria a integrar, como Tesoureiro, a Direcção liderada por Joaquim Fontes de Almeida, eleita em Assembleia-Geral de 4 de Outubro, presidida por Joaquim Francisco Neves, secretariada por Francisco Domingos e Manuel João Miranda.

«O regionalismo bem compreendido é aquele que procura dar progresso e civilização às inúmeras localidades do país, aproximando-as cada vez mais dos grandes centros. Tudo que se faça com esse fim é altamente proveitoso, não só para as regiões beneficiadas, mas também para toda a nação de que elas são as células vivas que a alimentam tanto mais fortemente quanto maior é o desenvolvimento civilizador que atingem.

E ainda que se careça da acção do Estado para que esse desenvolvimento se torne uma realidade, o certo é que a iniciativa particular deve ser o movimento impulsor, competindo a ela intervir junto do Estado para que ele realize as obras necessárias ao desenvolvimento das localidades, freguesias e concelhos, contribuindo também directamente, quer pelo trabalho dos indivíduos, quer pelo seu auxílio financeiro, para a realização dessas obras.» Assim continuava a notícia em A Comarca de Arganil subscrita por José Henriques d’Almeida, que trabalhou nesta primeira Direcção com Marcelino de Almeida, Francisco Domingos, Aníbal Gonçalves de Almeida, José Antunes André e Manuel Martins.

«Como intermediárias dessa múltipla acção, surgem essas comissões de melhoramentos que nós vemos constituir-se na nossa região, as quais tomam a seu cargo estimular as iniciativas das terras a que dizem respeito, angariando fundos com que vão em auxílio das câmaras e juntas de freguesia, expondo as suas necessidades e instando pela realização dos melhoramentos que as terras precisam. Foi por conhecerem as vantagens que para o Colmeal podem advir, que alguns seus filhos, cheios de vida e de boa vontade pelo engrandecimento da terra, onde nasceram e que residem em Lisboa, se resolveram constituir-se em comissão para trabalharem em prol do Colmeal.

E assim propõe-se a comissão desenvolver directa e indirectamente a terra que lhes foi berço, levando às entidades competentes uma representação mostrando as obras urgentes de que necessita o Colmeal, como sejam as vias de comunicação, fontes, escolas, etc., etc., tudo enfim quanto é necessário ao engrandecimento dum povo.»

Quase a terminar e com grande esperança e forte convicção «Será sem dúvida notável a acção da nova comissão de melhoramentos do Colmeal e é de esperar que ela possa fortemente contribuir para o desenvolvimento desta freguesia, uma das mais importantes do concelho de Góis.»

A imprensa regional teve um enorme papel no apoio e na divulgação do trabalho da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, no decorrer destes noventa anos. Para além de A Comarca de Arganil, que aqui referimos, também O Varzeense e os extintos Jornal de Arganil e O Colmeal sempre tiveram espaço nas suas páginas para dar a conhecer o percurso, nem sempre fácil, do querer e da determinação de um punhado de lutadores empenhados no bem-estar e desenvolvimento nas suas aldeias.



Lisboa, 19 de Julho de 2021

A. Domingos Santos


04 maio 2021

BELEZAS(DES) E RIQUEZAS DA SERRA. VESTIDA DE AMARELO

A serra lembra uma manta de retalhos. Nuns sítios, em virtude das intervenções florestais de que foi objeto, noutros, devido ao matizado das cores com que se veste, especialmente de amarelo. Um amarelo em geral ralo, mas com manchas compactas e berrantes de giesta, que sobressaem do fundo algo neutro e pardacento.









Neste tempo, o amarelo da paisagem é uma combinação da flor da carqueja, com as da giesta e de uma das espécies de tojo. Na sequência dos incêndios de outubro de 2017, acontece que a carqueja ainda não atingiu a pujança arbustiva que tinha, enquanto a giesta se multiplicou exponencialmente, como as acácias. A chuva dos últimos dias, que desanuviou a atmosfera e refrescou a natureza, tornou o amarelo ainda mais luminoso e ostensivo ou não fora ele a cor da luz, do calor e da abastança, no caso frugal, traduzida na memória dos milheirais maduros. E na alegria da Páscoa recentemente celebrada!


Observada de perto, porém, o amarelo continua a destacar-se, mas inserido na mescla esverdeada da enorme diversidade de herbáceas e matos que povoam as margens das estradas, por vezes invadindo-as, estreitando-as, e tornando-as mais perigosas. Referindo apenas alguma dessa flora, a caminho do Colmeal e dele para sul, avista-se o branco singelo da flor do estevão, que pareceria um sargaço vulgar não fora o porte, e o azul retinto da singular giesta-azul (polygala microphylla) ou da discreta sargacinha, uma das muitas plantas a que chamam erva-das-sete-sangrias.





Para norte, nas proximidades de Torrozelas e Folques, saúdam-nos, modestas, a esteva e a giesta branca, a primeira com as suas (cinco) chagas, nome por que também é conhecida, a segunda, numa rara abundância, já que prefere os solos graníticos e quartzíticos.



