quinta-feira, 29 de outubro de 2009

“Baguinho”, um artista e um poeta

. Fernando Costa leu na imprensa regional – Jornal de Arganil – a notícia sobre a justa homenagem que em Agosto foi prestada pela Câmara Municipal de Góis a três grandes vultos do regionalismo colmealense. Três homens que bem conhecia e muito admirava. E quis também homenageá-los à sua maneira, da maneira que sabe e de que gosta. Fernando Costa, que entre os amigos é mais conhecido por “Baguinho”, informou-nos de um quadro que tinha feito para oferecer à União.
Recebeu-nos no seu “local de trabalho” no passado dia 15 de Setembro. Um espaço que apesar de pequeno é acolhedor e suficientemente grande para albergar recordações que ele vai fixando. Mouraria e fado, obrigatoriamente representados em vários dos quadros. Amália, Fernando Maurício e aspectos antigos da Rua João do Outeiro, que “Baguinho” considera o «Berço da minha saudade». O velho Teatro Apolo, a Igreja do Socorro e a Praça da Figueira, marcos entretanto desaparecidos e que só os mais antigos ainda terão nas suas memórias.
Recordando com saudade e alguma emoção António Fontes, Martins Barata e o seu homónimo Fernando Costa, “Baguinho” entregou o quadro aos dirigentes da União Progressiva, Maria Lucília Silva e António Santos, que agradeceram sensibilizados. O quadro será brevemente colocado no EspaçoArte, no Colmeal.
Fernando Costa “Baguinho”, filho de Preciosa do Carmo e de José da Costa, é sócio da União Progressiva da Freguesia do Colmeal desde Setembro de 1957, tendo sido proposto pelo saudoso Alfredo Braz, que morava em frente à sua casa na Rua João do Outeiro. “Baguinho” confidenciou-nos que só sabe fazer o que faz, desde que há sessenta e seis anos começou a trabalhar na sua profissão de sapateiro, no número 22 da Rua João do Outeiro.
Vai intervalando com os seus versos sentidos, alguns dos quais se encontram publicados em livro. Grande entusiasta do Grupo Desportivo da Mouraria, onde se encontram expostos dezenas de quadros seus, não perde oportunidade, enquanto trabalha, de ouvir o fado, aquela melodia nostálgica que desde sempre se habituou a ouvir e a sentir. Ou não tivesse nascido e vivido na Mouraria. A. Domingos Santos
Fotos de Francisco Silva

Receitas da Freguesia do Colmeal

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Fatias Douradas
- Pão de forma (de padeiro)
- Leite q.b.
- 5 Ovos
- Óleo q.b.
- Açúcar q.b.
- Canela q.b. O pão de forma, deve estar cerca de três dias a endurecer. Após este processo, corte-o em fatias bem finas.
. Posteriormente, prepare um recipiente e coloque o leite, à temperatura ambiente. Demolhe as fatias do pão, em leite, apenas de um lado, depois vire-as do lado contrário e coloque num prato, de modo a que o leite repasse e escorra.
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Faça este ritual a todas as fatias e acrescente o leite consoante a necessidade.
. Numa taça bata os ovos e coloque uma frigideira ao lume com óleo. Somente quando o óleo estiver bem quente, ensope as fatias de pão no ovo (só as que a frigideira comportar) e coloque-as na frigideira. Vire-as de um lado e de outro de modo a ficarem douradinhas.
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Após todas as fatias estarem fritas, coloque-as a secar em papel absorvente de cozinha.
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Depois de todo este processo, faça uma mistura de açúcar com canela a seu gosto e ponha por cima das fatias douradas. . A receita apresentada (fatias douradas) foi disponibilizada por Manuela Baptista, residente no Colmeal

Clássicos na Biblioteca da União

São seis clássicos em adaptações que Aquilino Ribeiro (Peregrinação), António Sérgio (História Trágico-Marítima) e João de Barros (os restantes) prepararam para que numa linguagem fácil a sua leitura fosse acessível e compreensível pelas crianças. Estes seis volumes, que compõem a pequena Colecção Clássicos da Humanidade, têm ilustrações de André Letria. A não perder. UPFC

Freguesia do Colmeal (História) VIII

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PASSADO – PRESENTE Capítulo VIII O ORAGO DA FREGUESIA (1) SAM SEBASTIÃO (2)
“O nosso Santo protector, nasceu em Narbone, cidade das Gálias e, ainda criança, foi viver para Milão, onde ficou órfão de pai. Sua boa mãe não descurou a educação do filho, que se dedicou inteiramente ao serviço de Deus. Devido à pregação dos Apóstolos e seus sucessores o Evangelho espalhou-se rapidamente pelo mundo e os cruéis imperadores romanos iam movendo contra os cristãos as mais violentas perseguições. O jovem Sebastião, impregnado do amor cristão, temendo que muitos irmãos abandonassem a fé, foi para Roma e, sem se manifestar, alistou-se como soldado do imperador, conseguindo deste a maior estima e consideração, a ponto de ser elevado a um dos mais altos cargos do exército. Entretanto dava aos jovens soldados e ao povo romano o mais belo exemplo de virtudes e transmitia o Evangelho do Senhor. As perseguições intensificavam-se cada vez mais e os convertidos da Cruz suportavam infâmias e tormentos sem conta. Sebastião movido pelo zelo autenticamente cristão, velava pelos irmãos, confortando-os nos tormentos, exercendo a caridade, instruindo-os e mantendo-os na fé. Completou ainda os seus triunfos com inúmeros prodígios, curas milagrosas e conversões, mesmo entre os homens da corte imperial. Muitos convertidos por Sebastião haviam já derramado o seu sangue. A mesma sorte lhe era reservada. Acusado de ser cristão, é chamado pelo imperador, perante o qual afirma a sua fé em Cristo, Deus e Homem verdadeiro que morreu para salvar o mundo. E com grande espanto de Diocleciano, depõe a seus pés as armas de soldado, como inúteis e vãs, dizendo que tem um Senhor mais poderoso que o imperador: - «É Jesus Cristo». Enfurecido com a audácia de Sebastião, Diocleciano condena-o à morte, com estas palavras: «Seja amarrado nu a um pé de louro no bosque, e seja crivado de irresistíveis setas». Não amedrontou o herói cristão esta sentença do cruel tirano; antes se alegrava e caminhava tranquilo para os algozes, certo da vitória que o esperava. As setas envenenadas espetavam-se no corpo do jovem mas não o fizeram sucumbir. Os carrascos, julgando-o morto, entregaram-no aos seus amigos, que tinham combinado comprar o corpo do mártir a peso de ouro. O seu martírio foi consumado mais tarde, sendo espancado com o cabo de lanças de soldados, quando no dia de uma festa do imperador, Sebastião o avisou de que tanta impiedade e tirania não escapariam à justiça Divina. Sebastião morreu no dia 20 de Janeiro do ano 284 da era cristã.” (1) Transcrição de «O Colmeal» nº 1. (2) É impossível determinar as causas, razões ou motivos, porque, quando da construção da primitiva Capela de Sam Sebastião, foi este o nome adoptado: - segundo o que chegou a nossos dias «que era a única imagem que possuíam» ou «que foi Colmealense com este nome o grande obreiro da edificação e como preito de homenagem assim classificado». Verídico ou não, aqui fica. in Boletim “O Colmeal” Nº 108, Dezembro de 1970

