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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pequenas Miniaturas GRANDES MEMÓRIAS




O Posto de Turismo de Góis foi pequeno para acolher terça-feira à tarde todos aqueles que quiseram estar com o Artur Fonte na inauguração da sua Exposição. Entidades representativas do concelho, familiares e amigos, todos eles quiseram testemunhar-lhe o seu apreço, bem visível nas palavras que lhe dirigiram, e também a sua amizade e o incentivo para que continue o trabalho notável ali exposto.


Artur Domingos da Fonte é natural do Colmeal e nosso colega na Direcção da União Progressiva. O desdobrável desta exposição dá-nos conta que “Começou a fazer miniaturas em 2008 como forma de ocupação dos seus tempos livres. Iniciou-se na miniaturização em madeira com um carro de bois, peça que fez questão de incluir e destacar na Exposição “Pequenas Miniaturas, Grandes Memórias”.


A Dr.ª Lisete de Matos referiu-se com visível emoção ao Artur e aos seus trabalhos. E pegando num deles a que o autor chamou de “Os meus brinquedos”, onde se viam a fisga, o pião, o laço e a gancheta, o carrinho de rodas, o estoque e também a roçadoira e a corda de ir ao mato, falou da infância e da juventude e o que eram os brinquedos de um menino/rapaz simples de aldeia, onde o trabalho duro não escolhia a idade.


Como depois o Artur diria na sua simplicidade, aquela exposição não era só dele, era dos dois, porque a Dr.ª Lisete, sempre incansável e interessada na preservação e promoção das tradições e dos trabalhos artesanais, tinha sido a grande mentora e principal responsável por esta realização.





Uma excelente colectânea de trabalhos que, finalmente, e ainda bem que o fez, o Artur permitiu que partilhássemos fora da sua “loja”. Todas estas miniaturas são parte das suas e das nossas memórias (pelo menos dos mais “antigos”). Seria muito interessante, como foi sugerido, que os alunos das escolas visitassem esta exposição, para se darem conta de uma realidade que já não será a sua, mas que foi dos seus pais e avós. E também proporcionar aos mais idosos a recordação de outros tempos, tempos que não devem ser esquecidos, porque eles foram vividos e fazem parte das suas vidas.


Parabéns ao Artur Fonte e à Dr.ª Lisete de Matos por nos proporcionarem tão excelente exposição.

Fotos de Jorge Fonte e A. Domingos Santos

sábado, 17 de novembro de 2012

PEQUENAS MINIATURAS, GRANDES MEMÓRIAS


Visitei recentemente a exposição de miniaturas do Artur da Fonte, no Colmeal. São produções em madeira que recriam e retratam, individualmente e por conjuntos, situações e instalações atuais ou que o tempo e as necessidades de quotidiano já transformaram, utensílios e ferramentas cuja funcionalidade desapareceu com o desaparecimento das atividades que serviam.

Fruto da fundura das raízes que prendem o autor às origens e de um espantoso processo de miniaturização e interpretação estética, entre as miniaturas podemos ver utensílios singulares, que encantam pela fidelidade e beleza, construções, que integram ou integraram o casario local, parecendo uma povoação sobre a antiga arca do milho que as acolhe, e um número incontável de conjuntos alusivos a situação e atividades.


Entre os primeiros, de que faz parte a bruxa calorosa - e saudosa pelo aconchego que proporcionava -, permito-me destacar a tabuinha de engomar feita de propósito para pôr o ferro elétrico minúsculo que o António dos Santos lhe ofereceu … “E que funciona!”



No campo das construções, recordo a igreja, que nos saúda logo à entrada, a capela do Senhor da Amargura nos anos sessenta, a sede da Junta de Freguesia, a escola, o lavadouro, habitações, o moinho de porte redondo pouco frequente, que o temporal já levou, e aguarda recuperação …



Um trabalho simplesmente fantástico e indescritível, tal como o que corporiza os conjuntos temáticos, em que avultam o interior de salas e quartos, da antiga loja da “Ti” Maria, de moinhos e de um lagar, de uma cozinha espetacular com caniço e castanhas, cão e gato, de uma capoeira com galinhas, de um palheiro, de uma adega polivalente …





Visíveis, também, várias atividades e muitos equipamentos domésticos e comunitários, como o forno, o alambique, a nora e outros engenhos.





Enfim, uma admiração: as miniaturas em si próprias e a complexidade e diversidade presentes! Por mim poderia ficar ali indefinidamente, a descobrir novos pormenores, e a maravilhar-me com a beleza e a riqueza da informação que as peças comportam. A propósito, dizia-me o Artur que gosta especialmente da obra “As sobras”. Ora bem!, ou não servissem a arte e o artesanato também para evidenciar valores, como o espírito de poupança, uma reminiscência da ruralidade, que a crise económica está a tornar universal.


