domingo, 17 de novembro de 2013

Uma perspectiva sobre as gerações


Os avanços na medicina e o aumento da esperança média de vida em Portugal têm causado efeitos na maneira como a senescência é vista pela sociedade. Por um lado, o preconceito de que o processo natural de envelhecimento celular só nos traz complicações e inibições. Por outro, não só um maior cuidado com esse processo e a preocupação de um envelhecimento saudável, como também um maior respeito pela população sénior.
Podemos assistir, por parte de todas as gerações, discriminações desadequadas em relação aos idosos, num preconceito generalista que coloca todo o individuo sénior no mesmo grupo, o debilitado. Sem dúvida que é uma fase da vida que merece cuidados e pedidos específicos. Mas não são todas as fases da vida assim? Qualquer que seja a idade merece a satisfação específica dos seus requisitos.

Por exemplo, uma criança merece o acesso ao ensino, assim como um adolescente merece a liberdade necessária para descobrir o Mundo. O adulto tem direito ao acesso ao emprego para que possa constituir família e dar continuidade ao ciclo da vida. Enquanto envelhece, o seu rebento merece acesso ao ensino, depois à descoberta do Mundo etc. Apesar da mudança nas mentalidades estar em progresso também, ainda me custa crer que existem opiniões depreciativas da terceira idade, generalizando o comportamento de um individuo para discriminar uma faixa etária. Assim como essa faixa etária é diferente de todas as outras e tem as suas particularidades, também o individuo as tem. Tornar inútil uma pessoa com base na sua idade e em crenças preconcebidas, é tão errado como enaltecer a pró-actividade da juventude ignorando a grande fatia que é preguiçosa.

As pessoas devem e merecem ser julgadas pela sua individualidade e não rotuladas de acordo com os anos que carregam. Quantos comportamentos subtis e discriminatórios não teve já a mais bondosa das pessoas para com os idosos? Mesmo que sem intenção, podem tornar “coitadinhas” as pessoas que não são. Há também pessoas que, talvez envenenadas por estigmas sociais, se descredibilizam e destroem a sua auto-estima com frases como o “já não tenho idade para isso”. Quantas pessoas chegam aos 90, cheias de sede de conhecimento e ensinamentos?
Quantas vivem uma vida inteira sem o mínimo interesse pelo que quer que seja? Quantas pessoas chegam e vivem na terceira idade com uma saúde de ferro, e quantas vivem de novo a velho sem saúde? Felizmente atravessamos também uma fase em que essa visão depreciativa está a alterar-se.

Apercebemo-nos que toda esta conversa do envelhecimento veio para ficar até porque não foi assim há tanto tempo que as pessoas mal passavam dos 50. Hoje a esperança média de vida dos portugueses ronda os 79 anos com tendência para aumentar. A velhice já não pode passar despercebida nem os “novos velhos” são pessoas que se possam largar simplesmente num lar sem condições.
Com uma maior consciencialização do processo de envelhecimento, encontramos seniores mais requintados, mais intelectuais, mais úteis e com necessidades à espera para serem satisfeitas. Não obstante disso, o cuidado a ter com as pessoas, independentemente da idade, tem e deve ser personalizado, para que possa cada pessoa pertencer ao seu devido lugar e não haja espaço para a discriminação neste Mundo. Quando se tratam pessoas idosas como descartáveis e inúteis não podemos esperar que elas sejam o contrário. Está na altura de aproveitar todas as capacidades das pessoas e dar um verdadeiro sentido à expressão “melhor idade”.


Editorial da revista REVIVER Nº 5 – Setembro de 2013


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