Clube de Contadores de Histórias (VIII)

A menina que não conseguia levantar-se de manhã
Era uma vez uma menina que fazia todas as manhãs uma grande birra para se levantar. Quer dizer, não era ela que fazia a birra, eram os seus dois olhos, as suas duas orelhas, as suas duas mãos e, mais do que todos os outros, os seus dois pés. Quando a mãe ia acordá-la, ela queria acordar, mas as orelhas não deixavam entrar a voz da mãe a chamá-la: — Ela fica sempre furiosa com quem a deixa ouvir a voz a mãe a acordá-la; por isso, dá-lhe tu o recado — dizia a orelha direita. — Essa é que era boa, já ontem fui eu — dizia a outra. — Olha, eu é que não deixo a voz da mãe dela entrar, porque não estou para levar uma sapatada. E continuavam assim durante muito tempo, até que a mãe da menina a abanava, já furiosa, e as orelhas assustadas deixavam a voz dela passar. Depois de a menina ter ouvido a mãe a chamar, queria mesmo acordar, mas os seus olhos começavam a discutir: — Abre tu primeiro — dizia o da direita. — Era o que faltava! Ontem fui eu, hoje abres tu — respondia o outro. — Ai isso é que não abro — dizia o primeiro. — Olha... e a mim faz-me uma diferença... estou a dormir muito bem. E só quando a mãe da menina dava o grito: «Olhos, abram-se, porque senão, zango-me mesmo!», é que eles piscavam muito, mas lá abriam. A mãe da menina sentava-a então ao colo, agarrava-a com muita força para ela continuar quentinha e começava a querer vestir-lhe a roupa. Só que os braços e as mãos queriam voltar para a cama e, além disso, andavam sempre à luta, como muitas vezes os irmãos andam. O braço do lado esquerdo não se esticava para a mãe enfiar a camisa e dizia, a rosnar, ao irmão: — Por que é que há-de ser sempre pelo meu lado que ela começa a vestir as camisas?... Já ontem foste tu a dormir mais um bocadinho. Eu não me mexo. A mãe, como não conseguia pôr aquela manga, tentou a outra, mas o braço do lado direito não queria perder a guerra com o irmão e, por isso, também ficou muito mole... e a camisa escorregava outra vez. A boca da menina, que estava muito contente por não ter nenhuma gémea com quem discutir, quando viu que a mãe estava a ficar mesmo zangada, disse: — Ó mãe, a culpa não é da menina, é dos braços. E a mãe zangou-se com os braços. E sabem como é que conseguiu que eles parassem de discutir sobre qual é que ia primeiro e qual é que ia a seguir? Mandou-os aos dois esticarem-se muito e vestiu as duas mangas ao mesmo tempo. Os braços ficaram com pena de não terem mais motivos para discutir, porque gostavam muito de discutir de manhã. Mas, como vos disse, os piores de todos os irmãos eram os pés. De manhã acordavam sempre muito rabugentos mas, ao contrário dos outros, estes queriam ser os primeiros em tudo. E o pé direito esticava-se todo para a mãe e dizia (usando a boca): — Sou eu, sou eu, sou eu... Hoje sou eu... Ponha-me meia a mim primeiro... E o do lado esquerdo dava-lhe pontapés, caneladas mesmo, e tentava pôr-se mais perto da mãe. — Ontem foi ele... Hoje sou eu, sou eu, sou eu! E o pior é que depois começavam mesmo à luta e ficavam cheios de nódoas negras. Então a mãe lembrou-se de uma coisa – porque também se não se lembrasse, a menina nunca mais chegava à escola. Lembrou-se de dizer: — Ponho primeiro a meia a um... e depois a outro; mas quando chegar aos sapatos, ponho o primeiro sapato ao último em que pus a meia. Os pés ficaram quietos um bocadinho, só porque não perceberam lá muito bem o que a mãe lhes tinha dito. E a mãe aproveitou esse bocadinho para lhes enfiar as meias e depois os sapatos. A menina estava, por esta altura, sentada ao colo da mãe, já toda vestida. E ria-se muito com a discussão das suas orelhas, olhos, braços e pés. Pareciam ela e o irmão dela, que estavam sempre a discutir assim. A menina sabia que era muito irritante para os pais ouvirem aquelas lengalengas, mas achava que para as suas orelhas, para os seus braços e pés, era muito divertido. E, além disso, assim, a menina ficava mais tempo ao colo da mãe!
Isabel Stilwell Histórias para contar em 1 minuto e ½ Lisboa, Verso da Kapa, 2005 Adaptação
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria - Baltar