Na minúcia de que se revestem, as miniaturas do Artur revelam sensibilidade, destreza e memória visual, uma vez que para as fazer recorre frequentemente apenas à imagem que delas guarda. É o caso do engenhoso batoco, que o Artur chama “Espanta praga”, um dispositivo que o “Ti” Manuel do Canto tinha numa fazenda, a espantar pouco os pássaros e muito as pessoas que não resistiam ao fascínio do mecanismo! Outras peças revelam humor e ironia, no modo como apontam para a experiência pessoal e para uma realidade social em que as crianças praticamente não o chegavam a ser, tão cedo viam substituído o direito a brincar pelo dever de trabalhar! É o que acontece com o conjunto “Os meus brinquedos”, que junta aos habituais brinquedos de fabrico caseiro a roçadoira de ir ao mato, que é uma ferramenta.
- A roçadoira era um objecto com o qual eu brincava muito! Era mesmo obrigado a isso. - O mato era usado como cama e alimento para o gado, que o transformava no estrume imprescindível para nutrir a terra pouco fértil. Por isso se ia ao mato todos os dias, implicando a tarefa roçar o mato dobrado sobre o chão qual ceifeiro/a, fazer o molho com jeito para que não se desmanchasse pelo caminho, transportá-lo às costas até casa, pelas veredas inóspitas da serra.



Perante um “Carro manual” semelhante a um de bois, o Álvaro, que estava connosco, recorda que em miúdo teve uma carroça igual àquela. Ia à lenha com ela acompanhado de dois amigos irmãos, que ainda hoje parecem guardar uma pedra no sapato sobre o assunto. “Eh pá!, eras mesmo mau! Então não podias ter-nos deixado ficar com mais alguma lenha?!”


- Como a carroça era minha e era pequena, vinha cheia até à altura dos fueiros com lenha para mim, e só depois é que trazia mais uns paus para eles. Não era fácil, a carroça não tinha travões nem nada, nós não tínhamos força …
- Mas era uma viatura a três cavalos!, acrescenta o Artur, divertido.

Reportando-se a um contexto socioeconómico em que os animais de tração tendiam para ser raros, na sua singeleza narrativa, este episódio reflete a transição do transporte às costas ou à cabeça para a utilização de veículos com rodas que as pessoas puxavam. Começaram por ser em madeira, hoje são metálicos.

As miniaturas encontram-se legendadas com etiquetas que praticamente fazem parte delas, solução interpretativa que ajuda a remeter para as memórias que evocam.



O Artur começou a fazer miniaturas em 2008, como forma de ocupação dos tempos livres, a tradição assim reinventada a partir de um valor contemporâneo. Escolheu o trabalho em madeira, entre outras razões, porque já em pequeno gostava de a trabalhar, sendo ele que fazia as reparações lá em casa, construía as capoeiras, fazia as sebes … Daí a alegria patente na voz, quando há uns anos me dizia, a propósito de consumo, que gostava de comprar ferramentas! O que então entendi como um elogio ao trabalho era, afinal, uma manifestação da vocação artística que veio a concretizar, ele que tão íntimo foi da arte em algumas das suas expressões mais elevadas. Iniciou-se na miniaturização em madeira com um carro de bois “inspirado num que vi lá em sua casa”. Uma grande honra para o carrinho obra do meu pai!

No seu processo criativo, o autor conta com o apoio incondicional e qualificado da Luisa, sua esposa, cuja opinião o pode levar a reformular completamente as peças que constrói, no silêncio recolhido do sótão, e só depois submete à sua consideração.

As miniaturas ocupam a loja da casa do Artur no Colmeal, convivendo, naquele espaço próprio ou próximo do contexto social de produção a que pertenceram, com ferramentas e utensílios autênticos, que foram da sua mãe, e que os irmãos até gostaram de ver expostas.



Num registo de partilha que importa referir, o espaço costuma estar aberto à curiosidade e ao apreço dos visitantes. Funciona para uns como fator de orgulho e pertença, para todos, como núcleo museológico, onde os objetos ganham vida pelo poder da palavra, transformando-se em memória e tornando protagonistas da história as pessoas que os construíram, utilizaram e preservam, no passado e no presente.

Parabéns Artur! Com as suas miniaturas revisitei a infância distante, com elas pensei que saberemos resistir e persistir na senda do futuro. Parabéns também à freguesia do Colmeal, por tantos dotados e devotados filhos, artistas, artesãos e artífices dos mais diversos ramos de atividade.

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 30 de Setembro de 2012.