JOSEFA MARTINHA, um nome, uma legenda da Serra!
«Aquele não é um rolo, é um Rolão» – Autor desconhecido
Gerar filhos, efectuar a lide da casa, amanhar a terra para produzir pão, eram, entre outros, os deveres da mulher da Serra.
Josefa Martinha, com dezoito risonhas primaveras, ao casar em 1910 com José Maria Ramos, conhecido por Joaquim Ramos, não alterou a regra: trabalhar no duro, de sol a sol e gerar filhos.
A ambição legítima de José Maria Ramos, que não conhecia uma letra, era possuir de seu um palmo de terra e casa modesta para o casal habitar, com os filhos que porventura viessem a gerar.
Como a produção da terra, proveniente das leiras de cultivo, nem sempre era excedentária, havia que migrar periodicamente para concretizar o sonho, mantendo-se a mulher na Serra a amanhar os «coiceiros».
Depois de várias idas periódicas para a capital, privações da mais variada ordem e amealhados que foram uns reis (para os quais contribuiu Josefa Martinha ao vender anualmente algum do milho que recolhia), José Maria Ramos adquiriu as «cavadas» da Selada do Riado e junto à estrada construiu aos poucos a casa, o lar do casal, então já com dois filhos.
Pela sua situação, a Selada do Riado era obrigatoriamente local de passagem dos caminheiros da Serra. Assim, mais tarde, José Maria Ramos, homem rude mas de visão, montou ali, por baixo da habitação, um negócio de bebidas, sal (utilizado abundantemente para conservar a carne de suíno) e carvão.
Nos seus princípios de comerciante, José Maria Ramos, filho do «Rolo» do Carvoeiro, teve um desaguisado com conterrâneos, já um tanto ébrios, aos quais virou costas para evitar uma mais acalorada discussão. Um dos presentes, conhecedor da alcunha do pai, alto e sonante, em jeito de provocação: «Aquele não é um rolo, é um Rolão!».
Em tal hora foi feita a afirmação que o epíteto propagou-se por toda a Serra. O nome de Selada do Riado foi enviado às ortigas, e por «Rolão» passou a denominar-se o local desbravado por José Maria Ramos, falecido bastante jovem.
Viúva aos 34 anos, mãe de 6 filhos, de ambos os sexos, cujas idades variavam entre os 18 meses e 14 anos, a «senhora Martinha do Rolão», como respeitosamente era tratada na região, não era somente comerciante, era uma mulher de «armas», mas simultaneamente de uma humanidade a toda a prova.
«A senhora Martinha do Rolão» estava sempre pronta a ajudar o próximo, servir aos caminheiros da Serra um prato de sopa e conduto, emprestar agasalho no Inverno enquanto ao calor da lareira secavam as roupas encharcadas pela água da chuva, ceder uma cama para passar a noite, emprestar dinheiro sem juros, socorrer uma aflição ou fiar o que necessário, sem perguntar quando viriam a pagar.
O nome da bondosa Josefa Martinha, nascida no Braçal (Pessegueiro) a 13 de Junho de 1892 e falecida em Lisboa em 26 de Abril de 1982, é uma legenda da região. Por isso, mas fundamentalmente porque os conterrâneos, sejam eles das Serras ou Vales, de freguesias situadas ou não nos concelhos de Góis e Pampilhosa da Serra, não são ingratos, têm vindo a público, através da imprensa, alvitrando a realização de uma homenagem póstuma a essa figura de mulher da Serra.
Pelo seu humanismo e qualidade de MULHER, com letra maiúscula, apoiamos a nobre intenção de se perpetuar o nome de Josefa Martinha. Mas, por favor, não alterem o nome do local, situado na estrada da Pampilhosa da Serra, onde entroncam as vias de Colmeal e Fajão.
Rolão, derivado do epíteto de que a falecida e seus descendentes sempre se orgulharam, eternamente continuará «ROLÃO» na voz do povo.
FERNANDO COSTA
in “A Comarca de Arganil”, de 1 de Junho de 1985
Do espólio de Fernando Costa