quinta-feira, 27 de agosto de 2015

EspaçoArte enriquecido com novas peças


No Colmeal, o Centro de Cultura e Convívio recebeu no dia da sua inauguração, no passado dia 11 de Agosto, duas novas obras, um presépio em ferro e um moinho em madeira, de autoria do nosso sócio e amigo José Nunes Alves de Almeida, e que muito irão enriquecer o espólio do EspaçoArte.


Já em Dezembro de 2014, por ocasião do Concurso de Presépios realizado no Espaço Multiusos “Alice Sande”, numa feliz iniciativa da Câmara Municipal de Góis, tínhamos apreciado este seu singular trabalho onde utiliza ferramentas, hoje com pouco uso, por falta de braços que as manejem ou por substituição por equipamentos mais modernos.



O moinho, que está electrificado e funciona, é uma réplica daqueles moinhos que os mais antigos ainda recordam, quando à Quinta, à Ponte ou à Cortada, para só mencionar alguns, iam com o sarrão de milho ou de centeio para moer e depois trazer a farinha com que se amassava e cozia a broa.



Este EspaçoArte foi iniciado com um quadro pintado pelo associado Mário Mendes Domingos. Outras obras de sócios e amigos da União se lhe seguiram. Iara Caetano, Josefina Almeida, Margarida Reis “Guilai”, Fernando Costa “Baguinho”, Abel Marques, Fernando Alves Caetano, Artur Domingos da Fonte, Jaime Martins de Almeida e agora José Nunes. Alguns são já repetentes, o que muito nos sensibiliza.





A. Domingos Santos
Fotos de A. Santos, Armando Almeida e Francisco Silva

domingo, 23 de agosto de 2015

Centro de Cultura e Convívio


Foi no passado dia 11 de Agosto que a União Progressiva conseguiu realizar um sonho antigo dos seus associados e dos Colmealenses. Com a assinatura de um Protocolo de Cooperação com a Comissão da Fábrica da Igreja do Colmeal a União procedeu a benfeitorias no imóvel do Centro Paroquial e preparou o espaço para nele poder funcionar um Centro de Cultura e Convívio.


Estiveram presentes os principais obreiros que décadas atrás criaram aquele espaço e depois o ampliaram, Padre Anselmo Ramos Dias Gaspar e Padre Manuel Pinto Caetano, o actual pároco da freguesia Padre Carlos da Cruz Cardoso, presidentes da Assembleia de Freguesia e da Junta da União das Freguesias de Cadafaz e Colmeal, comunicação social regional – Rádio Clube de Arganil, O Varzeense e A Comarca de Arganil, dirigentes de colectividades congéneres e muitos associados e amigos que enchiam o salão no piso superior.

O presidente da Direcção da União Progressiva acompanhado da maioria dos colegas dirigentes dos vários órgãos sociais e visivelmente satisfeito, depois de cumprimentar os presentes e justificar algumas ausências, agradeceu a todos os que tornaram possível a assinatura do protocolo e fez um historial sucinto do que era aquele espaço. Não esqueceu a contribuição valiosa dada pela Cáritas Diocesana de Coimbra com a cedência de equipamento.




Referiu alguns aspectos que foram determinantes para a assinatura do documento, como o reconhecimento pela Fábrica da Igreja Paroquial do importante papel em prol do desenvolvimento e divulgação da freguesia e nomeadamente no âmbito da cultura, desporto, recreio e ocupação de tempos livres dos seus associados e da comunidade colmealense em geral que a União ao longo da sua existência tem levado a cabo.

O reconhecimento da necessidade de um espaço onde a União pudesse instalar a sua biblioteca, expor os troféus desportivos e as peças artísticas que possui, promover a realização de reuniões, convívios e outras manifestações que tendessem a ocupar os tempos livres, como já o havia feito nos anos setenta do século passado.
A Fábrica da Igreja Paroquial desde sempre esteve interessada e disponível para acompanhar, incentivar e apoiar todas as acções em prol do progresso e bem-estar da população e ao apreciar o trabalho que a União vem desenvolvendo, disponibilizou-se para celebrar o Protocolo de Cooperação.

