sábado, 21 de novembro de 2015

Se não foram mais longe foi porque não puderam! (VI)


Reflectindo um pouco, é fácil verificar que o Regionalismo colectivo não nasceu por uma questão de simples snobismo do povo, mas sim por uma ânsia de renascimento, de necessidades latentes. Por isso, tanto maior será esse bairrismo ou Regionalismo quanto mais grave for o atraso. (in «Correio da Serra» de 15/10/71)

A União, ao contrário do que alguns pensam, não nasceu por geração espontânea. Os exemplos das agremiações que a antecederam e um posterior trabalho em profundidade de uns quantos conterrâneos no sentido da mobilização de colmealenses, da conjugação de ideias e finalidades comuns, da ambição natural de melhores condições sociais e culturais, estiveram, entre outras, na origem da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.
Legalmente fundada «a colectividade mãe do regionalismo colmealense – e reconhecidos os seus méritos, logo outros naturais da freguesia se aperceberam da vantagem de se unirem para a resolução de problemas nas suas terras». (in «O Colmeal» nº 112, pág. 12).
Assim, directa ou indirectamente, a União também esteve na origem da criação das restantes colectividades da nossa freguesia: Ádela (1936); Malhada e Casais (1953); Soito (1954); Aldeia Velha e Casais (1964) e Carvalhal (1970).
Neste aspecto, como em muitos outros, a União Progressiva da Freguesia do Colmeal prestou um serviço inestimável à nossa freguesia.

Concebeu ou materializou na freguesia alguns abastecimentos de água em substituição da «chafurdo». Noutro sector e nos casos concretos de Aldeia Velha e Casais, tal como o Soito (anos mais tarde) se ficaram mais perto do «progresso dos progressos» e o Carvalhal, bastante cedo, deixou de estar isolado do resto do mundo, foi por iniciativa e acção profícua da União. Também quando da execução da estrada para a Malhada, por Soito, a nossa agremiação mais representativa prestou a melhor colaboração moral e material, como durante muitos anos se bateu pela sua execução. Igual colaboração verificou-se quando dos levantamentos topográficos que estiveram na origem da electrificação das aldeias colmealenses. Além do mais alguns desses levantamentos foram graciosamente elaborados por colmealenses dirigentes da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.

Não menos importante será lembrar que a ideia da estrada Celavisa ao Colmeal, por Sobral, construída pelos Serviços Florestais, germinou em 1935 no seio da União. Também a futura, indispensável e provável ligação rodoviária do Soito a terras de Fajão nasceu em reuniões directivas da nossa cinquentenária agremiação.
Não se pode esquecer, também, que dirigentes da União estiveram sempre na primeira linha, para que o estradão florestal Colmeal a Ádela fosse incluído em plano e executado.

O regionalismo pela sua influência na mobilização, mentalização e valorização dos povos acabou inesperadamente e incompreensivelmente por originar certos «ciúmes» em algumas autarquias, autarcas e mesmo Governos Civis que por vezes muito prometiam e nada faziam e, inclusivamente, desconheciam os povos que «representavam». Por esses ciúmes ou seu derivado afirmou em 1961, em Coimbra, o então Ministro das Obras Públicas, a propósito das agremiações regionalistas: «O principal, muito sério e até de ordem política, resultava do facto de, normalmente, essas Comissões colocarem em má posição a administração local». Da afirmação do então Ministro ao Decreto-Lei 2 108 que retirava às «Comissões de Melhoramentos» a possibilidade de em novas obras serem comparticipadas pelo Estado, pouco tempo se passou. Inclusivamente, quando da aprovação de estatutos para novas agremiações, deixou de ser permitido tanto no título como nos fins a palavra «melhoramentos».

A União, por intermédio de alguns dos seus dirigentes, denunciou, a partir de Março de 1971, tal Decreto de baixa e retrógrada política e sensibilizou a Presidência da Câmara de Góis, à frente da qual se encontrava goiense honesto e, simultaneamente, conhecedor dos problemas concelhios e das limitações da edilidade, no sentido de pressionar o poder político para o retrocesso da referida Lei. As «Comissões de Melhoramentos» nunca poderiam colocar «em má posição a administração local» porque esta não possuía autonomia económica, nem maquinismos, nem meios humanos para fomentar o progresso das aldeias. As Câmaras, no máximo, colaboravam moralmente, o que já era alguma coisa, porque mais não podiam fazer. A aplicação de tal decreto era, na época, um retrocesso para a região serrana da Comarca de Arganil.

