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Este blogue irá apresentar em cinco partes um trabalho de autoria de António Duarte, presidente da Comissão de Melhoramentos do Soito, que nos foi dado a conhecer aquando da preparação para o Dia da Freguesia do Colmeal realizado em 31 de Janeiro deste ano na Casa do Concelho de Góis, em Lisboa.
Todos sabemos que a nossa memória se vai perdendo na voracidade do tempo e que nada ficará para os vindouros se não a conseguirmos transmitir.
António Duarte neste seu trabalho, nesta sua recolha, traz-nos à memória "coisas do antigamente", do tempo dos nossos pais e dos nossos avós. Alguns de nós, que já vamos tendo alguns anos em cima, ainda nos lembramos de algumas destas tradições.
Também participámos em descamisadas e debulhas e recordamos a "melodia" do moinho moendo, moendo sem parar. Temos ainda presente igualmente na nossa memória, o "cantar" da água correndo pela levada (ainda hoje corre em parte) e como se "desviava" a água para aqui e para ali, de modo a que a "lei da água" fosse cumprida e a todos servisse como estabelecido.
António Duarte não nos pediu a publicação deste seu trabalho. Entendemos, e só a nós cabe essa responsabilidade, tomar a iniciativa da sua divulgação. Temos obrigação de transmitir conhecimento aos mais novos e a quem não conhece procedimentos de outros tempos. Faz parte da nossa missão. Estas tradições são comuns a muitas outras aldeias e poderão vir a ser complementadas com a sua colaboração, que nos vai ler, e em quem certamente despertámos um pouco do que a sua memória encerra e que poderá partilhar com todos nós.
Obrigado António Duarte. E obrigado também a si, que certamente quererá partilhar um pouco da sua memória connosco.
A. Domingos Santos
1. Apanha da azeitona e confecção do azeite
O Soito era uma terra com muita azeitona, que era apanhada durante várias semanas, entre Novembro e Janeiro. Era armazenada nas “lojas” das habitações e nalguns casos em tulhas junto ao lagar.
Já mais próximo de fazer o azeite, a azeitona era transportada às costas ou em carros de bois (na aldeia havia entre 1 e 2 juntas de bois) para o lagar da “Ponte de Ceiroco”, na Ribeira de Carrimá, que servia as aldeias do Soito, Carrimá, Boiças e Vale Pardeeiro.
Cada proprietário marcava o seu dia ou dias para fazer o azeite, dependendo da quantidade de azeitona que possuía. No dia de fazer o azeite teria de fornecer lenha para a fornalha do lagar e comida para os lagareiros que, na maioria das vezes era feita na fornalha do lagar, sendo daqui originário o famoso prato de bacalhau à lagareiro, o qual, tal como as batatas “a murro”, era assado na brasa e temperado com o azeite acabado de fazer.
Os lagareiros, mestre e moço, trabalhavam dia e noite de forma contínua (com alguns intervalos de descanso enquanto o moinho moía as azeitonas e a prensa ia espremendo as que tinham sido moídas anteriormente), sendo na maioria das vezes acompanhados durante a noite pelos donos da azeitona, que também ali pernoitavam.
O produto que escorria da prensa incluía o azeite e o “azilabre” (uma mistura de água e dos outros resíduos da azeitona), ia parar à tarefa, que era uma espécie de pote profundo, composto por duas partes – a parte inferior para onde ia a água e a parte superior onde ficava o azeite, por ser substancialmente mais leve. Ainda hoje se diz que a verdade é como o azeite – vem sempre ao de cima.
A perícia do mestre lagareiro consistia em abrir uma torneira na parte inferior da tarefa, de forma a mandar fora o azilabre e manter o azeite. Este trabalho exigia muita perícia, mexendo a tarefa com uma fina vara de madeira, para saber exactamente onde terminava o azilabre e começava o azeite. Por vezes aconteciam pequenos acidentes e lá ia uma parte do azeite para a ribeira.
Para além de fornecer a comida aos lagareiros e a lenha para as caldeiras que se destinavam a aquecer a água para caldear (a fim de obter mais azeite e após uma primeira prensagem, as ceiras eram retiradas e caldeadas com água quente, sendo de novo colocadas na prensa para serem espremidas de novo), também o trabalho dos lagareiros e o pagamento ao dono do lagar eram feitos do próprio azeite obtido. Este último pagamento designava-se de “poia”. No lagar havia também uma talha para onde todos davam uma pequena quantia de azeite para o “Santíssimo”, inicialmente destinado à iluminação da igreja do Colmeal e posteriormente, com a evolução para as velas e luz eléctrica, destinado a ser vendido e a angariar fundos para a mesma igreja.
Aquela talha (pequeno pote) integra hoje o espaço museológico do Soito, por doação do actual proprietário do lagar, que funcionou até há cerca de cinco anos atrás.
O azeite era transportado para a aldeia em bilhas de lata ou em odres (recipientes feitos em pele de cabra), sendo então guardado em potes de barro.
Para além do tempero, o azeite, a par da banha de porco e naturalmente do sal, era também usado para conservar os alimentos durante o ano inteiro (sobretudo o queijo e algumas partes do porco), uma vez que o Soito só teve luz eléctrica a partir de 1979.
António Duarte – Comissão de Melhoramentos do Soito