Enquanto em algumas zonas a moiteira negra já desbotou com o calor de há uns tempos e a seca do vento quase diário, noutras, floresce do vermelho avinhado, a que a luz transformadora confere tons ora intensos e inebriantes, ora discretos e sóbrios.





De cor semelhante e igualmente da família das urzes, a queiró vai desabrochando, farta e chamativa, a moiteira branca ainda viceja. Há sítios onde uma outra espécie de tojo começa a enfeitar-se também de amarelo, impregnando o ambiente de um subtil aroma melífero. Por mais que tenha espreitado os interiores recônditos dos sargaços, não vi nem uma pútega!




Quem diria que apenas três anos depois de ter sido consumida pelo fogo, a natureza se encontraria longe de recuperação, é certo, mas já tão exuberante em beleza e riqueza?! A representar vida e um património e recurso natural inestimável, pelas suas propriedades e pela fruição estética e emocional que proporciona.

Infelizmente, a “feieza” e a pobreza - literais e cívicas -, também estão presentes nas curvas e contracurvas dos caminhos da serra. Proliferam traduzidas numa grande variedade de situações, de que se aborda apenas o lixo que desfeia e envergonha o território, particularmente, as bermas das estradas e os declives dos parques e refúgios de emergência. Quando é visível, uma vez que pode estar dissimulado pelos railes, ervas e matos circundantes, nas bermas pode ver-se em andamento, nos declives, é preciso parar e olhar lá para baixo.

Os sítios e a posição em que este lixo ponta do “iceberg” se encontra remetem para práticas e grupos sociais que tanto podem ser os mesmos como distintos. Assim: há lixo que se vê ter sido atirado pela janela dos carros fora, à laia de adeus; outro que se percebe ter sido trazido e despejado ali, como numa lixeira; outro, ainda, que é evidente ter sido deixado por quem esteve no lugar a trabalhar ou simplesmente a desfrutar do espaço, mediante pausa no percurso ou convívio programado.

No primeiro caso, encontram-se as mais diversas embalagens, nomeadamente de bebidas, entre as quais iogurte líquido, uma conquista do consumo, que o seu inventor jamais terá perspetivado tão poluente. Num determinado quilómetro de estrada, contei nove destes projéteis, admitindo que mais se encontrem escondidos nas ervas. Tratando-se de um troço com bastante movimento, presumo que o facto de ser plano facilite as tarefas de conduzir e beber ao mesmo tempo! Mas há de tudo: maços de tabaco, sacos e pedaços de plástico, sacos de ração e outros produtos, lenços e guardanapos de papel, máscaras… Num sítio, três faziam companhia umas às outras, uma de cada lado da via e outra acabadinha de aterrar sobre o traço contínuo! Já vi fraldas, mas não desta vez!


No caso da natureza usada como lixeira, há sacos com garrafas, muitos artigos indefinidos e material relacionado com setores concretos de atividade.


Por último, no campo do lixo deixado por utentes do lugar, avultam uma vez mais as embalagens e, por vezes, restos de consumíveis, como sejam os fios das roçadoiras. Neste domínio, foi particularmente chocante ver um espaço aprazível de lazer, que até tem contentor do lixo, poluído com latas, garrafas e descartáveis de plástico, inclusive dispostos, como se de um adorno se tratasse, na estrutura das alminhas existentes no local! Mas vi umas outras que penduravam elas próprias o saco para recolher os restos das velas ardidas!



Ainda que do mesmo não se espere grande inteligência ou cidadania, não se percebe como é que o lixo não consegue sair pelos mesmos meios com que chegou. Carro ou mochila que trás também leva! Hoje em dia há ecopontos em várias terras e contentores do lixo em todas. Quando basta um esforço mínimo, e as pessoas até pagam uma taxa para o encaminhamento e tratamento do lixo que produzem, não se entende a razão para tanto desrespeito pela natureza e pelos outros. A própria recolha dos lixos mais volumosos pode ser solicitada às Câmaras ou às empresas municipais para tanto vocacionadas.

Perante estas situações e a visão dos micro plásticos e outros produtos a infiltrarem-se no solo e a escorrerem para o oceano, contaminando-os, não consigo deixar de imaginar a serra e o planeta, em geral, atarefados e já nauseados, a digerir todos estes resíduos e impróprios para consumo, enquanto deveriam estar focados na vida e na criação das condições de beleza, bem-estar e riqueza de que todos carecemos!

Embora já não me compita fazer sugestões, sempre digo que a escola tem de continuar a insistir na formação cívica e ambiental das novas gerações, e estas na dos seus pais e avós. Como as autarquias, na formação dos agentes públicos e privados que operam no terreno, na sensibilização da população e na dotação dos espaços com recipientes apropriados. Revisitar e reativar a chamada política dos 3r’s (reduzir, reutilizar e reciclar) nunca será de mais e hoje, Dia da Terra, seria um bom pretexto para começar.

Nota. A observação relativa ao último assunto foi feita nas estradas Açor- Góis e Açor-Arganil, respetivamente, nos dias 2 e 5 de abril. Por serem tão inestéticas, das fotografias tiradas incluem-se apenas quatro.


Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 22 de abril de 2021.