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Alfredo Alves Caetano

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A União Progressiva da Freguesia do Colmeal levou a efeito em Maio de 2007, uma caminhada pelos trilhos antigos recriando e recordando a “Rota do Carteiro”, para se calcorrear um dos itinerários que os carteiros percorriam décadas atrás pelo menos duas vezes por semana.
Alfredo Alves Caetano foi um deles, assim como Amílcar Marques
ou mais recentemente Rui Conceição. E antes dele tantos outros, cujos nomes se foram perdendo na memória do tempo, não terão subido e descido estes montes? E em que condições? Chuva, geada, neve, granizo, sol tórrido, nevoeiro de enregelar. Farda colada ao corpo amaciada pelo suor do corpo ou pela chuva que se entranhava. E as notícias boas e más, lá iam e vinham, para alegria e tristeza de uns e de outros. Como oportunamente aqui demos notícia, Alfredo Alves Caetano foi um homem extremamente simpático, amigo de todos e sempre disposto a colaborar naquilo que lhe solicitavam, foi por proposta da Junta de Freguesia do Colmeal recentemente homenageado pela Câmara Municipal de Góis, que atribuiu o seu nome a um dos caminhos do Colmeal que ele tão bem conhecia e que passava à porta de sua casa. .
Foi no passado dia 9 de Agosto e contou com a presença, entre outros, dos seus familiares mais próximos – filho, neto, bisneta e trineta e de muitos colmealenses que se quiseram associar ao acto.
Usaram da palavra o Presidente da Junta de Freguesia do Colmeal, o neto do homenageado e o Vereador da Câmara Municipal de Góis. Alfredo Alves Caetano também exerceu alguns cargos na Delegação da União Progressiva no Colmeal, tendo sido eleito pela primeira vez em 22 de Dezembro de 1943 para vogal. Em 20 de Janeiro de 1946 assumiu a presidência da Delegação que manteve até 21 de Abril de 1957. Trabalhou com grandes regionalistas como António Domingos Neves, Joaquim Francisco Neves, António Santos Almeida (Fontes) e Manuel Martins da Cruz, que lideraram a Direcção durante este período difícil na vida da Colectividade. A. Domingos Santos Fotos de Francisco Silva e A. Domingos Santos

Magusto no Soito

À semelhança do que já vem sendo habitual, a Comissão de Melhoramentos do Soito vai realizar o convívio dos “Santos”, que este ano terá lugar no Sábado, dia 31 de Outubro e incluirá: Missa por alma do senhor Abel Nunes de Almeida Júnior, falecido no passado mês de Agosto de 2009 e que antes então desempenhava o cargo de Presidente da Assembleia – Geral da Comissão de Melhoramentos do Soito (14H30); .
Actuação do Rancho Folclórico Serra do Ceira (15H30); .
Lanche e magusto, aberto a todos os que nele queiram participar (16H30). . Aproveite a oportunidade para visitar esta bonita “aldeia preservada” e os seus múltiplos recantos e partilhar connosco este importante dia de convívio. A Direcção.
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José Saramago

"... Quando, em 1943, Saramago começa a trabalhar na Caixa de Abono de Família do Pessoal da Indústria de Cerâmica, Ilda Reis já entrara na sua vida. Também com 20 anos, esta moça morena e bonita, natural de Lisboa, era dactilógrafa na sede dos Caminhos de Ferro de Portugal. Por estranha coincidência, enamorara-se de um José que, em pequeno, sonhava vir a ser maquinista de comboios, depois aviador militar, por fim escrevinhador. O casamento dá-se em 1944 e dura 26 anos, mas sobre ele o escritor nada deixará dito."
Publicado em VISÃO. Lisboa, 10 de Dezembro de 1998

Outros tempos... (1)

Eu ainda sou do tempo em que nos bairros mais antigos e também mais pobres da cidade de Lisboa não havia água canalizada em muitas das habitações. Os nossos conterrâneos que habitaram nos bairros da Mouraria, Castelo, Alfama ou Madragoa, por exemplo, ainda se lembrarão desses tempos e da profissão ou do negócio que era o da distribuição de água. Os aguadeiros, homens, mulheres e também crianças de pé descalço, como se recorda na fotografia, enchiam o pequeno pipo, o cântaro ou até o balde no chafariz público, para depois irem vender a casa deste e daquele. Com o barril ao ombro em cima do pano que seria dobrado para fazer de almofada ou na rodilha à cabeça, assim se transportava a água para venda ao domicílio. O pregão que ecoava pelas ruas da velha Lisboa, está hoje silenciado para sempre. Apenas alguns dos chafarizes, mas muito poucos, ainda resistem. A. Domingos Santos

domingo, 18 de outubro de 2009

Magusto no Colmeal

A União Progressiva da Freguesia do Colmeal vai, mais uma vez, realizar o magusto no próximo dia 1 de Novembro, pelas 16 horas. Castanhas, torresmos, água-pé e jeropiga estarão à espera de todos os Colmealenses que se queiram associar a esta antiga e tradicional manifestação que já vem do tempo dos nossos pais e avós. Esperamos por si no Largo D. Josefa das Neves Alves Caetano. UPFC

Que mau serviço!...