Como salientou o presidente da Direcção “Não se trata de um projecto individual ou pessoal, mas sim da realização de um projecto conjunto da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.
Será um espaço a que convencionámos chamar «Centro de Cultura e Convívio».
Necessitava de obras. Procedemos à sua recuperação, interior e exteriormente.
Adquiriu-se algum equipamento tido como indispensável e estamos convencidos de que as condições mínimas estarão reunidas para poder ser utilizado regularmente e a contento de todos. Não será uma casa comercial. Há dois estabelecimentos abertos ao público, e não está, nem nunca esteve nos nossos propósitos, fazer qualquer concorrência a quem já enfrenta as suas dificuldades.    
Poderá ser utilizado para convívios, homenagens, exposições, concertos, teatro, festas, jogos, leitura ou apenas para ver televisão.”

À disposição de todos está uma Biblioteca, que já aqui funcionava, a título precário, desde Dezembro de 2006, onde poderão encontrar o livro que procuram e desfrutar dos benefícios da leitura.



Foi criado também um EspaçoArte com obras de diferentes manifestações de arte – pintura, escultura, trabalhos em madeira ou em ferro, de autoria de associados e que aos poucos tem sido enriquecido com novas ofertas.






Várias fotografias antigas do Colmeal, com casas negras de pedra e telhados de loisa.
Uma Galeria com fotografias que nos recordam homens que muito de si deram para que a União Progressiva ultrapassasse os tempos difíceis dos seus primórdios. Fazem parte da nossa memória colectiva, do passado, da história da União. Uma história de que todos nos orgulhamos.





Seguidamente recordou o trabalho desenvolvido pelos Padre Anselmo e Padre Pinto, “porque se não fossem eles talvez hoje aqui não estivéssemos”.

A chegada do primeiro ao Colmeal foi em Outubro de 1968, com o propósito de “ todos juntos construirmos um mundo melhor, todos juntos construirmos uma comunidade paroquial cada vez mais autêntica, cada vez mais aberta aos problemas dos outros”. Foi de sua iniciativa com as Juntas respectivas a abertura de uma ligação entre Cepos e Colmeal, os Balneários à Ponte e a transformação da antiga capela de S. Nicolau em Centro Paroquial que, em 19 de Junho de 1970 teve “a inauguração, simples e informal, com a presença do Senhor Bispo Auxiliar de Coimbra, que satisfeito pela realização, apelou aos Colmealenses para que «não deixem que o Centro seja o que era: casa de teias de aranha, senão do vazio».”
Também por sua iniciativa e por ele ensaiadas, ainda à luz do «petromax», foram levadas à cena as primeiras peças teatrais. Remodelou a Ermida das Seladas e ampliou o terreno fronteiriço possibilitando a realização de amigáveis jogos nos meses de Verão. Arregaçou as mangas e ajudou a espalhar pelas encostas da serra o tubo da água da Panasqueira e depois a reparar as roturas. O seu nome ficou ligado à construção da Igreja dos Cepos e à conservação da residência paroquial no Colmeal.
Quando em finais de Setembro de 72 deixou de paroquiar a nossa freguesia, alguém se lhe referiu nestes termos «O senhor Padre Anselmo despediu-se. O seu nome, nesta geração, não será esquecido. Foi um grande obreiro».

Nós hoje afirmaremos que não será só nessa geração que o Padre Anselmo não será esquecido. Na nossa, na actual e nas futuras, o seu nome continuará a ser lembrado e respeitado por tudo quanto fez pela nossa freguesia, pelos seus residentes e também pelos ausentes. Nunca esqueceremos o homem que nos diferentes domínios – pastoral, social e cultural, prestou inestimáveis serviços à comunidade, e que, em cada colmealense deixou um amigo.”

