A loja do governo.
"Casa onde caibas e terrenos que não saibas". Num
passado longínquo, era voz corrente nos aldeões das nossas
serras.
Na época as aldeias fervilhavam de gente, as famílias eram
numerosas e havia que providenciar o seu sustento durante o rigoroso inverno.
"Terrenos que não saibas" . Demarcava o estado social de uma família, - quantos mais terrenos melhor. Dali vinha o sustento, milho, feijão, azeite, mel, castanha, àrea de pastorícia e florestal. Em regra todo o agregado familiar se dedicava ao plantio agrícola e pastorícia, havendo tarefas distintas entre homens e mulheres, cujo produto final refletia as boas e esperadas colheitas.
"Casa onde caibas" As casas, em regra geral, eram pequenas. Cozinha com fogueira de lenha no centro, um pátio geralmente a dar acesso ao curral do porco, pequenos quartos e por fim, a "Loja do Governo". Esta loja ampla, de piso terreno e paredes de pedra com largura de grande porte, se destinava a guardar o resultado das colheitas e dos bens alimentares, nomeadamente a salgadeira onde se guardava a carne de porco, o pote onde se acondicionava o azeite e demais produtos alimentares, nas arcas o milho e o feijão e na queijeira os queijos de produção caseira.
Se a área da loja o permitia, ainda se guardava o pipo do
vinho, a dorna e a aguardente.
Os tempos eram difíceis, considerando que na altura uma
sardinha era para três e todos queriam a cabeça, pelo que havia o gestor
dedicado à guarda e consumo racional dos bens armazenados.
Geralmente esta tarefa era do desempenho do cônjuge
feminino. O masculino tinha a responsabilidade de ir ganhar o dinheiro,
para a compra de bens cujos terrenos não produziam, como o petróleo, o açúcar,
conservas e umas guloseimas. Na altura da ceifa do trigo, lá partia para
o Alentejo, mas regressava um dia. Mais tarde começou a ir para a cidade e por
fim tornou-se emigrante e deixou de regressar e se o fizesse era de
passagem. A desertificação ocupou o seu lugar, - a serra os terrenos não
conseguiram garantir o seu sustento e da sua família.
A "Loja do governo" fechou, restam as arcas
e potes vazios, testemunhas silenciosas de um passado que desapareceu no tempo.
Fotos:
Obtidas na "loja do governo" do autor.
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| Parede da loja |
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| Arca do milho |
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| Pote do azeite e dos queijos (1) |
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| Salgadeira |
(1) O pote derivado ao seu desempenho à época, vai ser objeto de uma publicação própria, brevemente.
Colmeal, 10 de Dezembro de 2025
Domingos Nunes




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