quinta-feira, 2 de outubro de 2014

CADAFAZ E COLMEAL: TERRITÓRIO E HISTÓRIA


Lisete de Matos tem-nos habituado ao longo dos tempos, a excelentes trabalhos, fruto de pesquisas exaustivas que valoriza com a sua sensibilidade e arte de bem escrever. A sua recente colaboração para o livro de João Nogueira Ramos, GÓIS EM REDOR DE 12 PESSOAS, a que aqui já nos referimos, é prova disso.
No capítulo dedicado a um grande vulto nascido no Colmeal, André de Almeida Freire – uma das 12 pessoas – Lisete de Matos apresenta-nos sobre as extintas freguesias de Cadafaz e Colmeal, agora agregadas, um valioso texto e dados muito interessantes sobre o seu território e sobre a sua história. Não pretendemos usurpar direitos de autor, mas tão somente, dar a conhecer neste espaço, alguns dos aspectos que nos parecem mais interessantes.

Atente-se na musicalidade e na poesia que Lisete de Matos coloca nas suas palavras ao referir-se ao território. “O Cadafaz e o Colmeal são os territórios mais montanhosos do concelho de Góis. Situados na confluência das serras do Açor e da Lousã, dos seus cumes mais altos avista-se, ondulando sob o céu azul do tempo bom ou cinzento do mau, um oceano fantástico de montes, que se sucedem e perdem no horizonte longínquo. As comunidades estendem-se e elevam-se ao longo do rio Ceira, cujas margens ostentam vaidosas as terras que as formam, umas deitadas na assentada das serras, outras aninhadas no regaço doce dos vales, outras, ainda, encavalitadas no dorso fino ou roliço das lombas e encostas. São terras dispersas, em geral de pequena dimensão, que ornamentam e humanizam a paisagem, parecendo colmeais alinhados ou presépios antigos. A diversidade do povoamento, a que acresce a do próprio casario, constitui desde logo um dos grandes fascínios a atrações da serra.

Com as suas terras e lugares, o Cadafaz e o Colmeal são comunidades muito antigas, a julgar pelos achados arqueológicos que têm sido encontrados. Entre eles, destacam-se a Pedra Riscada e os algares ou buracas dos mouros.”

Aborda de seguida a existência dos algares e buracas que são atribuídas aos mouros e de uma levada, a conhecida Levada dos Mouros, que ao longo do Ceira atravessava quatro concelhos. E um retrato perfeito e também uma homenagem aos que “… para sobreviverem na serra agreste e xistosa, vivendo essencialmente da pastorícia e da agricultura de subsistência, as gentes tiveram de a transformar, dominando as fragas, o mato, a floresta primitiva e os animais bravios. Disputaram a terra e a água e partilharam-nas mais ou menos amigavelmente. Construíram socalcos e “cômbaros” nas encostas, lameiros nas ribeiras fundas. Encaminharam cursos de água, construíram poços, levadas e barrocos, que atravessaram com pontes e pontões em pedra e madeira. Usando as tecnologias de então, e recorrendo ao xisto mole e miúdo ou ferrenho e facetado, que existia nos sítios, construíram casas, currais, moinhos e lagares. Abriram caminhos e trilharam veredas íngremes, longas e sinuosas, construíram estradas de bois

De tal modo se impuseram á serra que, no primeiro foral de Góis, datado de 5 de janeiro de 1314, já são dadas cartas de foro aos habitantes de Colmeal, Carvalhal do Sapo e Cadafaz, entre outros.

A passagem dos territórios a paróquias dá-se por 1560 com obrigações estabelecidas aos seus habitantes que “eram obrigados a ir três vezes no ano à Igreja Matriz de Góis…

“… Comunidades com quase quinhentos anos, o Cadafaz e o Colmeal apresentam identidades fortemente marcadas e arreigadas, para as quais muito contribuíram o isolamento, que persiste, o regionalismo e outros factores de ordem cultural, como O Colmeal, jornal paroquial que se publicou e serviu de diáspora entre 1960 a 1982.

“… devido à insuficiência da agricultura e do trabalho assalariado, desde cedo que a população do Cadafaz e do Colmeal, como a do concelho e da própria região, foi forçada a partir, passando a (e)migração a incorporar a cultura e as estratégias locais de sobrevivência.”
No quadro apresentado com a população das extintas freguesias do Cadafaz, do Colmeal e do concelho de Góis, retiramos os seguintes números: 10.305, 1.099 e 1.259 habitantes em 1864. Século e meio depois, os números do censo de 2011 dão-nos números alarmantes, pela sua exiguidade e fruto do abandono das pessoas que partiram à procura de melhores condições de vida. 4.260, 190 e 158.

“Terras de encantos e espantos, o Cadafaz e o Colmeal são uma grandiosa e aprazível sala de visitas, cujos anfitriões – as gentes e a natureza – primam pela hospitalidade”, como Lisete de Matos sublinha e bem neste seu importante trabalho transcrevendo uma elogiosa referência constante no Guia de Portugal, 3º vol., F. C. Gulbenkian, 1984.

GÓIS EM REDOR DE 12 PESSOAS, de João Barreto Nogueira Ramos, 1ª edição, de Maio de 2014, um livro a merecer a sua leitura atenta e que proximamente estará disponível na Biblioteca da União, no Colmeal.


A. Domingos Santos

1 comentário:

Anónimo disse...

Bem-hajam pela informação! O regionalismo é isto!