quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

LUA CHEIA, CHEIOS E VAZIOS NA TERRA


Esteve lua cheia no Natal. Do sítio de onde a observava ao anoitecer, parecia-me emergir de Fajão, onde teria andado de rua em rua, a saborear o convívio das pessoas e o encanto do casario renovado. Áh, e a deleitar-se com a arte de Monsenhor Nunes Pereira e a ironia de “Os Contos de Fajão”! Por isso vinha tão bojuda, radiosa e radiante!



Apesar das tentativas em dias com e sem nuvens, por defeito da máquina ou meu, não consegui captar esse contentamento. Tão pouco o homem carregado de silvas, que foi lá parar como castigo por andar a roçá-las ao Domingo! As coisas que se viam na nossa cultura rural, de medo, culpa e castigo! Noutra qualquer, as montanhas e crateras da lua lembrariam cenas felizes, como a Natividade, o que seria bem mais adequado à época natalícia que se vivia.



Independentemente destas visões, o facto é que a lua passava todos os dias, de oriente para ocidente, mágica e calorosa, a desejar Boas Festas. Como lhe compete nessa fase de luminosidade e feitiço. Todavia, sem bruxas, lobisomens e afins!


Reencontrei-a um dia de manhã, quando eu própria me deslocava para poente e do interior para o litoral. Acompanhava-me, desafiante, sempre uns quilómetros à frente, qual estrela de Belém adiante dos Reis Magos. Continuava sedutora, mas agora algo triste e apagada.



Não, não era por temer a perda de protagonismo, consequência da luz do dia e da fase minguante prenúncio de morte, que se avizinhavam. Ao contrário de alguns, lidava bem com essa inevitabilidade! Era por causa do que vira pelo caminho, deixando o luar indiscreto penetrar curioso na intimidade dos lugares e dos lares, das pessoas e dos corações.


Falar do global que avistava, circulando devagar à volta da terra e com ela à volta do sol? Nem pensar! Seria demasiado extenso e penoso. Falaria apenas do local mais próximo e com grande parcimónia. Regiões desenvolvidas e à espera de desenvolvimento. Populações com e sem as necessidades básicas resolvidas. Territórios e paisagens, uns tratados e fruídos, outros deprimidos e desaproveitados. Florestas ora pujantes, ora ardidas e desordenadas. Terrenos pobres cultivados e ricos incultos. Estradas novas vazias e velhas em uso. Terras, umas preservadas e buliçosas de vida, outras em ruínas e despovoadas. Comunidades, famílias e casais avindos e desavindos. Presépios simples ao frio e árvores de Natal triunfantes à lareira. Presépios animados e desanimados, pais natais a trepar pelas janelas. Cantadores de janeiras solícitos, pessoas ausentes para ouvi-las. Crianças e idosos protegidos e acarinhados, crianças e idosos desprotegidos e destratados. Pessoas compassivas, solidárias e generosas, tantas pessoas carentes de compaixão, solidariedade e generosidade. Pessoas tão sós ainda que acompanhadas. Gente feliz e infeliz; com tudo e sem nada; autónoma e dependente; livre e cativa.


Deixei de a ver amortecida, ainda a magicar sisuda sobre as desigualdades que separam as regiões, as terras e as pessoas.

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 4 de janeiro de 2015

2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado por partilhar imagens tão bonitas e palavras simultaneamente tão realistas e tão poéticas.
Bom Ano!

Rui Ferreira

António Santos disse...

Recordei os meus tempos de menino de calções. Quando via a Lua começar a trepar pelos penedos do Vidual, lá nas lonjuras de Fajão. A sua enorme bola branca nos meses de Agosto. Enorme. Bela. E o que a minha avó me falava sobre as sombras que eu tentava decifrar de uma velha com um molho de silvas às costas.
O texto está admirável e revela-nos aquilo de que nem sempre nos damos conta. E que não passa despercebido à Lua. As desigualdades. Porque andamos apressados? Ou apenas distraídos?