Várias vezes me referi
à riqueza da biodiversidade na serra. Volto a fazê-lo, falando de herbáceas.
As herbáceas são plantas
com caule flexível não lenhoso ou semilenhoso, de porte tão variado que oscila
entre o ínfimo e o próximo do arbustivo. Há muitas vivazes, mas, maioritariamente,
são plantas efémeras, que desabrocham contentes com a primavera morna e
definham tristes, com o verão sufocante e o declínio do outono. Antes, porém, previdentes,
adormeceram na terra as raízes e sementes de que brotarão no ano seguinte.
As ervas são o estrato
vegetal mais diverso. Com as árvores, são as grandes responsáveis pelo manto
verde e matizado de cores com que a natureza se veste ao longo do tempo e
conforme o tempo.
Cientificamente, as
herbáceas classificam-se em várias categoriais e, dependendo das suas
propriedades, dos contextos e pontos de vista, em comestíveis e tóxicas,
paisagísticas, medicinais, aromáticas e cosméticas, espontâneas e cultivadas,
enfim, em autóctones e invasoras, protegidas e infestantes, produtivas e
daninhas. Tanta a sua incomensurável variedade e importância!
Indiferentes às
classificações, em virtude do uso que os homens fazem ou não dos seus atributos
e de outros fatores (des)ambientais, há plantas que se encontram em vias de
extinção e outras que não param de se propagar. É o que acontece com as chamadas
ervas daninhas, que são mesmo danadas! Tornaram-se invencíveis desde que os
gados deixaram de as roer e as pessoas, de as ceifar e sachar. Sobretudo as
gramíneas avassalam e consomem os terrenos, forrando-os de uma camada tão densa
de raízes e folhas que impede a água de os fecundar, os cogumelos de
despontarem, os pássaros de esgaravatarem e os próprios javalis de foçarem. É a
desertificação verde instalada! Muito preocupante, considerando a nocividade ou
a ineficácia dos métodos de controlo.
No que toca às
restantes, porém, são um fascínio! Uma beleza e uma riqueza, considerando as
suas propriedades – frequentemente várias reunidas numa mesma espécie -, a sua
beleza e as atividades económicas, culturais e de lazer a que podem dar aso! Um
manancial e um recurso inesgotável, desde que bem utilizado!
Dando apenas alguns exemplos de
atividades de cariz económico e/ou cultural que podem desenvolver-se dentro de
um determinado território: organizar expedições de identificação e levantamento
fotográfico do património natural; organizar exposições, com ou sem enfoque em
espécies ou caraterísticas específicas; fomentar estudos das propriedades
medicinais, nutricionais ou outras, das lendas que acompanham algumas plantas,
do fundamento dos respetivos nomes; fomentar concursos de gastronomia que
potenciem novos usos das plantas existentes. As ortigas estão na moda, parece
que a merugem dá uma excelente salada, as leitugas são inúmeras e faziam as delícias
dos coelhos… E um herbário ou plantário, quem poderia fazê-lo, ilustrando as
diferentes fases de desenvolvimento de uma planta e diferenciando as
subespécies?
Neste registo, partilho
um pequeno número das herbáceas que abundam por aí, recatadas ou provocantes,
promiscuamente deitadas e abraçadas umas às outras, a suscitar contemplação
estética e curiosidade intelectual, mas também preocupação. Umas dão-se bem com
as pessoas, outras preferem a solidão dos montes e vales. São plantas
espontâneas, algumas são endemismos, três parasitas, quase todas, medicinais,
comestíveis ou outra coisa. Podem ter chegado com a mobilidade geográfica e as
plantas ao molho e envasadas que compramos, mas tornaram-se de cá porque somos
acolhedores e hospitaleiros! Enriquecem a biodiversidade, umas tantas
ameaçando-a!
As plantas dão por
muitos nomes e há nomes que são atribuídos a centenas de plantas diferentes na
família, género, espécie e subespécie. É o caso da designação “erva-das-sete-sangrias”,
entre outros. Dado o nosso amadorismo na matéria, evitamos descer à subespécie,
e é bem possível que algumas ervas se encontrem mal identificadas. Os nomes
foram retirados de bibliografia da especialidade, figurando o local em segundo
lugar, quando conhecido. A propósito, agradeço muito sensibilizada a oferta da
obra Jardim da Fundação Calouste
Gulbenkian. Flora, de Raimundo Quintal (Lisboa, F.C.G.,
2014).
(…) Em toda a
parte vi flores
romperem do pó
do chão,
universais, como
as dores do mundo,
que em toda a
parte se dão. (…)
(António Gedeão, “Lírio roxo”, in Teatro do Mundo, 1958).
Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 30 de
abril de 2016.