O seu nome foi dado ao Centro Paroquial, por proposta do pároco Manuel Pinto Caetano e aprovada por unanimidade em reunião de 24 de Janeiro de 1982 da Comissão da Fábrica da Igreja Paroquial, decorriam ainda as obras de ampliação. O seu nome irá continuar no Centro Paroquial onde agora funcionará o Centro de Cultura e Convívio.


O Padre Manuel Pinto Caetano tomou posse em 17 de Outubro de 1976, jovem de 33 anos e com oito de sacerdócio. Como referiu na altura “o meu serviço não é prestado apenas na igreja, tem-se estendido ao vasto campo da assistência social, da promoção cultural e da formação integral do povo.” Seis anos mais tarde despedia-se dos colmealenses e dos amigos.

Pouco depois da sua chegada, foi eleita em 19 de Dezembro uma nova Comissão para o Centro, imbuída de maior dinamismo e um Programa ambicioso: funcionamento diário, aquisição de equipamento, organização da Festa do Colmeal, fundação do Rancho, promoção de teatro e organização de duas festas locais. Antes, no número duplo de “O Colmeal” referente a Abril-Junho de 1976, noticiava-se que “A juventude do Colmeal, ensaiada pela professora primária menina Maria Helena Pinho, tem-se dedicado a fazer teatro, que tem sido do agrado da população, a qual acorre ao Centro Paroquial com todo o interesse. Recentemente, o grupo teve uma agradável actuação, que depois repetiu em Cepos, e consta que está em preparação uma nova festa. As receitas revertem em benefício da caixa escolar, que desde há tempos fornece uma refeição diária aos alunos da escola.

Grande entusiasta na criação de um rancho folclórico, o Serra do Ceira, que fez a sua apresentação no Colmeal na noite de 14 de Agosto de 1977, numa altura em que na freguesia viviam 535 pessoas e 216 fogos se encontravam habitados. Quando 109 rapazes e raparigas tinham entre 7 e 20 anos.

Duas peças foram levadas à cena pelo Grupo Cénico do Centro, num contributo da juventude para alegrar os mais idosos. Começa a sentir-se a necessidade urgente de ampliação e é lançada uma campanha para um primeiro piso. A resposta dos que estão longe é notável e as obras avançam em Março de 1981. A União contribuiu monetariamente em várias ocasiões, como tantos outros, entre anónimos, sócios e amigos do Colmeal. A inauguração simbólica, depois de outras beneficiações importantes, decorreria no dia 19 de Agosto de 1982.

No último Boletim “O Colmeal” de Agosto de 1982 faria «Na hora do adeus» uma retrospectiva da sua “passagem” – modificação das condições de vida com novas estradas, o surgir da luz eléctrica, melhor vida sócio cultural, casa de convívio ampliada, um rancho folclórico, capelas novas em Aldeia Velha e Malhada, beneficiações na capela do Sobral e na igreja do Colmeal, e enaltecia o óptimo desempenho da juventude na vida litúrgica.

Os Colmealenses sentem a sua falta. Não o esqueceram. Não o esquecerão. O seu nome ficará para sempre ligado à criação do Rancho Folclórico Serra do Ceira e à ampliação deste Centro.”

Anselmo Gaspar e Pinto Caetano lideraram as edições especiais de “O Colmeal” por ocasião dos 40 e dos 50 anos da União, a mais antiga associação regionalista da nova freguesia do concelho de Góis, que no próximo mês completará 84 anos de existência.

Para ambos, o nosso reconhecimento, a gratidão da União Progressiva, por tudo quanto fizeram pelos Colmealenses e pelo desenvolvimento das nossas aldeias. O nosso bem-haja por terem deitado mãos à obra para que este Centro fosse uma realidade. Não podemos deixar de neste momento associar a estes dois grandes obreiros o nome inquestionável de Fernando Costa. Um grande entusiasta, um filho do Colmeal, que foi também ele, um pilar importantíssimo para a realização desta e de outras iniciativas.” Assim terminou o presidente da União a sua intervenção.