Já estou aqui há tanto tempo e nem a ementa me trazem para escolher o que vou comer!...
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Foto de "Anónimo"

Receitas da Freguesia do Colmeal

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Bacalhau à Biscainha
- 4 Postas de bacalhau
- Farinha q.b.
- 1 dl. de azeite
- 2 Cebolas
- 4 Pimentos
- 800 gr. de batatas
- Sal q.b.
Comece por partir as postas de bacalhau, quando este ainda se apresenta por demolhar, em tiras bem fininhas e posteriormente coloque-as a demolhar.
Depois de demolhadas, passe as tiras do bacalhau por farinha e frite-as em azeite.
À parte, coloque um tacho ao lume, corte as cebolas e os pimentos em gomos e refogue ambos em azeite.
Descasque as batatas, corte-as ao meio e coza-as em água temperada com sal.
Ligue o forno a 180 ºC. Transfira o bacalhau frito em azeite, para um tabuleiro, sobreponha-lhe o refogado e coloque no forno, por 15 minutos, até ficar corado.
Retire o bacalhau do forno e sirva-o com as batatas cozidas. A receita apresentada (Bacalhau à Biscainha) foi disponibilizada por Maria Fontes, residente em Ádela

Um rio de outra cor

Foto de Francisco Silva

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

À memória dos que passaram...

(clicar nas imagens para ampliar)
"À memória dos que passaram e para estímulo dos vindouros" - foi a dedicatória com que nos deparámos ao abrir este livro "Casa da Comarca de Arganil - XXV Aniversário", numa publicação de Dezembro de 1954. Fomos encontrar três páginas (262 a 264) dedicadas à nossa colectividade, que ao tempo tinha sede e era federada na Casa da Comarca de Arganil, Rua da Fé, 23 - 1º em Lisboa. "As verdejantes e frescas margens do rio Ceira e a capela do Senhor da Amargura, edificada num dos mais aprazíveis locais da região, entre frondosos pinhais, merecem referência especial por serem pontos turísticos dignos de nota, que muito podem valorizar esta região." São enumeradas obras realizadas pela nossa colectividade (fundada em 20 de Setembro de 1931), em que se destacam a ponte sobre o ribeiro do Soito (a primeira obra da União), os chafarizes do Colmeal e o do Sobral e a escola, chafariz e lavadouro na Malhada. As comparticipações na construção de estradas para as povoações de Açor, Aldeia Velha, Malhada e Soito, Carrimá, Ádela e Carvalhal; donativos para diversas construções e conservações em várias aldeias; distribuição de artigos escolares a todas as povoações da freguesia que têm escolas; bodos aos pobres na Páscoa ou Natal. Refere-se também a instalação no ano de 1954, de um Posto Médico na sede da freguesia o qual foi dotado com o necessário mobiliário e material cirúrgico. Listavam-se também outras obras de urgente realização, como a estrada Rolão-Colmeal, a electrificação das povoações, o alargamento e alindamento do Largo da União no Colmeal, uma escola para o Carvalhal e chafarizes para Aldeia Velha e Carvalhal. Com pouco mais de vinte anos de existência e com as dificuldades com que se deparava ao tempo, a União Progressiva apresentava já um apreciável conjunto de realizações. Um trabalho que ninguém esquece. Agradecemos à Comissão de Melhoramentos de Ádela na pessoa dos seus dirigentes Paulo Casquinha e Fernando de Almeida a possibilidade de nos terem dado a conhecer esta obra. A. Domingos Santos

Freguesia do Colmeal (História) VII

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PASSADO – PRESENTE Capítulo VII
Como se viveu na freguesia nos séculos XIII a XVII (1) As casas eram térreas, construídas de xisto e com tecto de colmo, todas as proporções modestas, com uma única divisão que servia ao mesmo tempo de cozinha e dormitório. A cama, feita de palha ou fetos secos, no chão e a um dos cantos da habitação. Pratos, garfos e colheres eram desconhecidos. Comia-se com a mão e do próprio recipiente onde era feita a refeição que normalmente se baseava em papas, água ou vinho, pois que além destes não se conheciam outros líquidos. Vestia-se saio – espécie de vestido com mangas compridas – feito de linho bastante grosseiro. Na cabeça usavam capuz ou capucha do mesmo tecido que os próprios fabricavam. Por norma andavam descalços e só quando iam para longas jornadas usavam sandálias com correias, fabricadas rudimentarmente de peles que curtiam. Cultivavam o linho, de cujo caule retiravam a fibra para os tecidos. Das sementes desta planta extraíam o óleo de linhaça para sedativos e emplastros. Além da pastorícia, actividade principal, explorava-se a agricultura, caso dos cereais, como o trigo, centeio e milho painço (2), vinho e azeite. O mel, também explorado (3), é usado quase unicamente como remédio para as várias doenças. Os outros alimentos são o peixe do rio e ribeiras, carne de animais domésticos e selvagens que então existiam nas florestas da região, tais como o gamo, veado e javali, mas aos quais deviam ter um certo receio por falta de armas aptas para a caça. O aquecimento das casas só é possível graças à lenha. Para iluminação utilizam candeias alimentadas a sebo. Vias de comunicação não havia, e as margens do rio Ceira eram atravessadas por pontões feitos de troncos de árvores (4). Correio não existia, e quem na maioria dos casos levava as mensagens, eram os Almocreves (5) que forneciam as mercadorias necessárias à vida recebendo em troca castanhas ou peças de olaria (6). Como religião praticava-se o catolicismo. Entretanto procede-se à construção de uma pequena capela (7) que, tal como as habitações é em xisto, coberta de colmo e de proporções modestíssimas tendo sido dedicada a Sam Sebastião (8). Os defuntos eram transportados para Selaviza, cujo percurso era feito em duas jornadas, sendo a primeira até Soveral (9). Esta foi sensivelmente a vida da nossa freguesia até ao século XVII. As vias de comunicação eram caminhos carreteiros (10). A partir desta altura, o milho de maçaroca, até então desconhecido, tal como a batata e o feijão, tomaram o seu lugar na agricultura. No século imediato, foram construídas no Colmial, novas habitações ao Porral, já cobertas com loisas, com dois pisos, sendo o superior assoalhado. As lojas que continuavam térreas, eram agora utilizadas como curral para animais e para armazenar as colheitas dos cereais. Nesta época o homem já utilizava calções até ao joelho que, tal como o saio ainda usado pela mulher, era de linho grosseiro e fabrico de casa. (1) Seguiram-se os costumes e condições gerais do país, nesse tempo. (2) Ainda se cultiva para o fabrico de vassouras. (3) É possível que tenham sido os mouros os nossos primeiros apicultores, atendendo à sua crença. O mel para o Árabe é o que de mais belo existe, e significa a magnificência do Paraíso. Segundo a sua fé, os justos a seguir à ressurreição deliciam-se com mel no Paraíso, onde também colocam as abelhas, uma vez que para o Maometano, não há Paraíso sem mel nem mel sem Paraíso. Este um dos códigos do Islão. Os mouros foram expulsos das Beiras, em meados do século XI, por Fernando Magno. (4) De fabrico mais actualizado, ainda são imprescindíveis em quase todo o vale do Ceira. (5) Do Árabe Almukãri. Homem que tem por ofício transportar mercadoria em bestas de carga. (6) Ler Capítulo V. (7) Ficava situada, sensivelmente ao centro da actual Igreja, tomando como base que o local formava cabeço, pela não existência dos muros de suporte, construídos no século XIX, nos sentidos nascente – norte, poente – sul. (8) Adoptou-se a ortografia da época o mesmo sucedendo em relação a Celaviza, Sobral e Colmeal. (9) Este martírio só terminou quando da construção da Igreja Matriz, onde se passaram a sepultar os defuntos. (10) Ainda no presente, as vias de comunicação com Açor, Ádela, Loural, Sobral, Salgado e Saião; e do Soito a Foz da Cova, Carrimá e Malhada, e bem assim com a própria sede concelhia, isto é até a Capelo, são as mesmas que nos foram legadas por estes nossos antepassados. In Boletim “O Colmeal” Nº 107, Novembro de 1970

