segunda-feira, 1 de agosto de 2016

PEQUENOS GRANDES LIVROS


Recebi-os grata das mãos afetuosas de Deonilde Almeida. Tesouros que são, aconchegados e escondidos numa caixa de caixas. Reanimados, depois de amorosamente limpos do pó, secos da humidade, resgatados do silêncio. A Maria Deonilde recuperou-os com a Maria Cecília do espólio da D. Maria Augusta Almeida, mais conhecida por Maria Machada. Três Marias! Dois livros gastos e cansados do tempo passado, do uso e do desuso, da evolução dos costumes. Ainda assim, dois livros cativantes que gostei de conhecer, procurando sentir as mãos, o olhar, a devoção e a emoção dos leitores que tiveram.




LIVROS

Dois livros religiosos: um “Manual Abreviado da Missa e da Confissão” e uma “Bíblia para a Infância”. O missal, da autoria do presbítero J.-Roquete data de Pariz, 1857. Conforme pode ler-se na folha de rosto, é uma edição da “Vª J. P. AILLAUD; MONLON E C … LIVREIROS DE SUAS MAJESTADES O IMPERADOR DO …. REI DE PORTUGAL, …”. Da bíblia desconhecem-se o autor e a data de publicação, por não serem legíveis na capa e faltarem as páginas iniciais.


Dois pequenos livros que configuram uma antecipação do chamado livro de bolso e um reflexo da tendência para a miniaturização como estratégia, desta vez, simultaneamente, de sedução para a leitura e para a mensagem. O missal mede 8,5X6 cm, a bíblia 11,5X7 cm.


Escritos na grafia coeva e num português fluente, são livros que se leem muito bem, em parte devido ao entrelinhamento e ao espaçamento entre parágrafos, que são folgados. No missal, acrescem os subtítulos, os separadores e as capitulares, sendo a missa em si própria ilustrada por 34 imagens, que ocupam as páginas pares, e mostram as diferentes fases do ritual. Por estas razões, parecem livros graficamente concebidos com as preocupações de legibilidade e inteligibilidade que os baixos níveis de alfabetização de então aconselhavam. Meramente a título de exemplo, em 1900, o analfabetismo literal atingia 74% da população portuguesa e 93% dos colmealenses, uma taxa não muito distinta da concelhia, que era de 89%. Se essa preocupação foi intencional, não deixa de ser interessante: que saibamos, as primeiras orientações nesse sentido são da UNESCO, e datam dos anos cinquenta do século vinte.

Livros gastos a cansados, nota-se a vetustez nas faltas, na fragilidade do conjunto, nas folhas amarelecidas e nas margens enrugadas e sumidas de algumas, nas marcas do dedo que as passou ou das lágrimas vertidas de enlevo e comoção. Em ambos, o miolo solto das capas, que parecem ter encolhido, transborda para o exterior, numa ansia incontida de exaltação.

No referido registo de legibilidade e conquista, na bíblia, o narrador interpela sistematicamente o leitor: ”Que erro meus meninos, que culpa”; “E vós, meus meninos, quantas vezes vos sucede …”; “O pecado, meus meninos, é como uma serpente, que causa á nossa alma uma ferida mortal…; “Ai! Meus meninos, este mesmo povo, que faz a Jesus um solemne triumpho ( …) Nada há durável n’este mundo em tudo o que vem dos homens …; “D’ esta sorte, meus meninos … “. Ao tempo, das meninas a história pouco rezava!


Do ponto de vista do conteúdo, uma bíblia é uma bíblia, embora, tratando-se de uma síntese, os enfoques pudessem ser objeto de análise. Quanto à missa, sendo a estrutura do ritual essencialmente a mesma, há diferenças significativas no que toca ao texto e à maneira de celebrar cada um dos ritos, em virtude de as reformas litúrgicas entretanto ocorridas. No entanto, encontrámos pelo menos uma invocação que ainda hoje é usada no Colmeal, embora em momento distinto (Alma de Christo, santificai-me …). O mesmo quanto às orações incluídas.


O capítulo referente à missa começa com a apresentação de cada um dos paramentos e adereços que eram(são) utilizados para a celebração da mesma. Possivelmente por falta de atenção, nunca tinha encontrado essa simbologia.


OBJETOS

Um livro também pode ser visto como um objeto e todos os objetos contam histórias: das sociedades e da História, da vida dos grupos e das pessoas, de vidas alegres e tristes, de sucesso e insucesso, de ricos e pobres. No caso de os livrinhos em apreço, histórias que poderemos imaginar, dotando-os de uma nova vida de itinerância, descoberta e encontro. O que é que o missal - que se sabe ter sido impresso em Paris - nos diz sobre o estado da economia e da indústria, em Portugal, nessa segunda metade do século dezanove? E será sobre Portugal ou sobre o Brasil, considerando as relações livreiras privilegiadas que existiam entre aquele território e a França e o facto de, na folha de rosto, o “Imperador” preceder o “Rei”? A quem pertenceram inicialmente, sendo sabido que ler e escrever eram privilégio das elites? Como é que os livrinhos chegaram ao Colmeal? Seguramente com um filho da terra no regresso à mesma, cedo que as pessoas (e)migraram para sobreviver. Tê-los-á comprado, caríssimos, a julgar pelos preços indicados na bíblia para outros livros? Para trazer de presente, livros, em vez de alguma ferramenta útil ao trabalho precoce? O imaterial e simbólico a sobreporem-se ao material e prático? Ter-lhos-ão oferecido e a que propósito? No contexto de uma relação pessoal, profissional, religiosa? Tê-los-á resgatado – há sempre uma primeira vez - de algum espólio deixado quando tudo se deixa? E tê-los-á resgatado por devoção ou simplesmente por serem objetos atraentes e prestigiantes? E, no Colmeal, a quem serviram, face aos índices de analfabetismo a que aludimos? E que papel terão exercido, precisamente, como estímulo para a aprendizagem da leitura e da escrita, um pouco à semelhança do dever de leitura da bíblia, que constituiu um fator de alfabetização decisivo para os povos de religião cristã protestante?

Feita esta reflexão, falei mais tarde com a D. Silvina Nunes– uma senhora de grande memória e afabilidade – sobre a provável origem dos livrinhos. Não sabe, mas recorda-se de ouvir o marido – Sebastião de Almeida, irmão da Maria Augusta - dizer que o bisavô era brasileiro. Ter-se-ia encontrado com os do Colmeal nas mondas, lá para o Alentejo, vindo com eles e ficado.

Consultando o livro “Gentes e Famílias da Freguesia do Colmeal. Concelho de Góis” (2016) e o próprio autor – Fernando Pinto Caetano - acontece que o bisavô paterno daqueles irmãos era o célebre Manuel Antunes, nascido no Açor e o materno, António Brás, dito natural da freguesia. Assim sendo, o episódio do encontro nas mondas perde impacto, mas o Brasil e o Alentejo são destinos plausíveis da emigração e das migrações sazonais de então. Considerando as datas de nascimento e o facto de o missal ser de 1857 …

Poderíamos continuar, pesquisando, promovendo encontros e participação, imaginando, tornando o passado presente e ambos futuro, através da história dos dois pequenos grandes livros. Integram a biblioteca da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, onde, como todos os outros, se atualizam e recriam todas as vezes que alguém os lê.

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 17 de julho de 2016

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