A União fez a ambos a entrega de placas alusivas do acontecimento.

O Padre Anselmo visivelmente emocionado, depois de saudar os presentes, disse que “vir ao Colmeal era recordar os primeiros anos de padre.” Aludiu aos contactos com a Direcção da União, a colaboração de Fernando Costa e do grupo de jovens de Lisboa, tudo se tendo conjugado para a transformação daquele espaço em Centro Paroquial. Fazendo jus à sua memória recordou alguns pormenores envolvendo a justificação para a autorização necessária a ser dada pelo Senhor Bispo de Coimbra. Enquanto pároco da freguesia muito aprendeu e fez bastantes amizades, algumas das quais aqui veio hoje encontrar.





O Padre Pinto historiou um pouco da sua passagem por Angola e Alvares e a sua chegada ao Colmeal, aldeia que o encantou, com especial enfoque para o rio com as suas trutas e um povo que ia á missa ao domingo. Foi sua a proposta de alteração do nome do Centro para Centro Paroquial Padre Anselmo. Foi igualmente sua a ideia da criação da Residência Paroquial. “A criação do rancho começou por uma brincadeira e inicialmente tinha pessoas de Cepos, Colmeal, Sandinha, Cabreira, Cadafaz, Pessegueiro, etc. Foram-se fazendo trajes típicos e federou-se o Rancho Folclórico Serra do Ceira. Depois teve uma pausa, voltou, e agora prima pelas suas actuações nos mais variados locais. É muito interessante a sua existência.” 





O actual pároco do Colmeal, Padre Carlos Cardoso, após saudar a assistência centrou a sua intervenção na solicitação fundamentada enviada para a Diocese Episcopal de Coimbra com vista à obtenção da autorização para a cedência do espaço à União.





Os Senhores Presidentes da Junta da União das Freguesias de Cadafaz e Colmeal e da Assembleia de Freguesia depois de cumprimentarem os presentes manifestaram a sua satisfação pela concretização desta iniciativa, elogiando o aproveitamento do espaço agora disponibilizado e convertido em Centro de Cultura e Convívio.





Seguiu-se no exterior o descerramento de uma placa alusiva, com o Padre Anselmo a usar novamente da palavra porque se ”tinha esquecido de falar no presente”. Felicitou a União Progressiva pelo trabalho desenvolvido, com apreciável nível de realizações e saudável equilíbrio e estabilidade, o que a torna um exemplo no regionalismo.






A tarde prosseguiu com um pequeno lanche.

UPFC
Fotos de Francisco Silva e Armando Almeida


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

BELEZAS E RIQUEZAS DA SERRA. ENTREAJUDA


Eram oito horas e o colmeal dormia sossegado, parecendo, assim colorido e encaixotado, um bairro suburbano visto de longe. Apenas as abelhas-soldado vigiavam a entrada, marchando sonolentas de um lado para o outro. 


Entretanto, chegavam os apicultores, movimentando-se rápida e certeiramente como quem conhece bem o terreno e sabe ao que vem. Depois de equipados, lembravam extraterrestres invasores ou equipas combatentes de perigosas epidemias. Por ser tão bonita, a Beta também lembrava a Meryl Streep, no filme “África Minha”. 



Iniciados os trabalhos, o Carlos abria as alças e, enquanto a Beta afugentava as abelhas com o fumigador, levantava os quadros. Depois de os libertar das abelhas e observar atentamente, tomava uma de três decisões: se tinham sobretudo mel iam para a caixa de recolha sempre devidamente arrumados; se pouca criação, para o respetivo ninho; se muita criação e pólen para a caixa destinada a constituir um novo enxame, um dos métodos utilizados para o efeito. Na realidade, já pouco se usam a enxameação natural e o “abarbamento” com fuga, como se via em Olha! Um enxame! (upfc-colmeal-gois.blogspot.com, 16 maio de 2010) E a Beta sempre a fumigar, e a ajudar, recolocando quadros, alimentadores e tampas.