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Amor ao luar

Contemplando o luar... com o braço por cima dos ombros dela...

Lembrança

No final da espectacular caminhada "Trilhos da Ribeira de Ádela - Caminhos da Escola", realizada em 26 de Abril de 2008, o casal Magalhães Pinto ofereceu esta bota à União Progressiva. Estes nossos associados são grandes entusiastas desta saudável modalidade e têm trazido à freguesia do Colmeal inúmeros participantes. Foto de A. Domingos Santos

«Impérios» dos Açores

Arquitectura singular esta dos Impérios açorianos, pequenas construções de certa pompa, compromisso entre capela e palacete miniatural, sempre ou quase sempre de sabor popular, casa da irmandade ou mordomia local das Festas do Divino Espírito Santo. Essa grande devoção veio do século XV com os povoadores, como parte importante que era na vida portuguesa desde o século XIII. A princípio devoção e festividades de carácter marcadamente caritativo conduziam as irmandades a variadas acções assistenciais, das domiciliárias à sustentação de hospitais, e daí ser a nobreza quem naturalmente chamava a si encargos e trabalhos. Também essas irmandades viriam nos Açores a constituir-se base e apoio das Misericórdias. Com o andar dos séculos enfraquecia no Continente tal devoção e nos Açores mais popular se tornava com suas alegres festas de louvor e gratidão ao Espírito Santo, celebradas da Páscoa ao Pentecostes. Momento culminante das festas é a coroação: em tempos idos coroava-se um pobre e agora uma criança – rematam a coroa e o ceptro pombas que simbolizam o Paráclito. Os imperadores são sorteados na segunda-feira de Pentecostes, à porta de um Império e dentro dele são expostos os bodos. Apesar de alterações diversas, a tradição continua a impor muitas das obrigações do preceito antigo – carros de toldo, serviço de doces e vinhos e pães e rosquilhas doces (para visitantes ilustres), cortejos, insígnias, o alferes da bandeira, o pajem da coroa, os vereadores, o dia do bezerro cuja carne será distribuída pelos pobres do lugar, com pães e flores espetadas, tudo disposto à porta do Império este simpático, ingénuo e sempre belo toque de originalidade arquitectural e de festa, onde por vezes se misturam góticos e barrocos sem grande incómodo. Os simpáticos Impérios – também chamados Teatros – erguem-se como altos rés-do-chão de modo a poder ver-se bem a exposição do bodo no domingo e segunda-feira de Pentecostes, e as cerimónias ali realizadas. Vão desaparecendo alguns componentes antigos que davam especial nota de folguedo, de juvenil alegria a este «tempo do Espírito Santo», nomeadamente as folias que se integravam no cortejo da coroação – os três foliões, talvez herança dos medievais bobos das cortes, envoltos em vistosas capas de ramagens e, na ilha de São Miguel, com pomposas mitras nas cabeças, iam tocando rabeca e tambor, o terceiro empunhava uma bandeira, e durante o jantar da função mandavam servir os pratos, cantando a preceito. in “As mais belas cidades de Portugal”, Vol. II, pág. 229 Colecção Património, Editorial Verbo A Colecção Património estará brevemente à sua disposição na Biblioteca da União, no Colmeal. A. Domingos Santos
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Fotos de Sergio Veludo

sábado, 3 de outubro de 2009

Exposição de Fotografia de Lisete Matos

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Galeria Almedina
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DOS OBJECTOS PARA AS PESSOAS .
De 29 de Setembro a 15 de Outubro
"Uma exposição de fotografia concebida com o objectivo de dar visibilidade e chamar a atenção para a riqueza do património cultural que se encontra disperso um pouco por toda a parte, configurando as serras e as localidades como museu vivo e aberto que importa preservar e potenciar ao serviço do futuro."
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Lisete Matos
CÂMARA MUNICIPAL
COIMBRA

Clube de Contadores de Histórias (VII)