Finalmente em Junho de 1971, a presidência da Câmara Municipal de Góis enviou exposição aos poderes públicos. Numa passagem dessa lúcida e clara exposição lê-se: «Por intermédio dessas Comissões, cuja existência e trabalho se destinam exclusivamente a melhorar, a beneficiar, a prestigiar e a engrandecer as suas terras, tem sido possível levar a efeito um elevado número de obras e melhoramentos por elas estudados, sugeridos, planeados, financiados e executados, por vezes através das maiores dificuldades mas sempre com inegável dedicação e fé».
Neste aspecto os regionalistas do Colmeal prestaram directa e indirectamente um serviço à freguesia e á causa regionalista em geral. Os regionalistas colmealenses lutaram, quando outros em melhores condições se acomodaram.

Desde 1973 a União Progressiva da Freguesia do Colmeal, por comparticipação pública, calcetou os arruamentos em Colmeal (1ª fase); vem pugnando pela concretização da fase seguinte; e a expensas suas mandou executar vários muros de resguardo na povoação do Colmeal; mesas e bancos nas Seladas, embora e ainda por acabar; regularização de uma rua e construção do respectivo muro de resguardo no Açor; generosamente distribuiu 120 contos pelas congéneres da freguesia e ultimamente adquiriu o terreno denominado «Cova» para um possível parque polivalente.
Embora não sendo fácil nem provável, ao contrário do que se verifica com as ervas daninhas, destruir ou no mínimo mutilar o título da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, quem o quiser tentar ou tiver essa coragem, terá primeiro que tudo, de destruir a sua obra e o seu historial.

Através da história da União sempre foi apanágio dos mais velhos a inclusão de indivíduos mais novos nos corpos directivos. Talvez por esse motivo, pelo período conturbado de 1975, pela consciencialização posterior e normalidade, relativamente recente, e, também pela separação natural e forçada do «trigo do joio», novos valores de ambos os sexos e bastante válidos, estão despontando para o regionalismo da nossa terra.
Assim, com outras concepções regionalistas, novas ideias, novas limitações, outras gerações de dirigentes melhor ou pior (como em todos os tempos) deram neste último lustro, apesar de tudo, continuidade à União Progressiva da Freguesia do Colmeal e dispensaram às suas congéneres da freguesia uma solidariedade e um pródigo, generoso e inusitado material. Esse apoio material, conforme os melhoramentos em curso nas respectivas povoações, foi distribuído da seguinte maneira: Açor, 15 contos; Ádela, 15 contos; Aldeia velha e Casais, 20 contos; Carvalhal, 25 contos; Malhada e Casais, 15 contos; Sobral e casais, 15 contos; e Soito, 15 contos.

A título de orientação e informação se indica a quantidade de naturais, dessas mesmas aldeias, associados da União Progressiva da Freguesia do Colmeal: Açor, 13 sócios; Ádela, 10 sócios; Aldeia velha e Casais, 18 sócios; Carvalhal, 24 sócios; Malhada e Casais, 29 sócios; Sobral e casais, 12 sócios; e Soito, 21 sócios.
Embora superior ao passado o actual número de associados da freguesia, nomeadamente de algumas povoações, é ridículo. No entanto o que conta é não estarem em jogo o «Deve» e «Haver», como em qualquer contabilidade, e ainda bem, mas sim o ajudar a solucionar problemas sociais comuns.

Concluindo: Ao longo de cinquenta anos de actividade, resumidamente descritos nestes vários capítulos e com inúmeras falhas como se compreenderá, passaram pelos corpos directivos e outros órgãos da União Progressiva da Freguesia do Colmeal dezenas de indivíduos de ambos os sexos, de toda a freguesia, das mais diversas posições sociais e culturais. Uns analfabetos, outros letrados, outros doutorados, uns imobilistas, uns teóricos, outros práticos.

Em qualquer dos casos ou situação, é evidente, em defesa da terra e da freguesia, tanto em momento eufórico como de crise (verificaram-se várias ao longo de meio século) sempre os uniu, conforme as conveniências de momento, um denominador comum: REGIONALISMO!
Conseguiram eles, na realidade, alcançar o objectivo inicial?

Cada um que tire as conclusões que entender. No entanto, em nossa opinião não temos qualquer receio em afirmar: «Se não foram mais longe foi porque não puderam».

in Boletim “O Colmeal”, Nº 169 – Janeiro de 1980
Arquivos da União
  

Sem comentários: