12 dezembro 2025

Aqui na Roça, o dia a dia (VI)

  

A loja do governo.

 

"Casa onde caibas e terrenos que não saibas". Num passado  longínquo, era voz corrente nos aldeões das nossas serras.  

Na época as aldeias fervilhavam de gente, as famílias eram numerosas e havia que providenciar o seu sustento durante o rigoroso inverno.

"Terrenos que não saibas" . Demarcava o estado social de uma família, - quantos mais terrenos melhor. Dali vinha o sustento, milho, feijão, azeite, mel, castanha, àrea de pastorícia e florestal. Em regra todo o agregado familiar se dedicava ao plantio agrícola e pastorícia,  havendo tarefas distintas entre homens e mulheres, cujo produto final refletia as boas e esperadas colheitas.

"Casa onde caibas" As casas, em regra geral, eram pequenas. Cozinha com fogueira de lenha no centro, um pátio geralmente a dar acesso ao curral do porco, pequenos quartos e por fim, a "Loja do Governo". Esta loja ampla, de piso terreno e paredes de pedra com largura de grande porte, se destinava a guardar o resultado das colheitas e dos bens alimentares, nomeadamente a salgadeira onde se guardava a carne de porco, o pote onde se acondicionava o azeite e demais produtos alimentares, nas arcas o milho e o feijão e na queijeira os queijos de produção caseira. 

Se a área da loja o permitia, ainda se guardava o pipo do vinho, a dorna e a aguardente.

Os tempos eram difíceis, considerando que na altura uma sardinha era para três e todos queriam a cabeça, pelo que havia o gestor dedicado à guarda e consumo racional dos bens armazenados.

Geralmente esta tarefa era do desempenho do cônjuge feminino. O masculino tinha a responsabilidade de ir ganhar o dinheiro,  para a compra de bens cujos terrenos não produziam, como o petróleo, o açúcar, conservas e umas guloseimas.  Na altura da ceifa do trigo, lá partia para o Alentejo, mas regressava um dia. Mais tarde começou a ir para a cidade e por fim tornou-se emigrante e deixou de regressar e se o fizesse  era de passagem. A desertificação ocupou o seu lugar,  - a serra os terrenos não conseguiram garantir o seu sustento e da sua  família.

A  "Loja do governo" fechou, restam as arcas e potes vazios, testemunhas silenciosas de um passado que desapareceu no tempo.

 

Fotos:

Obtidas na "loja do governo" do autor.

Parede da loja

Arca do milho

Pote do azeite e dos queijos (1)

Salgadeira

(1) O pote derivado ao seu desempenho à época, vai ser objeto de uma publicação própria, brevemente.

 

Colmeal, 10 de Dezembro de 2025

Domingos Nunes


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