A rapariga que se enfeitava demais
Os pais de Aree davam-lhe tudo o que ela queria. Cumulavam-na de presentes. — Aree, estas argolas de oiro haviam de ficar tão bem nas tuas orelhas delicadas. Temos de tas comprar! — Aree, aquela pulseira de prata havia de ficar tão bem no teu braço fino. Temos de ta comprar! — Aree, aquele anel de rubis havia de ficar tão bem nos teus dedos esguios. Temos de to comprar! Sempre que viam um corte de seda especialmente bonito, exclamavam: — Oh, Aree, que bem há-de ficar-te esta cor! Temos de te comprar esta seda! O quarto de Aree estava cheio de guarda-jóias e de arcas a abarrotar de tecidos. Um dia, Aree ouviu falar de um baile na aldeia que ficava para lá das montanhas. — Eis uma excelente oportunidade para exibir as minhas roupas requintadas! Mas, que cor hei-de usar? Cor-de-rosa, fúcsia, escarlate? Azul celeste ou verde-claro? Talvez violeta… ou púrpura… ou magenta. Talvez amarelo-torrado… ou verde-esmeralda. Penso que vou usar cor-de-rosa. Vestiu um vestido cor-de-rosa brilhante. Mas havia um outro vestido, cor de esmeralda. — Este verde é tão elegante! Talvez possa usar os dois! Vestiu o verde por cima do rosa. — Assim, posso exibir dois dos meus vestidos de seda! Só que este fúcsia é o mais alegre de todos. Penso que o vou usar também. Pôs o fúcsia por cima do verde e começou a voltear. — Vou ser a rapariga mais bonita do baile! Mas não se ficou por ali. — Este amarelo-torrado é especialmente bonito. E vejam só este azul brilhante…Ninguém tem sedas tão caras como as minhas. Já agora, porque não usá-las todas? A azul clara…a violeta…esta púrpura com fios de oiro puro. Se usar todos os meus vestidos, vou ser, de certeza, a rapariga mais bonita do baile. A vaidosa Aree vestiu tudo o que tinha no armário. Como as roupas eram pesadas, ficou sem conseguir mexer-se. — São um pouco pesadas, mas vejam só! Sou a rapariga mais bela do baile! E a escolha continuou: — E que pulseira usar? A de ouro? Sim. A de prata? Claro. A de jade? É a minha favorita. E os anéis? O de rubis? O de safiras? O de esmeraldas? O de pérolas? O de opalas? Todos eles, sem dúvida alguma! Aree pôs todas as jóias que possuía. As amigas chegaram pouco tempo depois. — Aree! Pareces… Nem sabiam o que dizer. Aree saiu de casa aos tropeções, carregada de sedas, anéis, pulseiras e brincos. Mal podia andar. Mas sentia-se orgulhosa. — Vejam só as minhas belas roupas. Vejam só o meu oiro e as minhas jóias. Vou de certeza ser… a rapariga mais bela do baile! Parecia tão pateta que as amigas fizeram um esforço para não se rirem. Partiram em direcção à aldeia. Mas Aree não conseguia acompanhá-las. Cedo começou a bufar de irritação. — Esperem por mim! Esperem por mim! Não consigo subir a colina! As amigas vieram ajudá-la. — Podíamos empurrar-te pela colina acima. — Não me empurrem porque podem amarrotar os meus vestidos! — Podíamos puxar-te pela colina acima. — Não me puxem porque podem sujar as minhas roupas de seda. As raparigas decidiram deixar Aree para trás. Esta cambaleou durante algum tempo sozinha até que as chamou de novo. — Esperem por mim! Esperem por mim! Não consigo subir a colina! As amigas voltaram para trás. — O que vocês têm é inveja das minhas roupas requintadas. Se fizer o que me dizem, já não serei a rapariga mais bela do baile. Aree recusou-se a tirar fosse o que fosse. As amigas deixaram-na ficar ali e foram ao baile sozinhas. Durante o dia todo, Aree arrastou-se pela colina acima debaixo de um sol escaldante. Chegou ao cume à noitinha. Parou, demasiado exausta para dar mais um passo, enfiada naquelas roupas tão pesadas. Quando as amigas regressaram do baile, Aree ainda estava demasiado cansada para poder mexer-se. Foram buscar os pais dela e, quando estes chegaram, Aree já não se sentia vaidosa. — Pai, mãe, vesti coisas a mais! Não preciso destas roupas todas! — Tira então alguns desses vestidos e algumas dessas jóias pesadas. Ensinámos-te a querer demasiado. Tens de aprender a contentar-te com menos. Jóia a jóia, vestido a vestido, Aree despojou-se de todas as suas coisas. Da vez seguinte que foi a um baile, estava lindíssima no seu vestido simples.
Margaret Read MacDonald The Girl Who Wore Too Much Arkansas, August House, 1998 Tradução e adaptação
O Clube de Contadores de Histórias Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria - Baltar

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Novas placas toponímicas da Freguesia de Cadafaz

(clicar nas imagens para ampliar)
Para conhecimento de quem visita o nosso concelho apresentamos as novas placas informativas sobre a freguesia do Cadafaz. Esperamos muito em breve apresentar fotografias das que também já estarão colocadas na freguesia do Colmeal.

Lisboa antiga

Quem não se lembra desta Lisboa de becos e vielas em que todos os vizinhos se conheciam, cumprimentavam, ajudavam e também tinham as suas "tricas"?. Janelas indiscretas de onde se "tomava nota de tudo" o que acontecia e se "punha a escrita em dia". Roupa pendurada e pombos esvoaçando em espaços diminutos entre casas. Antenas e parabólicas são os únicos sinais de alguma modernidade nesta Lisboa antiga que vai desaparecendo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Figuras e Factos (3)

