quarta-feira, 5 de agosto de 2015

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. ENTREAJUDA


Eram oito horas e o colmeal dormia sossegado, parecendo, assim colorido e encaixotado, um bairro suburbano visto de longe. Apenas as abelhas-soldado vigiavam a entrada, marchando sonolentas de um lado para o outro. 


Entretanto, chegavam os apicultores, movimentando-se rápida e certeiramente como quem conhece bem o terreno e sabe ao que vem. Depois de equipados, lembravam extraterrestres invasores ou equipas combatentes de perigosas epidemias. Por ser tão bonita, a Beta também lembrava a Meryl Streep, no filme “África Minha”. 



Iniciados os trabalhos, o Carlos abria as alças e, enquanto a Beta afugentava as abelhas com o fumigador, levantava os quadros. Depois de os libertar das abelhas e observar atentamente, tomava uma de três decisões: se tinham sobretudo mel iam para a caixa de recolha sempre devidamente arrumados; se pouca criação, para o respetivo ninho; se muita criação e pólen para a caixa destinada a constituir um novo enxame, um dos métodos utilizados para o efeito. Na realidade, já pouco se usam a enxameação natural e o “abarbamento” com fuga, como se via em Olha! Um enxame! (upfc-colmeal-gois.blogspot.com, 16 maio de 2010) E a Beta sempre a fumigar, e a ajudar, recolocando quadros, alimentadores e tampas.







Cheia a alça, pesando uns trinta quilos, o Amilcar pegava nela, e levava-a ao Carlos de Jesus, que se encontrava em cima do atrelado do trator, a arrumá-las de modo a caber o maior número possível. Sempre assim, em ritmo acelerado, sem precisarem de se ditar ordens ou fazer reparos. Um trabalho de equipa, ou, mais do que isso, um trabalho colaborativo tornado possível e eficiente pelo saber, pela experiência e pelo respeito mútuo. Afinal, um trabalho que replica o das abelhas, em termos de empenho, organização, disciplina e produtividade. 




Enquanto os observava e espantava as abelhas, que me picavam por cima da luva fina que teimava em usar, revia o passado distante nos afetos e nas práticas apícolas. Encostado ao cortiço e de mãos nuas, pachorrentamente, o meu avô José Martins cortava os favos com a crestadeira, depois de afastar as abelhas soprando o tufo feito de trapos. Ao lado, por vezes, sem toso a proteger-lhe o rosto, a minha avó Leopoldina – mais tarde, a minha irmã Finita ou o Amilcar bem pequeno -, segurava, sobre o cortiço do lado, o alguidar onde os favos eram depositados e, seguidamente, levados para casa, pelas veredas ingremes e pedregosas da serra. Quanta diferença e quanta renovação na continuidade: as abelhas fiéis ao destino de adoçarem a vida e assegurarem (dizem) a sobrevivência das pessoas, estas fiéis ao fascínio pela natureza e à obrigação do progresso sustentável e amigo do ambiente.

- O senhor Amilcar é um excelente apicultor, dizia a Beta. Apesar de a verdura ter secado tão cedo este ano, muitos quadros estão cheios. Se os outros apiários estiverem assim, vai ter uma boa produção. 

- Olhe, olhe aqui, a rainha! Esta, a maior, vê? Não, eu via apenas um amontoado fervilhante de bichinhos irrequietos! Na esperança de a objetiva captar o que os meus olhos não conseguiam, disparava sem parar, até a máquina amuar de tanto esforço! “Ocupada, ocupada” …, dizia-me, coberta de abelhas, que a cor escura atraia. 


- Aquele ali é um “zangaro”! As abelhas matam-no depois de ele ter fecundado a rainha. Vê, isto aqui é o pénis! Seria, mas eu, francamente desiludida, só pensava em como aquele zangão era pequeno e “feioco”, comparativamente com os grandes e vistosos, que andam por aí a beijocar as flores! 

- E estas pintas brancas no fundo do alvéolo, vê? É criação e a massa amarelada é o pólen de que elas se alimentam.

Surpreendida, arrisquei:

- As coisas que a Beta sabe! Gosta das abelhas e da apicultura? 

- Gosto, gosto muito. Tanto que deixei o meu trabalho para tomar conta delas! Neste momento, até já podia fazer formação. Só ainda não percebi porque é que é tão frequente a rainha ser substituída quando se faz transumância. As abelhas são muito inteligentes. Ensinam-nos a trata-las. 

Depois do almoço – que a Maria Quitéria confecionou, associando-se à entreajuda contagiante - seguiu-se a extração do mel e o nome diz tudo. Longe vai o tempo em que era espremido à mão dos favos túrgidos, uma tarefa que exigia força e resistência. Mas não mais do que a extração mecânica, no modelo em presença, que é mais rentável, mas uma atividade igualmente pesada e muito exigente.

Na melaria, tanto quanto possível ao mesmo tempo, para evitar desperdícios de tempo e energia, é preciso: retirar as alças das pilhas onde se amontoam, lembrando agora arranha-céus cubistas; retirar os quadros das alças; introduzi-los na máquina desoperculadora; retirar à mão os vestígios de cera que a máquina ignorou; passar os quadros ao operador das centrifugadoras; arrumá-los; acionar as máquinas; substituir os baldes de recolha do mel; despeja-los no recipiente de decantação, subindo um degrau com aquele peso; retirar os quadros das centrifugadoras; recoloca-los nas alças, separados por pretos e brancos, para facilitar a reposição na colmeia. 