Cheia a alça, pesando uns trinta quilos, o Amilcar pegava nela, e levava-a ao Carlos de Jesus, que se encontrava em cima do atrelado do trator, a arrumá-las de modo a caber o maior número possível. Sempre assim, em ritmo acelerado, sem precisarem de se ditar ordens ou fazer reparos. Um trabalho de equipa, ou, mais do que isso, um trabalho colaborativo tornado possível e eficiente pelo saber, pela experiência e pelo respeito mútuo. Afinal, um trabalho que replica o das abelhas, em termos de empenho, organização, disciplina e produtividade. 




Enquanto os observava e espantava as abelhas, que me picavam por cima da luva fina que teimava em usar, revia o passado distante nos afetos e nas práticas apícolas. Encostado ao cortiço e de mãos nuas, pachorrentamente, o meu avô José Martins cortava os favos com a crestadeira, depois de afastar as abelhas soprando o tufo feito de trapos. Ao lado, por vezes, sem toso a proteger-lhe o rosto, a minha avó Leopoldina – mais tarde, a minha irmã Finita ou o Amilcar bem pequeno -, segurava, sobre o cortiço do lado, o alguidar onde os favos eram depositados e, seguidamente, levados para casa, pelas veredas ingremes e pedregosas da serra. Quanta diferença e quanta renovação na continuidade: as abelhas fiéis ao destino de adoçarem a vida e assegurarem (dizem) a sobrevivência das pessoas, estas fiéis ao fascínio pela natureza e à obrigação do progresso sustentável e amigo do ambiente.

- O senhor Amilcar é um excelente apicultor, dizia a Beta. Apesar de a verdura ter secado tão cedo este ano, muitos quadros estão cheios. Se os outros apiários estiverem assim, vai ter uma boa produção. 

- Olhe, olhe aqui, a rainha! Esta, a maior, vê? Não, eu via apenas um amontoado fervilhante de bichinhos irrequietos! Na esperança de a objetiva captar o que os meus olhos não conseguiam, disparava sem parar, até a máquina amuar de tanto esforço! “Ocupada, ocupada” …, dizia-me, coberta de abelhas, que a cor escura atraia. 


- Aquele ali é um “zangaro”! As abelhas matam-no depois de ele ter fecundado a rainha. Vê, isto aqui é o pénis! Seria, mas eu, francamente desiludida, só pensava em como aquele zangão era pequeno e “feioco”, comparativamente com os grandes e vistosos, que andam por aí a beijocar as flores! 

- E estas pintas brancas no fundo do alvéolo, vê? É criação e a massa amarelada é o pólen de que elas se alimentam.

Surpreendida, arrisquei:

- As coisas que a Beta sabe! Gosta das abelhas e da apicultura? 

- Gosto, gosto muito. Tanto que deixei o meu trabalho para tomar conta delas! Neste momento, até já podia fazer formação. Só ainda não percebi porque é que é tão frequente a rainha ser substituída quando se faz transumância. As abelhas são muito inteligentes. Ensinam-nos a trata-las. 

Depois do almoço – que a Maria Quitéria confecionou, associando-se à entreajuda contagiante - seguiu-se a extração do mel e o nome diz tudo. Longe vai o tempo em que era espremido à mão dos favos túrgidos, uma tarefa que exigia força e resistência. Mas não mais do que a extração mecânica, no modelo em presença, que é mais rentável, mas uma atividade igualmente pesada e muito exigente.

Na melaria, tanto quanto possível ao mesmo tempo, para evitar desperdícios de tempo e energia, é preciso: retirar as alças das pilhas onde se amontoam, lembrando agora arranha-céus cubistas; retirar os quadros das alças; introduzi-los na máquina desoperculadora; retirar à mão os vestígios de cera que a máquina ignorou; passar os quadros ao operador das centrifugadoras; arrumá-los; acionar as máquinas; substituir os baldes de recolha do mel; despeja-los no recipiente de decantação, subindo um degrau com aquele peso; retirar os quadros das centrifugadoras; recoloca-los nas alças, separados por pretos e brancos, para facilitar a reposição na colmeia. 















