sábado, 24 de janeiro de 2015

O BODO NO COLMEAL, 2015



O Bodo no Colmeal teve lugar no passado dia 18 do corrente. Este ano foi oferecido por Aldeia Velha, a terra vigilante da Serra das Caveiras, que branquejava do nevão da noite anterior. Não admira! Segundo o Abel, lembrando a avó Emilia, “S. Sebastião é muito amigo de mandar neve. Se não é antes é cabantes” (de cabo, fim?).

Apesar de o frio que fazia, havia muita gente. Perguntei a alguns por que vinham: “porque é uma tradição”, responderam vários; “porque é uma tradição que vem do tempo dos nossos antigos e se deixarmos de vir corre o risco de se perder”; “porque é uma oportunidade de convívio e temos poucas”; “porque foi uma promessa que devemos continuar a cumprir, embora agora haja muito desperdício. Começou por ser castanhas e olhe só o tamanho dos pães!”; “por isto”, respondeu alguém, apontando divertido, para o repasto sobre a mesa.








A prevalência da tradição como valor cultural e do convívio sugere claramente a mudança dos costumes, da postura perante a fé e das necessidades económicas, que estiveram na origem do evento. Longe vai o tempo, reportado a inícios e meados do século passado, em que os organizadores do bodo tinham de controlar os acessos ao adro, para impedir que as crianças e jovens - então muitos -, o recebessem duas ou mais vezes. Devido à sua raridade, o pão (de trigo) era um luxo, como se depreende das memórias de um nosso conterrâneo, que me dizia: “só me recordo da pergunta que fiz quando fui para Lisboa e que foi se lá se comia pão todos os dias. Aqui era broa”. Foi para Lisboa ainda criança!

Recorde-se que o Bodo é uma celebração em honra do padroeiro da Freguesia, S. Sebastião, que hoje em dia tem lugar no fim de semana mais próximo de 20 de Janeiro, dia do mártir. O Bodo data de tempos idos, quando devido à peste que grassava na zona, a população prometeu ao Santo todos os anos dar um bodo aos pobres se ele a livrasse da calamidade. Para mais informação poderá ser consultado o artigo “O BODO NA FREGUESIA DO COLMEAL (GÓIS)”, disponível em: http://upfc-colmeal-gois.blogspot.pt/2012/02/o-bodo-na-freguesia-do-colmeal-gois.html 11 de Fevereiro de 2012; A Comarca de Arganil, de 23 de Fevereiro de 2012; http://goismemorias.weebly.com/o-bodo.html.

Festa de partilha, o Bodo é a grande festa da freguesia; da antiga e, provavelmente da nova, já que também existe no Cadafaz, com diferenças de organização e funcionamento. Não se esqueceu disso o Padre Carlos Cardoso ao sugerir - numa alusão implícita à freguesia como conjunto de presentes e ausentes em vai e vem – a oração por todos os a ela ligados que não puderam comparecer. Aliás, ausentes-presentes que justificam o gesto amoroso e já habitual dos que adquirem, no leilão, quantidades significativas de pão para oferecer a familiares e amigos. Quando o reencontro tarda, congela-se.



Sendo a tradição dinâmica, como referia no artigo acima mencionado, este ano, o bodo foi benzido antes da missa e no exterior da igreja, em vez de sê-lo a meio e no interior. Compreendendo-se a desnecessidade de andar com os víveres de um lado para o outro, falta que fez, naquele domingo de frio intenso, o aroma do pão quente a exalar do coro, simbolicamente todos bafejando!

A propósito, a comunidade recém-chegada pareceu-me pouco numerosa. Uma vez que participou massivamente na Festa de Natal promovida pela UPFC, o que terá acontecido? Terá viajado, de regresso às casas quentes das terras frias de origem? Não terá tido conhecimento? Em qualquer dos casos, há uma leitura a fazer e talvez uma situação a ultrapassar.

Diferença assinalável foi a ausência da D. Silvina, que costumava associar-se à festa, oferecendo café quente e bolos à porta da sua casa. Celebrava desse modo o seu aniversário e homenageava o marido, o saudoso senhor Sebastião. Sentimos muito a sua falta, esperamos que esteja bem.

Deixei o Bodo cedo, depois de provar a bola de carne e as filhós. Ótimas. Para a próxima, vou ver se não me esqueço de levar um saco em pano para trazer o pão e os figos. Às razões ecológicas acrescem agora as da fiscalidade verde!

Parabéns pela organização, parabéns pela participação.

Lisete de Matos
Açor, Colmeal, 20 de janeiro de 2015.