Em simultâneo e na maior coordenação de esforços, é ainda necessário: assegurar que os quadros não encravam na desoperculadora; gerir a cera que se junta na respetiva cuba, de modo a não dificultar o manuseamento dos quadros; manter o polegar da mão que segura o quadro defendido dos dentes pontiagudos do garfo; estar atento aos baldes de recolha do mel, para que não transbordem; espantar as abelhas que andam por ali menos agressivas do que no apiário, mas ainda assim “picazes”! Um trabalho árduo e melado, envolvendo na linha de produção, sob a supervisão do Carlos e da Beta, diversos operadores. Até o Pedro venceu o medo que tem das abelhas!

Em dado momento, do ecrã da televisão, juntavam-se à azáfama reinante umas jovens que cantavam e dançavam ao ritmo frenético da centrifugadora. Pouco vestidas como estavam, teriam feito as delícias das abelhas durante a cresta e mesmo ali! E as raparigas preveniam o reumático, efeito que é suposto o veneno da picada produzir!

- Afinal, as colmeias do senhor Amílcar enganaram-me. Há quadros cheios, mas há outros que têm pouco ou que têm muito pólen. Se calhar tinha razão na sua estimativa e o Carlos e o senhor Carlos de Jesus é que vão perder a aposta … 

- Chega, para mim chega … 

- E já viu a quantidade de cera que tem aqui? 

- Cera?! Cera é o que a gente não tem feito!, acrescentava a Maria Quitéria, bem disposta, apesar dos trambolhos em que as abelhas lhe tinham transformado um pé e um braço.

A extração por este processo lembra um pouco a fabricação do azeite, sendo igualmente emocionante ver correr o mel e, sobretudo, vê-lo a cobrir, apressado, o fundo da centrifugadora, transitoriamente sendo de novo a flor que já foi. Uma flor espessa e escura, ouro liquido como o azeite!


À hora do lanche e do jantar, a Beta ausentava-se por instantes. Apicultora competente e despachada, revelou-se (me) também uma cozinheira exímia. Estava tudo muito bom, mas as filhós, simplesmente divinais!

Se este relato fosse sobre apicultura, diria que a operação está longe de se encontrar terminada. Para que as abelhas as possam limpar dos restos de mel, pólen e humidade, as alças com os quadros vão regressar ao apiário, para serem de novo recolhidas quando o frio do inverno se aproximar; e voltarem, quando o calor terno e os aromas da primavera se fizerem sentir …

Em termos de subprodutos, da cera fermentada em água pode fazer-se hidromel, deste destilado, aguardente de mel, dele acidulado, vinagre. Finalmente, a cera é sempre reutilizada para novos quadros, sendo moldada ou mandada moldar em empresas da especialidade. Alguém dizia que pode ser mais rentável do que o mel, uma vez que se compra a doze ou catorze euros o quilo, enquanto o mel, a vender-se, rondaria os cinco. Por aqui, não costuma produzir-se geleia real ou própolis.

A apicultura é uma das atividades potencialmente mais lucrativas da serra, e o mel é de grande qualidade, devido às caraterísticas organoléticas que as diferentes urzes lhe conferem. Nesse sentido, é uma das muitas belezas e riquezas serranas, que tenho vindo a destacar. Como destaco hoje, enternecida e grata, a solidariedade e a entreajuda, profícua e portadora de futuro, que tive o privilégio de testemunhar.

Agradeço aos apicultores Elisabete Maria Castanheira Almeida, Amilcar de Almeida, Carlos Conceição de Jesus e Carlos Manuel Fontes de Almeida a experiência de carinho, enriquecimento e apaziguamento que me proporcionaram. 


Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 28 de julho de 2015.

6 comentários:

Anónimo disse...

Mais uma vez muito obrigada pelos seus artigos com que nos presenteia assiduamente. Neles é evidente a sua ternura, empenho e essencialmente a sua sensibilidade. Este também é de muito interesse, não só pelas fotos recolhidas mas também pela informação que nos transmite, nomeadamente todo este trabalho que, seguramente, nem todos conhecem.
Continue, por favor, que nós gostamos, agradecemos e ficamos à espera. Muito obrigada.
Maria Lucília

Anónimo disse...

Muito, muito bom! Todo o saber que recolhe/recorda e nos transmite, a ilustração, a ternura, o amor às coisas da terra - da nossa terra - o rigor e o modo simples (difícil é dizer fácil!) como escreve... Fico sempre à espera do próximo artigo!
Este tem um sabor especial - colmeia, Colmeal... E o nosso mel é tão bom!
Deonilde Almeida (Colmeal)

Anónimo disse...



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Após ter analisado os comentários da Dona Maria Lucília e da Dona Deonilde Almeida, tomei a liberdade de os “copiar” e “Colar” no meu comentário. —Da humildade ao saber, do amor e desvelo pela nossa região à incansável e constante “luta” na promoção dos usos e costumes das nossas aldeias, descrevem com uma envejável exactidão a nossa tão “querida” Dra. Lisete de Matos...

Obrigado Lisete... E’ na realidade um privilégio ter-te entre nós!



Armando Almeida, (Açor, Colmeal)

Anónimo disse...

Muito obrigada. Sem querer entrar em diálogo, sempre digo que o trabalho e o mérito são exclusivamente dos protagonistas. Apenas enalteço o seu labor e postura, e contribuo para o reconhecimento das potencialidades locais.
Abraço
Lisete de Matos

Anónimo disse...

Mais um extraordinário trabalho de observação, estudo pormenorizado e uma relíquia para os vindouros. Felizmente que ainda temos quem se dedique a nobres tarefas, como a de apicultor, e quem se preocupe em registá-las para a posteridade.
Um excelente exemplo de ocupação de tempos livres, e de como é possível fazer/deixar algo de interessante.
Numa região de desertificação acelerada ainda é muito bom encontrarmos estes "oásis" de saber e cultura.

GraçaBrito disse...

que bom, que belo, que excelente artigo! no seu todo.

obrigada

gb