Em simultâneo e na maior coordenação de esforços, é ainda necessário: assegurar que os quadros não encravam na desoperculadora; gerir a cera que se junta na respetiva cuba, de modo a não dificultar o manuseamento dos quadros; manter o polegar da mão que segura o quadro defendido dos dentes pontiagudos do garfo; estar atento aos baldes de recolha do mel, para que não transbordem; espantar as abelhas que andam por ali menos agressivas do que no apiário, mas ainda assim “picazes”! Um trabalho árduo e melado, envolvendo na linha de produção, sob a supervisão do Carlos e da Beta, diversos operadores. Até o Pedro venceu o medo que tem das abelhas!

Em dado momento, do ecrã da televisão, juntavam-se à azáfama reinante umas jovens que cantavam e dançavam ao ritmo frenético da centrifugadora. Pouco vestidas como estavam, teriam feito as delícias das abelhas durante a cresta e mesmo ali! E as raparigas preveniam o reumático, efeito que é suposto o veneno da picada produzir!

- Afinal, as colmeias do senhor Amílcar enganaram-me. Há quadros cheios, mas há outros que têm pouco ou que têm muito pólen. Se calhar tinha razão na sua estimativa e o Carlos e o senhor Carlos de Jesus é que vão perder a aposta … 

- Chega, para mim chega … 

- E já viu a quantidade de cera que tem aqui? 

- Cera?! Cera é o que a gente não tem feito!, acrescentava a Maria Quitéria, bem disposta, apesar dos trambolhos em que as abelhas lhe tinham transformado um pé e um braço.

A extração por este processo lembra um pouco a fabricação do azeite, sendo igualmente emocionante ver correr o mel e, sobretudo, vê-lo a cobrir, apressado, o fundo da centrifugadora, transitoriamente sendo de novo a flor que já foi. Uma flor espessa e escura, ouro liquido como o azeite!


À hora do lanche e do jantar, a Beta ausentava-se por instantes. Apicultora competente e despachada, revelou-se (me) também uma cozinheira exímia. Estava tudo muito bom, mas as filhós, simplesmente divinais!

Se este relato fosse sobre apicultura, diria que a operação está longe de se encontrar terminada. Para que as abelhas as possam limpar dos restos de mel, pólen e humidade, as alças com os quadros vão regressar ao apiário, para serem de novo recolhidas quando o frio do inverno se aproximar; e voltarem, quando o calor terno e os aromas da primavera se fizerem sentir …

Em termos de subprodutos, da cera fermentada em água pode fazer-se hidromel, deste destilado, aguardente de mel, dele acidulado, vinagre. Finalmente, a cera é sempre reutilizada para novos quadros, sendo moldada ou mandada moldar em empresas da especialidade. Alguém dizia que pode ser mais rentável do que o mel, uma vez que se compra a doze ou catorze euros o quilo, enquanto o mel, a vender-se, rondaria os cinco. Por aqui, não costuma produzir-se geleia real ou própolis.

A apicultura é uma das atividades potencialmente mais lucrativas da serra, e o mel é de grande qualidade, devido às caraterísticas organoléticas que as diferentes urzes lhe conferem. Nesse sentido, é uma das muitas belezas e riquezas serranas, que tenho vindo a destacar. Como destaco hoje, enternecida e grata, a solidariedade e a entreajuda, profícua e portadora de futuro, que tive o privilégio de testemunhar.

Agradeço aos apicultores Elisabete Maria Castanheira Almeida, Amilcar de Almeida, Carlos Conceição de Jesus e Carlos Manuel Fontes de Almeida a experiência de carinho, enriquecimento e apaziguamento que me proporcionaram. 


Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 28 de julho de 2015.