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O moço de fretes
Lenta e inexoravelmente vão desaparecendo as figuras típicas de Lisboa. É assim e, ainda bem, a evolução, a ordem natural das coisas. Entre essas figuras, podem-se incluir sem qualquer favor os moços de fretes, popularmente denominados «moços de esquina», visto, por táctica profissional, estacionarem em gavetos junto aos edifícios. A maioria destes honestos trabalhadores era (ainda o são os poucos que se dedicam a este trabalho) natural da nossa região. E, entre esses, uma boa parte nascidos na freguesia do Colmeal. Ainda recordamos haver um punhado de moços de fretes, naturais do Carvalhal, concentrados no Largo do Terreirinho, Rua do Crucifixo, nos vários gavetos das Ruas dos Fanqueiros, Prata, Correeiros e Sapateiros, onde, igualmente, estacionavam variadíssimos conterrâneos do Sobral, Aldeia Velha, Açor, Malhada, Soito e Colmeal, tal, como na antiga Rua do Mundo, Largo do Carmo, S. Roque, escola Politécnica, S. Pedro de Alcântara, Rato, Jardim do Tabaco e Constantino, Braamcamp, Camões, «Duas Igrejas», Calhariz, etc. Enfim, em todos os arruamentos da Baixa, de nascente a poente e da antiga Praça da Figueira ao Terreiro do Paço, havia centenas de robustos e possantes «moços de esquina», por todos os lados, com a sua tradicional corda ao ombro para, quando preciso, atarem os fretes. Também, descendo o Chiado, junto ao elevador de Santa Justa, faziam esquina adelenses. Igualmente desde o Rossio, Restauradores, Barros Queirós, S. Lázaro, esquina com a Rua da Palma, Intendente às «cinco esquinas» (hoje só quatro), encontrávamos moços de fretes da nossa freguesia, estacionados em alegre cavaqueira ou a desabafarem mutuamente as agruras da vida (que eram muitas…), enquanto não eram requisitados por um qualquer cliente de ocasião ou de longa data. Evidentemente, nessa época, era normal na mesma esquina haver muitos moços de fretes jovens juntamente com outros mais idosos e, mesmo com muita frequência, pais e filhos lado a lado no mesmo local de profissão. Era na verdade profissão bastante dura, nalguns casos até perigosa, e nem sempre tão bem remunerada como se apregoava… Alguns, bem poucos, salvaguardaram a velhice, acabando os seus dias no torrão natal; mas os restantes? Encarregavam-se de tudo. Desde levarem malas de viajantes com colecções, colchões à cabeça, máquinas de costura às costas, armários ao ombro, latas com produtos químicos, sacas com géneros alimentícios, até mudanças de mobiliário, transportada a pé, em carroças e, mais tarde, em camionetas, sempre com a preocupação de não partirem os espelhos, não riscarem o verniz ou a pintura dos móveis. Igualmente tinham, previamente, de desmontar as mobílias, caso de camas, guarda-fatos, etc. que depois, com esmero e paciência, voltavam a montar no diferente endereço. Eram especialistas no transporte de pianos de cauda e mais pequenos, cofres, despachos marítimos e terrestres de mercadorias. Tudo resolviam com eficiência estes nossos conterrâneos. Apesar de na maioria dos casos serem iletrados, ajudaram a fundar inúmeras agremiações regionalistas – a União Progressiva da Freguesia do Colmeal foi uma – e contribuíram, por qualquer forma, para nas nossas aldeias haver melhores condições. Também era usual verem-se os «moços de esquina» nos jardins dos palacetes a «baterem» carpetes, ou, quando o freguês não possuía tais condições, as levarem para fora de portas, aí, suspensas com a corda que usavam, entre duas árvores, e, um de cada lado, aquilo é que era bater! O pó a sair e os nossos homens a suarem por todos os poros, com a camisa encharcada, que acabava por secar no próprio corpo e contraindo muitas doenças, algumas incuráveis. Normalmente a sua especialidade eram serviços pesados. Por vezes dois homens utilizavam o pau e corda para facilitar nas cargas mais pesadas. Para não calejarem o pescoço e costas, usavam como «almofada» aquilo a que chamam o «changuiço». O «changuiço», que colocavam ao pescoço, tinha a forma de ferradura em ponto grande, todo ele arredondado. No entanto, também lhes apareciam serviços leves, que por vezes eram de extrema responsabilidade ou mesmo confidenciais. A estes homens, nossos conterrâneos e não só, confiavam as mais valiosas peças de arte, ouro ou prata para irem empenhar e, depois de conseguirem em qualquer penhorista o empréstimo desejado (indicado previamente e aproximadamente pelo interessado), lá iam levar o dinheiro e a cautela de prego ao «enrascado» freguês. Como serviços confidenciais eram procurados, algumas vezes, por senhoras que, sentindo-se, ou julgando-se, atraiçoadas pelo marido, solicitavam os seus serviços para irem espreitar o consorte. Para este trabalho «fino», que não exigia esforço físico, já as coisas tinham de se processar de outra forma. Tinha de haver outro requinte. Assim o exigia a missão a desempenhar. Com a fotografia do «traidor» e outros elementos em sua posse, lá ia o nosso conterrâneo ao seu quarto (a maioria vivia em «casas de malta»), guardar o boné, no qual obrigatoriamente figurava uma chapa com o número atribuído pelo Governo Civil, barbear-se, lavar-se (caso houvesse condições para isso na habitação), vestir o seu melhor fatinho e com gravata e chapéu de feltro, já bastante coçado, saía para averiguações, após de corar mais uma vez a fisionomia daquele que figurava no retrato que lhe tinham confiado. Igualmente as «meninas da vida» os utilizavam para os mais variados recados. Talvez pela «profissão mais antiga do mundo» que exerciam, pelos «fretes» que as circunstâncias obrigavam a fazer, as «moças da vida fácil» eram as clientes mais generosas a remunerar trabalho alheio. Depois desta dissertação, sobre factos concretos e nada, mesmo nada fictícios, perguntamos porque enveredaram no passado tantos colmealenses pelo caminho de «moços de esquina»? As razões foram várias. No entanto uma, se não mesmo fundamental, foi o não terem tido acesso à cultura (uma grande parte eram analfabetos) e, não o podemos esquecer, quando migravam deixavam na maioria ficar a mulher e os filhos na terra. Por estes factores dedicavam-se a esta profissão livre para periodicamente regressarem à aldeia, se possível com algum pecúlio para pagarem ao merceeiro aquilo que as «leiras» não produziam e efectuarem a sementeira ou a colheita, conforme a estação do ano. Efectuados que fossem esses trabalhos, novamente a pé, primeiro, de diligência e mais tarde na camioneta, ainda com pneus de «bandaje», deixavam para trás a terra natal a fim de procurarem na cidade meios de subsistência que a aldeia não tinha para lhes oferecer. Era mais um período de uns quantos meses a trabalhar no duro, a escreverem (ou sendo iletrados pediam a terceiros) uma vez por mês uma carta à mulher e a juntarem-lhe uma nota, normalmente nunca mais de vinte escudos, para comprar qualquer tecido para peça de vestuário, remédios, etc. Não era difícil conseguir-se licença de moço de fretes. Entregues os documentos, entre os quais o Registo Criminal, no Governo Civil, era concedida sem problemas de maior, porque, evidentemente, nada constava em desabono do requerente. Os «moços de esquina» não beneficiavam de regalias sociais (quem beneficiava?) mas, por outro lado, também não pagavam impostos ao fisco. A esses conterrâneos do passado e presente, figuras típicas de Lisboa, homens honestos e trabalhadores, dedicamos com o maior respeito esta nossa singela crónica. De um moço de fretes, com muita saudade por nós recordado, é o nome com que, como pseudónimo, sempre subscrevemos esta secção.
DANIEL
in Boletim “O Colmeal” Nº 184, de Maio de 1982
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Como refere DANIEL na sua crónica, havia um "local de estacionamento". Pelo documento que aqui vos trazemos verifica-se que na caderneta de "Inscrição de Moço de Fretes" o Comissário da Polícia em 13 de Janeiro de 1942 fixa o "Local de estacionamento Rua do Mundo esquina da Travessa da Espera". No dia seguinte, o filho de Daniel Marques da Costa teve que ir pagar 15$00 à Secção Administrativa da Polícia de Segurança Pública. Quando mudou a sua residência foi novamente à Polícia para outro averbamento. "Passou a residir na Rua João do Outeiro, nº 13" (Lisboa, 19 de Fevereiro de 1943).
Passados todos estes anos a Mouraria, o popular bairro de Lisboa onde tantos e tantos conterrâneos moraram, está desfigurada. Algumas casas desapareceram, poucas foram melhoradas e as pessoas das nossas aldeias que lá viviam foram-se mudando. O número 13 da Rua João do Outeiro é hoje uma porta e uma janela emparedadas como se pode ver nesta foto recente. Foi um número que teve vida e onde se falava de regionalismo e da União Progressiva da Freguesia do Colmeal. Ali viveu Alfredo Pimenta Brás e a sua família até que as origens os chamaram e volveram ao Colmeal, para sempre. Documento cedido por António Marques de Almeida Foto de Francisco Silva

