terça-feira, 22 de outubro de 2013

No meu tempo, quando eu era criança...


No meu tempo as crianças não tinham consolas, nem brinquedos sofisticados, mas havia as cinco pedrinhas, os pregos na praia, o jogo da bilharda, o jogo da pica, os arcos, as bolas de trapo quando não havia dinheiro para as outras. Também não havia “Barbies” mas havia outras bonecas, umas caras, outras baratas e até algumas feitas de trapos. Não havia sacos de plástico. Havia sacos de papel pardo, embrulhos de papel e muitas, muitas guitas e cordéis. O papel higiénico era um luxo.

Aproveitavam-se os papéis de embrulho e os jornais que se cortavam em quadrados e se espetavam num gancho, dava mais trabalho, era menos higiénico, mas evitavam-se os desperdícios. Não havia fogões eléctricos, eram de lenha, nem máquinas de lavar, nem micro-ondas, nem varinhas mágicas, era o “passe-vite”. Frigoríficos já havia, mas só nas casas mais ricas.

Não havia televisão, só telefonia que às vezes se percebia mal por causa dos ruídos e as crianças pensavam que o homem que lia as notícias estava dentro do aparelho e até a Lélé e o Zequinha dos “Diálogos Humorísticos”, embora ele, o Vasco Santana, fosse muito gordo. Também havia o Capitão Marques Pereira que dava aulas de ginástica que nós seguíamos religiosamente com acompanhamento de música e as cadeiras da sala como suporte.
Já havia telefones, mas eram poucos, o nosso era o “9 de Nelas” e era difícil fazer as ligações, só através da menina que estava na central. Telemóveis, computadores, Magalhães nas escolas, iPods, Bluetooth, GPS … nem pensar. Nas escolas tínhamos sacas de serapilheira com um boneco estampado, onde transportávamos os livros, lousas de ardósia e cadernos de uma ou duas linhas e quadriculados, o livro de leitura com histórias lindas e poemas, o caderno de problemas e, na quarta classe, os livros de História, de Geografia e de Ciências. Para escrever usávamos lápis de lousa, lápis de carvão e canetas de aparo com o respectivo tinteiro. Esferográficas e canetas de feltro ainda não existiam. Nunca ouvimos falar em dinossauros, nem em naves espaciais nem em extra-terrestres, mas sabíamos todos os rios e serras de Portugal e a tabuada na ponta da língua.

No meu tempo faltavam muitas coisas que hoje há. Mas as portas das casas estavam sempre abertas e havia sempre gente em casa. Nas casas ricas havia empregadas e nas pobres, vizinhas. E, é claro, a Mãe estava sempre presente. Os avós também estavam lá em casa, tal como os bebés e as crianças pequenas. Não havia lares de terceira idade nem infantários para os bebés.
Os Pais passavam muito tempo fora de casa porque iam trabalhar mas voltavam sempre para as refeições e para dormir. As Mães só saíam para ir às compras ou para falar com as amigas. O trabalho delas era em casa. As crianças não tinham medo que os Pais se separassem.

As crianças no meu tempo morriam mais embora parecessem mais resistentes. Havia poucos hospitais e poucos médicos mas os que havia eram muito dedicados e até iam a casa ver os meninos doentes. Meninos com olhos tortos e surdos havia bastantes porque só havia médicos especialistas nas grandes cidades. Também havia alguns meninos que nasciam deficientes. Mas crianças com depressões ou hiperactivas ou com distúrbios de comportamento quase não se encontravam. Também não havia “bullying” nas escolas embora houvesse umas boas sopapadas e guerras de pedras, bolas de neve ou jactos de água. Quando muito, de vez em quando, havia uma cabeça partida.

Porque é que será tão difícil conjugar os bons hábitos de antigamente com as aquisições da modernidade de hoje? A culpa deve ser nossa, dos antigos, que desprezámos as nossas experiências, que nos cegámos com as facilidades e nos inebriámos com a corrida do tempo.

Tenho 75 anos. Uma vida feita de tantos retalhos diferentes… Foi a minha experiência que me fez pensar em tudo isto…Será que algum dia viremos a ter crianças felizes como nós? Com outra vida, outra alegria diferentes da do nosso tempo, e com o conforto da modernidade e a experiência e sabedoria dos nossos Avós ou Bisavós?

Maria de Assunção Ferraz de Oliveira

in Revista REVIVER, Nº 3 – Junho de 2013

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