domingo, 17 de novembro de 2013

Broa, pão de pobres



Ela derramou água na farinha de milho
e acrescentou-lhe uma malga de fermento.
Tudo dentro duma artesa de madeira.

Com os dois braços e as mãos de dedos fortes
pôs nos seus gestos a força e a vontade.
Bateu, rolou, bateu mais e rolou mais
toda a massa espalhada pela artesa
borrifando-a com farinha muito seca
não fosse ela agarrar-se na madeira.

Só parou quando já, trabalho feito,
fez uma cruz na massa a levedar.

Horas depois, aberto o forno quente,
saíu a broa, castanha, estaladiça.

Oh, quem diria que a broa, pão de pobres,
se tornaria num manjar que dá cobiça!

in Seara de Palavras – Poemas, de Américo Gonçalves
Livro oferecido pelo Autor para a Biblioteca da União


1 comentário:

Anónimo disse...

Como eu ainda me lembro do entusiasmo da miudagem quando se cozia a broa, sempre à espera que alguém nos fizesse uma merenda com chouriço ou sardinha lá dentro.
E como nós apreciávamos o afã do aquecimento do forno e de todo o processo. Não há dúvida que os tempos eram outros. E eram.