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

UNIÃO comemorou 78 anos

. A União Progressiva da Freguesia do Colmeal comemorou no passado domingo, 20 de Setembro, 78 anos de existência. Continuando a integrar uma vertente de cultura nas suas realizações e na sequência do que tem sido feito nos últimos anos, o dia começou com uma interessante visita à Basílica e ao Palácio Nacional de Mafra.
Este Palácio, um dos mais importantes monumentos do Barroco em Portugal, começou a ser construído em 1717, quando em 17 de Novembro, D. João V lançou a primeira pedra. Compreende 1200 divisões, em que apenas uma pequena parte é visitável pelo público. Talvez a mais apreciada pela sua beleza e grandiosidade seja a Sala da Biblioteca com cerca de 40 mil volumes, verdadeira síntese do saber enciclopédico do século XVIII. Encontramos nas várias salas do Palácio magníficas obras de escultura e pintura de grandes mestres italianos e portugueses. A Basílica com a sua estatuaria e os seus seis órgãos é uma obra-prima da arquitectura setecentista e possui um conjunto único no mundo, pelas suas dimensões e beleza do seu mecanismo – os famosos Carrilhões.
O Jardim do Cerco, construído e traçado entre o Palácio e a Tapada Nacional de Mafra, consegue aliar os valores arquitectónicos e ecológicos onde se destacam os jogos de água com cascatas e lagos.
A agradável Quinta da Feteira acolheu todos os sócios e amigos que quiseram estar connosco a comemorar o 78º aniversário da União Progressiva. A boa disposição esteve sempre presente como é normal num convívio destes.
O Presidente da Direcção num breve improviso agradeceu a presença de todos e manifestou a sua satisfação por mais este aniversário. Regozijou-se com a recente atribuição de Medalhas de Mérito do Concelho a três ex-dirigentes já falecidos, lembrando que entre outros, também Simões Lopes, Martins da Cruz ou Monsenhor Duarte de Almeida são credores do reconhecimento pelo trabalho que levaram a cabo para o desenvolvimento da freguesia. Referiu-se ao passado, presente e futuro da Colectividade, um currículo riquíssimo que ainda há pouco tempo serviu de base aos formandos do RVCC na apresentação de alguns trabalhos finais. Estava ladeado por Catarina Domingos, a mais nova dirigente da União e por Mariana Brás Costa e Silva, grande responsável pelo êxito alcançado com o “Espaço da Juventude” nas recentes Festas de Verão no Colmeal, o que pressupõe que nos jovens está a certeza de continuidade para a Colectividade. Dirigiu palavras de grande apreço para António Ferreira Ramos, que após um longo internamento hospitalar, fez questão de estar presente no aniversário da “sua” União onde foi dirigente durante mais de cinquenta anos.
Os parabéns foram cantados por todos a fechar mais este capítulo no já longo historial da União Progressiva da Freguesia do Colmeal. UPFC